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21 de março de 2011




Tempo de poesia

Todo o tempo é de poesia
Desde a névoa da manhã
À névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
À frigidez da agonia.
Todo o tempo é de poesia.
Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue sossobram.
Vidas que a amar se consagram.
Sob a cúpula sombria
Das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
Da celeste alegoria.
Todo o tempo é de poesia.
Desde a arrumação do caos
À confusão da harmonia.

António Gedeão, Movimento Perpétuo

8 de maio de 2010




As árvo­res cres­cem sós.
E a sós flo­res­cem.
Come­çam por ser nada.

Pouco a pouco
se levan­tam do chão, se alteiam palmo a palmo.
Cres­cendo dei­tam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nas­cem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esbo­çando as flo­res,
e então cres­cem as flo­res, e as flo­res pro­du­zem fru­tos,
e os fru­tos dão semen­tes,
e as semen­tes pre­pa­ram novas árvores.

E tudo sem­pre a sós, a sós con­sigo mes­mas.
Sem verem, sem ouvi­rem, sem fala­rem.
Sós.
De dia e de noite.
Sem­pre sós.

Os ani­mais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvo­res não.
Soli­tá­rias, as árvo­res,
exau­ram terra e sol silen­ci­o­sa­mente.
Não pen­sam, não sus­pi­ram, não se quei­xam.
Esten­dem os bra­ços como se implo­ras­sem;
com o vento sol­tam ais como se sus­pi­ras­sem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sem­pre sós.
Nas pla­ní­cies, nos mon­tes, nas flo­res­tas,
a cres­cer e a flo­rir sem consciência.

Vir­tude vege­tal viver a sós
e entre­tanto dar flores.


Antó­nio Gedeão


24 de novembro de 2005


António Gedeão (1906-1997)

Poema do poste com flores amarelas


Vieram os operários, puseram o poste de ferro na berma do passeio
e foram-se para voltar noutro dia.
O poste tinha sido pintado há pouco de verde
e quando lhe batia o sol rutilava como as escamas dos dragões.
Mesmo junto do poste, no passeio, havia uma árvore que dava flores amarelas,
e o vento fez cair algumas flores amarelas sobre o poste verde.
As pessoas que por ali passavam diziam "que chatice de poste",
mas o poeta sorria para as flores amarelas.

António Gedeão

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24 de novembro de 2004


António Gedeão (1906-1997)


Amostra sem valor

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

António Gedeão

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