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23 de março de 2005

Escrevo algumas palavras. Quase sempre as mesmas.
Certa de que podes estar em cada uma delas: melodia, rua, talvez, regresso.
Ergo-te do silêncio, sílaba a sílaba, como se os sons falassem.
Como se escutasses.
Como se não soubesse que nunca ouvirias sorriso, poema, manhã, Amor.
Como se não fossem um sussurro que finges perceber
Delicadamente.

7 de março de 2005

Dizes bem:
Ainda não sei continuar o sentido dos gestos.
Ou segredar a transparência dos olhos.
Tento responder,
Tento plantar a infância, a alegria, Deus...
- Mas só conheço o tempo desencontrado.

Tens razão:
Devia saber remendar a memória.
Ou amarrotar a noite.
Tento regressar,
Tento procurar a manhã, a voz, a morada...
- Mas só conheço o rasto da dor inútil.

.

4 de janeiro de 2005

Encosto-me à tua voz
(Ou à lembrança dela, não sei bem),
Às gotas de silêncio,
Aos restos de ausência,
Ao que tenho de ti.

Encontra-se o sol onde se quer
(Ou pedaços dele, não sei bem),
Acende-se qualquer luz para não tropeçar na vida.

Por isso, sigo o rasto do que dizes
E trago as tuas palavras comigo:
No percurso dos dias,
Deixo-as cair uma a uma,
Não vá querer regressar a mim...


4 de dezembro de 2004

Lembro-me perfeitamente desse futuro.
Julgo que ele ainda lá está. Como tu. No avesso da vida.
E lembro-me perfeitamente de existir. Como se fosse hoje.
Nunca percebi por que te abandonaste. Por que te negaste tantas vezes.
Julguei que era eu o teu sangue. O teu nome.

Nunca te perdoarei por me teres deixado morrer.
Ou por me obrigares a viver.
Diariamente.
Continuamente exposta à tua claridade.

15 de novembro de 2004


Enquanto ganhas a vida
Eu roubo os dias ao tempo
E sento-me a saborear
O seu gosto imerecido
E um leve aroma de vitória


Deve ser óptimo ser tu
Não ter a agonia de ser
Nem o espanto de não ver
Sentir o que sempre sentiste
Deve ser óptimo ser tu
Adormecer a vida devagar
Sem pressas - que o mundo espera por quem nunca sonha sem razão
Por quem nunca entrega o coração ou a alma aflita aos que a pedem
Deve ser óptimo ser tu
Ter o sabor infinito da piedade pelos outros
O prazer supremo de ver o escuro
E a claridade proibida
Sem medo de estar presente
E sempre ausente de ti
Ter a certeza dos dias previsíveis
Do timbre exacto das horas
Do compasso preciso das palavras
Saber-te de cor
Deve ser óptimo medir a dor
Explicar os versos vazios da noite
Escandir o que nunca foi
Sem encontrar um rasto de mágoa
Decorar o silêncio aos poucos
Seguir sem dúvidas o passo seguro da verdade
O velho mapa do esquecimento
A viagem de dentro de ti
Para ires desvivendo lentamente
Sem nunca aprender a gritar
Sem nunca tocar o solo e tremer
Devias saber que não há resposta para a vida
Só o sim da morte
Mas deixa-te estar à tona dos dias
Sem conhecer o voo submerso
Deixa que o tempo te embale
Sem que oiças a canção da noite
No desengano azul da manhã
Ou sintas a paralisia inquieta
Dos que sabem o caminho de si
O trilho triste da solidão
Deixa-te estar

Em ti
Porque deve ser óptimo ser tu
Sem ouvir a estridência de ti
A melodia vaga que ninguém sabe
Sem expiar dia a dia a culpa de quem se é
Nesse sono perene de ti próprio
Nesse sossego dos que se ouvem ao longe
Deve ser óptimo
Os olhos dos outros trazem a nossa luz
Devolvem-nos
Mas vês bem a sós
O que tomas por ti
Por mim
Desconheces o lume da amargura
O rasgo fundo da derrota
Só a letargia de saberes sempre porquê
A confortável manta da loucura por cumprir
A crepitação suave do ódio doméstico
Na tua lareira interior
Onde nunca te avivaste
Remendando sempre a tempo
A tremura da voz
O tecido barato das lágrimas
A inconveniente ânsia de chamas
Deve ser mesmo óptimo ser tu
O que diz sempre o que pensa que diz
O que nunca mas nunca se encanta com o feitiço alheio
O que espera o que sabe que vai chegar
Deve ser óptimo
Morrer devagar

23 de outubro de 2004


Habituei-me a que não falasses comigo
isto é
que falasses com quem me vês
de modo que
inevitavelmente
também deixei de te responder
e vou vogando pelo teu dialecto fácil
pelas palavras
cálidas
polidas
ténues
irónicas
simpáticas
monótonas
leves
divertidas
convencionais
que me estendes
palavras meio-mortas
que te devolvo numa ilusão de conversa
sem que te atrevas
naturalmente
a queimar os dedos nas sílabas de lava do que sentes
e num degelo lento
chegar até ti.

5 de outubro de 2004

UNIÃO DE FACTO
A verdade é que vivemos felizes, totalmente felizes, garanto-te. As nossas palavras desencontram-se algumas vezes, mas comunicamos, ao contrário de muitas pessoas. E estou convencida de que nos amamos. Muito, como costumas sublinhar. Usas outras palavras, vestes outras ideias. Sorris menos. Já não tomas café no velho Central. Ouves jazz, que detestavas. Enfim, sinto que te moldaste com esmero e que tens orgulho na pessoa que criaste. E eu própria procuro ser um pouco de ti, sou um pouco de ti, como sabes, como me repetes. Não percebo por que, de repente, este desejo de asas, esta vontade súbita de não me/te sentir, de não me/te ser. De não querer caber no barro dos teus passos. De me seguir. É absurdo, bem sei. E logo agora, que somos tão próximos, com tanto em comum, com uma vida comum, é que me deu para... Já reparaste como somos parecidos? As mesmas expressões, os mesmos tiques, os mesmos sonhos... E o respeito que nos une, ao contrário de muitos. A harmonia, a comunhão de interesses... Uma união, de facto. É quase ridículo, portanto, que não me apeteça viver-te, quando me fartei de jurar que eras a minha vida. E foste. E és. É quase ridículo que me apeteça sair de ti, de um abrigo morno onde sou feliz. Esta ânsia de dor, de facto, não se explica. Felizmente que és, como todos dizem, extremamente compreensivo, e medirás logo, com um simples olhar, com um sorriso complacente, toda esta angústia, a esquadria completa da minha alma. E as asas ganharão, lentamente, a forma de braços. E apontarás um norte tão óbvio, em que não reparara. Porque já me conheces, sabes que tenho fases. Amanhã, já me deixei de voos - e fico em terra, perfeitamente convencida de que me sou contigo.
.

28 de setembro de 2004

Se soubesse que a vida traz o vento da raiva contida,
a luz das madrugadas sem sol,
ou que o inferno arde na morte lenta dos dias sem horas,
se soubesse que música se ouve nas lembranças do que nunca aconteceu,
na tarde que arrefece devagar, sem sabermos,
teria tentado ouvir as frases em branco,
a melodia de inverno dos olhos que não brilham,
teria embarcado nos abraços sem corpo de tantas palavras.

14 de setembro de 2004

Quando o silêncio se faz voz


Às vezes,ouves-te, subitamente:
Uma estranha melodia
De ecos, de sombras,
Que te rouba a voz,
Que te rouba a ti.
Talvez seja só o mar
Que leva o que não foste sendo,
Que lava pegadas por dar.
Devias repetir, repetir-te,
Até entender, até entenderes,
até não fazer sentido,
até ensurdeceres,
ou calares finalmente o silêncio.
Devias gritar o sangue,
Deixar a alma escoar-se até à morte,
Até o corpo enrouquecer,
E abrir os olhos, devagar,
E viver em ti.