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7 de janeiro de 2010




Cheguei a ter medo de te perder,
tu não chegaste sequer a ter medo.
Este silêncio de já não termos palavras
ouve-se nas outras palavras que trocamos.

Miserável mundo nosso e alheio,
igual ao que todos disseram da sua época,
e pior, porque este vivemos nós
e conhecemos nós, cada um conforme pode.

Já morrerem os ídolos todos da infância
e os da adolescência vão a caminho,
sobrevivente é o teu olhar cego
(hoje há já só um dos Righteous Brothers).

Na feira de velharias uma caixa
para tabaco com uma rosa verde.
Tem o preço ainda em escudos, uma falha
num dos cantos, uma pequena cruz de cal.

Permaneces aí, à lareira, lendo livros vivos
e o seu turbilhão de palavras profundas.
Nunca mais chega o medo de nos perdermos,
eco um do outro em ricochete de silêncios.

Helder Moura Pereira, Mútuo Consentimento, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005

7 de janeiro de 2006


Helder Moura Pereira (1949)



Tal como Emily Dickinson
tenho muito frio a escrever.
Mas tomara eu ser como Emily Dickinson,
tomara eu ser.

Só tenho vivido em cidades
onde nem sequer há tempestades
quanto mais tempestades
como aquelas que Emily Dickinson descrevia.

Sabia bem como a terra tem idades
e repetições com as mesmas qualidades:
a força do vento, o chumbo da água, maldades —
mas são maldades vitais, Deus não dormia.

Falarei de quê, da vida rasgada?
Ousarei o quê dentro da minha apatia?
Dizer que descrevo a lareira apagada
e que há um círculo quadrado na minha geometria
não pode interessar à verdadeira poesia.


Helder Moura Pereira, A Tua Cara Não Me É Estranha