18 de abril de 2005


Antero de Quental (1842-1891)
(Domingos Rebelo,"Retrato de Antero de Quental")


DESPONDENCY

Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram
Ninho e filhos e tudo, sem piedade...
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as asas partidas a levaram...

Deixá-la ir, a vela que arrojaram
Os tufões pelo mar, na escuridade,
Quando a noite surgiu da imensidade,
Quando os ventos do Sul se levantaram...

Deixá-la ir, a alma lastimosa,
Que perdeu fé e paz e confiança,
À morte queda, à morte silenciosa...

Deixá-la ir, a nota desprendida
Dum canto extremo... e a última esperança...
E a vida... e o amor... deixá-la ir, a vida!

Antero de Quental

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17 de abril de 2005

Life's Tragedy

It may be misery not to sing at all,
And to go silent through the brimming day;
It may be misery never to be loved,
But deeper griefs than these beset the way.

To sing the perfect song,
And by a half-tone lost the key,
There the potent sorrow, there the grief,
The pale, sad staring of Life's Tragedy.

To have come near to the perfect love,
Not the hot passion of untempered youth,
But that which lies aside its vanity,
And gives, for thy trusting worship, truth.

This, this indeed is to be accursed,
For if we mortals love, or if we sing,
We count our joys not by what we have,
But by what kept us from that perfect thing.

Paul Laurence Dunbar

2 de abril de 2005



Uma sugestão de leitura no Dia Mundial do Livro Infantil

O limpa-palavras

Limpo palavras.
Recolho-as à noite, por todo o lado:
a palavra bosque, a palavra casa, a palavra flor.
Trato delas durante o dia
enquanto sonho acordado.
A palavra solidão faz-me companhia.

Quase todas as palavras
precisam de ser limpas e acariciadas:
a palavra céu, a palavra nuvem, a palavra mar.
Algumas têm mesmo de ser lavadas,
é preciso raspar-lhes a sujidade dos dias
e do mau uso.
Muitas chegam doentes,
outras simplesmente gastas, estafadas,
dobradas pelo peso das coisas
que trazem às costas.

A palavra pedra pesa como uma pedra.
A palavra rosa espalha o perfume no ar.
A palavra árvore tem folhas, ramos altos.
Podes descansar à sombra dela.
A palavra gato espeta as unhas no tapete.
A palavra pássaro abre as asas para voar.
A palavra coração não pára de bater.
Ouve-se a palavra canção.
A palavra vento levanta os papéis no ar
e é preciso fechá-la na arrecadação.

No fim de tudo voltam os olhos para a luz
e vão para longe,
leves palavras voadoras
sem nada que as prenda à terra,
outra vez nascidas pela minha mão:
a palavra estrela, a palavra ilha, a palavra pão.

A palavra obrigado agradece-me.
As outras, não.
A palavra adeus despede-se.
As outras já lá vão, belas palavras lisas
e lavadas como seixos do rio:
a palavra ciúme, a palavra raiva, a palavra frio.
Vão à procura de quem as queira dizer,
de mais palavras e de novos sentidos.
Basta estenderes um braço para apanhares
a palavra barco ou a palavra amor.

Limpo palavras.
A palavra búzio, a palavra lua, a palavra palavra.
Recolho-as à noite, trato delas durante o dia.
A palavra fogão cozinha o meu jantar.
A palavra brisa refresca-me.
A palavra solidão faz-me companhia.


Álvaro Magalhães, O limpa-palavras e outros poemas

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Hans Christian Andersen (1805-1875)


O VALENTE SOLDADINHO DE CHUMBO

Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos iguaizinhos, pois haviam nascido da mesma velha colher de chumbo. Arma ao ombro, olhar firme, uniforme vermelho e azul; que orgulhoso aspecto eles tinham! A primeira coisa que ouviram neste mundo, quando foi erguida a tampa da caixa onde estavam cerrados, foi este grito: «Soldados de chumbo!», soltado por um razinho que batia alegremente as palmas. Haviam-lhe sido oferecidos como prenda do seu aniversário e ele divertia-se a pô-los em formatura em cima da mesa. Todos os soldados eram perfeitamente iguais, com excepção de um deles que apenas possuía uma perna: fora o último a sair do molde e o chumbo não fora suficiente. No entanto, mantinha-se tão firme sobre a sua única perna como os demais sobre as duas. É precisamente sobre ele que iremos concentrar a nossa atenção.
Em cima da mesa onde estavam alinhados os nossos soldadinhos, encontravam-se muitos outros brinquedos; mas o mais curioso deles todos era um encantador castelo de cartão. Através das suas janelinhas podiam-se ver as salas. Cá fora erguiam-se arvorezinhas em redor de um pequeno espelho que imitava um lago; cisnes de cera nadavam nesse lago, reflectindo-se nele. Tudo aquilo era muito bonito, mas o que havia de ainda mais bonito era uma pequena rapariga de pé junto da porta aberta do castelo. Também ela era de cartão, mas trazia um saiote de tule transparente e muito leve e pelas costas, à maneira de uma écharpe, uma fitinha azul, estreita, no meio da qual brilhava uma lantejoula tão grande como o seu rosto. A pequena rapariga connservava os braços erguidos, pois tratava-se de uma bailarina, (erguia uma perna tão alto que o soldadinho de chumbo nem a via, supondo que a rapariga apenas tinha, tal como ele, uma perna.
«Aqui está a mulher que me convinha», pensou ele, «mas é uma senhora. Mora num palácio, eu numa caixa com mais vinte e quatro camaradas e não encontraria na minha caserna lugar para ela. Apesar de tudo, é forçoso que trave conhecimento com ela.»
E, dizendo isto, estendeu-se atrás de uma caixa de tabaco. Dali podia contemplar à sua vontade a elegante bailarinazinha, que continuava a manter-se sobre uma perna, sem perder o equilíbrio.
À noite, todos os outros soldados foram colocados na sua caixa e as pessoas da casa foram-se deitar. Imediatamente os brinquedos começaram a divertir-se sozinhos: primeiro jogaram à cabra-cega, depois brincaram às guerras e, finalmente, organizaram um baile. Os soldados de chumbo estavam agitados dentro da sua caixa, pois gostariam muito de assistir, mas como poderiam erguer a tampa da caixa? O quebra-nozes deu cambalhotas e o pau de giz traçou mil e uma loucuras na ardósia. O ruído tornou-se tão forte que o canário acordou e desatou a cantar. Os únicos que não se mexiam era o soldado de chumbo e a pequena bailarina. Ela continuava a apoiar-se na ponta do pé, com os braços erguidos; ele, valentemente, sobre a sua única perna e sem deixar de a espiar.
Soou a meia-noite... e, crac!, eis que a tampa da caixa do tabaco salta, mas em vez de ter tabaco dentro, ela tinha um pequeno feiticeiro negro. Era uma caixa de surpresas.
— Soldado de chumbo—disse o feiticeiro—, dirige os teus olhares noutra direcção!
Mas o soldado fingiu não o ouvir.
— Espera por amanhã e irás ver! — insistiu o feiticeiro.
No dia seguinte, quando as crianças se levantaram, puseram o soldadinho de chumbo no parapeito da janela; subitamente, levado pelo feiticeiro ou pelo vento, tombou do terceiro andar, vindo cair de cabeça para baixo na rua. Que terrível queda! Encontrou-se com a perna no ar e todo o seu corpo apoiado na barretina e com a baioneta espetada entre as pedras do pavimento.
A criada e o rapazinho desceram para o procurar, mas por um triz não o espezinharam sem o ver. Se o soldado tivesse gritado «Tomem cuidado!», tê-lo-iam encontrado, mas pareceu-lhe que isso seria desonrar o uniforme.
A chuva começou a cair e em breve as bátegas se sucediam sem intervalo; verificou-se assim um verdadeiro dilúvio. Depois da tempestade, passaram por ali dois garotos:
— Olha— disse um deles —, está aqui um soldado de chumbo! Vamos transformá-lo em marinheiro.
Com um jornal velho fizeram um barco, meteram dentro o soldadinho e puseram o barco na valeta, por onde corria um rio de água. Os dois garotos corriam ao lado do barco, batendo as mãos. Que ondas, santo Deus! Como era forte a corrente! A verdade é que chovera a cântaros. O barco de papel balouçava sacudido pelas águas; mas, apesar de todas aquelas sacudidelas, o soldadinho de chumbo permanecia impassível, com o olhar firme e a arma ao ombro.
De repente o barco foi sorvido por uma sarjeta que dava para um canal onde era tão escuro como dentro da caixa dos soldados.
«Para onde vou eu agora?», pensou ele. «Sim, sim, é o feiticeiro que me faz todo este mal. No entanto, se a menina bailarina estivesse no barco comigo, a escuridão, mesmo que fosse duas vezes mais profunda, não me faria a mínima diferença.»
Subitamente surgiu uma grande ratazana habitante do canal:
— Mostra-me o teu passaporte, o teu passaporte!
Mas o soldadinho de chumbo manteve-se em silêncio e apertou a sua espingarda. O barco continuou o seu caminho e a ratazana perseguiu-o. Uff! Rangia os dentes e gritava às palhas e aos sacos de madeira: — Detenham-no! Detenham-no! Não pagou a passagem nem mostrou o passaporte.
A corrente, porém, tornava-se mais forte, cada vez mais forte, já o soldadinho divisava a luz do dia, ouvindo ao mesmo tempo um murmúrio capaz de assustar o mais intrépido dos homens. Havia no extremo do canal uma queda de água tão perigosa para ele como para nós seria uma catarata. Estava tão perto dela que não se podia deter. O barco precipitou-se: o pobre soldado conservava-se tão rígido quanto lhe era possível e ninguém teria ousado afirmar que ele sequer tivesse piscado os olhos. O barco, após ter rodado diversas vezes sobre si mesmo, enchera-se de água; ia-se afundar. A água subia até ao pescoço do soldado, o barco mergulhava cada vez mais. O papel desdobrava-se e a água fechava-se sobre a cabeça do nosso herói. Nessa altura pensou na gentil bailarinazinha que não voltaria a ver e julgou ouvir uma voz que cantava:

Soldado, o perigo é grande;
Eis a morte que te espera!

O papel desfez-se e o soldado, passando através dele, foi arrastado para o fundo. No mesmo instante foi devorado por um grande peixe.
Foi então que as coisas se puseram negras para o desgraçado! Era ainda pior que no canal. E, além disso, estava extremamente apertado. Sempre intrépido, porém, o soldadinho de chumbo estendeu-se ao comprido com a arma ao ombro.
O peixe agitava-se em todos os sentidos, fazendo pavorosos movimentos; finalmente deteve-se e pareceu ser trespassado por um clarão de luz. O dia surgiu e alguém exclamou: «Um soldado de chumbo!» O peixe fora pescado, vendido, levado para a cozinha e a cozinheira abrira-o com uma grande faca. Ela pegou com dois dedos o soldado de chumbo, pelo meio do corpo, e levou-o para a sala, onde toda a gente quis contemplar aquele homem notável que viajara no ventre de um peixe. No entanto, o soldado não estava vaidoso. Puseram-no em cima da mesa, e ali — como acontecem por vezes coisas estranhas no mundo! — encontrou-se na mesma casa de onde caíra pela janela. Reconheceu as crianças e os brinquedos que estavam em cima da mesa, o encantador castelo com a gentil bailarinazinha; conservava ainda uma perna no ar, pois também ela era valente. O soldadinho de chumbo ficou de tal modo comovido que desejaria ter chorado chumbo, mas isso não era nada conveniente. Olhou-a, ela olhou-o, mas não pronunciaram uma única palavra.
De repente, um rapazinho pegou nele, e sem qualquer razão, atirou-o ao fogo; era, sem dúvida, o feiticeiro da caixa de surpresas que causava tudo aquilo.
O soldadinho de chumbo ficou de pé, iluminado por um forte clarão, sofrendo um horrível calor. Todas as suas cores haviam desaparecido; ninguém saberia dizer se teria sido devido às vicissitudes da viagem ou ao desgosto. Continuava a fitar a rapariguinha e também ela o fitava. Sentia-se derreter; mas, sempre valente, conservava a sua espingarda ao ombro. Subitamente abriu-se uma porta, a corrente de ar arrebatou a bailarina e, como uma sílfide, voou sobre o fogo perto do soldado e desapareceu em chamas. O soldado de chumbo transformara-se num pequeno volume.
No dia seguinte, quando a criada veio tirar as cinzas, encontrou no meio delas um pequeno coração de chumbo; tudo o que restara da bailarina fora a lantejoula, que o fogo enegrecera completamente.

Hans Christian Andresen, Contos Imortais
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31 de março de 2005

Voam gaivotas rente ao chão.
Dizem que é a chuva a ir chegar.
Mas não, neste momento não:
São só gaivotas rente ao chão
Só a voar.

Assim também se há alegria
Dizem que assim que a dor que vem.
Talvez. Que importa? Se este dia
Tem aqui a sua alegria;
Que é que a dor tem?

Nada: só o rastro do futuro,
Quando vier, ficará triste.
Por ora é o dia bom e puro.
Hoje o futuro não existe.
Há um muro.

Goza o que tens, ébrio de seres!
Deixa o futuro onde ele está.
Poemas, vinho, ideais, mulheres —
Seja o que for se é o que há,
Há para o teres.

Mais tarde... Mas mais tarde sê
O que o mais tarde te for dando.
Por ora aceita, ignora e crê.
Sê rente à terra, mas voando,
Como a gaivota é.

Fernando Pessoa

Nota: Nem me atrevo a dizer que este é, possivelmente, o poema de Pessoa de que mais gosto, até porque talvez não seja verdade. Até porque posso reler a qualquer altura um outro poema e "lê-lo" pela primeira vez - e ser esse (re)lido o eleito. E por que é que se há-de ter um poema preferido de Pessoa?

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30 de março de 2005


Vincent Van Gogh (1853-1890)
Auto-retrato com chapéu de feltro (1888)

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29 de março de 2005

What famous work of art are you?





You Are Best Described By...









The Starry Night

by Vincent van Gogh



26 de março de 2005


Robert Frost (1874-1963)


ACQUAINTED WITH THE NIGHT


I have been one acquainted with the night.
I have walked out in rain -- and back in rain.
I have outwalked the furthest city light.

I have looked down the saddest city lane.
I have passed by the watchman on his beat
And dropped my eyes, unwilling to explain.

I have stood still and stopped the sound of feet
When far away an interrupted cry
Came over houses from another street,

But not to call me back or say good-bye;
And further still at an unearthly height,
O luminary clock against the sky

Proclaimed the time was neither wrong nor right.
I have been one acquainted with the night.

Robert Frost

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25 de março de 2005

Espero por ti no fim do mundo
ou no princípio dele,
enquanto as sementes secam ao sol
que não nasce
e as palavras se perdem num verso
sem peso nem medida.
És a que não chega:
promessa do amor que enche
os espelhos, brilho
da treva que assombra
o cristal.
E quando olho pela janela,
como se viesses do fundo da rua,
só a tarde dobra essa esquina
que te viu partir
com os olhos húmidos da manhã nua.
Sombra, cinzas e ruína
chegam em cada primavera; mas tu
só voltas donde não sei,
quando não espero
e onde não estou.

Nuno Júdice, Pedro Lembrando Inês

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23 de março de 2005

Escrevo algumas palavras. Quase sempre as mesmas.
Certa de que podes estar em cada uma delas: melodia, rua, talvez, regresso.
Ergo-te do silêncio, sílaba a sílaba, como se os sons falassem.
Como se escutasses.
Como se não soubesse que nunca ouvirias sorriso, poema, manhã, Amor.
Como se não fossem um sussurro que finges perceber
Delicadamente.

21 de março de 2005

Teorema

Imagem congelada: Big-Bang.
Retrato de metáfora. Teorema.
E gene a gene o gráfico do sangue.
Mas o princípio e o fim só o poema.

Explosão. Elipse. Universal redoma.
E o cromossoma. A carta. A geografia
do humano continente do genoma.
Mas o princípio e fim só poesia.

Quem fotografa o antes de ter sido?
E quem desenha o mapa do acabar?
Falta o porquê o de onde o para onde.

Morreremos de nunca ter sabido
morreremos de tanto perguntar.
E só o poema às vezes nos responde.

Manuel Alegre, Sonetos do Obscuro Quê

Porque hoje é o Dia Mundial da Poesia

19 de março de 2005

As you set out for Ithaka
hope your road is a long one,
full of adventure, full of discovery.
Laistrygonians, Cyclops,
angry Poseidon-don't be afraid of them:
you'll never find things like that on your way
as long as you keep your thoughts raised high,
as long as a rare excitement
stirs your spirit and your body.
Laistrygonians, Cyclops,
wild Poseidon-you won't encounter them
unless you bring them along inside your soul,
unless your soul sets them up in front of you.

Hope your road is a long one.
May there be many summer mornings when,
with what pleasure, what joy,
you enter harbors you're seeing for the first time;
may you stop at Phoenician trading stations
to buy fine things,
mother of pearl and coral, amber and ebony,
sensual perfume of every kind-
as many sensual perfumes as you can;
and may you visit many Egyptian cities
to learn and go on learning from their scholars.

Keep Ithaka always in your mind.
Arriving there is what you're destined for.
But don't hurry the journey at all.
Better if it lasts for years,
so you're old by the time you reach the island,
wealthy with all you've gained on the way,
not expecting Ithaka to make you rich.
Ithaka gave you the marvelous journey.
Without her you wouldn't have set out.
She has nothing left to give you now.

And if you find her poor, Ithaka won't have fooled you.
Wise as you will have become, so full of experience,
you'll have understood by then what these Ithakas mean.


C.P. Cavafy

(Tradução inglesa de Edmund Keeley e Philip Sherrard)

14 de março de 2005


Francisco José Viegas (1962)


REGRESSO POR OUTRO RIO

se regressar, será aos teus olhos que regresso.
os acasos ardem nos lábios dos amieiros que na margem do rio
aguardam que regresse. a isso regresso, buscando
coincidências e nomes, razões. afasto-me
provavelmente de ti, embora secretamente.

é por isso estranha a forma como os acasos ardem
para sempre. a outro rio e sob outras sombras
regresso, devagar para não ferir o que antes amei
e por quem morri muitas vezes. agora de novo morro

e por outro rio regresso até ao lugar onde elas, as aves,
nascem para não desaparecerem. e isso é como permanecer.

Francisco José Viegas

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13 de março de 2005

ABANDONO

A quem senão a ti direi
como estou triste? Mas se a tristeza vem
de tu não estares, como ta direi, como hei-
-de juntar o que me está doendo ao vento
que não bate mais à tua porta? Eu sei

que a tristeza é só isto, é só isto,
o descoincidir consigo mesmo, eu sei,
descoincidir com os outros, estava previsto
porque dentro de si o mundo não coincide e
não há senão tristeza. Em cada um está Cristo

sempre abandonado, cada um abandonado
a si mesmo, sem princípio e sem fim,
pois no princípio o amor era dado
promessa de te ter sempre junto a mim
não ausência, nem dor, nem habitado

ser por todo este absurdo. Morrer
um pouco, disse, sem saber o que dizia
pois eram só palavras, como se a prometer
tudo aquilo que havia e não havia.

Não haver palavras és tu a desaparecer.


Bernardo Pinto de Almeida

12 de março de 2005


Jack Kerouac (1922-1969)


Peace of Mind

While rollerblading hurriedly through peaceful quiet suburbia,
as is my habit in the prime of spring,
I came to realize what I was made for.
On similar spring skates from years past,
I would think of how much I love suburban innocence and tranquility, and eventually how I once loved suburban innocence and tranquility.

This April 23, however was filled not with joyful rememberance,
but with hope and curiousity about what sort of peace of mind I can obtain.
I'm tired of quiet decomposition and pretended indifference.
Constant hate and dislike.
The time has come to embrace the finer things,
to appreciate the warmth of security and smiles.
The sprinkler does it's whirrrrr, tick-tick-tick-tick.
Jesus, they should make pie flavors with pictures of this on the cover.

I slowed down, enchanted by the artificialy lovely neighborhood.
Skated on past bar-b-que on front lawn of a pretty house.
Men with polo shirts look up from their beer and smile pleasantly.
Moms look over with concern to see that their happiness isn't run over by unruly teenagers.
Boys on 13 inch tired bikes that read 'mud slinger' and 'power rangers' pedal galantly after me.
Girls around 13 smile inocently and wonder if they know my little brother.

The climate's ideal, and so are the people.
Reached a dead end of sorts that looked quiet enough to sit down and give my feet some rest.
7 year old with dark skin pedals thoughtfuly down his drive way.
The Bar-B-que is taking place only a couple of yards away.
He looks over at me with a lonely questioning look,
and as I skate back the way I came, I wonder why he isn't involved in the charred animal flesh consumption.
It could be his skin color, but that seems too petty for such a pleasant place.
Perhaps it's his parent's religious views, their funny accent, or more likely an overwhelming sense of isolation.
It seems that there must be some sort of 'just think pleasant thoughts' conspiracy around here and the standards are slow to change.

As I skate by once more, I look long and hard at the happy suburbanites.
They still looked really content and warm, but I noticed not one of them was anything but white.
What does it matter, I'm white, anyways.

Jack Kerouac

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Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

Dylan Thomas

11 de março de 2005

PARA AQUELA QUE MORREU INEXPLICAVELMENTE PORQUE ERA AMADA

Chegaste e eras o ar. Agora sei
Que era já ar o rosto que tiveste,
Pois no oráculo do vento decifrei
Que não és rosa nem ave nem cipreste.

Talvez que a tua aragem no meu braço
Seja o amor que agora eu te mereça.
Mas se adormeço é sempre em teu regaço
Que os anjos me coroam a cabeça.

Talvez seja eu a morta. E tu ao lado
Não tenhas mãos para me abrir a porta
Nem haja porta se te sinto ao lado.

Talvez não sejas tu nem eu nem nada
Enrolada no rasto desta estrela
Que me arrastou na sua queda errada.

Talvez outras areias sem areias;
Talvez um outro Abril sem rosas bravas;
Talvez a direcção das tuas veias
Para a esfinge que não te suspeitavas.

Talvez a que já era antes de ti
Agora nos meus limos afogada.
Mas só porque te olhei e não te vi
Tu vens ao cimo e não me dizes nada.


Natália Correia, Dimensão Encontrada

.n

8 de março de 2005


Alberto Caeiro (1889-1915)

(quadro de Né Barros)


XLIII

Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.

A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.

Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos

7 de março de 2005

Dizes bem:
Ainda não sei continuar o sentido dos gestos.
Ou segredar a transparência dos olhos.
Tento responder,
Tento plantar a infância, a alegria, Deus...
- Mas só conheço o tempo desencontrado.

Tens razão:
Devia saber remendar a memória.
Ou amarrotar a noite.
Tento regressar,
Tento procurar a manhã, a voz, a morada...
- Mas só conheço o rasto da dor inútil.

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6 de março de 2005


Elizabeth Barrett Browning (1806-1861)


XLIII

How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of Being and ideal Grace.
I love thee to the level of everyday's
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for Right;
I love thee with the passion put to use
In my old griefs, and with my childhood's faith.
I love thee with a love I seemed to lose
With my lost saints,--I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life!--and, if God choose,
I shall but love thee better after death.


Elizabeth Barett Browning, Sonnets from the Portuguese


http://www.poets.org/poets/poets.cfm?prmID=153
http://www.victorianweb.org/authors/ebb/ebbio1.html
http://mtmt.essortment.com/elizabethbarret_rysn.htm

5 de março de 2005

Murmúrios do mar


«Paga-me um café e conto-te
a minha vida»

o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
de uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro

outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu, não, nunca choraste
por amores que se perdem

os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
E temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois

«Pago-te um café se me contares
o teu amor»


José Tolentino de Mendonça

2 de março de 2005

Music

Take me by the hand;
it's so easy for you, Angel,
for you are the road
even while being immobile.

You see, I'm scared no one
here will look for me again;
I couldn't make use of
whatever was given,

so they abandoned me.
At first the solitude
charmed me like a prelude,
but so much music wounded me.


Rainer Maria Rilke (tradução inglesa de A. Poulin)

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28 de fevereiro de 2005


William Degouve de Nuncques (1867-1935),
CANAL SOUS UN CIEL GRIS

27 de fevereiro de 2005


Ruy Belo (1933-1978)


Através da chuva e da névoa

Chovia e vi-te entrar no mar
longe de aqui há muito há muito tempo já
ó meu amor o teu olhar
o meu olhar o teu amor
Mais tarde olhei-te e nem te conhecia
Agora aqui relembro e pergunto:
Qual é a realidade de tudo isto?
Afinal onde é que as coisas continuam
e como continuam se é que continuam?
Apenas deixarei atrás de mim tubos de comprimidos
a casa povoada o nome no registo
uma menção no livro das primeiras letras?
Chovia e vi-te entrar no mar
ó meu amor o teu olhar
o meu olhar o teu amor
Que importa que algures continues?
Tudo morreu: tu eu esse tempo esse lugar
Que posso eu fazer por tudo isso agora?
Talvez dizer apenas
chovia e vi-te entrar no mar
E aceitar a irremediável morte para tudo e para todos

Ruy Belo

26 de fevereiro de 2005


Fernando Echevarría (1929)


Quem escreve é a solidão. Se cresce tanto
que a espessura analítica do sono
liberta o tempo, nos ajusta o braço
à infalível mecânica em que formos

ouvindo apenas o que opera ao alto
de estarmos tão perdidos que nem somos.
Só escreve a solidão. Nós escutamos
ranger o eixo numeral em torno

do qual a solidão se desenfreia
e, tão dentro de si, se consolida
que a rotação alisa o ouro à ideia

que canta a transparência conseguida,
à luz da solidão, escrevemos
o esquecimento do que nunca temos.

Fernando Echevarría

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Amin Maalouf (1949)


[...]
CORO DAS TRIPOLITANAS:
Ei-la que se deixa apanhar nas redes desse tro­vador
Ela canta as canções dele, ela sente-se lison­jeada
Mas que fruto pode dar o amor de longe?
Nem boa companhia, nem doce amplexo,
Nem bodas, nem terras, nem filhos,
Que fruto pode então dar o amor de longe?
Ele só vai afastar dela aqueles que cobiçam a sua mão
O príncipe de Antioquia e o antigo conde de Edessa...
(sussurrando)
E mesmo, diz-se, diz-se, o filho do basileu...

UMA VOZ NA MULTIDÃO:
Vós todas que a censurais
Que vos trouxeram os vossos homens tão pró­ximos?
Príncipes ou servos fazem de vós servas.
Quando estão perto de vós, sofreis, e quando eles se vão, sofreis também...

CLÉMENCE:
Falaste verdade, minha filha, minha amiga,
Bendita sejas! Bendita sejas!

CORO DAS TRIPOLITANAS:
Pois vós, condessa, não sofreis?
Não sofreis por estar tão longe daquele que vos ama?
Por não adivinhar no seu olhar se ele vos de­seja ainda?
Não sofreis por não saber sequer como é o seu olhar?
Não sofreis por nunca poder fechar os olhos sentindo os seus braços envolver-vos e puxar-vos contra o seu peito?
Não sofreis por nunca nunca sentir a sua res­piração na vossa pele?

CLÉMENCE (como que surpresa):
Não, por Nosso Senhor, eu não sofro
Talvez que um dia eu sofra, mas pela graça de Deus, não, não sofro ainda
As canções dele são mais do que carícias, e eu não sei se amaria o homem como amo o poeta
Não sei se amaria a sua voz tanto como amo a sua música
Não, por Nosso Senhor, eu não sofro
Sem dúvida sofreria se esperasse esse homem e ele não viesse
Mas eu não o espero
Por saber que lá, no país, um homem pensa em mim,
Sinto-me de repente perto das terras da minha infância.
Eu sou o ultramar do poeta e o poeta é o meu ultramar.
Entre as nossas duas margens viajam as pala­vras ternas
Entre as nossas duas vidas viaja uma música...
Não, por Nosso Senhor, que não sofro
Não, por Nosso Senhor, que não o espero
Não o espero...
[...]

Amin Maalouf, O Amor de Longe


24 de fevereiro de 2005


David Mourão-Ferreira (1927-1996)


E POR VEZES

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos

David Mourão-Ferreira

.

23 de fevereiro de 2005

[...]

Uma noite dos meus quinze anos dei comigo a chorar. Não sei já qual foi o caminho que me conduziu às lágrimas, tudo vai tão longe, perdido na fita branca do passado. Só me recordo de que o pai me ouviu e se levantou. Sentou—se ao de leve na borda da minha cama, pôs—se a acariciar—me os cabelos, quis saber o que eu tinha.
— Estou só, pai. Não é mais nada. Dei porque estava só e isso pareceu-me... Que parvoíce, não é? Estou agora só! E tu então?
Tentei rir a tapar-me, já arrependida da franqueza, mas ele não colaborou e isso salvou-o da raiva que eu havia de lhe ter na manhã seguinte. Não se riu e a sua voz, quando veio, era muito doce, quase triste.
—Também deste por isso—disse brandamente. —Também deste por isso. Há gente que vive setenta e oitenta anos, até mais, sem nunca se dar conta. Tu aos quinze... Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém vai fazer nada por nós. Ninguém pode. Ninguém queria, se pudesse. Nem uma esperança.
— Mas tu, pai...
— Eu... As pessos que enchem o teu mundo são diferentes das do meu... No fundo é muito provável que algumas delas sejam as mesmas, mas aí está, se fosse possível encontrarem-se não se reconheciam nem mesmo fisicamente... Como havemos de nos ajudar? Ninguém pode, filha, ninguém pode...
Ninguém pôde.
[...]
.
Maria Judite de Carvalho, Tanta Gente, Mariana
.

22 de fevereiro de 2005


Joaquim Pessoa (1948)


Amor Combate

Meu amor que eu não sei. Amor que eu canto. Amor que eu digo.
Teus braços são a flor do aloendro.
Meu amor por quem parto. Por quem fico. Por quem vivo.
Teus olhos são da cor do sofrimento.

Amor-país.
Quero cantar-te. Como quem diz:

O nosso amor é sangue. É seiva. É sol. É Primavera.
Amor intenso. amor imenso. amor instante.
O nosso amor é uma arma. É uma espera.
O nosso amor é um cavalo alucinante.

O nosso amor é pássaro voando. Mas à toa.
Rasgando o céu azul-coragem de Lisboa.
Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.
O nosso amor é como a flor do aloendro.

Deixa-me soltar estas palavras amarradas
para escrever com sangue o nome que inventei.
Romper. Ganhar a voz duma assentada.
Dizer de ti as coisas que eu não sei.
Amor. Amor. Amor. Amor de tudo ou nada.
Amor-verdade. Amor-cidade.
Amor-combate. Amor-abril.
Este amor de liberdade.

Joaquim Pessoa

.

21 de fevereiro de 2005


W. H. Auden (1907-1973)


The More Loving One

Looking up at the stars, I know quite well
That, for all they care, I can go to hell,
But on earth indifference is the least
We have to dread from man or beast.

How should we like it were stars to burn
With a passion for us we could not return?
If equal affection cannot be,
Let the more loving one be me.

Admirer as I think I am
Of stars that do not give a damn,
I cannot, now I see them, say
I missed one terribly all day.

Were all stars to disappear or die,
I should learn to look at an empty sky
And feel its total dark sublime,
Though this might take me a little time.

W. H. Auden, Homage to Clio

20 de fevereiro de 2005

A tarde estava errada,
não era dali, era de outro Domingo,
quando ainda não tinhas acontecido,
e apenas eras uma memória parada
sonhando (no meu sonho) comigo.

E eu, como um estranho, passava
no jardim fora de mim
como alguém de quem alguém se lembrava
vagamente (talvez tu),
num tempo alheio e impresente.

Tudo estava no seu lugar
(o teu lugar), excepto a tua existência,
que te aguardava ainda, no limiar
de uma súbita ausência,
principalmente de sentido.

Manuel António Pina

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Mihály Munkácsy (1844-1900), Woman Carrying Faggots (Rõzsehordó nõ)

19 de fevereiro de 2005

SEM TÍTULO E BASTANTE BREVE

Tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e com elas quero
construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor

na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde,não sei onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, à beira mar

dizem que ao possuir tudo isto
poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito interrogar-
-se acerca da melancolia das mãos
esta memória-lâmina incansável

um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
que sei eu sobre tempestades do sangue? e da água?
no fundo, só amo o lado escondido das ilhas

amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão

Al Berto

.

17 de fevereiro de 2005

A PRESENÇA MAIS PURA

Nada do mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?»

A altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um "não esquecer" fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome
Ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixaste
o coração?»


José Tolentino Mendonça, A Que Distância Deixaste o Coração


16 de fevereiro de 2005


Carlos Paredes (1925-2004)


Se há palavras cheias de música, também há melodias com palavras dentro.
Ler Pedro Tamen também é uma forma de ouvir Carlos Paredes.


Verdes Anos

Era o amor
Que chegava e partia
Estarmos os dois
Era um calor que arrefecia
Sem antes nem depois

Era um segredo
Sem ninguém para ouvir
Eram enganos e era um medo
A morte a rir
Dos nossos verdes anos

Foi o tempo que secou
A flor que ainda não era
Como o outono chegou
No lugar da primavera

No nosso sangue corria
Um vento de sermos sós
Nascia a noite e era dia
E o dia acabava em nós

Pedro Tamen

http://www.geocities.co.jp/Hollywood/4061/som-n.htm

14 de fevereiro de 2005

o teu sono anoiteceu mais que a noite
e hei-de escrever-te sempre sem que nunca
te escreva sei as palavras que fechaste
nos olhos mas não sei as letras de as dizer
ensina-me de novo se ensinares-me for
ir ter contigo ao teu sorriso ensina-me
a nascer para onde dormes que me perco
tantas vezes numa noite demasiado pequena
para o teu sono num silêncio demasiado fundo
dormes e tento levantar a pedra que te
cobre maior que a noite o peso da pedra que
te cobre e tento encontrar-te mais uma vez
nas palavras que te dizem só para mim
o teu sono anoiteceu mais que as mortes
que posso suportar e hei-de escrever-te
sempre e mais uma vez sozinho nesta noite

José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas

.

13 de fevereiro de 2005

Não sei o que seria da minha vida se não fosse a colecção de borboletas. Sobretudo no inverno, percebem, os dias peque­nos, a chuva, a tristeza das árvores, o papel da parede a destingir para dentro da minha mãe, para dentro de mim, o aparta­mento de súbito acanhado, uma vontade de qualquer coisa que não há, sobretudo nos domingos de inverno quando às quatro da tarde acendemos a luz e me apetece morrer. Não morrer, é claro, de uma morte por doença ou assim, simplesmente dei­xar de existir
trucla
como uma lâmpada se funde, desaparecer por completo, sem rastro, nunca ter nascido, não morar num corpo incómodo com braços a mais e pernas a mais e dentes a mais que doem
(a propósito tenho de marcar uma consulta sem falta para a semana que vem)
um corpo ainda por cima com frio, duas camisolas e os joe­lhos encostados ao calorífero, o cabelo que principia a rarear na moleirinha apesar dos tratamentos que leio no jornal e vou comprar à farmácia, umas ampolas caríssimas que não resolvem nada, deixar de existir
trucla
como uma lâmpada se funde sem a minha mãe dar por isso coitada, a minha mãe que a seguir ao falecimento do meu padri­nho voltou para casa com a colecção de borboletas
— O teu tio Fernando deixou-te isto
cinco caixas de vidro com os bichos, de asas abertas, prega­dos em cartões, e o nome a latim por baixo, cinco caixas de insectos coloridos, azuis, amarelos, encarnados, verdes, com pintas e listras e círculos e manchinhas simétricas que à minha mãe faziam pena e eu achava lindos. De forma que no inverno, quando me apetece morrer, vou buscar a colecção de borbole­tas ao armário do meu quarto, ponho-as ao lado umas das outras na mesa do jantar e fico durante horas debruçado para os bichos indiferente à chuva e à tristeza das árvores. A minha mãe ainda protesta do crochet a contar as malhas com a unha
— Sempre gostava de entender a graça que achas a isso
mas como detesta que eu saia por causa das más companhias e das doenças das mulheres, resolve calar-se não vá eu guardar as caixas e descer as escadas
(moramos num terceiro andar)
para a academia de bilhar da avenida, cheia de homens com a unha do mindinho comprida e de senhoras que fumam
(na opinião da minha mãe uma senhora que fuma não pode ser honesta)
e entrar-lhe na sala com uma noiva que lhe fique com as jóias, passe a decidir das refeições e a meta num lar. As jóias não são muitas: o meu pai não era rico, ninguém na nossa famí­lia era rico, e o que ela tem, para somar à aliança, é um anel com uma pedrinha que além de minúscula me parece falsa e um colar de pérolas que se vê logo que o é, demasiado perfeito como as dentaduras postiças. A colecção de borboletas tem a vantagem de nos manter no apartamento aos dois, a mim por­que não tenho tempo de arranjar uma namorada e casar-me e a minha mãe porque, na ideia dela eu, por minha vontade, nunca a meterei numa cave para velhos
(a minha mãe imagina que os velhos são sempre metidos em caves a passarem fome e cheios de percevejos)
no que aliás tem razão visto que gosto dela e nos damos bem. É raro zangarmo-nos, é raro discutirmos, não me queixo da co­mida nem há pó pelos cantos, e se não me apetecesse tanto mor­rer no inverno era uma pessoa feliz. De resto não posso dizer que seja especialmente infeliz: graças a Deus tenho tido saúde
(à parte a queda do cabelo, que seca)
não ganho muito no emprego mas para a vida que levamos e junto com a pensão do meu pai chega perfeitamente se pouparmos um bocadinho na luz, o apartamento é nosso, na pró­xima primavera fechamos a varanda da cozinha e fica uma mar­quise óptima para passar a ferro
(gosto do cheiro da roupa, daquele cheiro de humidade quente de quando se passa a ferro)
e mal o papel da parede começa a destingir para dentro de mim vou num pulo ao meu quarto e trago a colecção de bor­boletas do meu tio Fernando, o irmão da minha mãe que mor­reu de um aneurisma faz em janeiro três anos. Era solteiro como eu mas morava sozinho e de tempos a tempos aos sábados, como nós moramos perto do campo da bola, vinha almoçar connosco antes dos jogos. No fim do almoço enquanto a minha mãe lhe servia o café perguntava-me com um sorriso que nunca percebi
— Ensinas-me a voar?
eu com cara de parvo a achá-lo maluco, a minha mãe des­confiada
(a minha mãe desconfia de tudo)
— Que história é essa Fernando?
o meu tio Fernando, muito compenetrado, com os beici­nhos em bico para não se queimar e mão espalmada no peito para não sujar a gravata
(a minha mãe diz que as nódoas de café são um tormento)
— Todas as crianças sabem voar Madalena
e eu, agarrado aos móveis com medo de voar sem querer pelo corredor fora. Acho que foi por ter vontade de voar que o meu tio Fernando
(o meu tio Fernando trabalhava num banco a trocar dinheiro às pessoas)
começou sem dizer a ninguém a colecção de borboletas. Se calhar também o inverno era difícil para ele
(os dias pequenos, a chuva, uma vontade de qualquer coisa que não há)
se calhar também aos domingos, como não havia jogos, lhe apetecia morrer. Morava em duas assoalhadas escuríssimas com móveis parecidos com urnas e comia sozinho diante do jornal, ou seja com o jornal entalado entre o prato e o jarro da água (o médico proibiu-lhe o vinho derivado às artérias) e não me admira que lhe apetecesse morrer. Há alturas em que penso que toda a gente
(mesmo as que coleccionam borboletas)
tem vontade de morrer, e que se nos ensinassem a voar nos íamos logo embora para outro país qualquer, esses países sem domingos de inverno
(deve haver com certeza países sem domingos de inverno)
onde não é preciso fazer crochet toda a tarde nem olhar cai­xas com bichos porque se é feliz.
António Lobo Antunes, Livro de Crónicas
.

12 de fevereiro de 2005

Meu amor

Lembras-te daquela vez em que não fomos a Samarcanda? Escolhe­mos a melhor época do ano, o princípio do Outono, os bosques e as matas à volta de Samarcanda, quando as colinas áridas começam a descer e a vegetação a espreitar, incendeiam-se de folhas vermelhas e de um amarelo ocre, e o clima é ameno, dizia o nosso guia, lembras-te do nosso guia?, comprámo-lo numa pequena livraria da íle Saint-Louis, Ulysse, especializada em livros de viagens, a maior parte dos quais usados e muitas vezes sublinhados ou anotados pelas pessoas que tinham feito aquelas viagens deixando nos guias as suas anotações, aliás muito úteis, cipo: «pensão a recomendar», ou «estrada a evitar, perigosa», ou então neste armazém vendem-se tapetes de qualidade a preços acessíveis», ou ainda «cuidado, este restaurante aldraba na conta». (...)
De facto, a viagem a não fazer era mesmo a Samarcanda. Guardo uma recordação inesquecível dessa viagem, e tão nítida, tão rica de por­menores, como só as coisas realmente vividas na imaginação nos podem oferecer. Sabes, eu andava a ler um filósofo francês que observou até que ponto o imaginário obedece a leis tão rigorosas como as do real. E o imaginário, meu amor, não tem nada a ver com o ilusório, que é uma coisa completamente diferente. Samuel Butler era de facto um tipo ex­traordinário, não só pelos fabulosos romances que escreveu mas pela sua maneira de ver a vida. Ocorre-me agora uma frase sua: «Posso tole­rar a mentira, mas não suporto a imprecisão.» Mentiras trocámos nós muitas na nossa vida, meu amor, e aceitámo-las todas de parte a parte, de tal modo eram realmente verdadeiras no nosso imaginário ansioso. Mas houve uma delas, ou, se preferires, houve uma mentira múltipla em torno de um mesmo facto real, que nos perdeu para sempre, porque era uma mentira falsa, porque era o ilusório, e o ilusório é necessariamente impreciso, existe apenas no nevoeiro da nossa auto-ilusão. Nos nossos so­nhos sempre fizemos como Dom Quixote, que leva o seu imaginário até ao fim, um imaginário que pressupõe a loucura, desde que seja exacta: exacta na topografia da paisagem real que ele atravessa com a sua imagi­nação. Alguma vez pensaste que o Dom Quixote é um romance realista? E no entanto, um belo dia, transformas-te subitamente de Dom Quixote em Madame Bovary, com a sua incapacidade para definir os contornos daquilo que desejava, para decifrar o lugar onde se encontrava, para contar o dinheiro que gastava, para perceber as asneiras que fazia: eram coisas reais e tudo aquilo lhe parecia ar, e não o contrário. A diferença é enorme: não se pode dizer «estive numa cidade longe daqui», ou «era um homem solícito que me fazia companhia», ou «não creio que fosse amor, antes uma espécie de ternura». Não se podem dizer coisas destas, meu amor, ou pelo menos não mas podias dizer a mim, porque se tratava de uma ilusão tua, de uma pobre e patética ilusão apenas tua: aquela cidade tinha um nome concreto e não ficava tão longe como isso, e ele era apenas um homem de certa idade com quem tu ias para a cama. Era o teu amante que julgavas feito de ar, mas que era de carne e osso.
É por isso que te recordo a viagem que não fizemos a Samarcanda, porque essa sim, essa foi verdadeira e nossa e farta e vivida. E por isso continuo o nosso jogo. Como diz aquele filósofo de que te falei, a me­mória reproduz o vivido, é precisa, exacta, implacável, mas não produz nada de novo: é este o seu limite. A imaginação, em contrapartida, não pode evocar nada, porque não pode recordar, e é este o seu limite: mas em compensação produz o novo, qualquer coisa que não existia, que nunca existiu. Por isso mesmo recorro a estas duas faculdades capazes de se ajudarem mutuamente e volto a recordar aquela nossa viagem a Samarcanda que não fizemos mas que imaginámos até ao mais exacto pormenor.


António Tabucchi, Está a Fazer-se Cada Vez Mais Tarde

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10 de fevereiro de 2005


Bertolt Brecht (1898-1956)


Mack the Knife

Oh, the shark has pretty teeth, dear
And he shows them pearly white.
Just a jack knife has Macheath, dear
And he keeps it out of sight.

When the shark bites with his teeth, dear
Scarlet billows start to spread.
Fancy gloves, though, wears Macheath, dear
So there's not a trace of red.

On the side-walk Sunday morning
Lies a body oozing life;
Someone's sneaking 'round the corner.
Is that someone Mack the Knife?

From a tugboat by the river
A cement bag's dropping down;
The cement's just for the weight, dear.
Bet you Mackie's back in town.

Louie Miller disappeared, dear
After drawing out his cash;
And Macheath spends like a sailor.
Did our boy do something rash?

Sukey Tawdry, Jenny Diver,
Polly Peachum, Lucy Brown
Oh, the line forms on the right, dear
Now that Mackie's back in town.

Bertolt Brecht

http://www.straightdope.com/mailbag/mmacktheknife.html
http://www.bigtexaudio.net/audio.htm

9 de fevereiro de 2005


Alice Walker (1944)


Escuta, Deus gos­ta de tudo o que tu gostas — e de uma quantidade de coisas que tu não gostas. Mas, mais do que tudo, Deus gosta de ad­miração.
Estás a dizer que Deus é vaidoso? pergunto.
Ná, diz ela. Não vaidoso, apenas quer partilhar uma coisa boa. Acho que Deus fica lixado quando passas pela cor púr­pura num campo qualquer e não dás por isso.
Que faz ele quando fica lixado? pergunto.
Oh, faz qualquer outra coisa. As pessoas acham que agra­dar a Deus é só o que Deus quer, mas qualquer idiota que viva neste mundo pode ver que ele também está sempre a tentar agradar-nos.
Sim? pergunto eu.
Sim, diz ela. Está sempre a fazer-nos pequenas surpresas quando menos esperamos.
Queres dizer que Ele quer ser amado, exactamente como diz a Bíblia.
Sim, Celie. Tudo neste mundo quer ser amado. Nós canta­mos e dançamos, fazemos boquinhas e damos ramos de flo­res, para ver se gostam de nós. Nunca viste que as árvores fa­zem tudo o que fazemos, menos andar, para atraírem, a nossa atenção?

Alice Walker, A Cor Púrpura
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8 de fevereiro de 2005


Franz Marc(1880-1916), Fighting Forms

7 de fevereiro de 2005


Yvette K.Centeno (1940)
Fotografia de Graça Sarsfield


Morre-se sempre sozinho. Agarramo-nos e não fica­mos presos a ninguém e a nada. Partimos para longe do nosso próprio ser tão irreal tão pouco verdadeiro como se de facto não tivesse existido senão de brincadeira. Como se brinca em criança. E crescemos e continuamos a brincar e a ser brinca­dos mas não damos por isso porque a infância ficou mais para trás num canto perdido da memória. E no entanto é só como crianças que somos verdadeiros, brincadores brinquedos de momento mudando de momento real para real efémero concreto passageiro. Ser — é o mesmo problema todo o tempo. That is the question. To die, to sleep. No more. To sleep. Per-chance to dream. Os homens vão mudando mas os problemas continuam sempre sempre a ser os mesmos. És como um peixe, dizia ela a Jörg. E Jörg sorria. Tudo o que ela pudesse dizer não tinha significado, não tinha importância, porque não havia importância no mundo. Havia coisas. Havia pessoas. Campos. Cidades. Belas manhãs. Ventos de praia. Súbitas flores marinhas e súbitos animais. Pequenos e grandes amores necessários. Sonhos de paragens longínquas de descanso e de felicidade. Sonhos já quase realidade. Já se era praticamente feliz em todo o mundo, dizia ele.
— Feliz? Em todo o mundo? Estás a falar a sério? Que inge­nuidade. Gostava de ser igual a ti, disse-lhe Vera. Fazer parte de ti, do teu ser satisfeito, sem perguntas sem respostas sem problemas e sem inquietações. Principalmente sem inquieta­ções, sem atracção de abismos que me assustam. Tenho medo de mim porque sou eu o meu maior abismo e devo ter no fundo uma verdade. Uma pequena parcela de verdade. Um pequeno reflexo ou qualquer coisa no género que explique. Eis que Deus vos dará um sinal, disse Isaías. Mas se deu não o pude entender.
Jörg levou-a para junto da árvore, marco isolado verde-
-escuro, a única que havia em todo o campo. Ora, já se vivia antes disso e agora continua-se a viver na mesma. Para quê a confusão de esperas perguntas e sinais. Vera olhou-o. Lembras-
-me um jovem deus marítimo perdido por engano neste campo. Jörg riu mas não respondeu nada. Vera continuou: de que me serve tanta lucidez. A minha lógica não funciona nos outros. Acreditas no amor?
— Só acredito nas pessoas e nos momentos que as pessoas passam juntas. O resto não importa. Se se amam ou não, já não importa. Vera disse-lhe que ele era já uma espécie de homem do futuro, um cyborg gelado como um peixe, com a boca selada e todo o interior do corpo transformado, podendo mecanica­mente controlar-se, apto a grandes viagens interplanetárias. A monstruosidade a que a Ciência racional e progressivamente nos permite chegar é quase assustadora. Há um estranho frio no homem do futuro, uma falta de sensibilidade que talvez se chame perfeição mas que tem qualquer coisa de morte e de silêncio que eu não sei bem explicar.

Yvette K. Centeno, “As Palavras Que Pena”

6 de fevereiro de 2005


António José Forte (1931-1988)



Poema

Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha,
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar

António José Forte


Arthur Wardle (1864-1949) Moon Kissed:Endymion
.

1 de fevereiro de 2005


Fernando Assis Pacheco (1937-1995)


Chula das Fogueiras

Embora me escutasses nada saberás de mim
e fosses à janela

e embora olhasses não me vês que passo
e digas um adeus pequeno

e embora às vezes já sentisses náusea
e afinal te inclinas

e embora seca embora secamente
e finjo que não ligo

e embora as baças ténues luzes das
e eu por timidez sempre apagado

e embora as marés-vivas batendo
e amámos nisso o Verão

e embora lerda a caneta se apure
e tu não entendesses nada

não entendesses nada

Fernando Assis Pacheco

.

31 de janeiro de 2005


Vincent Van Gogh, The Church at Auvers


The Road Not Taken

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I-
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

Robert Frost

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30 de janeiro de 2005


António Alçada-Baptista (1927)

Depois eu fui crescendo e via-se que a tia Suzana fazia o possível por adivinhar aquilo que se ia passando por dentro de mim. Gostava muito que eu lesse:
- Os livros são bons porque, sempre que nos sentimos sós e não temos coisas para dizer a nós mesmos, podemos falar com eles. Sabes, eu acho que as pessoas desejam viver muito e vivem pouco. Com os livros, a gente sempre faz viagens, conhece pessoas, aprende a interrogar-se e tem oportunidade de viver e de sentir coisas que a vida não lhe deu. Outras vezes penso o contrário: que os livros entretêm a nossa fome de viver e se calhar disfarçam e adiam a obrigação que temos de procurar a vida.

António Alçada-Baptista, Tia Suzana, Meu Amor

29 de janeiro de 2005


Vergílio Ferreira (1916-1996)


Entre uma infinidade de hipóteses de não teres nascido, saiu-te a sorte de teres nascido. Se te tivesse saído a “sorte grande”, haveria gente que se admiraria de isso te ter acontecido. Tu mesmo dirias talvez que parecia um “sonho”, que era inacreditável, que ainda não tinhas caído em ti do assombro. Mas essa sorte foi a de um número entre dezenas de milhares ou mesmo centenas. Mas teres nascido é ter-te saído a sorte entre biliões e biliões e biliões de hipóteses negativas. Saiu-te o número inscrito numa areia do universo. Tens pois o privilégio incrível de veres o sol, as flores, os animais. De ouvires as aves e o vento. De. E todavia, como esqueces isso tão facilmente. Breve tudo se te apagará em silêncio. Breve a oportunidade de estares vivo cessou. Provavelmente ninguém mais saberá que exististe. E mesmo dos que o souberem, não se saberá um dia. Num momento não muito longínquo morrerá o último homem sobre a face da Terra. Esse é, aliás, o momento da tua própria morte, porque tu és o primeiro e o último homem que nasceu. Tudo é rápido e contingente e miraculoso. Tudo é rápido e sem consequências. A única consequência és tu e a vida que viveres. Não a desperdices. Não inutilizes a fabulosa sorte que te calhou. Vê. Ouve. Pára, escuta e olha, que a morte vai a passar. E terás cumprido ao menos, para com o universo, um pouco do teu dever de gratidão.

Vergílio Ferreira, Pensar
.

25 de janeiro de 2005


VirginiaWoolf(1882-1941)


Mrs. Dalloway disse que ela própria ia comprar as flores.
O serviço de Lucy estava já determinado. As portas seriam retiradas dos gonzos; o pessoal de Rumpelmayer vinha a caminho. E que manhã, pensou Clarissa Dalloway – tão fresca, como se feita para as crianças brincarem na praia.
Que prazer! Que mergulho! Era esta a sensação que tinha sempre, em Bourton, quando, com um leve ranger de dobradiças, igual ao que agora ouvia, escancarava as janelas e mergulhava no ar puro. Era tão fresco e calmo, nessa altura, o ar da manhã, tão silencioso, muito mais que aqui; era como o bater de uma onda, o beijo de uma onda; frio, cortante e contudo (para a rapariga de dezoito anos que ela era então) solene, sentindo, como sentia, de frente para a janela aberta, que algo de espantoso estava para acontecer; olhando para as flores, para as árvores de onde a névoa se desprendia, para as gralhas subindo e descendo, até que Peter Walsh lhe disse: "A meditar entre os vegetais?" - seria isso? - "Eu cá prefiro os homens às couves-flores?" – seria isso? Devia tê-lo dito numa manhã ao pequeno almoço, quando ela saiu para o terraço - Peter Walsh. Voltaria da Índia brevemente, em Junho ou Julho, já não se lembrava ao certo; as suas cartas eram tão aborrecidas; lembrava-se, porém, de coisas que ele dissera, lembrava-se dos seus olhos, do seu canivete, do seu sorriso, da sua rabugice e também, quando milhões de outras coisas se haviam já desvanecido – era tão estranho isto! –de certos ditos, como esse acerca das couves.

Virginia Woolf, Mrs. Dalloway (excerto)

23 de janeiro de 2005


Edouard Manet (1832-1883), L'Evasion de Rochefort
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22 de janeiro de 2005


Lord George Gordon Byron (1788-1824)


Francisca

Francisca walks in the shadow of night,
But it is not to gaze on the heavenly light --
But if she sits in her garden bower,
'Tis not for the sake of its blowing flower.
She listens -- but not for the nightingale --
Though her ear expects as soft a tale.
There winds a step through the foliage thick,
And her cheek grows pale, and her heart beats quick.
There whispers a voice thro' the rustling leaves;
A moment more and they shall meet
-- 'Tis past -- her lover's at her feet.

Lord Byron (1788-1824)

19 de janeiro de 2005


Eugénio de Andrade (1923-2005)



Shelley sem anjos e sem pureza

Shelley sem anjos e sem pureza,
aqui estou à tua espera nesta praça,
onde não há pombos mansos mas tristeza
e uma fonte por onde a água já não passa.

Das árvores não te falo pois estão nuas;
das casas não vale a pena porque estão
gastas pelo relógio e pelas luas
e pelos olhos de quem espera em vão.

De mim podia falar-te,mas não sei
que dizer-te desta história de maneira
que te pareça natural a minha voz.

Só sei que passo aqui a tarde inteira
tecendo estes versos e a noite
que te há-de trazer e nos há-de de deixar sós

Eugénio de Andrade, As Mãos e os Frutos

11 de janeiro de 2005


Al Berto (1948-1997)

notas para o diário

deus tem de ser substituído rapidamente por poemas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis, vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lisboa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no cimo do mastro, e mandar alguém arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade. fulguram na pertubação de um tempo cada dia mais curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas...e nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.

Al Berto, Horto de Incêndio

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