15 de agosto de 2005

Jerry Bauer
Inês Pedrosa (1962)


O PRIMEIRO AMOR POR CARTA

Antes que o Inverno acabe, ainda muitos corações de liceu vão cair das carteiras abaixo, perdidinhos de paixão. Pode ser mentira, mas sabe a chocolate. Pode não lavar os dentes senão por ordem imperial da mãe, mas tem hálito de beijo. Pode ter as unhas sujas de tinta ou de óleo de mota, mas tem 220 volts em cada dedo. Oh, se tem.
O que é que se há-de fazer? Escrever-lhe. Dizer-lhe tudo, tudinho, de um fôlego só, sem rede. Bom... tudo, tudo, tam­bém não, para não esgotar logo o assunto.
Para começar, deve evitar-se qualquer menção de trivialida­des quotidianas. É errado come­çar uma carta de amor assim: «Querida Anabela. Estava a apanhar as quinze peúgas sujas e desemparelhadas que tinha debaixo da cama quando me lembrei do teu sorriso encanta­dor.» É que as adolescentes são admiravelmente imunes aos dotes domésticos de um rapaz. Isso não as seduz. Nestas idades, elas ainda mantêm a plena matu­ridade da infância; prendem-se apenas ao essencial. O que lhes interessa avaliar num namorado é a qualidade da exposição (ou seja, se ele vai andar de mão dada com ela na rua ou não), a quantidade de ar que ele conse­gue guardar no peito (ou seja, se ele é capaz de fazer com que um só beijo dure cerca de uma hora), a variedade da conversa­ção (ou seja, se ele sabe falar de outras coisas para além de motas, futebol e rock) e a sensi­bilidade do coração (ou seja, se ele é capaz de a acompanhar ao dentista e ao supermercado ou se está apenas disponível para fes­tas e cinemas). É só isto o que lhes interessa, e já não é pouco.
Dir-me-ão: então e a beleza? Mas a beleza é um conceito tão estranho e intransmissível que nem vale a pena pensar nele. Camões ficou cego de um olho, mais ou menos na flor da idade, e nem por isso perdeu cotação no mercado. Se preferirem refe­rências mais contemporâneas, lembrem-se de uma Tina Turner, de uma Tracy Chapman, de uma Montserrat Caballé*, de um Woody Allen ou de um Pedro Almodóvar. Se se esfor­çarem um bocadinho, verão que ainda lhes ocorrem outros nomes, como por exemplo o daquele gorducho da Turma B que tem uma graça de morrer. Há sempre um halo fúnebre de um ouro intenso sobre a cabeça do ser amado, pelo menos nos primeiros tempos, É o medo que temos de que ele não olhe para nós, que nos abandone de súbito ou que simplesmente se esfume nos céus estrangeiros de onde veio.
Os amados nunca são mortais como nós. São deuses, heróis mitológicos ou, no mínimo, génios. Nunca devemos esquecer-nos disto quando lhes escrevemos. «Fiquei aturdida quando te ouvi, ontem, na aula de Física e percebi que és tão inteligente como o Einstein.» É preciso ter cuidado no manejo do grau comparativo do adjec­tivo, que jamais deverá utilizar-se em relação a outros seres humanos. Se escreverem: «Fiquei aturdida quando percebi que és tão inteligente como o Alberto», minhas meninas, podem ficar certas de que con­tinuarão a jogar à apanhada nos recreios. E quem diz Alberto diz Bruce Willis, Robert De Niro ou Nastassja Kinsky.
Tratando-se de cartas destina­das a meninas, pode acrescentar--se à lista das comparações per­mitidas algumas flores (rosa mas não gladíolo, orquídea mas não glicínia, não vá a pequena pen­sar que está a ser comparada à vizinha do lado), todas as estre­las (da terra e do mar) e alguns outros elementos da Natureza, como o Sol e a Lua.
Um elemento estilístico de efeito garantido é a surpresa. Junte-se a um substantivo um adjectivo improvável e obter-se-á um resultado estrondoso. Exemplos: «coração guloso», «pernas angelicais», «olhos inflamáveis». Este método pode praticar-se também em extensão. Pode revelar-se à melhor aluna de Matemática que ela é tão bela como uma equação de segundo grau. De qualquer forma, é pre­ciso ter tento no tinteiro, não vá escrever-se de repente que ela é tão inteligente como um cravo. A não ser, obviamente, que o cravo seja densamente vermelho e que a rapariga esteja a par dos acontecimentos do 25 de Abril, o que é arriscar demasiado.
A subtileza é o segredo do sucesso. Reticências e pontos de exclamação são de evitar, por redundantes. Se a paixão é tão forte que lhe tolhe o discerni­mento, o melhor será mesmo começar por um simples super­lativo absoluto. «Belíssima prin­cesa» ou «Lindíssimo príncipe» servem muito bem, para come­çar uma segunda ou uma ter­ceira carta. É que na primeira, para dizer a verdade, a vigilân­cia deve igualar a coragem, de modo a domesticar a caça. Há que admitir a hipótese de o nosso alvo ainda não ter repa­rado em nós. Trata-se, pois, de um cerco suave. «Bom dia, Bruno André» e «Menina bonita» são as introduções ade­quadas a uma primeira exposi­ção do problema.
Estas diferenças de trata­mento não indicam, ao contrá­rio do que possa parecer, qual­quer discriminação sexual proibida pela Constituição. É do conhecimento corrente que nenhuma menina se aflige parti­cularmente por ser considerada bonita. Já com os meninos não é assim. As mamãs deles deram-lhes sempre a entender que um homem deve ser, antes de mais, forte e másculo como o Carlos Cruz. Esta perversão educacio­nal é secular e faz com que os nossos jovens ainda hoje se arre­piem perante o epíteto de «belo». Pensam, na melhor das hipóteses, que estamos a brincar com eles. Na pior das hipóteses, acreditam em nós piamente e tornam-se insuportáveis.
Posto isto, a carta pode con­tinuar em estilo unissexo. O que há a dizer, seja menino ou menina, é mais ou menos o seguinte: «Nestes últimos dias, tenho pensado muito em ti. Não sei porquê. Podes explicar-me? Espero um sinal teu. O teu sor­riso bonito. Uma luz secreta sobre a tua pele.» As frases cur­tas dão muito arranjo, até por­que se pode trocar-lhes a ordem, caso se pretenda tornar a coisa mais críptica e original ou caso se queira escrever duas cartas a duas pessoas diferentes de uma assentada.
Deve sempre fazer-se um ras­cunho, tanto para assegurar a elegância final do trabalho como para garantir a nossa segurança pessoal. Guardando o esboço, prevenimos simultaneamente a limpeza do trabalho (uma carta cheia de riscos e erros impres­siona mal) e a possibilidade de uma catastrófica repetição. Mesmo que o Antímio da nossa actual predilecção não conheça o Alberto do nosso futuro, é melhor não arriscar. Puxe pela imaginação. Nunca se copie a si mesmo, porque um dia o objecto l pode encontrar-se com o objecto 2 num qualquer bar, e podem chegar à conclusão que ambos amaram aquela interes­sante pessoa, e podem mostrar mutuamente essas cartas, de homem para homem. Nessa altura, isso já não desabará sobre si como um desaire senti­mental, mas os seus talentos epistolares ficarão para sempre pelas ruas da amargura. E não vale a pena. Há tantos poetas prontos a salvar-nos!
Sobretudo, fuja à tentação de obnubilar o amado com poesia da sua própria lavra. Isso só fun­ciona quando ele já estiver tol­dado pelos seus outros encantos. Numa primeira declaração de amor por escrito pode simples­mente copiar-se, com uma cali­grafia bem apurada, um belo poema de um profissional. Eugénio de Andrade, Sofia de Mello Breyner Andresen, Carlos Drummond de Andrade, Ruy Belo, Herberto Helder ou Mário Cesariny de Vasconcelos são pis­tas seguras. Mas, acima de tudo, resista à tentação de fazer passar a obra por sua. Mais vale pare­cer erudito do que ser mentiroso.
Claro que procurar poemas para um amor completamente novo é complicado, porque os melhores poemas são sempre fei­tos de restos de um amor já muito antigo e temperados com mágoas, intimidades e memórias cheias de musgo.
As cartas de amor escrevem-se sempre à noite e deixam-se de molho, num bom caudal de lágrimas, até à manhã seguinte. Depois relêem-se e, infelizmente, rasgam-se. Esqueça-se de as reler e guarde o privilégio da dor maior para depois. Se um dia alguém lhe perguntar, faça de conta que já nem se lembra da loucura que foi amar assim. Diga sempre que sim.
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* Esta é aquela rapariga que cantou com o Freddie Mercury dos Queen.

Inês Pedrosa, Expresso, 24/2/1990
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José Agostinho Baptista (1948)



NÃO É MÚSICA

Não é música o que ouvimos.
Não é de água este brilho de prata.

Eu estou aqui sobre as pontes do rio.
Outros são os que espreitam pela bruma das margens.

Talvez me lembre:
tu vinhas devagar pelo lado das acácias.
Cingias cada árvore e as colunas, os braços de um
deus cruel, o saber dos templos.

Não é um salmo o que ouvimos.
Não é de harpas este lamento,
não é o ofício das mãos esculpindo um rosto,
não é a palavra de deus que ecoa nas escarpas.

Algures te ocultas e não deixas sinais.
Quem és tu
cujo perfil se desvanece, cuja doçura se perde nos
confins da tarde?

Eu estou aqui onde se unem as margens, onde escurecem
as sendas e as sombras,
onde correm as nuvens, as pedras, as águas.

Outros são os que te aguardam pelo lado das acácias.

José Agostinho Baptista, Biografia

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14 de agosto de 2005


René Goscinny (1926-1977)



UMA AULA DE COISAS

A professora disse-nos que amanhã íamos ter uma aula especial, uma aula de coisas; cada um de nós deverá levar um objecto, uma lembrança de viagem, de preferência. Vamos falar dos objectos e vamos estudá-los, e cada um de nós vai explicar a sua origem e as recordações que estão relacionadas com eles. Será assim uma aula de coisas, uma aula de Geografia e um exercício de redacção.
— Mas o que é que temos que trazer, professora?— perguntou o Clotário.
— Eu já disse, Clotário — respondeu a professora.
— Um objecto interessante, que tenha uma história. Por exemplo, há uns anos atrás um dos meus alunos trouxe um osso de dinossauro, que o tio tinha encon­trado quando andou em escavações. Alguém sabe dizer o que é um dinossauro?
O Aniano levantou a mão, mas como desatámos todos a falar das coisas que havíamos de trazer, e com o barulho que fazia a professora a bater com a régua na secretária, não conseguimos ouvir o que aquele menino bonito da professora, o Aniano, estava a dizer.
Ao chegar a casa, disse ao Papá que tinha que levar para a escola uma coisa que fosse uma lem­brança fabulosa de alguma viagem.
— Essas aulas práticas são uma óptima ideia— disse o Papá. — Vendo as coisas vocês nunca mais se esquecem. A tua professora é muito boa, muito moderna. Mas, vamos lá a ver... O que é que podes levar?
— A professora disse que o que era mais engra­çado era um osso de dinossauro — expliquei eu.
O Papá arregalou os olhos muito admirado e perguntou :
— Um osso de dinossauro? Eis uma ideia! E onde queres que vá buscar um osso de dinossauro? Não, Nicolau, com certeza que vamos ter que nos contentar com algo mais simples.
Então, eu disse ao Papá que não queria levar coisas simples, que queria levar coisas que pusessem os meus colegas boquiabertos de espanto, e o Papá respondeu que não tinha coisas que pusessem os meus colegas boquiabertos. Então, eu disse que se era assim não valia a pena levar coisas que não surpreendessem ninguém e que até era melhor nem ir à escola amanhã, e o Papá respondeu .que começava a ficar farto e que se calhar não me deixava comer a sobremesa, e que a minha professora tinha ideias patetas; e eu dei um pontapé no sofá da sala. O Papá perguntou-me se eu queria levar uma bofetada, eu desatei a chorar, e a Mamã veio a correr da cozinha.
— O que foi, agora? — perguntou a Mamã. — Não vos posso deixar sozinhos, aos dois, que há logo problemas. Nicolau, pára de chorar! O que é que se passa?
— O que se passa é que o teu filho está furioso porque eu lhe recusei um osso de dinossauro — disse o Papá.
A Mamã olhou para nós, para o Papá e para mim, e perguntou se estavam todos a ficar malucos, naquela casa. Então o Papá explicou-lhe e a Mamã disse-me:
— Mas, então, Nicolau, não é preciso fazeres esse drama. Olha, no placard há lembranças muito inte­ressantes das nossas viagens. Por exemplo, a concha grande que comprámos em Bains-les-Mers, quando estivemos lá de férias.
— É verdade! Essa concha vale mais do que todos os ossos de dinossauro do mundo — disse o Papá.
Eu disse que não sabia se a concha ia espantar os meus amigos, mas a Mamã disse que eles iam achá-la fabulosa e que a professora me daria os parabéns. O Papá foi buscar a concha, que é muito grande e tem escrito por baixo «Recordação de Bains-les-Mers», e o Papá disse-me que eu ia espantar toda a gente se contasse as férias em Bains-les-Mers, a nossa excursão à ilha das Brumas e, até mesmo, o preço que pagámos na pensão. E se isso não espantasse os meus colegas, era porque os meus colegas eram difíceis de espantar. A Mamã riu-se e disse para irmos para a mesa, e no dia seguinte eu fui para a escola, todo orgulhoso com a minha concha embrulhada em papel castanho.
Quando cheguei à escola, já lá estavam todos os meus colegas e eles perguntaram-me o que é que eu tinha trazido.
— E vocês? — perguntei eu.
— Ah, só mostro na aula — respondeu o Godofredo, que gosta muito de fazer mistérios.
Os outros também não quiseram dizer, menos o Joaquim que nos mostrou uma faca, a mais engraçada que se possa imaginar.
— É um corta-papel que o meu tio Abdon trouxe de Toledo como presente para o meu pai. É de Espanha — explicou-nos o Joaquim.
Mas o Caldo — é o nosso vigilante, mas esse não é o seu verdadeiro nome — viu o Joaquim e con­fiscou-lhe o corta-papel, e disse que já tinha proibido milhares de vezes que trouxessem objectos perigosos para a escola.
— Mas, senhor, foi a professora que disse para eu trazer! — gritou o Joaquim.
— Ah? Foi a professora que disse para trazer essa arma para a sala? Muito bem. Não só vou confiscar este objecto como vai ainda conjugar a frase «Não devo mentir ao senhor vigilante quando ele me faz uma pergunta sobre um objecto particularmente perigoso que eu trouxe às escondidas para a escola». É inútil chorar, e os outros calem-se se não querem que eu os castigue também!
E o Caldo foi tocar a campainha, nós pusemo-nos em fila, e quando entrámos na sala o Joaquim con­tinuava a chorar.
— Começamos bem — disse a professora. — Joaquim, o que se passa?
O Joaquim explicou-lhe, a professora deu um suspiro e disse que não era lá muito boa ideia trazer uma faca para a escola, mas que ela ia resolver tudo com o senhor Dubon, é este o verdadeiro nome do Caldo.
— Bom — disse a professora —, ora vamos lá a ver o que é que trouxeram. Ponham os objectos à vossa frente, em cima das carteiras.
Então tirámos todos os objectos que tínhamos trazido: o Alceste tinha trazido uma lista de um restaurante onde tinha comido muito bem com os pais, na Bretanha; o Eudes tinha um postal da Cote d'Azur; o Aniano um livro de geografia que os pais tinham comprado na Normandia; o Clotário tinha trazido uma desculpa porque não tinha encontrado nada em casa, porque ele não tinha compreendido bem, ele pensava que tinha que trazer ossos; e o Maixent e o Rufus, esses imbecis, trouxeram cada um uma concha.
— Sim, mas eu encontrei a minha concha na praia, uma vez que salvei um homem que se estava a afogar— disse o Rufus.
— Não me faças rir — gritou o Maixent. — Primeiro, tu nem sequer sabes boiar e, depois, se encontraste a tua concha na praia, porque é que ela tem escrito por baixo: «Recordação da Plage-des-Horizons»?
— Boa! — gritei eu.
— Queres levar uma bofetada? — perguntou-me o Rufus.
— Rufus, saia! — gritou a professora. — Ficam todos de castigo na Quinta-feira. Nicolau, Maixent, estejam sossegados se não querem ser também casti­gados!
— Eu trouxe uma lembrança da Suíça — disse o Godofredo com um grande sorriso, todo orgulhoso.
— É um relógio de ouro que o meu pai comprou lá.
— Um relógio de ouro? — gritou a professora. — E o seu pai sabe que trouxe o relógio para a escola?
— Bem, não — disse o Godofredo. — Mas quando eu lhe disser que foi a senhora que me pediu para eu trazer, ele não se zanga comigo.
— Que fui eu o quê?... — gritou a professora. — Seu inconsciente! Faça o favor de guardar essa jóia na sua algibeira!
— Eu, se não levar o meu corta-papel, o meu pai vai-se zangar comigo — disse o Joaquim. — Ó Joaquim, eu já lhe disse que vou resolver esse problema — gritou a professora.
— Senhora, não consigo encontrar o relógio! Guardei-o na minha algibeira, como me disse, mas já não o encontro! — gritou o Godofredo.
— Enfim, Godofredo — disse a professora. — O relógio tem que estar aí. Já procurou no chão?
— Sim, senhora — respondeu o Godofredo. — Não está no chão.
Então a professora aproximou-se do lugar do Godofredo, olhou para todo o lado, e depois pediu-nos para procurarmos também, com cuidado para não pisarmos o relógio, e o Maixent atirou a minha concha ao chão, e então eu dei-lhe uma bofetada. A professora pôs-se a gritar, deu-nos alguns castigos, e o Godofredo disse que se não encontrássemos o relógio a professora tinha que ir falar com o pai, e o Joaquim disse que ela também tinha que ir falar com o pai dele por causa do corta-papel. Mas ficou tudo resolvido porque o relógio estava no forro do casaco do Godofredo, o Caldo devolveu o corta-papel ao Joaquim e a professora tirou os castigos.
Foi uma aula muito interessante, e a professora disse que graças às coisas que tínhamos levado, ela nunca mais se ia esquecer desta aula.
Sempé - Goscinny, As aventuras do menino Nicolau

12 de agosto de 2005

Habito um corpo — é apenas isso.
As crianças, na rua, preparam
a morte, pisam as folhas
do acaso. Quem as olhará, neste
momento parado na praça das Flores?

Benilde, ao balcão, diz que é uma flor,
talvez a última. Mas as canções,
na rádio, desmentem qualquer sorriso
e banalizam em língua portuguesa
o milagre sem voz do amor.

Não me venham dizer que existo.

Manuel de Freitas

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Miguel Torga (1907-1995)



LIVRO DE HORAS

Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais,
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!

Miguel Torga


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11 de agosto de 2005


Emanuel Jorge Botelho (1950)



QUARTO ELOGIO DA PEDRA

O mais ínfimo rasgo lembra a estação
em que os rios eram por ti
coisa já pensada

O sumo das laranjas um braço
de criança, talvez o riso do fogo ou a idade
do frio
tão fácil a agressão da água

Emanuel Jorge Botelho

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9 de agosto de 2005


Philip Larkin(1922-1985)



If hands could free you, heart,
Where would you fly?
Far, beyond every part
Of earth this running sky
Makes desolate? Would you cross
City and hill and sea,
If hands could set you free?

I would not lift the latch;
For I could run
Through fields, pit-valleys, catch
All beauty under the sun--
Still end in loss:
I should find no bent arm, no bed
To rest my head.

Philip Larkin

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Mário Cesariny(1923-2006)
de Autografias, de Miguel Gonçalves Mendes


ARS MAGNA

Devo ter corredores por onde ninguém passe devo ter um mar próprio e olhos cintilantes
devo saber de cor o ceptro e a espada
devo estar sempre pronto para ser rei e lutar
devo ter descobertas privativas implicando viagens ao grande imprevisto
de um pássaro as ossadas de uma ilha a floresta do teu peito o animal que ina­nimado canta
devo ser Júlio César e Cleópatra a força do Dniepper e o carmim dos olhos de El-Rei D. Dinis
devo separar bem a alegria das lágrimas
fazer desaparecer e fazer que apareça
dia sim dia não


Mário Cesariny , Manual de Prestidigitação

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6 de agosto de 2005


Andy Warhol (1928), Che Guevara

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5 de agosto de 2005

But you never came with the evening —
I sat waiting in a shawl of stars
...Whenever there was a knocking at my door,
It was my own heart.
It now hangs on every doorpost,
Even on yours;
Between the ferns the fireroses expire
In the withering garland.
I dyed the heaven blackberry
With my heartblood.
But you never came with the evening —
... I stood waiting in golden shoes.


Else Lasker-Schüler
Tradução inglesa de A. Durchschlag e J. Litman-Demeestere

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4 de agosto de 2005


Percy Bysshe Shelley (1792-1822)


One sung of thee who left the tale untold,
Like the false dawns which perish in the bursting;
Like empty cups of wrought and daedal gold,
Which mock the lips with air, when they are thirsting.


Percy Bysshe Shelley, Posthumous Poems


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3 de agosto de 2005

Quando dou por mim eu sou o Alferes Cristóvão Rilke, estou em Mafra a distribuir panfletos contra a ditadura e contra a guerra, mais tarde nos Açores, de­pois em Angola, cavalgando sempre, levando o pen­dão da revolta, às vezes lembrava-me das histórias que Geraldes da Veiga, meu pai, me contava, então era Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador, ou Duarte de Almeida, mesmo sem braços continuo a segurar nos dentes uma bandeira. Sim, quando me dei conta, eu estava na História, metido no verbo acontecer até ao osso, até ao avesso, até doer, eu estava na História e a História estava na vida e uma e outra estavam na es­crita, nada sabia das tertúlias nem dos cafés onde ao fim da tarde descia o anjo, sabia das picadas e das mi­nas, dos medos e dos mortos, dos nomes das mães e das namoradas escritos na terra com o próprio san­gue. Essa era também a minha letra, a minha caligra­fia, a minha escrita.
Sei bem que não podem perdoar-me: mas como perdoar também aos que continuavam a estar serenamente com tanto amigo na prisão e tanta gente na suja guerra?
E desta nem sequer me posso despedir. René Char, guerrilheiro e poeta, bem o sabia: há guerras que não acabam nunca.
Havemos de trazer sempre, ó camaradas dos cam­pos de batalha, havemos de trazer sempre dentro de nós esta que foi a nossa guerra. Havemos de trazer os vivos e os mortos, os que vieram e os que ficaram. Há mortos que ninguém pode enterrar. Há guerras que não acabam nunca. O francês bem avisou: «Afas­tai de vós o cepticismo e a resignação, e preparai a vossa alma mortal para afrontar intramuros os demó­nios gelados análogos aos génios que têm o tamanho de micróbios.»
A nossa vida foi ocupada. Dentro de mim há um Alferes Cristóvão Rilke que continua a cavalgar. Talvez a nossa alma tenha ficado mutilada. Duarte de Almeida está sem braços, mas eu vi, no mais íntimo de mim eu vi, ele continua a segurar nos dentes não sei se a caneta, se a palavra por dizer, se a bandeira esfarrapada da nossa honra.
E desta vez não me despeço, sou um alferes miliciano, há guerras que não acabam nunca, elas são a vida, elas são a escrita, afastai de vós o cepticismo e os micróbios, a página está em branco e o nosso destino é cavalgar, cavalgar, cavalgar.
Manuel Alegre, Rafael

2 de agosto de 2005


José Afonso (1929-1987)



CANÇÃO DE EMBALAR

Dorme meu menino a estrela d'alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será p'ra ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d'alva o seu fulgor

Perde a estrela d'alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme qu'inda a noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer

José Afonso

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1 de agosto de 2005


António Maria Lisboa (1928-1953)



As formas, as sombras, a luz que descobre a noite
e um pequeno pássaro

e depois longo tempo eu te perdi de vista
meus braços são dois espaços enormes
os meus olhos são duas garrafas de vento

e depois eu te conheço de novo numa rua isolada
minhas pernas são duas árvores floridas
os meus dedos uma plantação de sargaços

a tua figura era ao que me lembro
da cor do jardim.

António Maria Lisboa

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30 de julho de 2005


Emily Brontë (1818-1848)


Não sei como explicá-lo, mas certamente que tu e toda a gente têm a noção de que existe, ou deveria existir, um outro eu para além de nós próprios. Para que serviria eu ter sido criada, se apenas me resumisse a isto? Os meus grandes desgostos neste mundo foram os desgostos do Heathcliff, e eu acompanhei e senti cada um deles desde o início; é ele que me mantém viva. Se tudo o mais perecesse e ele ficasse, eu continuaria, mesmo assim, a existir; e, se tudo o mais ficasse e ele fosse aniquilado, o universo tornar-se-ia para mim numa vastidão desconhecida, a que eu não teria a sensação de pertencer. O meu amor pelo Linton é como a folhagem dos bosques: transformar-se-á com o tempo, sei-o bem, como as árvores se transformam com o Inverno. Mas o meu amor por Heathcliff é como as penedias que nos sustentam: podem não ser um deleite para os olhos, mas são imprescindíveis. Nelly, eu sou o Heathcliff. Ele está sempre, sempre, no meu pensamento. Não por prazer, tal como eu não sou um prazer para mim própria, mas como parte de mim mesma, como eu própria. Portanto, não voltes a falar na nossa separação, pois é algo de impraticável, e...

Emily Brontë, O Alto dos Vendavais
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1993
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28 de julho de 2005


Jim Davis (1945)


24 de julho de 2005


Alexandre Dumas (1802-1870)


Alexandre Dumas recebia à linha nos romances que publicava em episódios e, por isso, era muitas vezes levado a aumentar o número de linhas, para ganhar um pouco mais. No capítulo XI de Os Três Mosqueteiros (ao qual voltaremos noutra conferência), d'Artagnan encontra a amada Constance Bonacieux, desconfia de que lhe é infiel e tenta descobrir por que se encontra ela de noite próximo da casa de Aramis. Eis uma parte, e só uma parte, do diálogo:

— Sem dúvida; Aramis é um dos meus melhores amigos.
— Aramis! Que quereis dizer?
— Então, não me digais que não conheceis Aramis...
— É a primeira vez que oiço pronunciar esse nome.
— É também a primeira que vindes a esta casa?
— Sem dúvida.
— E ignoráveis que era habitada por um homem?
— Ignorava.
— Por um mosqueteiro?
— Claro.
— Não foi portanto a ele que viestes procurar?
— De modo nenhum. Aliás, como bem vistes, a pessoa com quem falei era uma mulher.
— É verdade; mas essa mulher é uma amiga de Aramis.
— Não sei nada a tal respeito.
— Uma vez que mora com ele.
— Não tenho nada com isso.
— Mas quem é ela?
— Oh, esse é o meu segredo!
— Querida Sr.ª Bonacieux, sois encantadora; mas ao mesmo tempo sois a mulher mais misteriosa...
— E isso prejudica-me?
— Não, pelo contrário, torna-vos adorável.
— Então, dai-me o braço.
— Com muito prazer. E agora?
— E agora acompanhai-me.
— Aonde?
— Aonde vou.
— Mas aonde ides?
— Vê-lo-eis, pois deixar-me-eis à porta.
— Deverei esperar-vos?
— Seria útil.
— Regressareis, portanto, sozinha?
— Talvez sim e talvez não...
— Mas a pessoa que vos acompanhará depois será homem ou mulher?
— Por ora não sei.
— Sabê-lo-ei eu!
— Como?
— Esperar-vos-ei para vos ver sair.
— Nesse caso, adeus!
— Que dizeis?
— Que não preciso de vós.
— Mas pedistes-me...
— Pedi a ajuda de um gentil-homem e não a vigilância de um espião.
— A palavra é um pouco dura!
— Como se chamam aqueles que seguem as pessoas sem elas quererem?
— Indiscretos.
— A palavra é demasiado suave.
— Pronto, senhora, já vejo que se tem de fazer tudo o que quereis.
— Por que vos privastes do mérito de o fazer imediatamente?
— Não dais a ninguém o direito de se arrepender?
— E vós arrependei-vos de verdade?
— Nem eu próprio já sei. Mas o que sei é que vos prometo fazer tudo o que desejardes, se me deixardes acompanhar-vos aonde ides.
— E deixar-me-eis depois?
— Sim.
— Sem me espiardes à saída?
— Sim.
— Palavra de honra?
— Palavra de gentil-homem!
— Dai-me o braço e vamos então.

Umberto Eco, Seis Passeios nos Bosques da Ficção
Lisboa, Difel, 1997.



Robert Graves (1895-1985)


I, Tiberius Claudius Drusus Nero Germanicus This-that-and-the-other (for I shall not trouble you yet with all my titles) who was once, and not so long ago either, known to my friends and relatives and associates as “Claudius the Idiot”, or “That Claudius”, or “Claudius the Stammerer”, or “Clau-Clau-Claudius” or at best as “Poor Uncle Claudius”, am now about to write this strange history of my life; starting from my earliest childhood and continuing year by year until I reach the fateful point of change where, some eight years ago, at the age of fifty-one, I suddenly found myself caught in what I may call the “golden predicament” from which I have never since become disentangled.

This is not by all means my first book: in fact literature, and especially the writing of history — which as a young man I studied here at Rome under the best contemporary masters — was, until the change came, my sole profession and interest for more than thirty-five years. My readers must not therefore be surprised at my practised style: it is indeed Claudius himself who is writing this book, and no mere secretary of his, and not one of those official annalists, either, to whom public men are in the habit of communicating their recollections, in the hope that elegant writing will eke out meagreness of subject-matter and flattery soften vices. In the present work, I swear by all the Gods, I am my own mere secretary, and my own official annalist: I am writing with my own hand, and what favour can I hope to win from myself by flattery? I may add that this is not the first history of my own life that I have written. I once wrote another, in eight volumes, as a contribution to the city archives. It was a dull affair, by which I set little store, and only written in response to public request. To be frank, I was extremely busy with other matters during its composition, which was two years ago. I dictated most of the first volume to a Greek secretary of mine and told him to alter nothing as he wrote (except, where necessary, for the balance of the sentences, or to remove contradictions or repetitions). But I admit that nearly all the second half of the work, and some chapters at least of the first, were composed by this same fellow, Polybius (whom I had named myself, when a slave-boy, after the famous historian) from material that I gave him. And he modelled his style so accurately on mine that, really, when he had done, nobody could have guessed what was mine and what was his.

It was a dull book, I repeat. I was in no position to criticize the Emperor Augustus, who was my maternal grand-uncle, or his third and last wife, Livia Augusta, who was my grandmother, because they had both benn officially deified and I was connected in a priestly capacity with their cults; and though I could have pretty sharply criticized Augustus’s two unworthy Imperial successors, I refrained for decency’s sake. It would have been unjust to exculpate Livia, and Augustus himself in so far as he deferred to that remarkable and — let me say at once — abominable woman, while telling the truth about the other two, whose memories were not similarly protected by religious awe.

I let it be a dull book, recording merely such uncontroversial facts as, for example, that So-and-so married So-and-so, the daughter of Such-and-such who had this or that number of public honours to his credit, but not mentioning the political reasons for the marriage nor the behind-scene bargaining between the families. Or I would write that So-and-so died suddenly, after eating a dish of African figs, but say nothing of poison, or to whose advantage the death proved to be, unless the facts were supported by a verdict of the Criminal Courts. I told no lies, but neither did I tell the truth in the sense that I mean to tell it here. When I consulted this book to-day in the Apollo Library on the Palatine Hill, to refresh my memory for certain particulars of date, I was interested to come across passages in the public chapters which I could have sworn I had written or dictated, the style was so peculiarly my own, and yet which I had no recollection of writing or dictating. If they were by Polybius they were a wonderfully clever piece of mimicry (he had my other histories to study, I admit), but if they were really by myself then my memory is even worse than my enemies declare it to be. Reading over what I have just put down I see that I must be rather exciting than disarming suspicion, first as to my sole authorship of what follows, next as to my integrity as an historian, and finally as to my memory for facts. But I shall let it stand; it is myself writing as I feel, and as the history proceeds the reader will be the more ready to believe that I am hiding nothing — so much being to my discredit.

This is a confidential history. But who, it may be asked, are my confidants? My answer is: it is addressed to posterity. I do not mean my great-grandchildren, or my great-great-grandchildren: I mean an extremely remote posterity. Yet my hope is that you, my eventual readers of a hundred generations ahead, or more, will feel yourselves spoken to, as if by a contemporary: as often Herodotus and Thucydides, long dead, seem to speak to me. And why do I specify so extremely remote a posterity as that? I shall explain.
[...]

Robert Graves, I Claudius

Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos — a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. Todos estes meios tons da consciência da alma criam em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do que somos. O sentirmo-nos é então um campo deserto a escurecer, triste de juncos ao pé de um rio sem barcos, negrejando claramente entre margens afastadas.

[...]

Mas o que fica de sentir tudo isto é com certeza um desgosto da vida e de todos os seus gestos, um cansaço antecipado dos desejos e de todos os seus modos, um desgosto anónimo de todos os sentimentos. Nestas horas de mágoa subtil, torna-se-nos impossível, até em sonho, ser amante, ser herói, ser feliz. Tudo isso está vazio, até na ideia do que é. Tudo isso está dito em outra linguagem, para nós incompreensível, meros sons de sílabas sem forma no entendimento. A vida é oca, a alma é oca, o mundo é oco. Todos os deuses morrem de uma morte maior que a morte. Tudo está mais vazio que o vácuo. É tudo um caos de coisas nenhumas.

Se penso isto e olho, para ver se a realidade me mata a sede, vejo casas inexpressivas, caras inexpressivas, gestos inexpressivos. Pedras, corpos, ideias — está tudo morto. Todos os movimentos são paragens, a mesma paragem todos eles. Nada me diz nada. Nada me é conhecido, não porque o estranhe mas porque não sei o que é. Perdeu-se o mundo. E no fundo da minha alma — como única realidade deste momento — há uma mágoa intensa e invisível, uma tristeza como o som de quem chora num quarto escuro.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego
Lisboa, Assírio & Alvim, 1998.


23 de julho de 2005

The heart asks pleasure first,
And then, excuse from pain;
And then, those little anodynes
That deaden suffering;

And then, to go to sleep;
And then, if it should be
The will of its Inquisitor,
The liberty to die.

Emily Dickinson