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28 de setembro de 2008






Uma palavra sobre a tarde

Começas a dobrar os calções, a camisa.
As sandálias guardam,
como um cão, as sombras.
A água jorra da fonte e o clarão da manhã cai
sobre as cadeiras da varanda.
Os frutos, na relva húmida, são as dispersas maçãs
dos teus gestos.
Os barcos ainda não partiram.
Nem o oiro dos teus cabelos se agita
com a brisa triste de setembro.
Há ainda uma guitarra e uma festa
quando cantas.
O sol, essa lâmina agora cega,
rasga-te as vestes,
o linho e a seda da loucura.
Partir é um regresso
à noite outonal,
ao cair lento das folhas,
ao olhar que se dobra
com o alto trigo da tarde
até ao imenso crepúsculo
das últimas palavras.


Eduardo Bettencourt Pinto

28 de setembro de 2005


Eduardo Bettencourt Pinto (1954)

Poema no guardanapo

Nadas na sombra de uma grande ausência.
Cobrem-te os vidros do espanto,
fragmentos de ardidos instantes,
o peso da água incendiada.
Imaginas então o ressoar
de uns pés infantis
na fotografia mais distante
do teu nome.Sabes então que só na terra
onde escondes o coração
correrás por entre as palmeiras
e o eco dos primeiros rios.

Eduardo Bettencourt Pinto

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