18 de abril de 2005


Antero de Quental (1842-1891)
(Domingos Rebelo,"Retrato de Antero de Quental")


DESPONDENCY

Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram
Ninho e filhos e tudo, sem piedade...
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as asas partidas a levaram...

Deixá-la ir, a vela que arrojaram
Os tufões pelo mar, na escuridade,
Quando a noite surgiu da imensidade,
Quando os ventos do Sul se levantaram...

Deixá-la ir, a alma lastimosa,
Que perdeu fé e paz e confiança,
À morte queda, à morte silenciosa...

Deixá-la ir, a nota desprendida
Dum canto extremo... e a última esperança...
E a vida... e o amor... deixá-la ir, a vida!

Antero de Quental

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17 de abril de 2005

Life's Tragedy

It may be misery not to sing at all,
And to go silent through the brimming day;
It may be misery never to be loved,
But deeper griefs than these beset the way.

To sing the perfect song,
And by a half-tone lost the key,
There the potent sorrow, there the grief,
The pale, sad staring of Life's Tragedy.

To have come near to the perfect love,
Not the hot passion of untempered youth,
But that which lies aside its vanity,
And gives, for thy trusting worship, truth.

This, this indeed is to be accursed,
For if we mortals love, or if we sing,
We count our joys not by what we have,
But by what kept us from that perfect thing.

Paul Laurence Dunbar

2 de abril de 2005



Uma sugestão de leitura no Dia Mundial do Livro Infantil

O limpa-palavras

Limpo palavras.
Recolho-as à noite, por todo o lado:
a palavra bosque, a palavra casa, a palavra flor.
Trato delas durante o dia
enquanto sonho acordado.
A palavra solidão faz-me companhia.

Quase todas as palavras
precisam de ser limpas e acariciadas:
a palavra céu, a palavra nuvem, a palavra mar.
Algumas têm mesmo de ser lavadas,
é preciso raspar-lhes a sujidade dos dias
e do mau uso.
Muitas chegam doentes,
outras simplesmente gastas, estafadas,
dobradas pelo peso das coisas
que trazem às costas.

A palavra pedra pesa como uma pedra.
A palavra rosa espalha o perfume no ar.
A palavra árvore tem folhas, ramos altos.
Podes descansar à sombra dela.
A palavra gato espeta as unhas no tapete.
A palavra pássaro abre as asas para voar.
A palavra coração não pára de bater.
Ouve-se a palavra canção.
A palavra vento levanta os papéis no ar
e é preciso fechá-la na arrecadação.

No fim de tudo voltam os olhos para a luz
e vão para longe,
leves palavras voadoras
sem nada que as prenda à terra,
outra vez nascidas pela minha mão:
a palavra estrela, a palavra ilha, a palavra pão.

A palavra obrigado agradece-me.
As outras, não.
A palavra adeus despede-se.
As outras já lá vão, belas palavras lisas
e lavadas como seixos do rio:
a palavra ciúme, a palavra raiva, a palavra frio.
Vão à procura de quem as queira dizer,
de mais palavras e de novos sentidos.
Basta estenderes um braço para apanhares
a palavra barco ou a palavra amor.

Limpo palavras.
A palavra búzio, a palavra lua, a palavra palavra.
Recolho-as à noite, trato delas durante o dia.
A palavra fogão cozinha o meu jantar.
A palavra brisa refresca-me.
A palavra solidão faz-me companhia.


Álvaro Magalhães, O limpa-palavras e outros poemas

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Hans Christian Andersen (1805-1875)


O VALENTE SOLDADINHO DE CHUMBO

Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos iguaizinhos, pois haviam nascido da mesma velha colher de chumbo. Arma ao ombro, olhar firme, uniforme vermelho e azul; que orgulhoso aspecto eles tinham! A primeira coisa que ouviram neste mundo, quando foi erguida a tampa da caixa onde estavam cerrados, foi este grito: «Soldados de chumbo!», soltado por um razinho que batia alegremente as palmas. Haviam-lhe sido oferecidos como prenda do seu aniversário e ele divertia-se a pô-los em formatura em cima da mesa. Todos os soldados eram perfeitamente iguais, com excepção de um deles que apenas possuía uma perna: fora o último a sair do molde e o chumbo não fora suficiente. No entanto, mantinha-se tão firme sobre a sua única perna como os demais sobre as duas. É precisamente sobre ele que iremos concentrar a nossa atenção.
Em cima da mesa onde estavam alinhados os nossos soldadinhos, encontravam-se muitos outros brinquedos; mas o mais curioso deles todos era um encantador castelo de cartão. Através das suas janelinhas podiam-se ver as salas. Cá fora erguiam-se arvorezinhas em redor de um pequeno espelho que imitava um lago; cisnes de cera nadavam nesse lago, reflectindo-se nele. Tudo aquilo era muito bonito, mas o que havia de ainda mais bonito era uma pequena rapariga de pé junto da porta aberta do castelo. Também ela era de cartão, mas trazia um saiote de tule transparente e muito leve e pelas costas, à maneira de uma écharpe, uma fitinha azul, estreita, no meio da qual brilhava uma lantejoula tão grande como o seu rosto. A pequena rapariga connservava os braços erguidos, pois tratava-se de uma bailarina, (erguia uma perna tão alto que o soldadinho de chumbo nem a via, supondo que a rapariga apenas tinha, tal como ele, uma perna.
«Aqui está a mulher que me convinha», pensou ele, «mas é uma senhora. Mora num palácio, eu numa caixa com mais vinte e quatro camaradas e não encontraria na minha caserna lugar para ela. Apesar de tudo, é forçoso que trave conhecimento com ela.»
E, dizendo isto, estendeu-se atrás de uma caixa de tabaco. Dali podia contemplar à sua vontade a elegante bailarinazinha, que continuava a manter-se sobre uma perna, sem perder o equilíbrio.
À noite, todos os outros soldados foram colocados na sua caixa e as pessoas da casa foram-se deitar. Imediatamente os brinquedos começaram a divertir-se sozinhos: primeiro jogaram à cabra-cega, depois brincaram às guerras e, finalmente, organizaram um baile. Os soldados de chumbo estavam agitados dentro da sua caixa, pois gostariam muito de assistir, mas como poderiam erguer a tampa da caixa? O quebra-nozes deu cambalhotas e o pau de giz traçou mil e uma loucuras na ardósia. O ruído tornou-se tão forte que o canário acordou e desatou a cantar. Os únicos que não se mexiam era o soldado de chumbo e a pequena bailarina. Ela continuava a apoiar-se na ponta do pé, com os braços erguidos; ele, valentemente, sobre a sua única perna e sem deixar de a espiar.
Soou a meia-noite... e, crac!, eis que a tampa da caixa do tabaco salta, mas em vez de ter tabaco dentro, ela tinha um pequeno feiticeiro negro. Era uma caixa de surpresas.
— Soldado de chumbo—disse o feiticeiro—, dirige os teus olhares noutra direcção!
Mas o soldado fingiu não o ouvir.
— Espera por amanhã e irás ver! — insistiu o feiticeiro.
No dia seguinte, quando as crianças se levantaram, puseram o soldadinho de chumbo no parapeito da janela; subitamente, levado pelo feiticeiro ou pelo vento, tombou do terceiro andar, vindo cair de cabeça para baixo na rua. Que terrível queda! Encontrou-se com a perna no ar e todo o seu corpo apoiado na barretina e com a baioneta espetada entre as pedras do pavimento.
A criada e o rapazinho desceram para o procurar, mas por um triz não o espezinharam sem o ver. Se o soldado tivesse gritado «Tomem cuidado!», tê-lo-iam encontrado, mas pareceu-lhe que isso seria desonrar o uniforme.
A chuva começou a cair e em breve as bátegas se sucediam sem intervalo; verificou-se assim um verdadeiro dilúvio. Depois da tempestade, passaram por ali dois garotos:
— Olha— disse um deles —, está aqui um soldado de chumbo! Vamos transformá-lo em marinheiro.
Com um jornal velho fizeram um barco, meteram dentro o soldadinho e puseram o barco na valeta, por onde corria um rio de água. Os dois garotos corriam ao lado do barco, batendo as mãos. Que ondas, santo Deus! Como era forte a corrente! A verdade é que chovera a cântaros. O barco de papel balouçava sacudido pelas águas; mas, apesar de todas aquelas sacudidelas, o soldadinho de chumbo permanecia impassível, com o olhar firme e a arma ao ombro.
De repente o barco foi sorvido por uma sarjeta que dava para um canal onde era tão escuro como dentro da caixa dos soldados.
«Para onde vou eu agora?», pensou ele. «Sim, sim, é o feiticeiro que me faz todo este mal. No entanto, se a menina bailarina estivesse no barco comigo, a escuridão, mesmo que fosse duas vezes mais profunda, não me faria a mínima diferença.»
Subitamente surgiu uma grande ratazana habitante do canal:
— Mostra-me o teu passaporte, o teu passaporte!
Mas o soldadinho de chumbo manteve-se em silêncio e apertou a sua espingarda. O barco continuou o seu caminho e a ratazana perseguiu-o. Uff! Rangia os dentes e gritava às palhas e aos sacos de madeira: — Detenham-no! Detenham-no! Não pagou a passagem nem mostrou o passaporte.
A corrente, porém, tornava-se mais forte, cada vez mais forte, já o soldadinho divisava a luz do dia, ouvindo ao mesmo tempo um murmúrio capaz de assustar o mais intrépido dos homens. Havia no extremo do canal uma queda de água tão perigosa para ele como para nós seria uma catarata. Estava tão perto dela que não se podia deter. O barco precipitou-se: o pobre soldado conservava-se tão rígido quanto lhe era possível e ninguém teria ousado afirmar que ele sequer tivesse piscado os olhos. O barco, após ter rodado diversas vezes sobre si mesmo, enchera-se de água; ia-se afundar. A água subia até ao pescoço do soldado, o barco mergulhava cada vez mais. O papel desdobrava-se e a água fechava-se sobre a cabeça do nosso herói. Nessa altura pensou na gentil bailarinazinha que não voltaria a ver e julgou ouvir uma voz que cantava:

Soldado, o perigo é grande;
Eis a morte que te espera!

O papel desfez-se e o soldado, passando através dele, foi arrastado para o fundo. No mesmo instante foi devorado por um grande peixe.
Foi então que as coisas se puseram negras para o desgraçado! Era ainda pior que no canal. E, além disso, estava extremamente apertado. Sempre intrépido, porém, o soldadinho de chumbo estendeu-se ao comprido com a arma ao ombro.
O peixe agitava-se em todos os sentidos, fazendo pavorosos movimentos; finalmente deteve-se e pareceu ser trespassado por um clarão de luz. O dia surgiu e alguém exclamou: «Um soldado de chumbo!» O peixe fora pescado, vendido, levado para a cozinha e a cozinheira abrira-o com uma grande faca. Ela pegou com dois dedos o soldado de chumbo, pelo meio do corpo, e levou-o para a sala, onde toda a gente quis contemplar aquele homem notável que viajara no ventre de um peixe. No entanto, o soldado não estava vaidoso. Puseram-no em cima da mesa, e ali — como acontecem por vezes coisas estranhas no mundo! — encontrou-se na mesma casa de onde caíra pela janela. Reconheceu as crianças e os brinquedos que estavam em cima da mesa, o encantador castelo com a gentil bailarinazinha; conservava ainda uma perna no ar, pois também ela era valente. O soldadinho de chumbo ficou de tal modo comovido que desejaria ter chorado chumbo, mas isso não era nada conveniente. Olhou-a, ela olhou-o, mas não pronunciaram uma única palavra.
De repente, um rapazinho pegou nele, e sem qualquer razão, atirou-o ao fogo; era, sem dúvida, o feiticeiro da caixa de surpresas que causava tudo aquilo.
O soldadinho de chumbo ficou de pé, iluminado por um forte clarão, sofrendo um horrível calor. Todas as suas cores haviam desaparecido; ninguém saberia dizer se teria sido devido às vicissitudes da viagem ou ao desgosto. Continuava a fitar a rapariguinha e também ela o fitava. Sentia-se derreter; mas, sempre valente, conservava a sua espingarda ao ombro. Subitamente abriu-se uma porta, a corrente de ar arrebatou a bailarina e, como uma sílfide, voou sobre o fogo perto do soldado e desapareceu em chamas. O soldado de chumbo transformara-se num pequeno volume.
No dia seguinte, quando a criada veio tirar as cinzas, encontrou no meio delas um pequeno coração de chumbo; tudo o que restara da bailarina fora a lantejoula, que o fogo enegrecera completamente.

Hans Christian Andresen, Contos Imortais
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31 de março de 2005

Voam gaivotas rente ao chão.
Dizem que é a chuva a ir chegar.
Mas não, neste momento não:
São só gaivotas rente ao chão
Só a voar.

Assim também se há alegria
Dizem que assim que a dor que vem.
Talvez. Que importa? Se este dia
Tem aqui a sua alegria;
Que é que a dor tem?

Nada: só o rastro do futuro,
Quando vier, ficará triste.
Por ora é o dia bom e puro.
Hoje o futuro não existe.
Há um muro.

Goza o que tens, ébrio de seres!
Deixa o futuro onde ele está.
Poemas, vinho, ideais, mulheres —
Seja o que for se é o que há,
Há para o teres.

Mais tarde... Mas mais tarde sê
O que o mais tarde te for dando.
Por ora aceita, ignora e crê.
Sê rente à terra, mas voando,
Como a gaivota é.

Fernando Pessoa

Nota: Nem me atrevo a dizer que este é, possivelmente, o poema de Pessoa de que mais gosto, até porque talvez não seja verdade. Até porque posso reler a qualquer altura um outro poema e "lê-lo" pela primeira vez - e ser esse (re)lido o eleito. E por que é que se há-de ter um poema preferido de Pessoa?

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30 de março de 2005


Vincent Van Gogh (1853-1890)
Auto-retrato com chapéu de feltro (1888)

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29 de março de 2005

What famous work of art are you?





You Are Best Described By...









The Starry Night

by Vincent van Gogh



26 de março de 2005


Robert Frost (1874-1963)


ACQUAINTED WITH THE NIGHT


I have been one acquainted with the night.
I have walked out in rain -- and back in rain.
I have outwalked the furthest city light.

I have looked down the saddest city lane.
I have passed by the watchman on his beat
And dropped my eyes, unwilling to explain.

I have stood still and stopped the sound of feet
When far away an interrupted cry
Came over houses from another street,

But not to call me back or say good-bye;
And further still at an unearthly height,
O luminary clock against the sky

Proclaimed the time was neither wrong nor right.
I have been one acquainted with the night.

Robert Frost

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25 de março de 2005

Espero por ti no fim do mundo
ou no princípio dele,
enquanto as sementes secam ao sol
que não nasce
e as palavras se perdem num verso
sem peso nem medida.
És a que não chega:
promessa do amor que enche
os espelhos, brilho
da treva que assombra
o cristal.
E quando olho pela janela,
como se viesses do fundo da rua,
só a tarde dobra essa esquina
que te viu partir
com os olhos húmidos da manhã nua.
Sombra, cinzas e ruína
chegam em cada primavera; mas tu
só voltas donde não sei,
quando não espero
e onde não estou.

Nuno Júdice, Pedro Lembrando Inês

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23 de março de 2005

Escrevo algumas palavras. Quase sempre as mesmas.
Certa de que podes estar em cada uma delas: melodia, rua, talvez, regresso.
Ergo-te do silêncio, sílaba a sílaba, como se os sons falassem.
Como se escutasses.
Como se não soubesse que nunca ouvirias sorriso, poema, manhã, Amor.
Como se não fossem um sussurro que finges perceber
Delicadamente.

21 de março de 2005

Teorema

Imagem congelada: Big-Bang.
Retrato de metáfora. Teorema.
E gene a gene o gráfico do sangue.
Mas o princípio e o fim só o poema.

Explosão. Elipse. Universal redoma.
E o cromossoma. A carta. A geografia
do humano continente do genoma.
Mas o princípio e fim só poesia.

Quem fotografa o antes de ter sido?
E quem desenha o mapa do acabar?
Falta o porquê o de onde o para onde.

Morreremos de nunca ter sabido
morreremos de tanto perguntar.
E só o poema às vezes nos responde.

Manuel Alegre, Sonetos do Obscuro Quê

Porque hoje é o Dia Mundial da Poesia

19 de março de 2005

As you set out for Ithaka
hope your road is a long one,
full of adventure, full of discovery.
Laistrygonians, Cyclops,
angry Poseidon-don't be afraid of them:
you'll never find things like that on your way
as long as you keep your thoughts raised high,
as long as a rare excitement
stirs your spirit and your body.
Laistrygonians, Cyclops,
wild Poseidon-you won't encounter them
unless you bring them along inside your soul,
unless your soul sets them up in front of you.

Hope your road is a long one.
May there be many summer mornings when,
with what pleasure, what joy,
you enter harbors you're seeing for the first time;
may you stop at Phoenician trading stations
to buy fine things,
mother of pearl and coral, amber and ebony,
sensual perfume of every kind-
as many sensual perfumes as you can;
and may you visit many Egyptian cities
to learn and go on learning from their scholars.

Keep Ithaka always in your mind.
Arriving there is what you're destined for.
But don't hurry the journey at all.
Better if it lasts for years,
so you're old by the time you reach the island,
wealthy with all you've gained on the way,
not expecting Ithaka to make you rich.
Ithaka gave you the marvelous journey.
Without her you wouldn't have set out.
She has nothing left to give you now.

And if you find her poor, Ithaka won't have fooled you.
Wise as you will have become, so full of experience,
you'll have understood by then what these Ithakas mean.


C.P. Cavafy

(Tradução inglesa de Edmund Keeley e Philip Sherrard)

14 de março de 2005


Francisco José Viegas (1962)


REGRESSO POR OUTRO RIO

se regressar, será aos teus olhos que regresso.
os acasos ardem nos lábios dos amieiros que na margem do rio
aguardam que regresse. a isso regresso, buscando
coincidências e nomes, razões. afasto-me
provavelmente de ti, embora secretamente.

é por isso estranha a forma como os acasos ardem
para sempre. a outro rio e sob outras sombras
regresso, devagar para não ferir o que antes amei
e por quem morri muitas vezes. agora de novo morro

e por outro rio regresso até ao lugar onde elas, as aves,
nascem para não desaparecerem. e isso é como permanecer.

Francisco José Viegas

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