Às vezes, encontro-me nas palavras dos outros. Mais raramente, nas minhas. Por pura coincidência. Em pura coincidência.
20 de novembro de 2004
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado
Chico Buarque
.
18 de novembro de 2004

Manuel António Pina (1943)
Imperecível, de cristal, é a vida real
talvez um pouco menos exacta,
mas a mesma existência, o mesmo nome, a mesma morada.
Atrás de ti haveria
as mesmas palmeiras, e eu estaria
sentado a teu lado como numa fotografia.
Entretanto dobrar-se-ia o mundo
(o teu mundo: o teu destino, a tua idade)
entre ser e possibilidade,
e eu permaneceria acordado
e em prosa, habitando-te como uma casa
ou uma memória.
Manuel António Pina, Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança
16 de novembro de 2004

José Saramago (n. 1922)
Discurso contra o Lirismo
Meus senhores:
Tomo a palavra por um dever de consciência e peço toda a vossa atenção, porque vou dizer coisas muito sérias. Penso que chegou a hora de definir posições, de tomar partido por ou contra, para que se extremem os campos e cada um de nós conheça o lugar que ocupa. É imperioso. É urgente. É inadiável. E espero firmemente que saiamos daqui mais seguros das nossas certezas e sabendo, de uma vez por todas, onde estão e quem são os nossos adversários.
Anda por aí, em inesperada revivescência, contrariando e minando os nossos esforços para a objectividade e a frieza, sem as quais nada de útil se pode construir, uma antiga doença que fez muito mal ao mundo em tempos passados. Falo do lirismo. Afirmo que é uma doutrina perniciosa. Perniciosos são os seus propagadores, sujeitos doentíssimos, intoxicados, verdadeiros focos ambulantes de infecção. Chamam-se a si próprios poetas. É também esse o nome que lhes damos, mas, felizmente, nós conseguimos, por um disciplinado trabalho das cordas vocais, ajudado por uma certa expressão do rosto, transformar essa palavra em injúria. Que eles merecem, diga-se de passagem.
Torno a pedir a vossa atenção. Não gosto de vos ver distraídos, só porque o sol está realmente bonito e anda ali um pombo a esvoaçar. Os pombos, tenho-o dito muitas vezes, são mais nocivos do que se julga. Lá fora, isso foi reconhecido. Tomaram-se providências adequadas para salvaguarda dos monumentos e da saúde pública.
Mas volto aos poetas, agora que o contínuo desta sociedade já fechou as janelas. Os poetas deviam ser eliminados, pura e simplesmente. Impõem-se atitudes drásticas, radicais, que não deixem pedra sobre pedra, quer dizer, verso sobre verso. Esta gente distribui papéis onde aparecem certas palavras que deveriam ser riscadas dos dicionários. Direi algumas, embora a minha formação espiritual se revolte contra a violência a que, por dever de objectividade, me obrigo. Amor, esperança, saudade, rosa,mar - eis algumas dessas palavras. Uma pequena amostra de um vocabulário decadente, inoportuno, direi mesmo subversivo.
Como se isto não bastasse, os poetas (notaram a maneira como eu articulei a palavra?) tiram da sua maliciosa actividade uma não sei que insuportável arrogância, um desdém olímpico que nos faz estremecer de indignação.Alguns cobrem-se com uma capa de modéstia e de humildade que, à primeira vista, engana. São os piores. Com o seu ar de mansidão, que, dizem eles, lhes vem de um particular conhecimento do mundo, aliciam alguns dos nossos melhores elementos, pervertem-nos, desviam-nos das tarefas essenciais. Afirmam eles que também sabem alguma coisa de tarefas essenciais. Desconfiai, amigos. Entre nós e eles nada há de comum. O poeta é o nosso inimigo principal. Só quando conseguirmos arrancar esta lepra da face da terra poderemos viver em paz.
Sei que estou sendo escutado com atenção, que cada palavra que profiro reforça a nossa unidade, mas não posso deixar de notar uma certa (como direi?), uma certa flutuação na sala. Não posso compreender a atitude de alguns presentes que seguem com os olhos o fumo dos cigarros. Ou é distracção, ou perversão, ou nenhum respeito pelo conferencista. De qualquer modo, é lamentável.Também não sei que interesse encontram na garrafa da água. Por mim, não vejo nela mais do que uns efeitos de luz, refracções luminosas que qualquer manual de física elementar explica. E declaro que me está a irritar a cantoria dos pássaros (ou serão crianças?) que vem lá de fora. E esse senhor, ao fundo, que foi que lhe deu, para se pôr agora a sorrir? E o senhor, sim, o senhor, por que se levanta e vai abrir as janelas? Para que é este sol? E o verde dessas árvores? E por que não se calam as crianças? Ou serão pássaros?
Meus senhores, sinto-me profundamente desgostoso. A sessão está encerrada. Tenho dito.
15 de novembro de 2004
Enquanto ganhas a vida
Eu roubo os dias ao tempo
E sento-me a saborear
O seu gosto imerecido
E um leve aroma de vitória
Não ter a agonia de ser
Nem o espanto de não ver
Sentir o que sempre sentiste
Deve ser óptimo ser tu
Adormecer a vida devagar
Sem pressas - que o mundo espera por quem nunca sonha sem razão
Por quem nunca entrega o coração ou a alma aflita aos que a pedem
Deve ser óptimo ser tu
Ter o sabor infinito da piedade pelos outros
O prazer supremo de ver o escuro
E a claridade proibida
Sem medo de estar presente
E sempre ausente de ti
Ter a certeza dos dias previsíveis
Do timbre exacto das horas
Do compasso preciso das palavras
Saber-te de cor
Deve ser óptimo medir a dor
Explicar os versos vazios da noite
Escandir o que nunca foi
Sem encontrar um rasto de mágoa
Decorar o silêncio aos poucos
Seguir sem dúvidas o passo seguro da verdade
O velho mapa do esquecimento
A viagem de dentro de ti
Para ires desvivendo lentamente
Sem nunca aprender a gritar
Sem nunca tocar o solo e tremer
Devias saber que não há resposta para a vida
Só o sim da morte
Mas deixa-te estar à tona dos dias
Sem conhecer o voo submerso
Deixa que o tempo te embale
Sem que oiças a canção da noite
No desengano azul da manhã
Ou sintas a paralisia inquieta
Dos que sabem o caminho de si
O trilho triste da solidão
Deixa-te estar
Aí
Em ti
Porque deve ser óptimo ser tu
Sem ouvir a estridência de ti
A melodia vaga que ninguém sabe
Sem expiar dia a dia a culpa de quem se é
Nesse sono perene de ti próprio
Nesse sossego dos que se ouvem ao longe
Deve ser óptimo
Os olhos dos outros trazem a nossa luz
Devolvem-nos
Mas vês bem a sós
O que tomas por ti
Por mim
Desconheces o lume da amargura
O rasgo fundo da derrota
Só a letargia de saberes sempre porquê
A confortável manta da loucura por cumprir
A crepitação suave do ódio doméstico
Na tua lareira interior
Onde nunca te avivaste
Remendando sempre a tempo
A tremura da voz
O tecido barato das lágrimas
A inconveniente ânsia de chamas
Deve ser mesmo óptimo ser tu
O que diz sempre o que pensa que diz
O que nunca mas nunca se encanta com o feitiço alheio
O que espera o que sabe que vai chegar
Deve ser óptimo
Morrer devagar
7 de novembro de 2004

Cecília Meireles (1901-1964)
Canção
Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
Cecília Meireles
Serenata
Permite que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.
Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.
Cecília Meireles
.
6 de novembro de 2004
Soneto de Eurydice
Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.
Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.
Porém nem nas marés, nem na miragem
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.
E devagar tornei-me transparente
Como morte nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.
4 de novembro de 2004
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. o amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer.
José Luís Peixoto, A Criança Em Ruínas
2 de novembro de 2004

Jorge de Sena (1919-1978)
No País dos Sacanas
Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.
Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?
Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice, porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.
Jorge de Sena
.
1 de novembro de 2004

Saúl Dias(1902-1983)
- Deixem-me ser eu
um instante, ao menos...!
Ainda vale a pena!
Deixem-me vir à cena
em primeiro lugar,
a rir ou a chorar
(a mesma coisa afinal...)!
Deixem-me, antes que morra,
demolir a masmorra
que eu mesmo construí
com lágrimas e sangue
e, embora exangue,
ser só eu, tal e qual!
Saúl Dias
31 de outubro de 2004

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
O seu santo nome
Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão ( e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.
Carlos Drummond de Andrade
http://memoriaviva.digi.com.br/drummond/index2.htm
http://www.releituras.com/drummond_bio.asp
28 de outubro de 2004

Natércia Freire (n.1920)
NÃO
Não formar nenhuma ideia
Do que somos ou seremos
Mas entre as vozes que fogem
Precisar o que dizemos.
Dormir sonos ante-céus
Abismos que são infernos.
Dormir em paz. Dormir paz,
Enfim a nota segura.
Lembrar pessoas e dias
Que penetraram no espaço
De eventos primaveris.
E dar a mão aos espectros
Beijá-los lendas, perfis.
Amar a sombra, a penumbra
Correr janelas e véus.
Saber que nada é verdade.
Dizer amor ao deserto
Abraçar quem nos ignora
Dormir com quem não nos vê
Mas precisar do calor
De quem nunca nos encontra.
Natércia Freire, Antologia Poética
24 de outubro de 2004

Emanuel Félix (1936-2004)
Poema-Pedra para Henry Moore
Um homem pode amar uma pedra
uma pedra amada por um homem não é uma pedra
mas uma pedra amada por um homem
O amor não pode modificar uma pedra
uma pedra é um objecto duro e inanimado
uma pedra é uma pedra e pronto
Um homem pode amar o espaço sagrado que vai de um homem a uma pedra
uma pedra onde comece qualquer coisa ou acabe
onde pouse a cabeça por uma noite
ou sobre a qual edifique uma escada para o alto
Uma pedra é uma pedra
(não pode o amor modificá-la nem o ódio)
Mas se a um homem lhe der para amar uma pedra
não seja uma pedra e mais nada
mas uma pedra amada por um homem
Ame o homem a pedra
e pronto
Emanuel Félix
23 de outubro de 2004
Habituei-me a que não falasses comigo
isto é
que falasses com quem me vês
de modo que
inevitavelmente
também deixei de te responder
e vou vogando pelo teu dialecto fácil
pelas palavras
cálidas
polidas
ténues
irónicas
simpáticas
monótonas
leves
divertidas
convencionais
que me estendes
palavras meio-mortas
que te devolvo numa ilusão de conversa
sem que te atrevas
naturalmente
a queimar os dedos nas sílabas de lava do que sentes
e num degelo lento
chegar até ti.
19 de outubro de 2004

Vinicius de Moraes (1913-1980)
Soneto da Separação
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Vinicius de Moraes
17 de outubro de 2004

António Ramos Rosa (n. 1924)
Quem escreve
Quem escreve quer morrer, quer renascer
num ébrio barco de calma confiança.
Quem escreve quer dormir em ombros matinais
e na boca das coisas ser lágrima animal
ou o sorriso da árvore. Quem escreve
quer ser terra sobre terra, solidão
adorada, resplandecente, odor de morte
e o rumor do sol, a sede da serpente,
o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho,
o negro meio-dia sobre os olhos.
António ramos Rosa, Acordes
http://www.geocities.com/Paris/Concorde/1070/antonioramosrosa.html
http://www.instituto-camoes.pt/arquivos/literatura/arqvarrosa.htm
16 de outubro de 2004

Oscar Wilde (1854-1900)
Do ponto de vista formal, o modelo de todas as artes é a arte do músico. Do ponto de vista sentimental, o trabalho do actor é o modelo.
Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray
http://www.noxinvitro.com/carus/sonus/?author=46
http://www.cmgww.com/historic/wilde/
http://www.planetmonk.com/wilde/
http://www.oscariana.net/
http://www.ucc.ie/celt/wpoems.html
14 de outubro de 2004
10 de outubro de 2004

Harold Pinter (n. 1930)
The Ventriloquists
I send my voice into your mouth
You return the compliment
I am the Count of Cannizzaro
You are Her Royal Highness the Princess Augusta
I am the thaumaturgic chain
You hold the opera glass and cards
You become extemporaneous song
I am your tutor
You are my invisible seed
I am Timour the Tartar
You are my curious trick
I your enchanted caddy
I am your confounding doll
You my confounded dummy.
Harold Pinter
http://www.brainyencyclopedia.com/encyclopedia/h/ha/harold_pinter.html
http://www.haroldpinter.org/home/index.shtml
http://www.kirjasto.sci.fi/hpinter.htm
http://www.contemporarywriters.com/authors/?p=auth01G24K343812605467
9 de outubro de 2004

John Lennon (1940-1980)
Nobody Told Me
Everybody's talking and no one says a word
Everybody's making love and no one really cares
There's Nazis in the bathroom just below the stairs
Always something happening and nothing going on
There's always something cooking and nothing in the pot
They're starving back in China so finish what you got
Nobody told me there'd be days like these
Nobody told me there'd be days like these
Nobody told me there'd be days like these
Strange days indeed -- strange days indeed
Everybody's runnin' and no one makes a move
Everyone's a winner and nothing left to lose
There's a little yellow idol to the north of Katmandu
Everybody's flying and no one leaves the ground
Everybody's crying and no one makes a sound
There's a place for us in the movies you just gotta lay around
Nobody told me there'd be days like these
Nobody told me there'd be days like these
Nobody told me there'd be days like these
Strange days indeed -- most peculiar, mama
Everybody's smoking and no one's getting high
Everybody's flying and never touch the sky
There's a UFO over New York and I ain't too surprised
Nobody told me there'd be days like these
Nobody told me there'd be days like these
Nobody told me there'd be days like these
Strange days indeed -- most peculiar, mama
John Lennon
.
5 de outubro de 2004
3 de outubro de 2004

Thomas Wolfe (1900-1938)
2 de outubro de 2004

Graham Greene (19o4-1991)
Se eu voltasse para trás, onde estaríamos? Onde estávamos há um ano. Furiosos um com o outro por tementes do fim, preocupados com o que fazer da vida quando nada mais nos restasse. Não preciso preocupar-me – nada há já que temer. Isto é o fim. Mas, meu Deus, que farei deste desejo de amar?
Porque escrevo “meu Deus”? – se para mim ele não existe. Se existe, foi ele que me incutiu a ideia da promessa e detesto-o porque o fez. (...)
Não prestámos atenção às sereias. Não tinham importância. Não temíamos morrer assim. Mas o ataque nunca mais acabava.(...) Maurice desceu a escada para ver se na cave estava alguém – tinha medo por mim, como eu tinha por ele. Eu sabia que ia acontecer alguma coisa.
Não havia dois minutos que ele saíra, rebentou uma bomba na rua. (...)Fui pela escada abaixo: estava cheia de destroços e corrimões partidos, e o vestíbulo era só confusão terrível. Primeiro não vi Maurice, e só depois vi o braço que saía de debaixo da porta. Toquei-lhe na mão: seria capaz de jurar que era uma mão morta. Quando duas pessoas se amaram não podem disfarçar a falta de ternura num beijo; como poderia eu ao tocar-lhe na mão, não ter reconhecido a vida, se alguma houvesse ainda?(...) Claro que agora sei que tudo foi nervosismo. Fui enganada. Ele não estava morto. É-se responsável por uma promessa histérica? A que promessa se falta? (...)
Ajoelhei no chão: sentia-me desesperada por ajoelhar, nem mesmo em criança o fizera – porque meus pais não acreditavam em orações, como eu não acredito. Não sabia o que havia de dizer. Maurice estava morto. Extinguira-se. (...) Meu Deus, dizia eu- e meu, meu porquê -, faz com que eu acredite. Não posso acreditar, não sei. Faz com que eu acredite. E dizia: sou uma prostituta, uma impostora, desprezo-me. Não tenho força de vontade. Faz-me acreditar. Apertei muitos os olhos, fechei as mãos com muita força, até não sentir senão as unhas magoando-me, e disse que queria acreditar. Dá-lhe vida, e acreditarei. Dá-lhe uma última oportunidade. Deixa-o ser feliz. Faz isto, e eu acredito. Mas não bastava. Acreditar não dói. E por isso acrescentei: eu amo-o, e dou-Te o que quiseres em troca da sua vida. E muito baixinho disse: deixá-lo-ei para sempre, se o deixares viver, e enterrava mais e mais as unhas até sentir a pele romper-se. E continuei: as pessoas podem amar-se sem se ver, amam-Te sem Te ver a vida inteira - e ele apareceu à porta e estava vivo, e eu pensei: a agonia de viver sem ele começa, e desejei-o outra vez definitivamente morto, debaixo da porta.
1 de outubro de 2004
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora.
Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.
E a orquesta? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?
Só, incessante, um som de flauta chora...
Camilo Pessanha
Porque hoje é o Dia Mundial da Música
.
29 de setembro de 2004

Miguel de Unamuno(1864-1931)
(retrato de Ramón Casas)
(…)
«Esperar o amor! Só o espera quem o tem já dentro de si! Cremos cingir a sua sombra, quando ele, o amor, invisível aos nossos olhos, nos estreita e nos oprime. Quando julgamos que morreu em nós, é porque já tínhamos morrido dentro dele, pois só se ama deveras depois que o coração do amante se misturou, em almofariz de angústia, com o coração do ente amado. E o amor - paixão - partilhada, é paixão, dor comum. Dele vivemos, sem dele darmos conta, como não nos damos conta de vivermos do ar, até ao momento de asfixia angustiosa. Esperar o amor! Só espera o amor, só por ele chama, aquele que o possui já em si, o que do seu sangue vive, mesmo sem saber.
É a água subterrânea a que aviva a secura. Sentimos, por vezes, uma sede abrasadora, tal qual a do campo deserto que se abre em sulcos de secura, ao passo que voam à solta, à superfície, as folhas levadas pelo vento suão; e, todavia, nas profundezas desse mesmo campo, sob as várzeas de sua verdura morta, corre, sobre a Tocha que a sustém, o caudal da água vivificadora. E é o rumor dessa água profunda o que se funde ao ruído das folhas secas, e vem numa altura em que a terra ressequida se escancara - e, à superfície dela, irrompem, como manancial, as águas adormecidas. Assim é o Amor».
«É o egotismo, porém, minhas irmãs e meus irmãos, é o triste e orgulhoso amor-próprio que nos cega, a fim de não enxergarmos o amor que nos cinge e envolve, para não o sentir. Queremos tirar-lhe algo, não nos entregarmos de todo a ele - e o amor deseja-nos e reclama-nos inteiros. Queremos que ele seja nosso, que se submeta aos nossos insensatos desejos, na busca do nosso esplendor pessoal e Ele, o Amor, o Amor incarnado e humanizado, exige que a ele pertençamos, inteiramente - e só a ele. E quando nos submetemos?"
28 de setembro de 2004
a luz das madrugadas sem sol,
ou que o inferno arde na morte lenta dos dias sem horas,
se soubesse que música se ouve nas lembranças do que nunca aconteceu,
na tarde que arrefece devagar, sem sabermos,
teria tentado ouvir as frases em branco,
a melodia de inverno dos olhos que não brilham,
teria embarcado nos abraços sem corpo de tantas palavras.
Morrie via o envelhecimento numa perspectiva melhor.
- Toda esta ênfase na juventude não me convence –disse ele. –Escuta, eu sei a infelicidade que um jovem pode sentir, portanto não me digas que é assim tão bom. Todos estes miúdos que vêm até mim com as suas lutas, os seus conflitos, os seus sentimentos de desadaptação, o seu sentido de que a vida é miserável, tão má que se querem suicidar... (...)
Nunca tiveste medo de envelhecer, perguntei eu?
-Mitch, eu abraço o envelhecer.
Abraças?
- É muito simples. À medida que cresces, aprendes mais. Se ficasses pelos vinte e dois anos, serias sempre tão ignorante como eras aos vinte e dois anos. Sabes, envelhecer não é só decadência. É crescimento. É mais do que o negativo do que vais morrer, é também o positivo de que vais compreender que vais morrer, e que vives uma vida melhor por causa disso.
Sim, mas se envelhecer é tão valioso, porque é que as pessoas dizem sempre “Ah, se fosse novo outra vez”. Nunca ouves ninguém dizer “Gostava de ter sessenta e cinco anos”.
Sorriu.
- Sabes o que isso reflecte? Vidas insatisfeitas. Vidas incompletas. Vidas que não encontraram sentido. Porque se encontrares sentido na vida, não desejas voltar atrás. Queres ir para a frente. Queres ver mais, fazer mais. Estás mortinho por chegar aos sessenta e cinco.
“Ouve, tens de saber uma coisa. Todos os jovens têm de saber uma coisa. Se estiveres sempre a batalhar contra o envelhecimento, vais ser sempre infeliz, porque isso vai acontecer de qualquer maneira.
“E, Mitch?”
Baixou a voz..
- O facto é que vais mesmo acabar por morrer.
26 de setembro de 2004

Luís FernandoVeríssimo(n.1936)
No dia em que Mônica e Otávio voltaram da lua-de-mel, Mônica chegou na casa dos pais e se trancou no quarto com a mãe. Precisava contar uma coisa e não queria que o pai ouvisse.
http://www.releituras.com/lfverissimo_menu.asp
http://www.olharliterario.hpg.ig.com.br/verissimo.htm
http://www.culturabrasil.pro.br/verissimo.htm
http://www.culturabrasil.pro.br/hqeh.htm
http://carpa.ciagri.usp.br/users-l/msg00014.html
http://www.almacarioca.com.br/cro90.htm
http://www2.uol.com.br/proximaviagem/especiais/especial_verissimo_04_01_30.shtml
http://servlets.hotlink.com.br/libertas/newstorm.notitia.apresentacao.ServletDeSecao?codigoDaSecao=69&dataDoJornal=atual
http://www.paralerepensar.com.br/verissimo.htm
http://www.feranet21.com.br/livros/resumos_ordem/as_mentiras_que_os_homens_contam.htm
http://www.geocities.com/tampo_8/contos/verissimo.html
25 de setembro de 2004

Mário de Carvalho(n.1944)
"Eu vejo raramente um amigo que é dado à quietação e sofrido de enfados. Trabalha nunca percebi em quê, dizem que negócios sedentários e rendíveis. Ele uma vez tentou explicar-me, mas aborreceu-se a meio, e eu também. Deixámos o bocejo para as calendas. O que nele é mais irritante é aquilo que a ciência popular designa por «saúde mental», défice de atribulações de alma. Volta e meia está casado, ou amigado, volta e meia, não. Tenho de usar de cautela para não lhe trocar o nome das companheiras, mais por elas que por ele. Tem filhos dispersos por idades, em lugares distantes, vai pagando pensões e almoços confirmativos de paternidade, pelas festas apropriadas. Não é feliz, nem infeliz, antes pelo contrário. Conhecemo-nos em miúdos no liceu e encontramo-nos quando calha. Sabe responder a um silêncio com outro silêncio, qualidade sem preço. É possível ler tranquilamente os semanários a seu lado. Numa destas Primaveras chamou-me da sua casa de praia, arribada nuns penhascos oceânicos, ao norte de Santa Rita. Detesto meter-me à estrada, mas ele insistiu: Tinha uma coisa para me mostrar. Valia a pena? Sim."
Mário de Carvalho, Contos Vagabundos
http://www.terravista.pt/ilhadomel/4201/paginas/mario_carvalho.htm
http://www.instituto-camoes.pt/bases/100livros/mariocarvalho.htm
24 de setembro de 2004

F.Scott Fitzgerald(1896-1940)
"Either you think, or else others have to think for you and take power from you, pervert and discipline your natural tastes, civilize and sterilize you."
F.Scott Fitzgerald
http://www.fitzgeraldsociety.org/teaching/index.html
http://www.sc.edu/fitzgerald/
22 de setembro de 2004
Com a maternal cumplicidade do verão.
Que pombos torcazes
anunciam.
Um dia abandonarei as mãos
ao barro ainda quente do silêncio,
subirei pelo céu,
às árvores são consentidas coisas assim.
Habitarei então o olhar nu,
fatigado do corpo, esse deserto
repetido nas águas,
enquanto a bruma é sobre as folhas
que pousa as mãos molhadas.
E o lume.
Eugénio de Andrade, Com o Sol em cada Sílaba
.
21 de setembro de 2004

H.G.Wells (1866-1946)
"A time will come when a politician who has willfully made war and promoted international dissension will be as sure of the dock and much surer of the noose than a private homicide. It is not reasonable that those who gamble with men's lives should not stake their own."
H.G.Wells
http://www.readbookonline.net/books/Wells/73/
http://www.online-literature.com/wellshg/
20 de setembro de 2004

Stevie Smith (1902-1971)
Not Waving But Drowning
Nobody heard him, the dead man,
But still he lay moaning:
I was much farther out than you thought
And not waving but drowning.
Poor chap, he always loved larking
And now he's dead
It must have been too cold for him his heart gave way,
They said.
Oh, no no no, it was too cold always
(Still the dead one lay moaning)
I was much too far out all my life
And not waving but drowning.
Stevie Smith, Not Waving But Drowning
http://www.bbc.co.uk/bbcfour/audiointerviews/profilepages/smiths2.shtml
http://oldpoetry.com/authors/Stevie%20Smith
19 de setembro de 2004

William Golding(1911-1996)
"Consider a man riding a bicycle. Whoever he is, we can say three things about him. We know he got on the bicycle and started to move. We know that at some point he will stop and get off. Most important of all, we know that if at any point between the beginning and the end of his journey he stops moving and does not get off the bicycle he will fall off it. That is a metaphor for the journey through life of any living thing, and I think of any society of living things."
William Golding
http://www.william-golding.co.uk/
http://nobelprize.org/literature/laureates/1983/golding-lecture.html
16 de setembro de 2004
Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.
Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.
Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!
Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi-trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...
O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais,ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.
Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!
Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.
Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!
Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.
Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!
Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.
Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...
Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...
Sim, descerá da tua mão compadecida,
~Meu Deus em que não creio!
e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.
José Régio
15 de setembro de 2004
inquieta e movediça como a areia,
ergue, isolada, a praia, mais a espuma
que sereia nenhuma
saboreia…
Quisesses tomar tu este veleiro,
que em secreto estaleiro construí,
sem velas, sem cordame, sem madeira,
- mas branco!, e todo inteiro
para ti…
Brilha uma luz de morte sobre o porto
saído mesmo agora da memória…
Ali estarei, à tua espera, morto,
ou vivo em minha morte
transitória…
Combinado. Que eu juro não faltar!
Contrário de Tristão, renascerei,
se pressentir, aérea, sobre o mar,
a sombra singular
do barco que te dei.
David Mourão-Ferreira
.
14 de setembro de 2004
Às vezes,ouves-te, subitamente:
Uma estranha melodia
De ecos, de sombras,
Que te rouba a voz,
Que te rouba a ti.
Talvez seja só o mar
Que leva o que não foste sendo,
Que lava pegadas por dar.
Devias repetir, repetir-te,
Até entender, até entenderes,
até não fazer sentido,
até ensurdeceres,
ou calares finalmente o silêncio.
Devias gritar o sangue,
Deixar a alma escoar-se até à morte,
Até o corpo enrouquecer,
E abrir os olhos, devagar,
E viver em ti.
às vezes pretextos fúteis
pra encontrar felicidades
no percurso de um só dia
Dias úteis
são tão frágeis as verdades
que se rompem com a aurora
quem as não remendaria?
Dias úteis
mesmo se a dor nos fizer frente
a alegria é de repente
transparente
quem a não receberia?
Mesmo por pretextos fúteis
a alegria é o que nos torna
os dias úteis
Dias raros
aqueles que por amparos
do bom senso e da imprudencia
fazem os prazeres do dia
Dias raros
como os ares, rarefeitos
amores mais do que perfeitos
quem os recomendaria?
Dias raros
em que os mais dados às rotinas
ouvem sinos, seguem sinas
cristalinas
quem as não perseguiria?
Por motivos talvez claros
o prazer é o que nos torna
os dias raros
Por pretextos talvez fúteis
a alegria é que nos torna
os dias úteis
Por motivos talvez claros
o prazer é o que nos torna
os dias raros
Por pretextos talvez fúteis
por motivos talvez claros
Sérgio Godinho, Domingo no Mundo
12 de setembro de 2004
Some day, if I should ever lose you,
will you be able then to go to sleep
without me softly whispering above you
like night air stirring in the linden tree?
Without my waking here and watching
and saying words as tender as eyelids
that come to rest weightlessly upon your breast,
upon your sleeping limbs, upon your lips?
Without my touching you and leaving you
alone with what is yours, like a summer garden
that is overflowing with masses
of melissa and star-anise?
Rainer Maria Rilke (Translated by Albert Ernest Flemming)
.
11 de setembro de 2004
Já viajámos de ilhas em ilhas
já mordemos fruta ao relento
repartindo esperanças e mágoas
por tudo o que é vento
Já ansiámos corpos ausentes
como um rio anseia p´la foz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?
Que há-de ser do mais longo beijo
que nos fez trocar de morada
dissipar-se-á como tudo em nada?
Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós
Já avivámos brasas molhadas
no caudal da lágrima vã
e flutuando, a lua nos trouxe
à luz da manhã
Reencontrámos lágrima e riso
demos tempo ao tempo veloz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós
Que há-de ser da mais longa carta
que se abriu, peito alvoroçado
devolver-se-á: «endereço errado?»
Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós
Já enchemos praças e ruas
já invocámos dias mais justos
e as estátuas foram de carne
e de vidro os bustos
Já cantámos tantos presságios
pondo o fogo e a chuva na voz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?
Que há-de ser da longa batalha
que nos fez partir à aventura?
que será, que foi
quanto é, quanto dura?
Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós
Sérgio Godinho, Coincidências
.
É claro que tudo isto é uma chatice
Estávamos habituados a acreditar em qualquer coisa
Fosse a Terra Prometida O Dia de Amanhã ou A Esperança
Assim chamada para ser sabe-se lá o quê
Brasil ou África talvez Europa
Havia uma fé uma fezada uma saída
Havia aquela luz de que falou Jorge de Sema
Esperança era o seu nome
Uma pequena luz Não isto
A aventura partiu para outros lados
A retórica aumenta
A vida baixa
Não há lugar para a beleza
Não há tempo
Eis a cidade com seu rosto desolado
Degradação é o nome destes dias
Amigos que desgraça etc. António Nobre
Ou Camilo Pessanha Eu vi a luz
Em um país perdido
Mas agora nem essa é só chatice
E perdição
E navegámos tanto tempo
São Gabriel Santa Maria Frol de la Mar
Não há dúvidas temos um passado
Talvez demais
Talvez tanto que não deixa lugar para o futuro
Mas fomos pelo mar chegámos longe
E agora Portugal o que será de ti
Se não formos capazes de chegar
Aqui
Manuel Alegre, Chegar Aqui
10 de setembro de 2004
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvorese
nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade
José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas
9 de setembro de 2004
8 de setembro de 2004
Para não ser bem eu mas o que vai de mim a ti
Ainda que nunca saibam a ti
E que é só o que deve existir
Nem sempre consigo ouvir o que nunca dizes é certo
Dentro de mim tropeço-me
Nunca sinto o que digo
Nem sei se sei sentir
As minhas palavras existem-me demasiado
São o que és.
Ana França
explicam os fantasmas que nos unem.
Ao melhor amigo não conto o que me encanta
e transforma. Entre nós, que somos tristes e
leves, as longas baías de inverno têm pouco a
dizer. De tudo isso sabemos um pouco,
quase nada, enumeramos razões
e receios, os princípios, nisso esgotamos
a brancura, alguma coisa, algum tempo.
Não há enganos. Não há nada mais,
o futuro.
Francisco José Viegas
.


