4 de agosto de 2005


Percy Bysshe Shelley (1792-1822)


One sung of thee who left the tale untold,
Like the false dawns which perish in the bursting;
Like empty cups of wrought and daedal gold,
Which mock the lips with air, when they are thirsting.


Percy Bysshe Shelley, Posthumous Poems


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3 de agosto de 2005

Quando dou por mim eu sou o Alferes Cristóvão Rilke, estou em Mafra a distribuir panfletos contra a ditadura e contra a guerra, mais tarde nos Açores, de­pois em Angola, cavalgando sempre, levando o pen­dão da revolta, às vezes lembrava-me das histórias que Geraldes da Veiga, meu pai, me contava, então era Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador, ou Duarte de Almeida, mesmo sem braços continuo a segurar nos dentes uma bandeira. Sim, quando me dei conta, eu estava na História, metido no verbo acontecer até ao osso, até ao avesso, até doer, eu estava na História e a História estava na vida e uma e outra estavam na es­crita, nada sabia das tertúlias nem dos cafés onde ao fim da tarde descia o anjo, sabia das picadas e das mi­nas, dos medos e dos mortos, dos nomes das mães e das namoradas escritos na terra com o próprio san­gue. Essa era também a minha letra, a minha caligra­fia, a minha escrita.
Sei bem que não podem perdoar-me: mas como perdoar também aos que continuavam a estar serenamente com tanto amigo na prisão e tanta gente na suja guerra?
E desta nem sequer me posso despedir. René Char, guerrilheiro e poeta, bem o sabia: há guerras que não acabam nunca.
Havemos de trazer sempre, ó camaradas dos cam­pos de batalha, havemos de trazer sempre dentro de nós esta que foi a nossa guerra. Havemos de trazer os vivos e os mortos, os que vieram e os que ficaram. Há mortos que ninguém pode enterrar. Há guerras que não acabam nunca. O francês bem avisou: «Afas­tai de vós o cepticismo e a resignação, e preparai a vossa alma mortal para afrontar intramuros os demó­nios gelados análogos aos génios que têm o tamanho de micróbios.»
A nossa vida foi ocupada. Dentro de mim há um Alferes Cristóvão Rilke que continua a cavalgar. Talvez a nossa alma tenha ficado mutilada. Duarte de Almeida está sem braços, mas eu vi, no mais íntimo de mim eu vi, ele continua a segurar nos dentes não sei se a caneta, se a palavra por dizer, se a bandeira esfarrapada da nossa honra.
E desta vez não me despeço, sou um alferes miliciano, há guerras que não acabam nunca, elas são a vida, elas são a escrita, afastai de vós o cepticismo e os micróbios, a página está em branco e o nosso destino é cavalgar, cavalgar, cavalgar.
Manuel Alegre, Rafael

2 de agosto de 2005


José Afonso (1929-1987)



CANÇÃO DE EMBALAR

Dorme meu menino a estrela d'alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será p'ra ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d'alva o seu fulgor

Perde a estrela d'alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme qu'inda a noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer

José Afonso

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1 de agosto de 2005


António Maria Lisboa (1928-1953)



As formas, as sombras, a luz que descobre a noite
e um pequeno pássaro

e depois longo tempo eu te perdi de vista
meus braços são dois espaços enormes
os meus olhos são duas garrafas de vento

e depois eu te conheço de novo numa rua isolada
minhas pernas são duas árvores floridas
os meus dedos uma plantação de sargaços

a tua figura era ao que me lembro
da cor do jardim.

António Maria Lisboa

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30 de julho de 2005


Emily Brontë (1818-1848)


Não sei como explicá-lo, mas certamente que tu e toda a gente têm a noção de que existe, ou deveria existir, um outro eu para além de nós próprios. Para que serviria eu ter sido criada, se apenas me resumisse a isto? Os meus grandes desgostos neste mundo foram os desgostos do Heathcliff, e eu acompanhei e senti cada um deles desde o início; é ele que me mantém viva. Se tudo o mais perecesse e ele ficasse, eu continuaria, mesmo assim, a existir; e, se tudo o mais ficasse e ele fosse aniquilado, o universo tornar-se-ia para mim numa vastidão desconhecida, a que eu não teria a sensação de pertencer. O meu amor pelo Linton é como a folhagem dos bosques: transformar-se-á com o tempo, sei-o bem, como as árvores se transformam com o Inverno. Mas o meu amor por Heathcliff é como as penedias que nos sustentam: podem não ser um deleite para os olhos, mas são imprescindíveis. Nelly, eu sou o Heathcliff. Ele está sempre, sempre, no meu pensamento. Não por prazer, tal como eu não sou um prazer para mim própria, mas como parte de mim mesma, como eu própria. Portanto, não voltes a falar na nossa separação, pois é algo de impraticável, e...

Emily Brontë, O Alto dos Vendavais
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1993
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28 de julho de 2005


Jim Davis (1945)


24 de julho de 2005


Alexandre Dumas (1802-1870)


Alexandre Dumas recebia à linha nos romances que publicava em episódios e, por isso, era muitas vezes levado a aumentar o número de linhas, para ganhar um pouco mais. No capítulo XI de Os Três Mosqueteiros (ao qual voltaremos noutra conferência), d'Artagnan encontra a amada Constance Bonacieux, desconfia de que lhe é infiel e tenta descobrir por que se encontra ela de noite próximo da casa de Aramis. Eis uma parte, e só uma parte, do diálogo:

— Sem dúvida; Aramis é um dos meus melhores amigos.
— Aramis! Que quereis dizer?
— Então, não me digais que não conheceis Aramis...
— É a primeira vez que oiço pronunciar esse nome.
— É também a primeira que vindes a esta casa?
— Sem dúvida.
— E ignoráveis que era habitada por um homem?
— Ignorava.
— Por um mosqueteiro?
— Claro.
— Não foi portanto a ele que viestes procurar?
— De modo nenhum. Aliás, como bem vistes, a pessoa com quem falei era uma mulher.
— É verdade; mas essa mulher é uma amiga de Aramis.
— Não sei nada a tal respeito.
— Uma vez que mora com ele.
— Não tenho nada com isso.
— Mas quem é ela?
— Oh, esse é o meu segredo!
— Querida Sr.ª Bonacieux, sois encantadora; mas ao mesmo tempo sois a mulher mais misteriosa...
— E isso prejudica-me?
— Não, pelo contrário, torna-vos adorável.
— Então, dai-me o braço.
— Com muito prazer. E agora?
— E agora acompanhai-me.
— Aonde?
— Aonde vou.
— Mas aonde ides?
— Vê-lo-eis, pois deixar-me-eis à porta.
— Deverei esperar-vos?
— Seria útil.
— Regressareis, portanto, sozinha?
— Talvez sim e talvez não...
— Mas a pessoa que vos acompanhará depois será homem ou mulher?
— Por ora não sei.
— Sabê-lo-ei eu!
— Como?
— Esperar-vos-ei para vos ver sair.
— Nesse caso, adeus!
— Que dizeis?
— Que não preciso de vós.
— Mas pedistes-me...
— Pedi a ajuda de um gentil-homem e não a vigilância de um espião.
— A palavra é um pouco dura!
— Como se chamam aqueles que seguem as pessoas sem elas quererem?
— Indiscretos.
— A palavra é demasiado suave.
— Pronto, senhora, já vejo que se tem de fazer tudo o que quereis.
— Por que vos privastes do mérito de o fazer imediatamente?
— Não dais a ninguém o direito de se arrepender?
— E vós arrependei-vos de verdade?
— Nem eu próprio já sei. Mas o que sei é que vos prometo fazer tudo o que desejardes, se me deixardes acompanhar-vos aonde ides.
— E deixar-me-eis depois?
— Sim.
— Sem me espiardes à saída?
— Sim.
— Palavra de honra?
— Palavra de gentil-homem!
— Dai-me o braço e vamos então.

Umberto Eco, Seis Passeios nos Bosques da Ficção
Lisboa, Difel, 1997.



Robert Graves (1895-1985)


I, Tiberius Claudius Drusus Nero Germanicus This-that-and-the-other (for I shall not trouble you yet with all my titles) who was once, and not so long ago either, known to my friends and relatives and associates as “Claudius the Idiot”, or “That Claudius”, or “Claudius the Stammerer”, or “Clau-Clau-Claudius” or at best as “Poor Uncle Claudius”, am now about to write this strange history of my life; starting from my earliest childhood and continuing year by year until I reach the fateful point of change where, some eight years ago, at the age of fifty-one, I suddenly found myself caught in what I may call the “golden predicament” from which I have never since become disentangled.

This is not by all means my first book: in fact literature, and especially the writing of history — which as a young man I studied here at Rome under the best contemporary masters — was, until the change came, my sole profession and interest for more than thirty-five years. My readers must not therefore be surprised at my practised style: it is indeed Claudius himself who is writing this book, and no mere secretary of his, and not one of those official annalists, either, to whom public men are in the habit of communicating their recollections, in the hope that elegant writing will eke out meagreness of subject-matter and flattery soften vices. In the present work, I swear by all the Gods, I am my own mere secretary, and my own official annalist: I am writing with my own hand, and what favour can I hope to win from myself by flattery? I may add that this is not the first history of my own life that I have written. I once wrote another, in eight volumes, as a contribution to the city archives. It was a dull affair, by which I set little store, and only written in response to public request. To be frank, I was extremely busy with other matters during its composition, which was two years ago. I dictated most of the first volume to a Greek secretary of mine and told him to alter nothing as he wrote (except, where necessary, for the balance of the sentences, or to remove contradictions or repetitions). But I admit that nearly all the second half of the work, and some chapters at least of the first, were composed by this same fellow, Polybius (whom I had named myself, when a slave-boy, after the famous historian) from material that I gave him. And he modelled his style so accurately on mine that, really, when he had done, nobody could have guessed what was mine and what was his.

It was a dull book, I repeat. I was in no position to criticize the Emperor Augustus, who was my maternal grand-uncle, or his third and last wife, Livia Augusta, who was my grandmother, because they had both benn officially deified and I was connected in a priestly capacity with their cults; and though I could have pretty sharply criticized Augustus’s two unworthy Imperial successors, I refrained for decency’s sake. It would have been unjust to exculpate Livia, and Augustus himself in so far as he deferred to that remarkable and — let me say at once — abominable woman, while telling the truth about the other two, whose memories were not similarly protected by religious awe.

I let it be a dull book, recording merely such uncontroversial facts as, for example, that So-and-so married So-and-so, the daughter of Such-and-such who had this or that number of public honours to his credit, but not mentioning the political reasons for the marriage nor the behind-scene bargaining between the families. Or I would write that So-and-so died suddenly, after eating a dish of African figs, but say nothing of poison, or to whose advantage the death proved to be, unless the facts were supported by a verdict of the Criminal Courts. I told no lies, but neither did I tell the truth in the sense that I mean to tell it here. When I consulted this book to-day in the Apollo Library on the Palatine Hill, to refresh my memory for certain particulars of date, I was interested to come across passages in the public chapters which I could have sworn I had written or dictated, the style was so peculiarly my own, and yet which I had no recollection of writing or dictating. If they were by Polybius they were a wonderfully clever piece of mimicry (he had my other histories to study, I admit), but if they were really by myself then my memory is even worse than my enemies declare it to be. Reading over what I have just put down I see that I must be rather exciting than disarming suspicion, first as to my sole authorship of what follows, next as to my integrity as an historian, and finally as to my memory for facts. But I shall let it stand; it is myself writing as I feel, and as the history proceeds the reader will be the more ready to believe that I am hiding nothing — so much being to my discredit.

This is a confidential history. But who, it may be asked, are my confidants? My answer is: it is addressed to posterity. I do not mean my great-grandchildren, or my great-great-grandchildren: I mean an extremely remote posterity. Yet my hope is that you, my eventual readers of a hundred generations ahead, or more, will feel yourselves spoken to, as if by a contemporary: as often Herodotus and Thucydides, long dead, seem to speak to me. And why do I specify so extremely remote a posterity as that? I shall explain.
[...]

Robert Graves, I Claudius

Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos — a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. Todos estes meios tons da consciência da alma criam em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do que somos. O sentirmo-nos é então um campo deserto a escurecer, triste de juncos ao pé de um rio sem barcos, negrejando claramente entre margens afastadas.

[...]

Mas o que fica de sentir tudo isto é com certeza um desgosto da vida e de todos os seus gestos, um cansaço antecipado dos desejos e de todos os seus modos, um desgosto anónimo de todos os sentimentos. Nestas horas de mágoa subtil, torna-se-nos impossível, até em sonho, ser amante, ser herói, ser feliz. Tudo isso está vazio, até na ideia do que é. Tudo isso está dito em outra linguagem, para nós incompreensível, meros sons de sílabas sem forma no entendimento. A vida é oca, a alma é oca, o mundo é oco. Todos os deuses morrem de uma morte maior que a morte. Tudo está mais vazio que o vácuo. É tudo um caos de coisas nenhumas.

Se penso isto e olho, para ver se a realidade me mata a sede, vejo casas inexpressivas, caras inexpressivas, gestos inexpressivos. Pedras, corpos, ideias — está tudo morto. Todos os movimentos são paragens, a mesma paragem todos eles. Nada me diz nada. Nada me é conhecido, não porque o estranhe mas porque não sei o que é. Perdeu-se o mundo. E no fundo da minha alma — como única realidade deste momento — há uma mágoa intensa e invisível, uma tristeza como o som de quem chora num quarto escuro.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego
Lisboa, Assírio & Alvim, 1998.


23 de julho de 2005

The heart asks pleasure first,
And then, excuse from pain;
And then, those little anodynes
That deaden suffering;

And then, to go to sleep;
And then, if it should be
The will of its Inquisitor,
The liberty to die.

Emily Dickinson

20 de julho de 2005


Gastão Cruz (1941)


7

Tudo o que puderes dizer-me
agora que ainda não é noite
enquanto ainda não se espera
a solidão mas talvez já a
morte agora que passamos
o rio sem que a noite
já sem a noite
atravessamos tudo diz-me tudo
o que subitamente se desprende
de tudo diz-me sem que na voz sem
que o sentido do que dizes seja o que
sentimos na escuridão
do sangue sem que o medo do amor
ou a vida o rio que
passamos a tarde
que sentimos tudo
digam

Gastão Cruz, "Alteração"

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19 de julho de 2005

Degas, «Danseuses bleues»
Edgar Degas (1834-1917)

18 de julho de 2005


Yevgeny Yevtushenko (1933)



ASSIGNATION

No, No! Believe me!
I’ve come to the wrong place!
I’ve made a god-awful mistake! Even the glass
in my hand’s an accident,
and so’s the gauze glance
of the woman who runs the joint.
"Let’s dance, huh?
You’re pale...
Didn’t get enough sleep?"
And I feel like there’s no place
to hide, but say, anyway, in a rush
"I’ll go get dressed...
No, no...it’s just
that I ended up out of bounds..."
And later, trailing me as I leave:
"This is where booze gets you...
What do you mean, ‘not here’? Right here! Right here every time!
You bug everybody, and you’re so satisfied
with yourself, Zhenichka,
you’ve got a problem."
I shove the frost of my hands
down my pockets, and the streets around are snow,
deep snow. I dive into a cab. Buddy, kick this thing! Behind
the Falcon
there’s a room. They’re supposed to be waiting for me there.
She opens the door,
but what the hell’s wrong with her?
Why the crazy look?
"It’s almost five o’clock.
You sure you couldn’t have come a little later?
Well, forget it. Come on in. Where else could you go now?"
Shall I explode
with a laugh
or maybe with tears?
I tell you I was scribbling doggerel,
but I got lost someplace.
I hide from the eyes. Wavering I move backwards:
"No, no! Believe me! I’ve come to the wrong place!"
Once again the night,
once again snow
and somebody’s insolent song,
and somebody’s clean, pure laughter.
I could do with a cigarette.
In the blizzard Pushkin’s demons flash past,
and their contemptuous, buck-toothed grin
scares me to death.
And the kiosks,
and the drugstores,
and the social security offices
scare me just as much...
No, no! Believe me! I’ve ended up
in the wrong place again...
It’s horrible to live
and even more horrible
not to live...
Ach, this being homeless
like the Wandering Jew...Lord! Now I’ve gotten myself
into the wrong century,
wrong epoch,
geologic era,
wrong number.
The wrong place again.
I’m wrong.
I’ve got it wrong...
I go, slouching my shoulders as I’d do
if I’d lost some bet,
and ah, I know it...everybody knows it...
I can’t pay off.

Yevgeny Yevtushenko
Tradução inglesa de James Dickey e Anthony Kahn

16 de julho de 2005


Mário Dionísio (1916-1995)



ASSOBIANDO À VONTADE

Àquela hora o trânsito complicava-se. As lojas, os escritórios, algumas oficinas, atiravam para a rua centenas de pessoas. E as ruas, as praças, as paragens dos eléctricos, que tinham sido planeadas quando não havia nas lojas, nos escritórios e nas oficinas tanta gente, ficavam repletas dum momento para o outro. Nos largos passeios das grandes praças havia encontrões. As pessoas de aprumo tinham de fechar os olhos àquele desacato e não viam remédio senão receber e dar encontrões também e praguejar algumas vezes. Os eléctricos apinhavam-se na linha à frente uns dos outros. Seguiam morosamente, carregados até aos estribos e por fora dos estri­bos, atrás, no salva-vidas, com as tais centenas de pessoas que saltavam àquela hora apressada­mente das lojas, dos escritórios, das oficinas. Além disso, nos dias bonitos como aquele, as ruas da Baixa enchiam-se de elegantes que iam dar a sua volta, às cinco horas, pelas lojas de novidades e pelas casas de chá, para matar o tempo de qual­quer maneira, ver caras conhecidas, cumprimen­tar e ser cumprimentadas, e só voltavam a casa à hora do jantar.
A multidão propunha uma confraternização à força. Era preciso pedir desculpa ao marçano que se acabava de pisar, implorar às pessoas pen­duradas no eléctrico que se apertassem um pouco mais para se poder arrumar um pé, nada mais que um pé, num cantinho do estribo, muitas vezes sorrir para gente que nunca se tinha visto antes e apetecia insultar. Os elegantes e as elegantes achavam naturalmente tudo isto muito aborre­cido. Sobretudo a necessidade absoluta de seguir naquelas plataformas repletas em que não viaja­vam só cavalheiros, mas muitos homenzinhos pouco correctos e onde esses mesmos homenzi­nhos e mulheres vulgares deitavam um cheiro insuportável. Que fazer, no entanto, senão ati­rar-se uma pessoa também para aquele mar de gente que empurrava, furava, pisava e barafus­tava até chegar ao carro? Que fazer senão em­purrar, furar, pisar e barafustar também?
O carro seguia morosamente e repleto como os outros. Felizmente, ainda havia alguns homens correctos na cidade e algumas mulherezinhas que conheciam o seu lugar. Só graças a isso as senhoras que tinham arriscado os seus sapatos e os seus chapéus naquela refrega e alguns cavalhei­ros respeitáveis conseguiam sentar-se.
Nos primeiros momentos de viagem, as pes­soas voltavam-se nos bancos, preocupadas, ten­tando ver se o marido, uma amiga, um filho, não teriam ficado em terra. Os que seguiam de pé ousavam dar um passo no interior do carro, a ver se teria ficado algum lugar vago por acaso. Havia logo protestos na plataforma. Depois as pessoas acomodavam-se o melhor que podiam, punham os braços no ar para livrar os embru­lhos do aperto, fechavam bem os casacos e as malas onde levavam o dinheiro, o condutor pu­xava energicamente o cordão da campainha mui­tas vezes, lotação completa, e o carro arras­tava-se em silêncio.
Os senhores respeitáveis, com compreensível e muda zanga dos companheiros do lado, come­çavam a desdobrar os jornais da tarde e a ler as notícias por alto. As senhoras, visivelmente mal dispostas, compunham os chapéus e as golas dos casacos. Tiravam os espelhinhos da mala e pas­savam tudo em revista: o chapéu, os cabelos, os olhos, os lábios. Era incrível. Uma tinha ficado com o chapéu completamente de banda, outra per­dera uma luva na confusão. Depois guardavam os espelhos, acomodavam-se melhor, percorriam com os dedos os anéis duma mão e da outra, para ver se estavam no lugar, se estavam todos. Olha­vam umas para as outras, muito sérias, como quem não repara em nada. Recuperavam pouco a pouco a dignidade que aquele despropósito da subida para o carro evaporara.
Nas curvas, as rodas chiavam nas calhas, de­baixo do grande peso. Silêncio enfim — embora de vez em quando cortado pela campainha, quando alguém tinha a triste ideia de querer descer, pelo desdobrar dos jornais, pela voz dos populares, encaixados na plataforma da frente.
Tudo voltara à normalidade. A marcha do carro, a cobrança dos bilhetes, a separação entre as pessoas, que rigorosamente não conseguiam separar-se umas das outras um centímetro que fosse. E, assim, morosamente, por curvas e rec­tas, por ruas e praças, aquele carro cumpria o seu destino de acarretar gente e ser insultado, numa das várias linhas que ligavam o centro da cidade aos bairros relativamente novos, onde a separa­ção entre a chamada classe média e as camadas mais baixas da população não fora ainda conve­nientemente estabelecida.
Em dada altura, porém, na plataforma de trás levantou-se burburinho. Protestos. Indignação. Cabeças voltaram-se no interior do carro. E viu-se um homenzinho a empurrar toda a gente e a dizer que havia lugares à frente, que o deixassem passar. Em vão lhe asseguravam que não havia lugar nenhum, que não podia passar, que não fosse bruto. O homem empurrava e teimava que havia lugares à frente. Tanto empurrou que fu­rou. Tanto furou que conseguiu entrar no inte­rior do eléctrico, avançou e foi sentar-se num lugar de lado que estava efectivamente vago lá à frente, ao lado duma senhora por sinal opulenta.
Foi um espanto geral e silencioso. Ninguém tinha reparado no lugar. E menos que ninguém, como é fácil de compreender, a própria senhora opulenta. Todos os atrevidos têm sorte.
O homem, que usava um chapéu coçado e um sobretudo castanho bastante lustroso nas bandas, não se sentou propriamente. Enterrou-se no lu­gar, com as mãos enfiadas pelas algibeiras den­tro. Que sujeito! Devia ser mais novo do que parecia por causa do cabelo grisalho e da barba por fazer. A senhora opulenta franziu a testa e reme­xeu-se no lugar, se assim se pode dizer, como quem procura ocupar menos espaço. Na verdade, apenas se instalou melhor. A sua intenção era fazer o homenzinho reparar na inconveniência da atitude que tomara. Mas ele não viu nada disso ou fingiu que não viu. Olhou vagamente as pessoas que tinha na frente, estendeu os lábios e começou a assobiar. A assobiar muito à vontade no inte­rior do carro!
Primeiro, foi um assobio baixinho, pouco se­guro, imperceptível quase. Depois, a pouco e pouco, o sujeitinho entusiasmou-se. E o assobio aumentou de intensidade. Ouvia-se já em todo o eléctrico. Os passageiros, que tinham recupe­rado com tanto custo a sua dignidade, fingiam que não davam pelo homem nem pelo assobio. E sossegaram quando o condutor se dirigiu ao recém-vindo. Ia aconselhá-lo a calar-se, com certeza. Mas qual! Com o maço dos bilhetes na mão e de alicate espetado, limitou-se a dizer: «O senhor?» O passageiro tirou a mão da algi­beira e, sem deixar de assobiar, estendeu-a com a palma voltada para cima. Esperou que lhe levassem a moeda, recebeu o bilhete e tornou a enfiar a mão pela algibeira dentro. Toda a gente seguia a cena, interessada. Mas, quando o homem olhou as pessoas, ao acaso, voltaram todas os olhos como se ele afinal não existisse.
O assobio, umas vezes, era baixo, mal se ouvia, outras vezes, alto, muito alto, com trinados ridí­culos e irritantes. Ninguém sabia o que ele asso­biava. E o homem também não. Qualquer coisa que lhe apetecia que fosse assim mesmo. Às vezes repetia os sons como um estribilho. Outras vezes, porém, a maior parte das vezes, passava a novas combinações, ora brandas, ora violentas, sem que­rer saber para nada das que ficavam para trás.
As pessoas começavam a olhar umas para as outras à socapa. Já se tinha visto coisa assim? Um ou outro cavalheiro levantava os olhos do jornal, franzia a testa, fitava com dureza o ho­mem do chapéu coçado e sobretudo castanho, na esperança de que ele, envergonhado, parasse com aquilo. A senhora opulenta, no auge do espanto, nem se atrevia a olhar para lado nenhum, vexadíssima porque, sem ter culpa nenhuma, se en­contrava em plena zona do escândalo. A que uma pessoa está sujeita!
E, no silêncio do carro, o assobio aumentava de volume. Talvez, no fundo, aquele gorjeio ridí­culo não fosse desagradável de todo. Simples­mente, um eléctrico não é o local mais próprio para exibições daquelas. Porque não interferiria o condutor? O condutor era a autoridade do carro. Porque não interferiria? Estava-se a ver. Era tão bom como ele. A verdade, porém, é que não se conhecia nenhum regulamento que impe­disse os passageiros de assobiar. Colados aos vidros do eléctrico, havia papéis que proibiam fumar, cuspir no carro. Era proibido abrir as janelas durante os meses de Inverno. Mas nem uma palavra a respeito de assobios.
De repente, uma criança que ia sentada junto duma janela e já se sentia enfastiada de olhar para a rua interessou-se pelo homem. Achava-lhe tanta graça, com o seu chapéu coçado, o seu sobretudo castanho, o seu assobio... Era uma criança muito pálida, de cabelos louros e encara­colados, vestida de azul. Interessou-se tanto pelo homem que começou a bater palmas. Mas uma senhora nova e bonita, que ia ao lado dela, segu­rou-lhe as mãos com gentileza e afastou-lhas. Devia ir calada e quietinha. Era muito feio fazer barulho no eléctrico. Uma menina bonita não fazia barulho. «Que disse eu à minha filha?» No entanto, a senhora nova e bonita não antipatizava com o homem. Olhava os embrulhos de papel vistoso que trazia nos joelhos e pensava: se não pudesse mais e começasse também a assobiar? No fundo, admirava a sem-cerimónia do homem do chapéu coçado. Não seria adorável ela própria, uma senhora casada e mãe duma garota de cinco anos, começar a assobiar num eléctrico se lhe apetecesse? Quando era da idade da filha, a se­nhora bonita ia muitas vezes ao campo vestida com coisas velhas para poder atirar-se para a relva à vontade. Tinha uma voz muito suave e muito fresca, gostava de fazer precisamente aquilo que uma menina bonita não deve fazer. Os amigos do pai pegavam-lhe ao colo, atiravam-na ao ar. E ela ria, ria, ria até ficar sufocada. A mãe dizia: «Pronto, pronto, vamos a ter juízo, não se ri assim dessa maneira.» E, quanto mais lho di­ziam, mais lhe apetecia rir, rir, rir.
De vez em quando, um passageiro saía. A pla­taforma do carro ia-se esvaziando. E, pouco a pouco, os que ficavam foram-se habituando àquele estúpido assobio. Os cavalheiros tinham esque­cido os jornais. Algumas senhoras sorriam. Já se vira um disparate assim? Principalmente a senhora opulenta não podia mais. Apertava os lá­bios. Sentada num banco de lado, encontrava os olhos de toda a gente. Era irresistível. E a se­nhora bonita pensava em ar livre e nos tempos da infância. Na escola aprendera a assobiar e a lançar o pião. Havia vozes que tinham ficado den­tro dela: «Uma menina a assobiar, Nini?»
Em dada altura, o homem, sem deixar de asso­biar, levantou-se e puxou o cordão da campainha. Era um homenzinho insignificante, ainda novo e já de cabelos grisalhos, chapéu coçado, sobre­tudo castanho muito lustroso nas bandas. Mas havia nele uma indiferença soberana pelo eléc­trico inteiro. Toda a gente o olhava. Com des­prezo? Com ironia? Com inveja? Abriu a porta, fechou-a e saltou com o carro ainda em anda­mento.
As pessoas voltaram-se então umas para as outras, não resistiram mais e riram mesmo. Que homenzinho patusco! Desculpavam-se, explica­vam-se sem palavras. Entendiam-se. Um minuto de simplicidade e simpatia iluminou-as. A criança que batera palmas limpou com a mão o vidro em­baciado da janela à procura do estranho passa­geiro. Viu-o atravessar a rua, seguir pelo passeio agarrado às casas, desaparecer.
Só então a senhora nova e bonita, que era a mãe da criança, abriu os olhos. Ninguém hoje lhe chamava Nini. Nini era a filha. Ela agora é que dizia à filha: «Uma menina a assobiar, Nini! Uma menina bonita não faz barulho.»
Ficara nos lábios e nos olhos de todos um sorriso de bondosa ingenuidade. Depois esse sor­riso foi-se apagando. Morreu. As pessoas tomaram consciência da sua momentânea quebra de compostura. Lembraram-se dos seus embrulhos, dos seus anéis, dos seus jornais. Que patetice! Não havia outra palavra para aquilo. Que pate­tice ! Os cavalheiros recomeçaram a ler os títulos das notícias. As senhoras deram um toque nas golas dos casacos. A criança tornou a olhar para a rua.
Tudo voltou, pesadamente, a encher-se de silêncio e dignidade.

Mário Dionísio,
O Dia Cinzento e outros contos

15 de julho de 2005


Walter Benjamin (1842-1940)


A Klee painting named Angelus Novus* shows an angel looking as though he is about to move away from something he is fixedly contemplating. His eyes are staring, his mouth is open, his wings are spread. This is how one pictures the angel of history. His face is turned toward the past. Where we perceive a chain of events, he sees one single catastrophe which keeps piling wreckage and hurls it in front of his feet. The angel would like to stay, awaken the dead, and make whole what has been smashed. But a storm is blowing in from Paradise; it has got caught in his wings with such a violence that the angel can no longer close them. The storm irresistibly propels him into the future to which his back is turned, while the pile of debris before him grows skyward. This storm is what we call progress.
ARTE DE INVENTAR OS PERSONAGENS

Pomo-nos bem de pé, com os braços muito abertos
e olhos fitos na linha do horizonte
Depois chamamo-los docemente pelos nomes
e os personagens aparecem

Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação

14 de julho de 2005


Gustav Klimt (1862-1918), The Death of Juliet

13 de julho de 2005

BREATHING TOGETHER


You can
reach into me
anywhere
deep as you can;

in pleasure,
in pain,
I slip away
from you;

in language,
in words,
here
you are breathing
me in,
you inhale me
completely.

Barbara Korum

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12 de julho de 2005

Modigliani, «Alice»
Modigliani (1884-1920)

11 de julho de 2005


Pablo Neruda (1904-1973)


POEMA V


Para que tú me oigas
mis palabras
se adelgazan a veces
como las huellas de las gaviotas en las playas.

Collar, cascabel ebrio
para tus manos suaves como las uvas.

Y las miro lejanas mis palabras.
Más que mías son tuyas.
Van trepando en mi viejo dolor como las yedras.

Ellas trepan así por las paredes húmedas.
Eres tú la culpable de este juego sangriento.

Ellas están huyendo de mi guarida oscura.
Todo lo llenas tú, todo lo llenas.

Antes que tú poblaron la soledad que ocupas,
y están acostumbradas más que tú a mi tristeza.

Ahora quiero que digan lo que quiero decirte
para que tú las oigas como quiero que me oigas.

El viento de la angustia aún las suele arrastrar.
Huracanes de sueños aún a veces las tumban.

Escuchas otras voces en mi voz dolorida.
Llanto de viejas bocas, sangre de viejas súplicas.
Ámame, compañera. No me abandones. Sígueme.
Sígueme, compañera, en esa ola de angustia.

Pero se van tiñendo con tu amor mis palabras.
Todo lo ocupas tú, todo lo ocupas.

Voy haciendo de todas un collar infinito
para tus blancas manos, suaves como las uvas.


Pablo Neruda





10 de julho de 2005


Marcel Proust (1871-1922)


Longtemps, je me suis couché de bonne heure. Parfois, à peine ma bougie éteinte, mes yeux se fermaient si vite que je n’avais pas le temps de me dire: «Je m’endors.» Et, une demi-heure après, la pensée qu’il était temps de chercher le sommeil m’éveillait; je voulais poser le volume que je croyais avoir encore dans les mains et souffler ma lumière; je n’avais pas cessé en dormant de faire des réflexions sur ce que je venais de lire, mais ces réflexions avaient pris un tour un peu particulier; il me semblait que j’étais moi-même ce dont parlait l’ouvrage: une église, un quatuor, la rivalité de François Ier et de Charles Quint. Cette croyance survivait pendant quelques secondes à mon réveil; elle ne choquait pas ma raison mais pesait comme des écailles sur mes yeux et les empêchait de se rendre compte que le bougeoir n’était plus allumé. Puis elle commençait à me devenir inintelligible, comme après la métempsycose les pensées d’une existence antérieure; le sujet du livre se détachait de moi, j’étais libre de m’y appliquer ou non; aussitôt je recouvrais la vue et j’étais bien étonné de trouver autour de moi une obscurité, douce et reposante pour mes yeux, mais peut-être plus encore pour mon esprit, à qui elle apparaissait comme une chose sans cause, incompréhensible, comme une chose vraiment obscure. Je me demandais quelle heure il pouvait être; j’entendais le sifflement des trains qui, plus ou moins éloigné, comme le chant d’un oiseau dans une forêt, relevant les distances, me décrivait l’étendue de la campagne déserte où le voyageur se hâte vers la station prochaine; et le petit chemin qu’il suit va être gravé dans son souvenir par l’excitation qu’il doit à des lieux nouveaux, à des actes inaccoutumés, à la causerie récente et aux adieux sous la lampe étrangère qui le suivent encore dans le silence de la nuit, à la douceur prochaine du retour.


Marcel Proust, À la Recherche du Temps Perdu


Estoy desnudo ante el agua inmóvil. He dejado mi ropa en el
silencio de las últimas ramas.

Esto era el destino:

llegar al borde y tener miedo de la quietud del agua.


Antonio Gamoneda

Camille Pissarro, «Les Côteaux de l'Hermitage»
Camille Pissarro (1830-1903)

8 de julho de 2005

Despede-te de mim, bate devagar à porta:
tenho vontade de recomeçar, reerguer escombros,
ruínas, tarefas de pão e linho, não dar
nome às coisas senão o de um vago esquecimento,

abandono. Despede-te de mim como se a vida
recomeçasse agora, não me procures onde
a memória arde e o destino se ausenta.

Tudo são banalidades, afinal, quando assim
se recomeça e a vida falha como um material
solar e ilhéu. Levamos poucas coisas, basta
um pouco de ar, os objectos fixos em repouso,

os muros brancos de uma casa, o espaço
de uma mão. Arrumo as malas e os sinais,
aquilo que nos adormece em plena tempestade.


Francisco José Viegas, Metade da Vida

5 de julho de 2005

[back to whatever i. was doing]

E porquê esta urgência em ter tudo ou não serei nada, necessidade compulsiva de morte em confronto com a minha loucura, quando nem sequer preciso dela, o silêncio é mais o que sou e é isso que me ecoa de há quanto se passou, e é por isso que morro, por isto e por quanto me não.
acorda, é tempo, o sol, já alto e pleno, afugentou as larvas tumulares!

Como se foi sendo tempo de morrer. É neste confronto que me encontro, necessidade compulsiva de morte, dizias, quando afinal a loucura, e será por isso, por isto e por quanto se passou, não sei, escrevo a vinte anos do que acabo por não ser e tudo se me verga a quanto existo, quanto me não dizes, quanto o silêncio que sou e isso mesmo me emudece, já tive jantares de codornizes fritas em azeite com alho e especiarias. Amigo que não sei. Fantasma outro de mim.
quanto de meu se perde nestas noites de nunca mais se acabam?

Tão fácil saber onde me encontro, em que abismo me procuro a resposta, tudo, há, nalgumas almas (preferia-te a escrever o tempo).
mau, o gin.

Não era isso, não era isso... Esqueces o muro e para lá dele os teus cinco anos. Lembro-te os calções azuis e chamam-me. Não fui. Esta a minha casa e o silêncio, as escadas que subo ainda e não serei nada.
é um bom sítio para morrer a chuva


Mia Couto (n. 1955)


O FAZEDOR DE LUZES

Estou deitada, baixo do céu estreloso, lembrando meu pai. Nesse há muito tempo, nós nos dedicávamos, à noite, a apanhar frescos. O céu era uma ardósia riscada por súbitos morcegos, desses caçadores de perfumes.
Pai, eu quero ter uma estrela!
Estrela, não: é muito custosa de criar.
Eu insistia. Queria possuir estrela como as outras meninas tinham brinquedos, bonecos, cachorros. Aqui, no rés da terra, eu não podia ter nada. Ao menos, lá no infirmamento, se autenticassem minhas posses.
Mas, pai: o senhor diz que faz criação de estrelas.
Fazia, tive que entregar todas. Eram dívidas, paguei com estrelas.
Eu sei que sobrou uma.
Meu pai não respondia nem sim nem talvez. Era um homem vagaroso e vago, sabedor de coisas sem teor. Dedicava-se a serviços anónimos, propício a nenhum esforço. Dizia:
Sou como o peixe, ninguém me viu transpirar.
E me alertava: veja o musgo, que é o modo do muro ser planta. Quem o rega, quem o aduba? Nada, ninguém. Há coisas que só paradas é que crescem.
É, minha filha: aprenda com o mineral. Ninguém sabe tanto e tão antigo como a pedra.
Cuidava-me sozinha, órfã eu, viúvo ele. Ou seria ele o órfão, sofrendo do mesmo meu parentesco, o falecimento de minha mãe? Preguntas dessas são incorrigíveis: quem sabe é quem nunca responde. Na realidade, meu nascimento foi um luto para meu pai: minha mãe trocou de existir em meu parto. Me embrulharam em capulana com os sangues todos misturados, o meu novinho em gota e o dela já em cascata para o abismo. Esse sangue transmexido foi a causa, dizem, de meu pai nunca mais compridar olho em outra mulher. Em minha toda vida, eu conheci só aquela exclusiva mão dele, docemente áspera como a pedra. Aquele côncavo de sua mão era minha gruta, meu reconchego. E mais um agasalho: as estranhas falas com que ele me enevoava o adormecer.
Você escuta os outros se lamentarem de seu pai.
Não escuto, não – menti.
Dizem eu não faço nada na vida, não faço nem ideia.
E prosseguia, se perdoando:
Mas eu, minha filha, eu existo mas não sei onde. Nessa bruma que fica lá, depois do estrangeiro, nessa bruma é que você me vai encontrar a mim, exacto e autêntico. Lá fica minha residência, lá eu sou grande, lá sou senhor, até posso nascer-me as vezes que quiser. Eu não tenho um aqui.
– Não diga assim, pai.
Havia de ver, minha filha, lá eu não sou como neste lado: não cedo conversa a um qualquer. Pois, nesse outro mundo, filhinha, eu tenho o mais requerido dos serviços: sou fabricador de estrelas. Sim, faço estrelas por encomenda.
Verdade, pai?
Verdade, filha. Pergunte a Deus, sou até fornecedor do Paraíso.
Voltávamos ao quintal, deitávamos a assistir ao céu. Eu já adivinhava, meu velho não suportava silêncio. E, num gesto amplo, ele cobria o inteiro presépio do horizonte:
Tudo isso fui eu que criei.
Eu estremecia, gostosa de me sentir pequenina, junta a esse deus tão caseiro. E lá, pai, eles nos vêem a nós? Nada, filha, não nos vêem. A luz daqui está suja, os homens poeiraram isto tudo.
Mas ela nos vê, lá nessa estrela onde foi?
O pai não respondia. Ele que tinha palavra para tudo, tropeçava sempre no mesmo silêncio. Minha mãe: dela não se menci0nava nunca nada. Ela não era nem criatura, nem coisa, nem causa. Nem sequer ausência. E não sendo nem sujeito nem passado, ela escapava a ser lembrada. Meu velho fugia a sete corações do assunto da saudade. Como daquela vez que a mão, veloz, enxugou o rosto.
Você nunca olhe o céu enquanto estiver chorando. Promete?
Então, me dê uma estrela, pai.
Nada, as estrelas não podem ser dadas. Nunca veja a noite por través das lágrimas – insistiu ele, sério.
Depois, quando se ergueu lhe veio uma tontura, sua mão procurou apoio no meio de dançarinas visões. Eu o amparei, raiz segurando a última árvore.
Está doente, pai?
Qual doente?! É a terra que não gosta que eu saia de cima dela. A terra é uma mulher muito ciumenta.
E outras vezes ele voltou a tontear. Até que uma noite, após estranho silêncio, ele me disse, esquivo, quase tímido:
Vá lá. Escolha uma...
Posso, pai?
E fingi apontar uma estrela, entre os mil cristais do céu. Ele fez conta que anotava o preciso lugar, marcando no quadro negro o astro que eu apontara. Me ajeitou a mão na minha fronte e me puxou para seu peito. Senti o bater do seu coração:
Escolheu bem, filha.
E explicou: aquela que eu indicara seria a luz onde ele iria morrer. Ninguém lembra o escuro onde nasceu. Todos viemos de fonte obscura. Por isso, ele preferia a claridade dessa estrela ao escuro de um qualquer cemitério. Então, por primeira vez, meu pai fez referência àquela que me anteriorou.
É nessa estrela que ela está.
Agora, deitada de novo nas traseiras da casa, eu volto a olhar essa estrela onde meu pai habita. Lá onde ele se inventa de estar com sua amada. E em meus olhos deixo aguar uma tristeza. A lágrima transgride a ordem paterna. Nesse desfoco, a estrela se converte em barco e o céu se desdobra em mar. Me chega a voz de meu pai me ordenando que seque os olhos. Tarde de mais. Já a água é todas as águas e eu me vou deitando na capulana onde as primeiras mãos me seguraram a existência.

Mia Couto, Na berma de nenhuma estrada e outros contos, Lisboa, Caminho, 2001.

4 de julho de 2005


Adolfo Casais Monteiro (1908-1972)


ODE AO TEJO E À MEMÓRIA DE ÁLVARO DE CAMPOS

E aqui estou eu,
ausente diante desta mesa –
e ali fora o Tejo.
Entrei sem lhe dar um só olhar.

Passei, e não me lembrei de voltar a cabeça,
e saudá-lo deste canto da praça:
"Olá, Tejo! Aqui estou eu outra vez!"
Não, não olhei.
Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado
me lembrei que estavas aí, Tejo.
Passei e não te vi.
Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!

Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa em que Fernando
Pessoa se sentava,
contigo e os outros invisíveis à sua volta,
inventando vidas que não queria ter.
Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.

Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo,
tudo indiferença e falta de resposta.
Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória,
e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados,
Tejo que não és da minha infância,
mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável,
majestade sem par nos monumentos dos homens,
imagem muito minha do eterno,
porque és real e tens forma, vida, ímpeto,
porque tens vida, sobretudo,
meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado...
Eu que me esqueci de te olhar!

3 de julho de 2005


Franz Kafka (1883-1924)


O Castelo é já em si infinitamente mais poderoso do que vós; apesar disso, ainda talvez se pudesse ter dúvidas a respeito da vitória final; vós, porém, em vez de vos aproveitardes disto, parece que dirigis todos os vossos esforços no sentido de ainda mais indubitavelmente lhe assegurardes a vitória, e por isso é que vos tomais de medos, assim de repente, e no meio da luta, e sem nenhuma razão de ser, aumentando assim a vossa impotência.

1 de julho de 2005

Chen Zhou (1427-1509), «Poet on a mountain top»
Chinoiserie

Ling Yang, the poet, sits all day in his willow-hidden hut by the river side, and dreams of the Lady Moy. Spring and the swallows have returned from the timeless isles of amaranth, further than the flight of sails in the unknown south; the silver buds of the willow are breaking into gold; and delicate jade-green reeds have begun to push their way among the brown and yellow rushes of yesteryear. But Ling Yang is heedless of the brightening azure, the light that lengthens; and he has no eye for the northward flight of the waterfowl, and the passing of the last clouds, that melt and vanish in the flames of an amber sunset. For him, there is no season save that moon of waning summer in which he first met the Lady Moy. But a sorrow deeper than the sorrow of autumn abides in his heart: for the heart of Moy is colder to him than high mountain snows above a tropic valley; and all the songs he has made for her, the songs of the flute and the songs of the lute, have found no favor in her hearing.

Leagues away, in her pavilion of scarlet lacquer and ebony, the Lady Moy reclines on a couch piled with sapphire-coloured silks. All day, through the gathering gold of the willow-foliage, she watches the placid lake, on whose surface the pale-green lily pads have begun to widen. Beside her, in a turquoise-studded binding, there lie the verses of the poet Ling Yung, who lived six centuries ago, and who sang in all his songs the praise of the Lady Loy, who disdained him. Moy has no need to peruse them any longer, for they live in her memory even as upon the written page. And, sighing, she dreams ever of the great poet, Ling Yung, and of the melancholy romance that inspired his songs, and wonders enviously at the odd disdain that was shown toward him by the Lady Loy.


Clark Ashton Smith

29 de junho de 2005


Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944)


– Esta noite – preveniu-me meu pai – hás-de os ouvir sussurrar nas tendas e chegarão aos teus ouvidos protestos contra o que eles consideram uma crueldade. Mas eu esmagar-lhes-ei na garganta a menor tentativa de rebelião. Ou não tratasse de forjar o homem!
E, no entanto, adivinhava a bondade de meu pai.
– Quero que eles amem – concluía ele – as águas vivas das fontes. E a superfície ininterrupta da cevada verde, recozida na crepitação do Verão. Quero que eles glorifiquem o regresso das estações. Quero que eles se alimentem, semelhantes a frutos que se realizam, de silêncio e de vagar. Quero que eles chorem por muito tempo os seus lutos, que prestem demoradas homenagens aos mortos, porque a herança passa lentamente de geração para geração. O que eu não quero é que eles derramem o seu mel pelo caminho. Quero que eles sejam semelhantes ao ramo da oliveira, que sabe esperar. Quando forem semelhantes a ele, começarão a sentir o grande balançar de Deus, que vem como um sopro experimentar a árvore. Ora os leva ora os traz, da alba para o crepúsculo, do Verão para o Inverno, das searas que medram para as colheitas já enceleiradas, da mocidade para a velhice, e depois da velhice para os filhos novos. Porque, tal como acontece com a árvore, não podes saber seja o que for do homem se o desdobras pela sua duração e o distribuis pelas suas diferenças. A árvore não é semente, depois caule, depois tronco flexível, depois madeira morta. Para a conhecer é preciso não a dividir. A árvore é essa força que desposa a pouco e pouco o céu. É o que acontece contigo, meu rapaz. Deus faz-te nascer, faz-te crescer, enche-te sucessivamente de desejos, de pesares, de alegrias e de sofrimentos, de cóleras e de perdões, até que te faz ingressar de novo n'Ele. E, no entanto, tu nem és aquele estudante, nem aquele esposo, nem aquela crinça, nem aquele velho. Tu és aquele que se cumpre. E, se sabes ver em ti um ramo que baloiça, bem pegado à oliveira, hás-de nos teus movimentos gozar da eternidade. E tudo à volta se tornará eterno. Eterna a fonte que canta e soube matar a sede a teus pais, eterna a luz dos olhos quando a bem-amada te sorrir, eterna a frescura das noites. O tempo deixa de ser uma ampulheta que vai gastando a areia, e faz lembrar um ceifeiro que ata a sua gavela.


Antoine de Saint-Exupéry, Cidadela
Tradução de Ruy Belo
Lisboa, Editorial Aster, 4ª ed., 1978.

25 de junho de 2005




“Não há manhãs para reviver, sei-o hoje. Não se podem construir dias novos sobre manhãs que se recordam. Inventei-te talvez, partindo de uma estrela como todas estas. Quis ter uma estrela e dar-lhe as manhãs de julho. As grandes manhãs de julho diante de casa e a minha mãe a acabar o almoço bom e o meu pai a chegar e a ralhar, sem ser a sério, por o almoço não estar pronto e eu sentado na terra, talvez a fazer um barroco, talvez a brincar com o cavalo de cartão. Tive um cavalo de cartão. Nunca te contei, pouco te contei, mas tive um cavalo de cartão. Brincava com ele e era bonito. Gostava muito dele. Tanto. Tanto. Tanto. Quando o meu pai mo trouxe, dentro de um embrulho verdadeiro, e comecei a desatar as guitas, queria abri-lo depressa; quando o vi, as pequenas orelhas levantadas, os olhos brilhantes, parei-me à frente dele. Foi o meu país durante uma semana, acreditas?; aquele cavalo singelo de cartão foi o meu país durante uma semana. Mas num sábado deixei-o na rua. O meu pai chamou-me para uma coisa, a minha mãe chamou-me para uma coisa e esqueci-me. Acreditas?, esqueci-me do meu cavalo de cartão no quintal, como foi possível?, como não me lembrei?, como é que as pessoas esquecem assim o que prezam?, esqueci-me do cavalo de cartão no quintal, como pude dormir?, como pude assentar os lençóis sobre a respiração e dormir?, como pude simplesmente dormir?, esqueci-me do cavalo de cartão no quintal, acreditas? E nessa noite choveu. No domingo de manhã, acordei com um relâmpago espetado no olhar e um trovão a ressoar no peito, o cavalo de cartão?, o meu cavalo de cartão?, corri para o quintal, atravessei a cozinha em cuecas e com a camisa interior, corri e, descalço, entre as poças de água limpa e a terra húmida e as folhas das árvores a segurarem gotas suspensas no ar, no quintal, o cavalo de cartão estava onde o deixara. Um monte amorfo de pasta de papel, onde se distinguiam dois olhos tristes de diamante, a tinta desbotada a pintar o chão e as pedras. Ajoelhei-me sobre ele e chorei. Aquela manhã. Chorei. Foi o meu pai que me tirou de lá. Para ti, para o nosso filho, para mim, quis um cavalo de cartão, sem a chuva. Um idílio impossível, sem a culpa que não se pode evitar. A culpa que tu e eu não tivemos. A condenação certa por existirmos. Conforme um precipício no fim de uma corrida: os corredores a terem de vencer e a meta a ser a linha de um precipício. Ou uma faca suspensa sobre nós, uma faca que se nos enterra nas costas a qualquer instante, sem motivo, uma faca que às vezes olhamos e sabemos que está lá pronta a cair e que vai cair, a qualquer instante, sem motivo. Uma faca enterrada nas costas, para sofrermos ou nos levar sofrendo. Não escolhi este destino. Escolhi estradas desconfiando que todas eram a mesma. E todas eram a mesma.”
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José Luís Peixoto, Nenhum Olhar
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24 de junho de 2005




[PREFÁCIO PARA UM LIVRO DE POEMAS]

Conheci um homem que possuía uma cabeça de vidro.
Víamos
pelo lado menos sombrio do pensamento todo o sistema planetário.
Víamos o tremelicar da luz nas veias e o lodo das emoções na ponta dos dedos. O latejar do tempo na humidade dos lábios.
E a insónia, com seus anéis de luas quebradas e espermas ressequidos. As estrelas mortas das cidades imaginadas.
Os ossos [tristes] das palavras.

A noite cerca a mão inteligente do homem que possui uma cabeça transparente.
Em redor dele chove.
Podemos adivinhar uma chuva espessa, negra, plúmbea.
Depois, o homem abre a mão, uma laranja surge, esvoaça.
As cidades (como em todos os livros que li) ardem. Incêndios que destroem o último coração do sonho.
Mas aquele que se veste com a pele porosa da sua própria escrita olha, absorto, a laranja.

A queda da laranja provocará o poema?
A laranja voadora é, ou não é, uma laranja imaginada por um louco?
E um louco, saberá o que é uma laranja?
E se a laranja cair? E o poema? E o poema com uma laranja a cair?
E o poema em forma de laranja?
E se eu comer a laranja, estarei a devorar o poema? A ficar louco?
[...]
E a palavra laranja existirá sem a laranja?
E a laranja voará sem a palavra laranja?
E se a laranja se iluminar a partir do seu centro, do seu gomo mais secreto, e alguém a [esquecer] no meio da noite
servirá [o brilho] da laranja para iluminar as cidades há muito mortas? E se a laranja se deslocar no espaço mais depressa que o pensamento, e muito mais devagar que a laranja escrita criará uma ordem ou um caos?

O homem que possui uma cabeça de vidro habita o lado de fora das muralhas da cidade.
Foi escorraçado.
[E] na desolação das terras, noite dentro, vigia os seus próprios sonhos e pesadelos. Os seus próprios gestos
e um rosto suspenso na solidão.

Onde mora o homem que ousou escrever com a unha na sua alma, no seu sexo, no seu coração?
E se escreveu laranja no coração, a alma ficará saborosa?
E se escreveu laranja no sexo, o desejo aumentará?

Onde está a vida do homem que escreve, a vida da laranja, a vida do poema
a Vida, sem mais nada estará aqui?
Fora das muralhas da cidade?
No interior do meu corpo? ou muito longe de mim
onde sei que possuo uma outra razão... e me suicido na tentativa de me transformar em poema e poder, enfim, circular livremente.

Al Berto

19 de junho de 2005


Francisco Buarque de Hollanda (1944)


Bom conselho

Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança

Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar

Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade

Chico Buarque

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17 de junho de 2005


António Franco Alexandre (1944)



Syrinx, Ficção Pastoral (XVII)

Perdoa, não sabia que cantavas
Em sossego, silenciosamente. Neste calor
é preciso beber água gelada; também convém
não adorar ídolos, por exemplo a imagem
que aí trazes de ti e te atormenta
(ou me atormenta a mim?).
Outros exemplos incluem jardins de babilónia,
Erupções do etna, o efeito
afrodisíaco do diamante,
as ciências da educação.
Vou-me sentar aqui, respirar até doer
as coisas possíveis nunca reais,
aprender, nó a nó, como te soltas;
Vamos cair num poço, sem
bússola e pára-quedas, vamos ser o primeiro
amor a dois no mundo.

António Franco Alexandre

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13 de junho de 2005

Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!

Eugénio de Andrade
Desenho de Almada Negreiros

Fernando Pessoa (1888-1935)



Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar de andar,
Depois de ficar e ir,
Hei de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.

Viver é não conseguir.

Fernando Pessoa, Poesias Inéditas

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11 de junho de 2005

Nathan Altman, Retrato de Anna Akhmatova
Anna Akhmatova (1889-1966)



White Night

I haven't locked the door,
Nor lit the candles,
You don't know, don't care,
That tired I haven't the strength

To decide to go to bed.
Seeing the fields fade in
The sunset murk of pine-needles,
And to know all is lost,

That life is a cursed hell:
I've got drunk
On your voice in the doorway.
I was sure you'd come back.

Anna Akhmatova

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10 de junho de 2005


Pablo Picasso, O Poeta



Vós que, de olhos suaves e serenos,
Com justa causa a vida cativais,
E que os outros cuidados condenais
Por indevidos, baixos e pequenos;

Se ainda do Amor domésticos venenos
Nunca provastes, quero que saibais
Que é tanto mais o amor despois que amais,
Quanto são mais as causas de ser menos.

E não cuide ninguém que algum defeito,
Quando na cousa amada se apresenta,
Possa diminuir o amor perfeito;

Antes o dobra mais; e se atormenta,
Pouco e pouco o desculpa o brando peito;
Que Amor com seus contrairos se acrescenta.

Luís de Camões

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José Gomes Ferreira (1900-1984)



Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo..."

José Gomes Ferreira

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5 de junho de 2005


John Singer Sargent, Carnation, Lily, Lily, Rose


Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios -
Os melhores lírios -
E as melhores rosas
Sem receber nada,
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.

Álvaro de Campos

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29 de maio de 2005




São horas de voltar. Tu já não vens, e a espera
gastou a luz de mais um dia. Agora, quem passar
trará um corpo incerto dentro do nevoeiro,
mas terá outro nome e outro perfume. Eu volto

à casa onde contigo se demorou o verão e arrumo
os livros, escondo as cartas, viro os retratos
para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,
sei que não voltas, e ouço dizer que as aves
partem sempre assim, subitamente. Outras virão

em março, apago as luzes do quarto, nunca as mesmas.


Maria do Rosário Pedreira, A Casa e o Cheiro dos Livros

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26 de maio de 2005





Quando, muito depois, se abre
um livro, tudo o que ele
guardar está ressequido,

flor, fotografia, bilhete
ou anotação privada,
aí deixados para que

no imediato não nos
esquecêssemos e no futuro
não nos fôssemos lembrar.

Pedro Mexia, Em Memória

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22 de maio de 2005





Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça

Mário Cesariny, Pena Capital

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17 de maio de 2005

Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor —
a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos
agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,
meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos — a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira, O Canto do Vento nos Ciprestes

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16 de maio de 2005

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...).

Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lágrimas,
E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor.
Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-se com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.
Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele
pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!

Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.
Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.

Álvaro de Campos

Uma leitura "inesperada" deste poema de Campos pode ser encontrada em
http://www.culturabrasil.org/cruzoupormim.htm
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15 de maio de 2005

A Horse With No Name



On the first part of the journey
I was looking at all the life
There were plants and birds and rocks and things
There was sand and hills and rings
The first thing I met was a fly with a buzz
And the sky with no clouds
The heat was hot and the ground was dry
But the air was full of sound

I've been through the desert on a horse with no name
It felt good to be out of the rain
In the desert you can remember your name
'Cause there ain't no one for to give you no pain

After two days in the desert sun
My skin began to turn red
After three days in the desert fun
I was looking at a river bed
And the story it told of a river that flowed
Made me sad to think it was dead

You see I've been through the desert on a horse with no name
It felt good to be out of the rain
In the desert you can remember your name
'Cause there ain't no one for to give you no pain

After nine days I let the horse run free
'Cause the desert had turned to sea
There were plants and birds and rocks and things
there was sand and hills and rings
The ocean is a desert with it's life underground
And a perfect disguise above
Under the cities lies a heart made of ground
But the humans will give no love

You see I've been through the desert on a horse with no name
It felt good to be out of the rain
In the desert you can remember your name
'Cause there ain't no one for to give you no pain

Dewey Bunnell

14 de maio de 2005

A Gente Vai Continuar

Tira a mão do queixo, não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou, ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar


Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Jorge Palma

11 de maio de 2005


Manuel Alegre (1936)


AINDA HÁ MAR
(D. Sebastião aparecerá numa grande nau
por detrás do Ilhéu em Vila Franca do Campo)

Ainda há naus e viagem algures em nós
Ainda há mar
Ainda há naus para chegar ao outro lado
Lá onde só se espera
O inesperado

Talvez um dia por detrás do Ilhéu
Do meio da mágoa e da neblina
Porque ainda há viagem e Taprobana
Ainda há naus para passar
Além do tédio e da rotina

Ainda há mar

Ainda há naus para a abstracção
Matemática dos astros e dos ventos
Navegação do mito e seu teorema
Ainda há mar

Ao menos no poema

Manuel Alegre, Atlântico

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5 de maio de 2005

I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived. I did not wish to live what was not life, living is so dear, nor did I wish to practice resignation, unless it was quite necessary. I wanted to live deep and suck all the marrow of life, to live so sturdily and Spartan-like as to put to rout all that was not life, to cut a broad swath and shave close, to drive life into a corner, and reduce it to its lowest terms, and if it proved to be mean, why then to get the whole and genuine meanness of it, and publish its meanness to the world; or if it were sublime, to know it by experience, and be able to give a true account of it in my next excursion. For most men, it appears to me, are in a strange uncertainty about it, whether it is of the devil or of God, and have somewhat hastily concluded that it is the chief end of man here to "glorify God and enjoy him forever".

Henry David Thoreau, excerto de Walden
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