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24 de setembro de 2009



Às vezes sentia que as suas palavras não lhe per­tenciam e frequentemente surpreendia-se a falar sozinho como se fosse um outro que falasse com ele. Um médico de Paris diagnosticou-lhe histeria e prescreveu-lhe um tratamento eléctrico. Antero anotou que sofria de infinito e talvez fosse uma doença mais plausível para ele. Talvez estivesse apenas cansado da forma transitória e imperfeita do ideal e da paixão, e a sua ansiedade encaminhava-se já para uma outra ordem geométrica. Nos seus escritos começou a aparecer a palavra Nada, que lhe parecia a forma mais perfeita de perfeição. Ia já a entrar no seu quadragésimo nono ano e regressou à sua ilha.
Na manhã do dia 11 de Setembro de 1891, saiu da sua casa de Ponta Delgada, desceu a pé a íngreme rua cheia de sombra até à Igreja Matriz e entrou numa pequena espingardaria da esquina. Vestia um fato preto e sobre a camisa branca levava uma gravata segurada com um alfinete com uma concha. O proprietário era um homem amável e gordo que gostava de cães e de gravuras antigas. Havia um ventilador de latão que girava lenta­mente no tecto. O proprietário mostrou ao cliente uma bela gravura seiscentista, comprada recente­mente, que representava uma matilha de cães perseguindo um veado. O velho lojista tinha sido amigo de seu pai, e Antero lembrou-lhe que, em menino, os dois homens o levavam com eles à feira de Caloura, onde havia os cavalos mais belos de São Miguel. Ficaram longamente a falar de cães e de cavalos, depois Antero comprou um pequeno revólver. Quando saiu da loja o campanário da Matriz estava a bater as onze. Ele percorreu lentamente toda a beira-mar até à capitania do porto e deteve-se longamente no cais a olhar para os veleiros.
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Antonio Tabucchi, "Antero de Quental. Uma vida" (excerto)

24 de setembro de 2007


Antonio Tabucchi (1943)





A noite está quente, a noite é longa, a noite é magnífica para ouvir histórias, disse o homem que veio sentar-se ao meu lado no muro do pedestal da estátua de D. José. Estava realmente uma noite magnífica, de lua cheia, quente e mole, com alguma coisa de sensual e de mágico, na praça quase não havia carros, a cidade estava como que parada, as pessoas deviam ter-se demorado nas praias e só voltariam mais tarde, o Terreiro do Paço estava solitário, um cacilheiro apitou antes de partir, as únicas luzes que se viam no Tejo eram as suas, tudo estava imóvel como num encantamento, eu olhei para o meu interlocutor, era um vagabundo magro com uns sapatos de ténis e uma camisola amarela, tinha a barba comprida e era quase careca, devia ter a minha idade ou pouco mais, ele olhou para mim e levantou o braço num gesto teatral. Esta é a lua dos poetas, disse, dos poetas e dos contistas, esta é uma noite ideal para ouvir histórias, e para as contar também, não quer ouvir uma história? E porque é que teria de ouvir uma história?, disse eu, não vejo a razão. A razão é simples, respondeu ele, porque é uma noite de lua cheia e porque você está aqui sozinho a olhar para o rio, a sua alma está solitária e saudosa, e uma história podia dar-lhe alegria. Tive um dia cheio de histórias, disse eu, acho que não preciso de mais. O homem cruzou as pernas e apoiou o queixo nas mãos com ar meditabundo e disse: precisamos sempre de uma história mesmo parecendo que não.

Antonio Tabucchi, Requiem


20 de dezembro de 2005


Todas as noites canto, porque sou pago para isso, mas as canções que ouviste eram pézinhos e sapateiras para os turistas de passagem e para aqueles americanos que se estão a rir lá ao fundo e que daqui a pouco se vão embora aos ziguezagues. As minhas verdadeiras canções são só quatro chama-ritas, pois o meu repertório é escasso, e depois eu estou a ficar velho, e fumo de mais e a minha voz está rouca. Tenho de vestir este balandrau açoreano que se usava em tempos, porque os americanos gostam do pitoresco, depois voltam para o Texas e contam que estiveram numa tasca, numa ilha perdida, onde um velho com uma capa cantava o folclore do seu povo. Querem a viola de arame que dá este som de feira melancólica, e eu canto-lhes modinhas pirosas onde a rima é sempre a mesma, mas tanto faz, eles não percebem e, como vês, bebem gin tónico. Mas tu, o que é que procuras, que todas as noites vens aqui? Tu és curioso e procuras outra coisa, porque é a segunda vez que me convidas a beber, mandas vir vinho «de cheiro» como se fosses dos nossos, és estrangeiro e finges falar como nós, mas bebes pouco e depois ficas calado e esperas que fale eu. Disseste que és escritor e, no fundo, talvez a tua profissão tenha alguma coisa a ver com a minha. Todos os livros são estúpidos, há sempre pouco de verdadeiro neles, e contudo li muitos nos últimos trinta anos, mesmo italianos, naturalmente todos traduzidos, aquele de que mais gostei chamava-se Canaviais no vento, de uma tal Deledda, leste-o? E depois tu és jovem e gostas de mulheres, bem vi como olhavas para aquela mulher muito bonita com o pescoço alto, olhaste para ela toda a noite, não sei se estás com ela, também ela olhava para ti e talvez te pareça estranho, mas tudo isto acordou em mim qualquer coisa, deve ser porque bebi de mais. Sempre escolhi o demais na vida e isto é uma perdição, mas não há nada a fazer quando se nasce assim.

Em frente da nossa casa havia uma atafona, nesta ilha chamava-se assim, era uma espécie de nora que andava à volta, agora já não as há, falo-te de há muitos anos, ainda tu não tinhas nascido. Se penso nela ouço ainda o seu ranger, é um dos ruídos da minha infância que me ficaram na memória, a minha mãe mandava-me com o cântaro buscar água e eu, para enganar o cansaço, acompanhava o movimento com uma canção de embalar e às vezes adormecia deveras. Para além da nora havia um muro caiado e depois o precipício e, ao fundo, o mar. Éramos três irmãos e eu era o mais jovem. O meu pai era um homem lento, comedido nos gestos e nas palavras, com os olhos tão claros que pareciam de água, a sua barca chamava-se Madrugada, que era também, em família, o nome da minha mãe. Meu pai era baleeiro, como o fora seu pai, mas em certas épocas do ano, quando as baleias não passam, praticava a pesca às moreias e nós íamos com ele, e também a nossa mãe. Agora já não se faz assim, mas quando eu era criança usava-se um ritual que fazia parte da pesca. As moreias pescam-se de noite, quando nasce a lua, e para as atrair usava-se uma canção que não tinha palavras: era um canto, uma melodia primeiro baixa e lânguida e depois aguda, nunca mais voltei a ouvir um canto com tanta pena, parecia que vinha do fundo do mar ou das almas perdidas na noite, era um canto tão antigo como as nossas ilhas, agora já ninguém o sabe, perdeu-se, e talvez seja melhor assim porque trazia consigo uma maldição ou um destino, como que uma magia. Meu pai saía com a barca, era noite, movia os remos devagar, perpendicularmente, para não fazer barulho, e nós, os meus irmãos e a minha mãe, sentávamo-nos na falésia e começávamos aquele canto. Às vezes eles calavam-se e queriam que fosse eu a chamar porque diziam que a minha voz era melodiosa como nenhuma outra e que as moreias não resistiam. Penso que a minha voz não era melhor do que a dos outros: queriam que fosse eu a cantar, só porque era o mais novo e dizia-se que as moreias gostam das vozes claras. Talvez fosse uma superstição sem fundamento, mas isso não tem importância. Depois, nós crescemos e a minha mãe morreu. Meu pai ficou mais taciturno e, às vezes, à noite, ficava sentado no muro da falésia a olhar para o mar. A partir daí, saíamos só para as baleias, nós três éramos grandes e fortes e o meu pai confiou-nos arpões e lanças, como exigia a sua idade. Depois, um dia, os meus irmãos deixaram-nos. O do meio partiu para a América, só o disse no dia da partida, eu fui ao porto despedir-me dele, o meu pai não foi. O outro foi trabalhar como camionista para o continente, era um rapaz risonho que sempre gostara do ruído dos motores, quando o guarda republicano nos veio participar o acidente, eu estava sozinho em casa e ao meu pai contei-o à ceia.

Continuámos nós dois a ir às baleias. Agora era mais difícil, era preciso recorrer a assalariados, porque com menos de cinco pessoas não se pode sair e o meu pai teria querido que eu me casasse, porque uma casa sem uma mulher não é uma verdadeira casa. Mas eu tinha vinte e cinco anos e gostava de brincar ao amor, todos os domingos ia até ao porto e mudava de namorada, na Europa era tempo de guerra e nos Açores a gente ia e vinha, todos os dias um navio atracava aqui ou noutro lado, e em Porto Pim falavam-se todas as línguas.

Encontrei-a um domingo no porto. Estava vestida de branco, com os ombros nus e com um chapéu de renda. Parecia saída de um quadro e não de um daqueles navios carregados de pessoas que fugiam para as Américas. Olhei-a longamente e também ela olhou para mim. É estranho como o amor pode entrar dentro de nós. Em mim entrou ao notar duas pequenas rugas que mal se lhe esboçavam à volta dos olhos e pensei assim: já não é muito nova. Pensei assim talvez porque, ao rapaz que eu era, uma mulher madura parecia mais velha do que a sua idade real. Que tinha pouco mais de trinta anos só o soube muito mais tarde, quando saber a sua idade já não servia de nada. Dei-lhe os bons-dias e perguntei-lhe em que podia ser-lhe útil. Indicou-me a mala que estava a seus pés. Leva-a ao «Bote», disse-me na minha língua. O «Bote» não é um lugar para senhoras, disse eu. Eu não sou uma senhora, respondeu, sou a nova patroa.

No domingo seguinte, voltei à cidade. O «Bote» nesse tempo era um local estranho, não era exactamente uma taberna para pescadores, e eu só lá tinha entrado uma vez. Sabia que havia dois séparés nas traseiras onde diziam que se jogava a dinheiro e a sala do bar tinha uma abóbada baixa, com um grande espelho de arabescos e as mesas de pau de figueira. Os clientes eram todos estrangeiros, parecia que estavam todos em férias, na realidade passavam o dia a espiarem-se, cada um fingindo ser de um país que não era o seu, e nos intervalos jogavam às cartas. O Faial, nesses anos, era um lugar incrível. Ao balcão servia um canadiano baixo, com patilhas em bico, chamava-se Denis e falava português como os de Cabo Verde, conhecia-o porque ao sábado vinha ao porto comprar peixe, no «Bote» podia-se jantar, ao domingo. Foi ele que depois me ensinou inglês.

Queria falar com a patroa, disse-lhe eu. A senhora vem só depois das oito, respondeu com superioridade. Sentei-me a uma mesa e mandei vir o jantar. Por volta das nove chegou ela, havia outros clientes, viu-me e cumprimentou-me distraidamente, e depois sentou-se num canto onde estava um velho senhor de bigode branco. Só então me apercebi de como era bonita, duma beleza que me punha em fogo, era isto que me tinha levado ali, mas até àquele momento não o tinha percebido realmente. E naquele momento o que eu percebia ordenou-se dentro de mim com clareza e quase me deu uma vertigem. Passei a noite a olhá-la, com os punhos apoiados às têmporas, e quando saiu, segui-a a uma certa distância. Caminhava ligeira, sem se voltar, como quem não se importa de ser seguida, passou a porta da muralha de Porto Pim e começou a descer a baía. Do outro lado do golfo, onde acaba o promontório, isolada entre as rochas, entre um canavial e uma palmeira, há uma casa de pedra. Talvez já a tenhas visto, agora é uma casa desabitada e as janelas estão a cair, tem algo de sinistro, qualquer dia o telhado desaba, se é que ainda não desabou. Ela morava ali, mas então era uma casa branca, com esquadrias azuis à volta das portas e das janelas. Entrou, fechou a porta e a luz apagou-se. Eu sentei-me numa rocha e esperei. A meio da noite iluminou-se uma janela, ela assomou e eu olhei-a. As noites são silenciosas em Porto Pim, basta falar no escuro para se ouvir à distância. Deixa-me entrar, supliquei-lhe. Ela fechou a persiana e apagou a luz. A lua estava a nascer, com um véu vermelho de lua de Verão. Sentia-me perturbado, a água marulhava à minha volta, tudo era tão intenso e ao mesmo tempo longe, e lembrei-me de quando era criança e à noite, da falésia, chamava as moreias, e então tive uma fantasia, não pude conter-me, e comecei a cantar aquele canto. Cantei muito devagar, como um lamento ou uma súplica, com a mão atrás da orelha para guiar a voz. Daí a pouco a porta abriu-se e eu entrei no escuro da casa e encontrei-me nos seus braços. Chamo-me Yeborath, disse apenas.

Tu sabes o que é traição? A traição, a traição verdadeira, é quando sentes vergonha e desejarias ser outro. Eu queria ter sido outro quando fui dizer adeus ao meu pai e os seus olhos me seguiam, enquanto eu embrulhava o arpão no oleado e o pendurava num prego da cozinha e punha a tiracolo a viola que me dera pelos meus vinte anos: decidi mudar de profissão, disse rapidamente, vou cantar num local de Porto Pim, virei ver-te aos sábados. Mas naquele sábado não fui e nem sequer no sábado seguinte, e mentindo a mim próprio dizia para comigo que iria no outro sábado. E assim veio o Outono, e passou o Inverno, e eu cantava. Fazia também outras pequenas tarefas, porque às vezes alguns clientes bebiam demais e para os amparar ou mandá-los embora era preciso um braço forte que Denis não tinha. E depois escutava o que diziam os clientes que fingiam estar de férias, é fácil escutar as confidências dos outros quando se é cantor de taberna, e como vês também é fácil fazê-las. Ela esperava-me na casa de Porto Pim e agora já não precisava de bater à porta. Perguntava-lhe: quem és, donde vens?, porque não nos vamos embora para longe destes tipos absurdos que fingem jogar às cartas?, quero ficar contigo para sempre. Ela ria e deixava-me perceber a razão daquela sua vida, e dizia-me: espera mais um pouco e partiremos juntos, tens de ter confiança em mim, mais do que isto não posso dizer-te. Depois punha-se nua à janela, fitava a lua e dizia-me: canta o teu chamariz, mas em voz baixa. Enquanto eu cantava, pedia-me que a amasse, e eu possuía-a de pé, apoiada ao parapeito da janela enquanto ela fitava a noite como se esperasse qualquer coisa.

Aconteceu no dia 10 de Agosto. Pelo São Lourenço o céu está cheio de estrelas cadentes, contei treze ao voltar para casa. Encontrei a porta fechada, e bati. Depois voltei a bater com mais força, porque a luz estava acesa. Ela abriu e ficou à porta, mas eu afastei-a com o braço. Parto amanhã, disse, a pessoa que esperava voltou. Sorria como se me estivesse a agradecer, e quem sabe porquê pensei que ela estava a pensar no meu canto. No fundo do quarto um vulto mexeu-se. Era um homem idoso que se estava a vestir. O que é que esse quer?, perguntou-lhe naquela língua que agora eu percebia. Está bêbado, disse ela, em tempos era baleeiro, mas deixou o arpão pela viola, durante a tua ausência foi meu criado. Manda-o embora, disse ele sem olhar para mim.

Havia um reflexo claro sobre a baía de Porto Pim. Percorri o golfo como quando, num sonho, te encontras de repente do outro lado da paisagem. Não pensei em nada porque não queria pensar. A casa do meu pai estava às escuras, porque ele deitava-se cedo. Mas não estava a dormir, como muitas vezes acontece com os velhos que jazem imóveis no escuro como se fosse uma espécie de sono. Entrei sem acender a luz, mas ele ouviu-me. Voltaste, murmurou. Eu fui à parede do fundo e peguei no meu arpão. Movia-me à luz da lua. Não se vai às baleias a esta hora da noite, disse ele da sua cama. É uma moreia, disse eu. Não sei se percebeu o que eu queria dizer, mas não replicou, nem se mexeu. Pareceu-me que me fazia um sinal de adeus com a mão, mas talvez fosse a minha imaginação ou um jogo de sombra na penumbra. Não o voltei a ver, morreu muito antes de eu cumprir a minha pena. O meu irmão também não o voltei a ver. No ano passado, recebi uma fotografia dele, está um homem gordo, de cabelos brancos, rodeado por um grupo de desconhecidos que devem ser os filhos e as noras, estão sentados na varanda de uma casa de madeira e as cores são exageradas como as dos postais. Dizia-me que se quisesse ir para o pé dele, lá há trabalho para todos e à vida é fácil. Quase me pareceu cómico. O que quer dizer uma vida fácil, quando a vida já passou?

E se tu ficares mais um pouco e a voz não me falhar, esta noite canto-te a melodia que marcou o destino desta minha vida. Há trinta anos que não a canto e pode ser que a voz não aguente. Não sei porque o faço, ofereço-a àquela mulher do pescoço alto e à força que tem um rosto quando aflora noutro, e isto certamente tocou-me uma corda. E a ti, italiano, que vens aqui todas as noites e se vê que és ávido de histórias verdadeiras para fazeres delas papel, ofereço-te esta história que acabas de ouvir. Podes até pôr o nome de quem ta contou, mas não aquele por que sou conhecido nesta tasca, que é um nome para turistas de passagem. Escreve que esta é a verdadeira história de Lucas Eduíno, que matou com o arpão a mulher que julgava sua, em Porto Pim.

Ah, só numa coisa não me tinha mentido, descobri-o no processo. Chamava-se mesmo Yeborath. Se isso pode ter importância.

Antonio Tabucchi, in Mulher de Porto Pim

12 de fevereiro de 2005

Meu amor

Lembras-te daquela vez em que não fomos a Samarcanda? Escolhe­mos a melhor época do ano, o princípio do Outono, os bosques e as matas à volta de Samarcanda, quando as colinas áridas começam a descer e a vegetação a espreitar, incendeiam-se de folhas vermelhas e de um amarelo ocre, e o clima é ameno, dizia o nosso guia, lembras-te do nosso guia?, comprámo-lo numa pequena livraria da íle Saint-Louis, Ulysse, especializada em livros de viagens, a maior parte dos quais usados e muitas vezes sublinhados ou anotados pelas pessoas que tinham feito aquelas viagens deixando nos guias as suas anotações, aliás muito úteis, cipo: «pensão a recomendar», ou «estrada a evitar, perigosa», ou então neste armazém vendem-se tapetes de qualidade a preços acessíveis», ou ainda «cuidado, este restaurante aldraba na conta». (...)
De facto, a viagem a não fazer era mesmo a Samarcanda. Guardo uma recordação inesquecível dessa viagem, e tão nítida, tão rica de por­menores, como só as coisas realmente vividas na imaginação nos podem oferecer. Sabes, eu andava a ler um filósofo francês que observou até que ponto o imaginário obedece a leis tão rigorosas como as do real. E o imaginário, meu amor, não tem nada a ver com o ilusório, que é uma coisa completamente diferente. Samuel Butler era de facto um tipo ex­traordinário, não só pelos fabulosos romances que escreveu mas pela sua maneira de ver a vida. Ocorre-me agora uma frase sua: «Posso tole­rar a mentira, mas não suporto a imprecisão.» Mentiras trocámos nós muitas na nossa vida, meu amor, e aceitámo-las todas de parte a parte, de tal modo eram realmente verdadeiras no nosso imaginário ansioso. Mas houve uma delas, ou, se preferires, houve uma mentira múltipla em torno de um mesmo facto real, que nos perdeu para sempre, porque era uma mentira falsa, porque era o ilusório, e o ilusório é necessariamente impreciso, existe apenas no nevoeiro da nossa auto-ilusão. Nos nossos so­nhos sempre fizemos como Dom Quixote, que leva o seu imaginário até ao fim, um imaginário que pressupõe a loucura, desde que seja exacta: exacta na topografia da paisagem real que ele atravessa com a sua imagi­nação. Alguma vez pensaste que o Dom Quixote é um romance realista? E no entanto, um belo dia, transformas-te subitamente de Dom Quixote em Madame Bovary, com a sua incapacidade para definir os contornos daquilo que desejava, para decifrar o lugar onde se encontrava, para contar o dinheiro que gastava, para perceber as asneiras que fazia: eram coisas reais e tudo aquilo lhe parecia ar, e não o contrário. A diferença é enorme: não se pode dizer «estive numa cidade longe daqui», ou «era um homem solícito que me fazia companhia», ou «não creio que fosse amor, antes uma espécie de ternura». Não se podem dizer coisas destas, meu amor, ou pelo menos não mas podias dizer a mim, porque se tratava de uma ilusão tua, de uma pobre e patética ilusão apenas tua: aquela cidade tinha um nome concreto e não ficava tão longe como isso, e ele era apenas um homem de certa idade com quem tu ias para a cama. Era o teu amante que julgavas feito de ar, mas que era de carne e osso.
É por isso que te recordo a viagem que não fizemos a Samarcanda, porque essa sim, essa foi verdadeira e nossa e farta e vivida. E por isso continuo o nosso jogo. Como diz aquele filósofo de que te falei, a me­mória reproduz o vivido, é precisa, exacta, implacável, mas não produz nada de novo: é este o seu limite. A imaginação, em contrapartida, não pode evocar nada, porque não pode recordar, e é este o seu limite: mas em compensação produz o novo, qualquer coisa que não existia, que nunca existiu. Por isso mesmo recorro a estas duas faculdades capazes de se ajudarem mutuamente e volto a recordar aquela nossa viagem a Samarcanda que não fizemos mas que imaginámos até ao mais exacto pormenor.


António Tabucchi, Está a Fazer-se Cada Vez Mais Tarde

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