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13 de setembro de 2008




Quero escrever-te um poema que
tenha um sentido claro como o
que os teus olhos me disseram.


Poderia ser um poema de amor,
tão breve como o instante em
que me deixaste ver os teus olhos.


Mas o que os olhos dizem não cabe
num poema, nem eu sei como se diz
o amor que só os olhos conhecem.



Nuno Júdice


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29 de abril de 2007


Nuno Júdice (1949)


ALEGORIA

Faço um castelo na areia do futuro. Torres
de névoa, ameias de fumo, pontes levadiças
de indecisão. Vejo a areia escoar-se
na ampulheta dos séculos; e um exército
de ondas rompe as linhas do infinito,
derrubando os muros da manhã.

Nuno Júdice, Pedro Lembrando Inês

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29 de abril de 2006


Nuno Júdice (1949)


ROTINA

Ao abrir a janela do quarto para outras
janelas de outros quartos, ao veres a rua que desemboca
noutras ruas, e as pessoas que se cruzam, no início da
manhã, sem pensarem com quem se cruzam
em cada início de manhã, talvez te apeteça
voltar para dentro, onde ninguém te espera. Mas
o dia nasceu - um outro dia, e a contagem do tempo
começou a partir do momento em que
abriste a janela, e em que todas as janelas
da rua se abriram, como a tua. Então, resta-te
saber com quem te irás cruzar, esta manhã: se
o rosto que vais fixar, por uns instantes, retribuirá
o teu gesto; ou se alguém, no primeiro café que
tomares, te devolverá a mesma inquietação
que saboreias, enquanto esperas que o líquido
arrefeça.

Nuno Júdice

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29 de abril de 2005


Nuno Júdice (1949)


Ausência

Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
por isso, de deixar alguns sinais – um peso
nos olhos, no lugar da tua imagem, e
um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
tivessem roubado o tacto. São estas as formas
do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
as coisas simples também podem ser
complicadas, quando nos damos conta da
diferença entre o sonho e a realidade. Porém,
é o sonho que me traz a tua memória; e a
realidade aproxima-me de ti, agora que
os dias correm mais depressa, e as palavras
ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de
mim – e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.

Nuno Júdice, Pedro, Lembrando Inês

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25 de março de 2005

Espero por ti no fim do mundo
ou no princípio dele,
enquanto as sementes secam ao sol
que não nasce
e as palavras se perdem num verso
sem peso nem medida.
És a que não chega:
promessa do amor que enche
os espelhos, brilho
da treva que assombra
o cristal.
E quando olho pela janela,
como se viesses do fundo da rua,
só a tarde dobra essa esquina
que te viu partir
com os olhos húmidos da manhã nua.
Sombra, cinzas e ruína
chegam em cada primavera; mas tu
só voltas donde não sei,
quando não espero
e onde não estou.

Nuno Júdice, Pedro Lembrando Inês

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