23 de abril de 2006


William Shakespeare (1564-1571)



Sonnet XXX

When to the sessions of sweet silent thought
I summon up remembrance of things past,
I sigh the lack of many a thing I sought,
And with old woes new wail my dear times’ waste:
Then can I drown an eye, unus’d to flow,
For precious friends hid in death’s dateless night,
And weep afresh love’s long since cancell’d woe,
And moan the expense of many a vanish’d sight:
Then can I grieve at grievances foregone,
And heavily from woe to woe tell o’er
The sad account of fore-bemoaned moan,
Which I new pay as if not paid before.
But if the while I think on thee, dear friend,
All losses are restor’d and sorrows end.

William Shakespeare

20 de abril de 2006

Joan Miró,«Miro's cat encircled by the flight of a bird»

Joan Miró (1893-1983)

18 de abril de 2006


Antero de Quental (1842-1891)





A Germano Meireles

Só males são reais, só dor existe:
Prazeres só os gera a fantasia;
Em nada[, um] imaginar, o bem consiste,
Anda o mal em cada hora e instante e dia.

Se buscamos o que é, o que devia
Por natureza ser não nos assiste;
Se fiamos num bem, que a mente cria,
Que outro remédio há [aí] senão ser triste?

Oh! Quem tanto pudera que passasse
A vida em sonhos só. E nada vira...
Mas, no que se não vê, labor perdido!

Quem fora tão ditoso que olvidasse...
Mas nem seu mal com ele então dormira,
Que sempre o mal pior é ter nascido!

Antero de Quental

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15 de abril de 2006



Leonardo da Vinci (1452-1519)

14 de abril de 2006


Soeiro Pereira Gomes (1909-1949)


As crianças da minha rua

As crianças da minha rua estiveram na praia - e vieram tristes.
- Coitadinhas, têm saudades do mar - disse-me alguém, talvez a pensar no último flirt do seu último veraneio de pessoa bem vivida.
Mas as crianças da minha rua não têm saudades: só eu sei por que estiveram na praia - e vieram tristes.

*

A minha rua é suja, esburacada, carcomida de velhice. Não tem passeios, porque ali ninguém passeia , nem nome nas esquinas. Mas chamam-lhe a Rua de Detrás, certamente porque as casas, atarracadas, ficam detrás de vivendas dominadoras, e a gente que nelas mora anda sempre atrás nas passadas da vida.
Rua de gente que trabalha. Em certas horas, é silenciosa e quieta; noutras, movimentada e garrulha. Tem fluxos e refluxos , como as águas do mar. As crianças da minha rua não conheciam o mar, mas adoravam a rua.
Pelas tardes cálidas de Verão, os moradores vinham para a soleira das portas, e ali ficavam a tomar o ar, que é fresco e gratuito, e a contar as novidades velhinhas da sua vida sempre igual.
As crianças - umas raquíticas, outras semi-nuas - vinham também (agora já não vêm) espalhar-se em grupos a brincar. E então a rua convertia-se no mundo encantador da sua imaginação. Havia buracos que eram precipícios; pedras que semelhavam castelos; montes de lixo convertidos em florestas. O mar era o fio de água que escorria pelas valetas; os bocados de madeira flutuavam como barcos, os papéis rasgados transformavam-se em peixes. Até a areia, que o vento arrastava aos montões, era removida, com mil cuidados, nas latas enferrujadas.
Nada faltava às crianças da minha rua. Não: faltava-lhes iodo – dissera aquele senhor que tinha saudades do último flirt.
E , certo dia deste Verão, as crianças da minha rua lá foram para a praia, todas iguais nos seus babeiros de riscado, que mãos caridosas talharam em horas de contrição.
Instalaram-se num recanto da praia, sob olhares vigilantes. De manhã, tomavam banho pela mão dos banheiros. Um, dois ... – a respirar. Depois secavam ao sol o fatinho de algodão azul, colado ao corpo enfezado, a tiritar. De tarde, voltavam para o recanto, em filas, duas a duas, e ficavam a revolver a areia, em grupos silenciosos.
Distante, no extremo da praia, outras crianças brincavam. Meninos que possuíam barcos de corda, peixes de borracha coloridos, baldes caprichosos - um mundo de brinquedos.

*

Chegaram há dias. Possuíam um mundo de fantasias, e agora já não olham para o fio de água que escorre pelas valetas, e, nos montes de lixo, as latas e papéis velhos jazem abandonados.
As crianças da minha rua estiveram na praia – e vieram tristes. Mas só eu e elas sabemos porquê.

Soeiro Pereira Gomes, Crónicas

12 de abril de 2006

Delaunay, «Fenêtre à la Ville»
Robert Delaunay (1885-1941)

9 de abril de 2006


Charles Baudelaire (1821-1867)


Embriaga-te

Devemos andar sempre bêbados.
Tudo se resume nisto: é a única solução.
Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar.
Mas com quê?
Com vinho, com poesia ou com a virtude, a teu gosto.
Mas embriaga-te.
E se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que se passou, a tudo o que gemeu, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são:
"São horas de te embriagares!"
Para não seres como os escravos martirizados do Tempo,
embriaga-te, embriaga-te sem cessar!
Com vinho, com poesia, ou com a virtude, a teu gosto.

Charles Baudelaire

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8 de abril de 2006


Jacques Brel (1929-1978)


On n'oublie rien

On n'oublie rien de rien
On n'oublie rien du tout
On n'oublie rien de rien
On s'habitue c'est tout

Ni ces départs ni ces navires
Ni ces voyages qui nous chavirent
De paysages en paysages
Et de visages en visages
Ni tous ces ports ni tous ces bars
Ni tous ces attrape-cafard
Où l'on attend le matin gris
Au cinéma de son whisky

Ni tout cela ni rien au monde
Ne sait pas nous faire oublier
Ne peut pas nous faire oublier
Qu'aussi vrai que la terre est ronde
On n'oublie rien de rien
On n'oublie rien du tout
On n'oublie rien de rien
On s'habitue c'est tout

Ni ces jamais ni ces toujours
Ni ces je t'aime ni ces amours
Que l'on poursuit à travers cœurs
De gris en gris de pleurs en pleurs
Ni ces bras blancs d'une seule nuit
Collier de femme pour notre ennui
Que l'on dénoue au petit jour
Par des promesses de retour

Ni tout cela ni rien au monde
Ne sait pas nous faire oublier
Ne peut pas nous faire oublier
Qu'aussi vrai que la terre est ronde
On n'oublie rien de rien
On n'oublie rien du tout
On n'oublie rien de rien
On s'habitue c'est tout

Ni même ce temps où j'aurais fait
Mille chansons de mes regrets
Ni même ce temps où mes souvenirs
Prendront mes rides pour un sourire
Ni ce grand lit où mes remords
Ont rendez-vous avec la mort
Ni ce grand lit que je souhaite
A certains jours comme une fête

Ni tout cela ni rien au monde
Ne sait pas nous faire oublier
Ne peut pas nous faire oublier
Qu'aussi vrai que la terre est ronde
On n'oublie rien de rien
On n'oublie rien du tout
On n'oublie rien de rien
On s'habitue c'est tout

Jacques Brel

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7 de abril de 2006


William Wordsworth (1770-1850)

What though the radiance
Which was once so bright
Be now for ever taken from my sight,
Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass,
Of glory in the flower,
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind;
In the primal sympathy
Which having been must ever be;
In the soothing thoughts that spring
Out of human suffering;
In the faith that looks through death,
In years that bring the philosophic mind.

William Wordsworth, Intimations of Immortality from Recollections of Early Childhood (excerto)

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2 de abril de 2006

Max Ernst, «Ubu Imperator»
Max Ernst(1891-1976)
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30 de março de 2006

La tristesse durera toujours
Vincent Van Gogh (1853-1890)
Quarto em Arles

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26 de março de 2006


Robert Frost (1874-1936)


Stopping By Woods On A Snowy Evening

Whose woods these are I think I know.
His house is in the village though;
He will not see me stopping here
To watch his woods fill up with snow.

My little horse must think it queer
To stop without a farmhouse near
Between the woods and frozen lake
The darkest evening of the year.

He gives his harness bells a shake
To ask if there is some mistake.
The only other sound's the sweep
Of easy wind and downy flake.

The woods are lovely, dark and deep.
But I have promises to keep,
And miles to go before I sleep,
And miles to go before I sleep.

Robert Frost

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18 de março de 2006





BUT NOT FOR ME (BILLIE HOLIDAY)

Desistir do rosto, dos propósitos, das
palavras. Há sílabas assim.
Com a vergonha do afecto
emprestada ao desalinho das mesas.

Por ali, encenando a imobilidade,
a rudeza de haver dor.
Eu sei que não virás.
Bebo por ti, sem ti, contra ti,
com o coração no bengaleiro
a fingir que não, não faz diferença.

E o pior é que até faz,
por muito que ninguém o saiba.

Manuel de Freitas

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11 de março de 2006


Sebastião Alba (1940-2000)

fim de poema

.....................................................

Para que nem tudo vos seja sonegado,
cultivai a surdina.
Eu fico em surdina.
Em surdina aparo
os utensílios,
em surdina me preparo
para morrer.
Amo, chut!, em surdina;
a minha vida,
nesga entre dois ponteiros, fecha-se
em surdina.

Sebastião Alba, A Noite Dividida

2 de março de 2006


Edgar Bowers (1924-2000)


Living Together

Of you I have no memory, keep no promise.
But, as I read, drink, wait, and watch the surf,
Faithful, almost forgotton, your demand
Becomes all others, and this loneliness
The need that is your presence. In the dark,
Beneath the lamp, attentive, like a sound
I listen for, you draw near -- closer, surer
Than speech, or sight, or love, or love returned.

Edgar Bowers


1 de março de 2006


Robert Lowell (1917-1977)

WATER

It was a Maine lobster town-
each morning boatloads of hands
pushed off for granite
quarries on the islands,

and left dozens of bleak
white frame houses stuck
like oyster shells
on a hill of rock,

and below us, the sea lapped
the raw little match-stick
mazes of a weir,
where the fish for bait were trapped.

Remember?We sat on a slab of rock.
>From this distance in time
it seems the color
of iris, rotting and turning purpler,

but it was only
the usual gray rock
turning the usual green
when drenched by the sea.

The sea drenched the rock
at our feet all day,
and kept tearing away
flake after flake.

One night you dreamed
you were a mermaid clinging to a wharf-pile,
and trying to pull
off the barnacles with your hands.

We wished our two souls
might return like gulls
to the rock.In the end,
the water was too cold for us.

Robert Lowell

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28 de fevereiro de 2006


Stephen Spender (1909-1995)

What I expected, was
Thunder, fighting.
Long struggles with men
And climbing.
After continual straining
I should grow strong;
Then the rocks would shake
And I rest long.

What I had not foreseen
Was the gradual day
Weakening the will
Leaking the brightness away,
The lack of good to touch,
The fading of body and soul
Smoke before wind,
Corrupt, insubstantial.

The wearing of Time,
And the watching of cripples pass
With limbs shaped like questions
In their odd twist,
The pulverous grief
Melting bones with pity,
The sick falling from earth-
These, I could not foresee.

Expecting always
Some brightness to hold in trust
Some final innocence
Exempt from dust,
That, hanging solid,
Would dangle through all
Like the created poem,
Or the faceted crystal.

Stephen Spender

27 de fevereiro de 2006


Ruy Belo (1933-1978)


TO HELENA

Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
A maneira mais triste de se estar contente
a de estar mais sozinho em meio de mais gente
de mais tarde saber alguma coisa antecipadamente
Emotiva atitude de quem age friamente
inalterável forma de se ser sempre diferente
maneira mais complexa de viver mais simplesmente
de ser-se o mesmo sempre e ser surpreendente
de estar num sítio tanto mais se mais ausente
e mais ausente estar se mais presente
de mais perto se estar se mais distante
de sentir mais o frio em tempo quente
O modo mais saudável de se estar doente
de se ser verdadeiro e revelar-se que se mente
de mentir muito verdadeiramente
de dizer a verdade falsamente
de se mostrar profundo superficialmente
de ser-se o mais real sendo aparente
de menos agredir mais agressivamente
de ser-se singular se mais corrente
e mais contraditório quanto mais coerente
A via enviesada para ir-se em frente
a treda actuação de quem actua lealmente
e é tão impassível como comovente
O modo mais precário de ser mais permanente
de tentar tanto mais quanto menos se tente
de ser pacífico e ao mesmo tempo combatente
de estar mais no passado se mais no presente
de não se ter ninguém e ter em cada homem um parente
de ser tão insensível como quem mais sente
de melhor se curvar se altivamente
de perder a cabeça mas serenamente
de tudo perdoar e todos justiçar dente por dente
de tanto desistir e de ser tão constante
de articular melhor sendo menos fluente
e fazer maior mal quando se está mais inocente
É sob aspecto frágil revelar-se resistente
é para interessar-se ser indiferente
Quando helena recusa é que consente
se tão pouco perdoa é por ser indulgente
baixa os olhos se quer ser insolente
Ninguém é tão inconscientemente consciente
tão inconsequentemente consequente
Se em tantos dons abunda é por ser indigente
e só convence assim por não ser muito convincente
e melhor fundamenta o mais insubsistente
Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
O mar a terra o fumo a pedra simultaneamente

Ruy Belo, Transporte no Tempo
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26 de fevereiro de 2006


Vercors (1902-1991)

Não vinha rigorosamente todas as noites, mas não me lembro de uma única noite em que ele nos tenha deixado sem falar. Inclinava-se para o fogo e enquanto oferecia ao calor das chamas um pouco de si próprio, a sua voz sussurrante fazia-se ouvir suavemente e esses serões foram um interminável monólogo sobre os assuntos que lhe povoavam o coração — o seu país, a música, a França. Nem uma só vez tentou obter de nós qualquer resposta, uma aprovação qual­quer, ou mesmo um sorriso. Não falava durante muito tempo — pelo menos, nunca durante mais tempo do que na primeira noite. Pronunciava algumas frases, por vezes interrompidas por silêncios, outras vezes encadeando-se com a continuidade monótona de uma oração. Ora se mantinha imóvel contra a lareira, como uma cariátide, ora se aproximava, sem deixar de falar, de um objecto ou de um desenho na parede. Depois, calava-se, inclinava-se e desejava-nos uma boa noite.

Uma vez (era no tempo das suas primeiras visitas), disse:
— O que haverá de diferente entre um fogo do meu país e este fogo? A lenha, as chamas, a chaminé são semelhantes naturalmente. Mas a luz, não. A luz depende dos objectos que ilumi­na, dos habitantes desta sala, dos móveis, das paredes, dos livros nas prateleiras...

— Porque gostarei tanto desta sala? — disse, pensativo. Não é que seja de uma grande beleza, desculpem-me!... — E riu: — Isto é, não é uma
sala de museu... Quanto aos móveis, não se pode dizer: que maravilha!... Não... Mas esta sala tem uma alma. Toda esta casa tem uma alma.

Estava voltado para as prateleiras da estante. Numa breve carícia, os seus dedos percorriam as lombadas dos livros.
— ... Balzac, Barres, Baudelaire, Beaumarchais, Boileau, Buffon... Chateaubriand, Corneille, Descartes, Fénelon, Flaubert... La Fontaine, France, Gautier, Hugo... Que convite! — disse com um ligeiro riso, abanando a cabeça. — E cheguei apenas à letra H!... Nem Molière, nem Rabelais, nem Racine, nem Pascal, nem Stendhal, nem Voltaire, nem Montaigne, nem todos os outros!... — Passava lentamente pelos livros e, de vez em quando, deixava escapar um imperceptível «Ha!» quando, suponho eu, lia um nome que não pensava encontrar. — Nos Ingleses —, continuou, — pensa-se imediata­mente: Shakespeare. Nos Italianos: Dante. Em Espanha: Cervantes. E nós, de imediato: Goethe. Depois, é necessário procurar. Mas, se dizemos: e a França? Então, quem surge imediatamente? Molière? Racine? Hugo? Voltaire? Rabelais? ou outro? Avolumam-se, qual multidão à entrada de um teatro. Quem se deve deixar entrar em primeiro lugar?

Vercors, O Silêncio do Mar
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25 de fevereiro de 2006

Renoir, «Coucher de Soleil»
Pierre Auguste Renoir (1847-1919)