8 de fevereiro de 2005


Franz Marc(1880-1916), Fighting Forms

7 de fevereiro de 2005


Yvette K.Centeno (1940)
Fotografia de Graça Sarsfield


Morre-se sempre sozinho. Agarramo-nos e não fica­mos presos a ninguém e a nada. Partimos para longe do nosso próprio ser tão irreal tão pouco verdadeiro como se de facto não tivesse existido senão de brincadeira. Como se brinca em criança. E crescemos e continuamos a brincar e a ser brinca­dos mas não damos por isso porque a infância ficou mais para trás num canto perdido da memória. E no entanto é só como crianças que somos verdadeiros, brincadores brinquedos de momento mudando de momento real para real efémero concreto passageiro. Ser — é o mesmo problema todo o tempo. That is the question. To die, to sleep. No more. To sleep. Per-chance to dream. Os homens vão mudando mas os problemas continuam sempre sempre a ser os mesmos. És como um peixe, dizia ela a Jörg. E Jörg sorria. Tudo o que ela pudesse dizer não tinha significado, não tinha importância, porque não havia importância no mundo. Havia coisas. Havia pessoas. Campos. Cidades. Belas manhãs. Ventos de praia. Súbitas flores marinhas e súbitos animais. Pequenos e grandes amores necessários. Sonhos de paragens longínquas de descanso e de felicidade. Sonhos já quase realidade. Já se era praticamente feliz em todo o mundo, dizia ele.
— Feliz? Em todo o mundo? Estás a falar a sério? Que inge­nuidade. Gostava de ser igual a ti, disse-lhe Vera. Fazer parte de ti, do teu ser satisfeito, sem perguntas sem respostas sem problemas e sem inquietações. Principalmente sem inquieta­ções, sem atracção de abismos que me assustam. Tenho medo de mim porque sou eu o meu maior abismo e devo ter no fundo uma verdade. Uma pequena parcela de verdade. Um pequeno reflexo ou qualquer coisa no género que explique. Eis que Deus vos dará um sinal, disse Isaías. Mas se deu não o pude entender.
Jörg levou-a para junto da árvore, marco isolado verde-
-escuro, a única que havia em todo o campo. Ora, já se vivia antes disso e agora continua-se a viver na mesma. Para quê a confusão de esperas perguntas e sinais. Vera olhou-o. Lembras-
-me um jovem deus marítimo perdido por engano neste campo. Jörg riu mas não respondeu nada. Vera continuou: de que me serve tanta lucidez. A minha lógica não funciona nos outros. Acreditas no amor?
— Só acredito nas pessoas e nos momentos que as pessoas passam juntas. O resto não importa. Se se amam ou não, já não importa. Vera disse-lhe que ele era já uma espécie de homem do futuro, um cyborg gelado como um peixe, com a boca selada e todo o interior do corpo transformado, podendo mecanica­mente controlar-se, apto a grandes viagens interplanetárias. A monstruosidade a que a Ciência racional e progressivamente nos permite chegar é quase assustadora. Há um estranho frio no homem do futuro, uma falta de sensibilidade que talvez se chame perfeição mas que tem qualquer coisa de morte e de silêncio que eu não sei bem explicar.

Yvette K. Centeno, “As Palavras Que Pena”

6 de fevereiro de 2005


António José Forte (1931-1988)



Poema

Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha,
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar

António José Forte


Arthur Wardle (1864-1949) Moon Kissed:Endymion
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1 de fevereiro de 2005


Fernando Assis Pacheco (1937-1995)


Chula das Fogueiras

Embora me escutasses nada saberás de mim
e fosses à janela

e embora olhasses não me vês que passo
e digas um adeus pequeno

e embora às vezes já sentisses náusea
e afinal te inclinas

e embora seca embora secamente
e finjo que não ligo

e embora as baças ténues luzes das
e eu por timidez sempre apagado

e embora as marés-vivas batendo
e amámos nisso o Verão

e embora lerda a caneta se apure
e tu não entendesses nada

não entendesses nada

Fernando Assis Pacheco

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31 de janeiro de 2005


Vincent Van Gogh, The Church at Auvers


The Road Not Taken

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I-
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

Robert Frost

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30 de janeiro de 2005


António Alçada-Baptista (1927)

Depois eu fui crescendo e via-se que a tia Suzana fazia o possível por adivinhar aquilo que se ia passando por dentro de mim. Gostava muito que eu lesse:
- Os livros são bons porque, sempre que nos sentimos sós e não temos coisas para dizer a nós mesmos, podemos falar com eles. Sabes, eu acho que as pessoas desejam viver muito e vivem pouco. Com os livros, a gente sempre faz viagens, conhece pessoas, aprende a interrogar-se e tem oportunidade de viver e de sentir coisas que a vida não lhe deu. Outras vezes penso o contrário: que os livros entretêm a nossa fome de viver e se calhar disfarçam e adiam a obrigação que temos de procurar a vida.

António Alçada-Baptista, Tia Suzana, Meu Amor

29 de janeiro de 2005


Vergílio Ferreira (1916-1996)


Entre uma infinidade de hipóteses de não teres nascido, saiu-te a sorte de teres nascido. Se te tivesse saído a “sorte grande”, haveria gente que se admiraria de isso te ter acontecido. Tu mesmo dirias talvez que parecia um “sonho”, que era inacreditável, que ainda não tinhas caído em ti do assombro. Mas essa sorte foi a de um número entre dezenas de milhares ou mesmo centenas. Mas teres nascido é ter-te saído a sorte entre biliões e biliões e biliões de hipóteses negativas. Saiu-te o número inscrito numa areia do universo. Tens pois o privilégio incrível de veres o sol, as flores, os animais. De ouvires as aves e o vento. De. E todavia, como esqueces isso tão facilmente. Breve tudo se te apagará em silêncio. Breve a oportunidade de estares vivo cessou. Provavelmente ninguém mais saberá que exististe. E mesmo dos que o souberem, não se saberá um dia. Num momento não muito longínquo morrerá o último homem sobre a face da Terra. Esse é, aliás, o momento da tua própria morte, porque tu és o primeiro e o último homem que nasceu. Tudo é rápido e contingente e miraculoso. Tudo é rápido e sem consequências. A única consequência és tu e a vida que viveres. Não a desperdices. Não inutilizes a fabulosa sorte que te calhou. Vê. Ouve. Pára, escuta e olha, que a morte vai a passar. E terás cumprido ao menos, para com o universo, um pouco do teu dever de gratidão.

Vergílio Ferreira, Pensar
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25 de janeiro de 2005


VirginiaWoolf(1882-1941)


Mrs. Dalloway disse que ela própria ia comprar as flores.
O serviço de Lucy estava já determinado. As portas seriam retiradas dos gonzos; o pessoal de Rumpelmayer vinha a caminho. E que manhã, pensou Clarissa Dalloway – tão fresca, como se feita para as crianças brincarem na praia.
Que prazer! Que mergulho! Era esta a sensação que tinha sempre, em Bourton, quando, com um leve ranger de dobradiças, igual ao que agora ouvia, escancarava as janelas e mergulhava no ar puro. Era tão fresco e calmo, nessa altura, o ar da manhã, tão silencioso, muito mais que aqui; era como o bater de uma onda, o beijo de uma onda; frio, cortante e contudo (para a rapariga de dezoito anos que ela era então) solene, sentindo, como sentia, de frente para a janela aberta, que algo de espantoso estava para acontecer; olhando para as flores, para as árvores de onde a névoa se desprendia, para as gralhas subindo e descendo, até que Peter Walsh lhe disse: "A meditar entre os vegetais?" - seria isso? - "Eu cá prefiro os homens às couves-flores?" – seria isso? Devia tê-lo dito numa manhã ao pequeno almoço, quando ela saiu para o terraço - Peter Walsh. Voltaria da Índia brevemente, em Junho ou Julho, já não se lembrava ao certo; as suas cartas eram tão aborrecidas; lembrava-se, porém, de coisas que ele dissera, lembrava-se dos seus olhos, do seu canivete, do seu sorriso, da sua rabugice e também, quando milhões de outras coisas se haviam já desvanecido – era tão estranho isto! –de certos ditos, como esse acerca das couves.

Virginia Woolf, Mrs. Dalloway (excerto)

23 de janeiro de 2005


Edouard Manet (1832-1883), L'Evasion de Rochefort
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22 de janeiro de 2005


Lord George Gordon Byron (1788-1824)


Francisca

Francisca walks in the shadow of night,
But it is not to gaze on the heavenly light --
But if she sits in her garden bower,
'Tis not for the sake of its blowing flower.
She listens -- but not for the nightingale --
Though her ear expects as soft a tale.
There winds a step through the foliage thick,
And her cheek grows pale, and her heart beats quick.
There whispers a voice thro' the rustling leaves;
A moment more and they shall meet
-- 'Tis past -- her lover's at her feet.

Lord Byron (1788-1824)

19 de janeiro de 2005


Eugénio de Andrade (1923-2005)



Shelley sem anjos e sem pureza

Shelley sem anjos e sem pureza,
aqui estou à tua espera nesta praça,
onde não há pombos mansos mas tristeza
e uma fonte por onde a água já não passa.

Das árvores não te falo pois estão nuas;
das casas não vale a pena porque estão
gastas pelo relógio e pelas luas
e pelos olhos de quem espera em vão.

De mim podia falar-te,mas não sei
que dizer-te desta história de maneira
que te pareça natural a minha voz.

Só sei que passo aqui a tarde inteira
tecendo estes versos e a noite
que te há-de trazer e nos há-de de deixar sós

Eugénio de Andrade, As Mãos e os Frutos

11 de janeiro de 2005


Al Berto (1948-1997)

notas para o diário

deus tem de ser substituído rapidamente por poemas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis, vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lisboa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no cimo do mastro, e mandar alguém arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade. fulguram na pertubação de um tempo cada dia mais curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas...e nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.

Al Berto, Horto de Incêndio

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9 de janeiro de 2005



No cabo de Guardafui
Vou aguardando bons ventos
Tiro a pena da mochila
E assento meus pensamentos
Às voltas com seu fadário
Um simples soldado raso
Tomai lá meu secretário
E guardai bem este meu caso
Só me deu p'ra dizer não
Em tempo de dizer sim
Também na mesma moeda
O mundo me paga a mim
Como este cabo tão triste
Pedregoso e sem verdura
Assim minha vida existe
Marcada p'la desventura
Pergunto à musa porquê
Pergunto aos deuses nos céus
Todos me dizem que é só
Má fortuna e erros meus
Se baixo o amor à taberna
E depois o subo em soneto
Ele arde em mim com dois lumes
Um é branco e outro é preto
Assim ando estrada fora
Como um bardo vagabundo
Desisti de ver a hora
De ficar de bem com o mundo
No cabo de Guardafui
Guardei os meus pensamentos
Ponho a mochila às costas
Pois já sopram melhores ventos
Como esse cabo que existe
À tristeza condenado
Também a má fortuna insiste
Em andar sempre a meu lado
Pergunto à musa porquê
Pergunto a vós que me ouvis
Também achais que um poeta
Só é bom quando infeliz ?

Carlos Tê / Rui Veloso, Auto da Pimenta
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João Cabral de Melo Neto (1920-1999)


A Mulher e a Casa

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,o
u será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,o
rganizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

João Cabral de Melo Neto

4 de janeiro de 2005

Encosto-me à tua voz
(Ou à lembrança dela, não sei bem),
Às gotas de silêncio,
Aos restos de ausência,
Ao que tenho de ti.

Encontra-se o sol onde se quer
(Ou pedaços dele, não sei bem),
Acende-se qualquer luz para não tropeçar na vida.

Por isso, sigo o rasto do que dizes
E trago as tuas palavras comigo:
No percurso dos dias,
Deixo-as cair uma a uma,
Não vá querer regressar a mim...


2 de janeiro de 2005


Mário-Henrique Leiria (1923-1980)

Chamada Geral

avisam-se todas as polícias
fugiu um homem

tem
olhos muito abertos
duas mãos dois pés
caminha persistentemente

atenção
supõe-se que é perigoso

sinais particulares:
baixa-se com frequência
para fazer festas a um gato
apanha folhas caídas
antes que o varredor as leve
gosta de tremoços

atenção
GOSTA DE TREMOÇOS

repete-se
avisam-se todas as polícias
anda um homem à solta
à solta

atenção
tem-se como certo
que é
realmente perigoso

os aeroportos
já estão sob vigilância permanente
tudo está a postos
não poderá passar
por nenhuma fronteira
que seja conhecida

insiste-se
avisam-se todas as polícias
anda um homem em liberdade

atenção
em liberdade

delações muito recentes
permitem afirmar
que fala com frequência

todo o cuidado é pouco

consta também
embora sem referências concretas
que está sempre presente
nos locais os mais suspeitos
apela-se com insistência
para o civismo de todos os cidadãos
para a denúncia rápida e eficaz
há recompensa

atenção
anda pelo país um homem
livre

não se sabe o que fará

exige-se a quem o vir
que atire imediatamente
é urgente

atenção
atenção
chamam-se todas as polícias
uma informação
da máxima importância
relatórios afirmam
que frequentemente
sorri com extrema virulência

repete-se o apelo
ATIREM PARA MATAR
NADA DE PERGUNTAS

Mário Henrique Leiria, Novos Contos do Gin

1 de janeiro de 2005




Venha o sol que vier, é uma promessa
O que a manhã nos traz na sua alvura.
É outra vez a vida que começa
Aberta de inocência e de frescura.


Cipreste frio, a noite! Cor impura
Triste alegria a tinta negra impressa.
Venha o sol que vier, tem mais altura
O sonho que se veja e que se meça.


Claro como a verdade - diz o povo.
Doce como um começo, o fruto novo
Onde reluz o laivo que o pintou.


Venha o sol que vier, é um outro dia
No límpido país da fantasia
Que a nossa escuridão iluminou.


Miguel Torga

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30 de dezembro de 2004

Está explicado

Doctor Unheimlich has diagnosed me with
Graça's Disorder
Cause:unknown
Symptoms:turning to stone, aphasia, automatic writing, seizures
Cure:click heels together three times
Enter your name, for your own diagnosis:

29 de dezembro de 2004


Maria Azenha (1945)

O prazo de validade da escola

o prazo de validade da Escola
está fora do Um
entrego-me nas horas a polir as unhas ao Todo

o buraco da fechadura do mundo
está sujo

as empregadas
fecham as portas e marcam faltas
no supermercado onde vivo

escrevo no quadro está calada vânia
sem a metafísica do sujeito além do mais
o teorema de pitágoras foi de certeza roubado
da internet para testar a professora do armazém

deviam todos vestir a mesma bata para não se distinguir
a bélgica da alemanha da espanha e por aí fora
e também o país às terças feiras
quando toda a gente vai fazer compras
ao armazém de george orwell

as refeições continuam a ser repressivas
ninguém sabe o que come "está bem"
mas ficámos uns com os outros por causa da noção do todo

Maria Azenha

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