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30 de agosto de 2012



Amor à vista

A mulher que não há começa em ti
Começa em ti a sempre tão ausente
A sempre tão distante e tão aqui
Tão doente da partida e tão presente.

Começa em ti a sempre incomeçada
A que por nunca ser nunca perdi
A que era amor do amor: corpo de nada.
A mulher que não há começa em ti.

Começa em ti um tempo em que ajoelho
Tempo de amar ou templo: terra e mar.
Meus olhos deslumbrados com Açores

À vista: eu que sou Gonçalo Velho
Vivendo a glória extrema de chegar
Às tuas ilhas que direi de amores.

Manuel Alegre

25 de abril de 2009






Abril de Abril



Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.

Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.

Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.

Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.

Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.

Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas.

Manuel Alegre

.

12 de maio de 2008




1.


(Os anos passarão. Os canteiros hão-de gerar um outro buxo. Outros pássaros virão cantar nos ramos altos do pinheiro manso e dos plátanos. A tia morrerá. E a casa e o jardim, a própria vila, suas rotinas, seus ritmos e seus ecos. Não ficará senão a tua voz na tarde calma. Olá, disseste. E a terra começou a tremer.)


Manuel Alegre, A Terceira Rosa

23 de janeiro de 2006

Para o Mito:

AINDA HÁ MAR

(D. Sebastião aparecerá numa grande nau
por detrás do Ilhéu em Vila Franca do Campo)

Ainda há naus e viagem algures em nós
Ainda há mar
Ainda há naus para chegar ao outro lado
Lá onde só se espera
O inesperado

Talvez um dia por detrás do Ilhéu
Do meio da mágoa e da neblina
Porque ainda há viagem e Taprobana
Ainda há naus para passar
Além do tédio e da rotina

Ainda há mar
Ainda há naus para a abstracção
Matemática dos astros e dos ventos
Navegação do mito e seu teorema
Ainda há mar

Ao menos no poema


Manuel Alegre, Atlântico

.

3 de agosto de 2005

Quando dou por mim eu sou o Alferes Cristóvão Rilke, estou em Mafra a distribuir panfletos contra a ditadura e contra a guerra, mais tarde nos Açores, de­pois em Angola, cavalgando sempre, levando o pen­dão da revolta, às vezes lembrava-me das histórias que Geraldes da Veiga, meu pai, me contava, então era Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador, ou Duarte de Almeida, mesmo sem braços continuo a segurar nos dentes uma bandeira. Sim, quando me dei conta, eu estava na História, metido no verbo acontecer até ao osso, até ao avesso, até doer, eu estava na História e a História estava na vida e uma e outra estavam na es­crita, nada sabia das tertúlias nem dos cafés onde ao fim da tarde descia o anjo, sabia das picadas e das mi­nas, dos medos e dos mortos, dos nomes das mães e das namoradas escritos na terra com o próprio san­gue. Essa era também a minha letra, a minha caligra­fia, a minha escrita.
Sei bem que não podem perdoar-me: mas como perdoar também aos que continuavam a estar serenamente com tanto amigo na prisão e tanta gente na suja guerra?
E desta nem sequer me posso despedir. René Char, guerrilheiro e poeta, bem o sabia: há guerras que não acabam nunca.
Havemos de trazer sempre, ó camaradas dos cam­pos de batalha, havemos de trazer sempre dentro de nós esta que foi a nossa guerra. Havemos de trazer os vivos e os mortos, os que vieram e os que ficaram. Há mortos que ninguém pode enterrar. Há guerras que não acabam nunca. O francês bem avisou: «Afas­tai de vós o cepticismo e a resignação, e preparai a vossa alma mortal para afrontar intramuros os demó­nios gelados análogos aos génios que têm o tamanho de micróbios.»
A nossa vida foi ocupada. Dentro de mim há um Alferes Cristóvão Rilke que continua a cavalgar. Talvez a nossa alma tenha ficado mutilada. Duarte de Almeida está sem braços, mas eu vi, no mais íntimo de mim eu vi, ele continua a segurar nos dentes não sei se a caneta, se a palavra por dizer, se a bandeira esfarrapada da nossa honra.
E desta vez não me despeço, sou um alferes miliciano, há guerras que não acabam nunca, elas são a vida, elas são a escrita, afastai de vós o cepticismo e os micróbios, a página está em branco e o nosso destino é cavalgar, cavalgar, cavalgar.
Manuel Alegre, Rafael

11 de maio de 2005


Manuel Alegre (1936)


AINDA HÁ MAR
(D. Sebastião aparecerá numa grande nau
por detrás do Ilhéu em Vila Franca do Campo)

Ainda há naus e viagem algures em nós
Ainda há mar
Ainda há naus para chegar ao outro lado
Lá onde só se espera
O inesperado

Talvez um dia por detrás do Ilhéu
Do meio da mágoa e da neblina
Porque ainda há viagem e Taprobana
Ainda há naus para passar
Além do tédio e da rotina

Ainda há mar

Ainda há naus para a abstracção
Matemática dos astros e dos ventos
Navegação do mito e seu teorema
Ainda há mar

Ao menos no poema

Manuel Alegre, Atlântico

.

21 de março de 2005

Teorema

Imagem congelada: Big-Bang.
Retrato de metáfora. Teorema.
E gene a gene o gráfico do sangue.
Mas o princípio e o fim só o poema.

Explosão. Elipse. Universal redoma.
E o cromossoma. A carta. A geografia
do humano continente do genoma.
Mas o princípio e fim só poesia.

Quem fotografa o antes de ter sido?
E quem desenha o mapa do acabar?
Falta o porquê o de onde o para onde.

Morreremos de nunca ter sabido
morreremos de tanto perguntar.
E só o poema às vezes nos responde.

Manuel Alegre, Sonetos do Obscuro Quê

Porque hoje é o Dia Mundial da Poesia

11 de setembro de 2004

CHEGAR AQUI

É claro que tudo isto é uma chatice
Estávamos habituados a acreditar em qualquer coisa
Fosse a Terra Prometida O Dia de Amanhã ou A Esperança
Assim chamada para ser sabe-se lá o quê
Brasil ou África talvez Europa
Havia uma fé uma fezada uma saída
Havia aquela luz de que falou Jorge de Sema
Esperança era o seu nome
Uma pequena luz Não isto

A aventura partiu para outros lados
A retórica aumenta
A vida baixa

Não há lugar para a beleza
Não há tempo
Eis a cidade com seu rosto desolado
Degradação é o nome destes dias
Amigos que desgraça etc. António Nobre
Ou Camilo Pessanha Eu vi a luz
Em um país perdido
Mas agora nem essa é só chatice
E perdição

E navegámos tanto tempo
São Gabriel Santa Maria Frol de la Mar
Não há dúvidas temos um passado
Talvez demais
Talvez tanto que não deixa lugar para o futuro

Mas fomos pelo mar chegámos longe

E agora Portugal o que será de ti
Se não formos capazes de chegar
Aqui

Manuel Alegre, Chegar Aqui