Às vezes, encontro-me nas palavras dos outros. Mais raramente, nas minhas. Por pura coincidência. Em pura coincidência.
1 de fevereiro de 2006
Habituo-me, self-service, a fazer da visão
um modo de não ver. Guardo o tédio
como alguns jóias velhas. Talvez um dia,
quem sabe. Às vezes creio que também
sou um filho de Deus, embora nada no
bilhete de identidade ou no ritmo diário
o faça prever. Pressinto, desastrado coração,
que há um talvez e que o tédio, afinal,
é tão-só um modo de ter e ser dono,
de poder abrir e fechar portas e janelas
como quem fica à espera de que
a insónia dê lugar ao sono. Com essas
manchas de inteligência, com os relâmpagos
dessa lucidez, levanto-me e procuro
um horóscopo diferente, em que ninguém
crê, nem eu. Curiosamente, habituo-me
a morrer como se fosse um café na hora
de fechar: periscas no chão, mesas e cadeiras
— vazias, empilhadas —, uma luz verde
que chega a ser bela quando alguém
acende um cigarro.
Carlos Bessa
.
28 de janeiro de 2006

Vergílio Ferreira (1916-1996)
12 - Outubro (quinta). A fúria da vida. Porque a vida é furiosa e só a morte é sossegada. Verifico-o muitas vezes, medito-o algumas dessas muitas. Hoje, por exemplo, a cidade é inimiga da vida, ou seja da Natureza, transformando-a num fortim de cimento. Mas a Natureza está sempre de atalaia, à espera do mínimo descuido para avançar. E se o descuido se prolonga, esmaga o fortim e submerge-o em floresta. Mas a cidade também está vigilante e mantém-na à distância do seu rancor. Em todo o caso, há descuidos mínimos em que não repara. E imediatamente a Natureza aproveita. E aproveita das formas mais incríveis. Ontem parei o carro no parque de estacionamento. E ao sair reparei que em toda a placa de cimento, densa e unida como um ódio, havia uma fenda minúscula em que o ódio estalava. E logo, rompendo furiosa, uma haste de erva. Como viera para ali? Como farejara o sítio para se realizar no seu milagre? Não o soube, não o sei. Sei apenas do meu espanto ajoelhado perante aquela maravilha e da minha intensa alegria pelo triunfo da vida, mesmo sob a pata pesada de uma placa de cimento.
27 de janeiro de 2006

Lewis Carroll (1832-1898)
A VALENTINE
And cannot pleasures, while they last,
Be actual unless, when past,
They leave us shuddering and aghast,
With anguish smarting?
And cannot friends be firm and fast,
And yet bear parting?
And must I then, at Friendship’s call,
Calmly resign the little all
(Trifling, I grant, it is and small)
I have of gladness,
And lend my being to the thrall
Of gloom and sadness?
And think you that I should be dumb,
And full dolorum omnium,
Excepting when you choose to come
And share my dinner?
At other times be sour and glum
And daily thinner?
Must he then only live to weep,
Who’d prove his friendship true and deep
By day a lonely shadow creep,
At night-time languish,
Oft raising in his broken sleep
The moan of anguish?
The lover, if for certain days
His fair one be denied his gaze,
Sinks not in grief and wild amaze,
But, wiser wooer,
He spends the time in writing lays,
And posts them to her.
And if the verse flow free and fast,
Till even the poet is aghast,
A touching Valentine at last
The post shall carry,
When thirteen days are gone and past
Of February.
Farewell, dear friend, and when we meet,
In desert waste or crowded street,
Perhaps before this week shall fleet,
Perhaps to-morrow.
I trust to find your heart the seat
Of wasting sorrow.
Lewis Carroll. Phantasmagoria and other poems.
24 de janeiro de 2006

Edith Wharton (1862-1937)
O dia estava a desvanecer-se num pôr de Sol suave, rasgado aqui e ali por uma luz amarela eléctrica, e passavam poucas pessoas na pequena praça para onde tinham virado. Dallas parou de novo e olhou para cima.
— Deve ser aqui — disse, dando o braço ao pai com um movimento de que a timidez de Archer não fugiu. E ficaram juntos a olhar a casa.
Era um edifício moderno, sem características distintas excepto muitas janelas, e com agradáveis varandas à frente pintadas de creme. Numa das varandas superiores, que ficava bem acima das copas arredondadas dos castanheiros da Praça, as gelosias ainda estavam descidas, como se o sol tivesse acabado de partir.
— Qual será o andar? — perguntou Dallas, e, dirigindo-se para a porte-cochère, pôs a cabeça na janela da porteira voltou-se e disse: — O quinto deve ser aquele das gelosias. — Archer continuou imóvel a olhar para as janelas de cima como se o fim da sua peregrinação tivesse sido atingido.
— Vamos lá, sabe, são quase seis horas — disse-lhe o filho. O pai olhou para um banco vazio sob as árvores.
— Acho que me vou sentar ali um momento — disse.
— Porquê, não está bem? — exclamou o filho.
— Oh, perfeitamente, mas gostava que você subisse sem mim, por favor.
Dallas parou diante dele, visivelmente espantado:
— Mas então, pai, quer dizer que não vai subir?
— Não sei — disse Archer lentamente.
— Se o pai não for, ela não vai entender.
— Vai, meu rapaz, talvez eu vá depois.
Dallas olhou-o através do crepúsculo.
— Mas que vou eu dizer?
— Meu caro, não sabes sempre o que dizer? — respondeu o pai com um sorriso.
— Muito bem, vou dizer que o pai é antiquado e prefere subir os cinco andares porque não gosta de elevadores. O pai sorriu novamente.
— Diz apenas que eu sou antiquado.
Dallas olhou-o de novo e depois, com um gesto incrédulo, entrou na escada e desapareceu da vista.
Archer sentou-se num banco e continuou a olhar para a varanda cerrada. Calculou o tempo que o filho levaria no elevador até ao quinto andar, a tocar à campainha, a ser admitido no hall e depois introduzido na sala. Imaginou Dallas a entrar nessa sala com o seu passo rápido, o sorriso aberto e atraente e pensou se teriam razão ao dizer que o filho «saía a ele».
Depois, tentou ver as pessoas já na sala — pois provavelmente a essa hora social haveria mais de uma pessoa —, e entre elas uma senhora morena e pálida que olharia rápida, se ergueria a meio e estenderia uma mão longa, esguia, com três anéis... pensou que ela deveria estar sentada num sofá de canto perto do fogo, com azáleas atrás dela numa mesa.
— É mais real para mim do que se eu subisse — ouviu-se dizer a si próprio; e o medo que a última sombra de realidade perdesse o seu limite conservou-o no banco enquanto os minutos passavam.
Ficou sentado longo tempo no crepúsculo crescente, com os olhos sempre postos na varanda. Finalmente, uma luz brilhou na janela e um momento mais tarde um criado veio à varanda, subiu as gelosias e fechou as portadas.
Então, como se fosse o sinal por que esperava, Newland Archer levantou-se lentamente e voltou sozinho para o hotel.
23 de janeiro de 2006
AINDA HÁ MAR
(D. Sebastião aparecerá numa grande nau
por detrás do Ilhéu em Vila Franca do Campo)
Ainda há naus e viagem algures em nós
Ainda há mar
Ainda há naus para chegar ao outro lado
Lá onde só se espera
O inesperado
Talvez um dia por detrás do Ilhéu
Do meio da mágoa e da neblina
Porque ainda há viagem e Taprobana
Ainda há naus para passar
Além do tédio e da rotina
Ainda há mar
Ainda há naus para a abstracção
Matemática dos astros e dos ventos
Navegação do mito e seu teorema
Ainda há mar
Ao menos no poema
Manuel Alegre, Atlântico
.
22 de janeiro de 2006

George Gordon Byron (1788-1824)
She walks in beauty, like the night
Of cloudless climes and starry skies;
And all that's best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes:
Thus mellowed to that tender light
Which heaven to gaudy day denies.
One shade the more, one ray the less,
Had half impaired the nameless grace
Which waves in every raven tress,
Or softly lightens o'er her face;
Where thoughts serenely sweet express
How pure, how dear their dwelling-place.
And on that cheek, and o'er that brow,
So soft, so calm, yet eloquent,
The smiles that win, the tints that glow,
But tell of days in goodness spent,
A mind at peace with all below,
A heart whose love is innocent!
Lord Byron
.
21 de janeiro de 2006
19 de janeiro de 2006

Eugénio de Andrade (1923-2005)
Encostas a face à melancolia e nem sequer
ouves o rouxinol. Ou é a cotovia?
Suportas mal o ar, dividido
entre a fidelidade que deves
à terra de tua mãe e ao quase branco
azul onde a ave se perde.
A música, chamemos-lhe assim,
foi sempre a tua ferida, mas também
foi sobre as dunas a exaltação.
Não oiças o rouxinol. Ou a cotovia.
É dentro de ti
que toda a música é ave.
Eugénio de Andrade, Branco no Branco
.
17 de janeiro de 2006

William Stafford (1914-1993)
Security
Tomorrow will have an island. Before night
I always find it. Then on to the next island.
These places hidden in the day separate
and come forward if you beckon.
But you have to know they are there before they exist.
Some time there will be a tomorrow without any island.
So far, I haven't let that happen, but after
I'm gone others may become faithless and careless.
Before them will tumble the wide unbroken sea,
and without any hope they will stare at the horizon.
So to you, Friend, I confide my secret:
to be a discoverer you hold close whatever
you find, and after a while you decide
what it is. Then, secure in where you have been,
you turn to the open sea and let go.
William Stafford
15 de janeiro de 2006

Ossip Mandelstam (1891-1938)
Silentium
She has not yet been born:
she is music and word,
and therefore the untorn,
fabric of what is stirred.
Silent the ocean breathes.
Madly day’s glitter roams.
Spray of pale lilac foams,
in a bowl of grey-blue leaves.
May my lips rehearse
the primordial silence,
like a note of crystal clearness,
sounding, pure from birth!
Stay as foam Aphrodite – Art –
and return, Word, where music begins:
and, fused with life’s origins,
be ashamed heart, of heart!
Ossip Mandelstam
.
10 de janeiro de 2006
A parte da frente consegue manter as aparências.
Pelo menos, a nossa cara pode encarar-se no espelho. É a nuca que sente a solidão.
Podemos abraçar a barriga e enrolarmo-nos à sua volta. Mas as costas permanecem sozinhas.
É por isso que as sereias e os djinns são retratados com as costas ocas -- jamais alguém lhes encosta uma barriga quente. Em vez disso, é ali que trabalha o cinzel de escultor da solidão.
Não se encontra a solidão. Ela vem por detrás e acerta o passo pelo nosso.
SVEN LINDQVIST. «Exterminem todas as bestas».
7 de janeiro de 2006

Helder Moura Pereira (1949)
Tal como Emily Dickinson
tenho muito frio a escrever.
Mas tomara eu ser como Emily Dickinson,
tomara eu ser.
Só tenho vivido em cidades
onde nem sequer há tempestades
quanto mais tempestades
como aquelas que Emily Dickinson descrevia.
Sabia bem como a terra tem idades
e repetições com as mesmas qualidades:
a força do vento, o chumbo da água, maldades —
mas são maldades vitais, Deus não dormia.
Falarei de quê, da vida rasgada?
Ousarei o quê dentro da minha apatia?
Dizer que descrevo a lareira apagada
e que há um círculo quadrado na minha geometria
não pode interessar à verdadeira poesia.
Helder Moura Pereira, A Tua Cara Não Me É Estranha
4 de janeiro de 2006

Umberto Eco (1932)
como posso esperar mercê de quem me destrói? E contudo a quem se não a vós posso confiar a minha pena procurando conforto, se não na vossa atenção, ao menos à minha inescutada palavra? Se amor é uma medicina que cura todas as dores com uma dor ainda maior, não poderei talvez entendê-lo como uma pena que mata por excesso qualquer outra pena, de modo a tornar-se o fármaco de todas, menos de si própria? Dado que se alguma vez vi beleza, e a pretendi, não foi senão o sonho da vossa, por que razão deverei queixar-me se outra beleza para mim é igualmente sonho? Pior seria se aquela eu fizesse minha, e com ela me saciasse, não sofrendo mais pela imagem da vossa: que de bem escasso medicamento haveria eu gozado, e o mal se acrescentaria por remorso desta infidelidade. Melhor é confiar na vossa imagem, tanto mais agora que entrevi mais uma vez um inimiga de quem não conheço o rosto e queria talvez nunca o conhecer. Para ignorar este espectro odiado, que me socorra o vosso amado fantasma. Que de mim faça ao menos o amor um fragmento insensível, uma mandrágora, uma fonte de pedra que deite fora toda a angústia...
Umberto Eco, A Ilha do Dia Antes
.
3 de janeiro de 2006

Vasco Graça Moura (1942)
uma palavra no coração
quando celan visitou heidegger, e passearam
pelo bosque antes da chuva, ao despedir-se escreveu
no livro da casa sobre a esperança de uma
palavra a vir no coração. e repetiu em todtnauberg,
dois anos antes de morrer, a referência obscura
à linha escrita nesse livro, de uma esperança, então, de que,
a um ser pensante?, de um ser pensante?,
viesse uma palavra no coração. no coração, no lugar onde
a palavra reconcilia por lá se encontrar desde antes,
esperadamente. ao coração, seria menos visceral.
ou já lá estava pronta a vir ou não valia a pena
fosse quebrado o silêncio em tanta expectativa.
as raízes do fogo e do sangue são as raízes
violentas do poema, no seu magma revolto de estranhezas
ou nalguma ténue chama azulando-se em sílabas
delicadas como asas. instalada no coração,
uma palavra, uma oferenda de música e plantas silvestres,
viria a irromper do orvalho, benfazeja, transportando
se não o esquecimento, a paz. uma palavra.
tudo o que celan pedia e não sabemos se obteve
e talvez ainda procurasse numa noite de abril, no rio sena.
Vasco Graça Moura
.
1 de janeiro de 2006

E. M. Forster (1879-1970)
Miss Abbott, don't worry over me. Some people are born not to do things. I'm one of them; I never did anything at school or at the Bar. [...] I never expect anything to happen now, and so I am never disappointed. You would be surprised to know what my great events are. Going to the theatre yesterday, talking to you now -- I don't suppose I shall ever meet anything greater. I seem fated to pass through the world without colliding with it or moving it -- and I'm sure I can't tell you whether the fate's good or evil. I don't die -- I don't fall in love. And if other people die or fall in love they always do it when I'm just not there. You are quite right; life to me is just a spectacle, which -- thank God, and thank Italy, and thank you -- is now more beautiful and heartening than it has ever been before.
E. M. Forster, Where Angels Fear to Tread
30 de dezembro de 2005
à espera de um sinal que nunca chega,
podemos num desespero sem nome perder
o gosto de tudo, enquanto o eu permanece
brilhante, estupidamente brilhante,
a sussurrar-nos ao ouvido a desgraça;
podemos, numa lufa-lufa, ir de filme
em filme, de livro em livro, como quem
sem terra procura uma casa, um lugar
a que possa chamar seu, onde tenha os seus
pertences e tempo para rir e tempo para
se aborrecer. Podemos ter pena de nós próprios,
podemos viver.
*Além dos sentidos comuns, poderes usa-se nos Açores como sinónimo de muito.
Carlos Bessa, Em Partes Iguais, Lisboa, Assírio & Alvim, 2004
.
21 de dezembro de 2005
música para todos os tempos #2
20 de dezembro de 2005

Victor Matos e Sá (1926-1975)
Quando os teus olhos absorvem
todas as cores da minha
mais íntima tristeza,
e compreendes e calas e prometes
um lugar qualquer na tua alma,
e a tua voz demora a regressar
ao neutro compromisso das palavras,
sei que as tuas mãos ajudariam
a limpar estas lágrimas antigas
por dentro do meu rosto.
Victor Matos e Sá
.



