20 de abril de 2006

Joan Miró,«Miro's cat encircled by the flight of a bird»

Joan Miró (1893-1983)

18 de abril de 2006


Antero de Quental (1842-1891)





A Germano Meireles

Só males são reais, só dor existe:
Prazeres só os gera a fantasia;
Em nada[, um] imaginar, o bem consiste,
Anda o mal em cada hora e instante e dia.

Se buscamos o que é, o que devia
Por natureza ser não nos assiste;
Se fiamos num bem, que a mente cria,
Que outro remédio há [aí] senão ser triste?

Oh! Quem tanto pudera que passasse
A vida em sonhos só. E nada vira...
Mas, no que se não vê, labor perdido!

Quem fora tão ditoso que olvidasse...
Mas nem seu mal com ele então dormira,
Que sempre o mal pior é ter nascido!

Antero de Quental

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15 de abril de 2006



Leonardo da Vinci (1452-1519)

14 de abril de 2006


Soeiro Pereira Gomes (1909-1949)


As crianças da minha rua

As crianças da minha rua estiveram na praia - e vieram tristes.
- Coitadinhas, têm saudades do mar - disse-me alguém, talvez a pensar no último flirt do seu último veraneio de pessoa bem vivida.
Mas as crianças da minha rua não têm saudades: só eu sei por que estiveram na praia - e vieram tristes.

*

A minha rua é suja, esburacada, carcomida de velhice. Não tem passeios, porque ali ninguém passeia , nem nome nas esquinas. Mas chamam-lhe a Rua de Detrás, certamente porque as casas, atarracadas, ficam detrás de vivendas dominadoras, e a gente que nelas mora anda sempre atrás nas passadas da vida.
Rua de gente que trabalha. Em certas horas, é silenciosa e quieta; noutras, movimentada e garrulha. Tem fluxos e refluxos , como as águas do mar. As crianças da minha rua não conheciam o mar, mas adoravam a rua.
Pelas tardes cálidas de Verão, os moradores vinham para a soleira das portas, e ali ficavam a tomar o ar, que é fresco e gratuito, e a contar as novidades velhinhas da sua vida sempre igual.
As crianças - umas raquíticas, outras semi-nuas - vinham também (agora já não vêm) espalhar-se em grupos a brincar. E então a rua convertia-se no mundo encantador da sua imaginação. Havia buracos que eram precipícios; pedras que semelhavam castelos; montes de lixo convertidos em florestas. O mar era o fio de água que escorria pelas valetas; os bocados de madeira flutuavam como barcos, os papéis rasgados transformavam-se em peixes. Até a areia, que o vento arrastava aos montões, era removida, com mil cuidados, nas latas enferrujadas.
Nada faltava às crianças da minha rua. Não: faltava-lhes iodo – dissera aquele senhor que tinha saudades do último flirt.
E , certo dia deste Verão, as crianças da minha rua lá foram para a praia, todas iguais nos seus babeiros de riscado, que mãos caridosas talharam em horas de contrição.
Instalaram-se num recanto da praia, sob olhares vigilantes. De manhã, tomavam banho pela mão dos banheiros. Um, dois ... – a respirar. Depois secavam ao sol o fatinho de algodão azul, colado ao corpo enfezado, a tiritar. De tarde, voltavam para o recanto, em filas, duas a duas, e ficavam a revolver a areia, em grupos silenciosos.
Distante, no extremo da praia, outras crianças brincavam. Meninos que possuíam barcos de corda, peixes de borracha coloridos, baldes caprichosos - um mundo de brinquedos.

*

Chegaram há dias. Possuíam um mundo de fantasias, e agora já não olham para o fio de água que escorre pelas valetas, e, nos montes de lixo, as latas e papéis velhos jazem abandonados.
As crianças da minha rua estiveram na praia – e vieram tristes. Mas só eu e elas sabemos porquê.

Soeiro Pereira Gomes, Crónicas

12 de abril de 2006

Delaunay, «Fenêtre à la Ville»
Robert Delaunay (1885-1941)

9 de abril de 2006


Charles Baudelaire (1821-1867)


Embriaga-te

Devemos andar sempre bêbados.
Tudo se resume nisto: é a única solução.
Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar.
Mas com quê?
Com vinho, com poesia ou com a virtude, a teu gosto.
Mas embriaga-te.
E se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que se passou, a tudo o que gemeu, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são:
"São horas de te embriagares!"
Para não seres como os escravos martirizados do Tempo,
embriaga-te, embriaga-te sem cessar!
Com vinho, com poesia, ou com a virtude, a teu gosto.

Charles Baudelaire

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8 de abril de 2006


Jacques Brel (1929-1978)


On n'oublie rien

On n'oublie rien de rien
On n'oublie rien du tout
On n'oublie rien de rien
On s'habitue c'est tout

Ni ces départs ni ces navires
Ni ces voyages qui nous chavirent
De paysages en paysages
Et de visages en visages
Ni tous ces ports ni tous ces bars
Ni tous ces attrape-cafard
Où l'on attend le matin gris
Au cinéma de son whisky

Ni tout cela ni rien au monde
Ne sait pas nous faire oublier
Ne peut pas nous faire oublier
Qu'aussi vrai que la terre est ronde
On n'oublie rien de rien
On n'oublie rien du tout
On n'oublie rien de rien
On s'habitue c'est tout

Ni ces jamais ni ces toujours
Ni ces je t'aime ni ces amours
Que l'on poursuit à travers cœurs
De gris en gris de pleurs en pleurs
Ni ces bras blancs d'une seule nuit
Collier de femme pour notre ennui
Que l'on dénoue au petit jour
Par des promesses de retour

Ni tout cela ni rien au monde
Ne sait pas nous faire oublier
Ne peut pas nous faire oublier
Qu'aussi vrai que la terre est ronde
On n'oublie rien de rien
On n'oublie rien du tout
On n'oublie rien de rien
On s'habitue c'est tout

Ni même ce temps où j'aurais fait
Mille chansons de mes regrets
Ni même ce temps où mes souvenirs
Prendront mes rides pour un sourire
Ni ce grand lit où mes remords
Ont rendez-vous avec la mort
Ni ce grand lit que je souhaite
A certains jours comme une fête

Ni tout cela ni rien au monde
Ne sait pas nous faire oublier
Ne peut pas nous faire oublier
Qu'aussi vrai que la terre est ronde
On n'oublie rien de rien
On n'oublie rien du tout
On n'oublie rien de rien
On s'habitue c'est tout

Jacques Brel

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7 de abril de 2006


William Wordsworth (1770-1850)

What though the radiance
Which was once so bright
Be now for ever taken from my sight,
Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass,
Of glory in the flower,
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind;
In the primal sympathy
Which having been must ever be;
In the soothing thoughts that spring
Out of human suffering;
In the faith that looks through death,
In years that bring the philosophic mind.

William Wordsworth, Intimations of Immortality from Recollections of Early Childhood (excerto)

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2 de abril de 2006

Max Ernst, «Ubu Imperator»
Max Ernst(1891-1976)
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30 de março de 2006

La tristesse durera toujours
Vincent Van Gogh (1853-1890)
Quarto em Arles

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26 de março de 2006


Robert Frost (1874-1936)


Stopping By Woods On A Snowy Evening

Whose woods these are I think I know.
His house is in the village though;
He will not see me stopping here
To watch his woods fill up with snow.

My little horse must think it queer
To stop without a farmhouse near
Between the woods and frozen lake
The darkest evening of the year.

He gives his harness bells a shake
To ask if there is some mistake.
The only other sound's the sweep
Of easy wind and downy flake.

The woods are lovely, dark and deep.
But I have promises to keep,
And miles to go before I sleep,
And miles to go before I sleep.

Robert Frost

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18 de março de 2006





BUT NOT FOR ME (BILLIE HOLIDAY)

Desistir do rosto, dos propósitos, das
palavras. Há sílabas assim.
Com a vergonha do afecto
emprestada ao desalinho das mesas.

Por ali, encenando a imobilidade,
a rudeza de haver dor.
Eu sei que não virás.
Bebo por ti, sem ti, contra ti,
com o coração no bengaleiro
a fingir que não, não faz diferença.

E o pior é que até faz,
por muito que ninguém o saiba.

Manuel de Freitas

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11 de março de 2006


Sebastião Alba (1940-2000)

fim de poema

.....................................................

Para que nem tudo vos seja sonegado,
cultivai a surdina.
Eu fico em surdina.
Em surdina aparo
os utensílios,
em surdina me preparo
para morrer.
Amo, chut!, em surdina;
a minha vida,
nesga entre dois ponteiros, fecha-se
em surdina.

Sebastião Alba, A Noite Dividida

2 de março de 2006


Edgar Bowers (1924-2000)


Living Together

Of you I have no memory, keep no promise.
But, as I read, drink, wait, and watch the surf,
Faithful, almost forgotton, your demand
Becomes all others, and this loneliness
The need that is your presence. In the dark,
Beneath the lamp, attentive, like a sound
I listen for, you draw near -- closer, surer
Than speech, or sight, or love, or love returned.

Edgar Bowers


1 de março de 2006


Robert Lowell (1917-1977)

WATER

It was a Maine lobster town-
each morning boatloads of hands
pushed off for granite
quarries on the islands,

and left dozens of bleak
white frame houses stuck
like oyster shells
on a hill of rock,

and below us, the sea lapped
the raw little match-stick
mazes of a weir,
where the fish for bait were trapped.

Remember?We sat on a slab of rock.
>From this distance in time
it seems the color
of iris, rotting and turning purpler,

but it was only
the usual gray rock
turning the usual green
when drenched by the sea.

The sea drenched the rock
at our feet all day,
and kept tearing away
flake after flake.

One night you dreamed
you were a mermaid clinging to a wharf-pile,
and trying to pull
off the barnacles with your hands.

We wished our two souls
might return like gulls
to the rock.In the end,
the water was too cold for us.

Robert Lowell

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28 de fevereiro de 2006


Stephen Spender (1909-1995)

What I expected, was
Thunder, fighting.
Long struggles with men
And climbing.
After continual straining
I should grow strong;
Then the rocks would shake
And I rest long.

What I had not foreseen
Was the gradual day
Weakening the will
Leaking the brightness away,
The lack of good to touch,
The fading of body and soul
Smoke before wind,
Corrupt, insubstantial.

The wearing of Time,
And the watching of cripples pass
With limbs shaped like questions
In their odd twist,
The pulverous grief
Melting bones with pity,
The sick falling from earth-
These, I could not foresee.

Expecting always
Some brightness to hold in trust
Some final innocence
Exempt from dust,
That, hanging solid,
Would dangle through all
Like the created poem,
Or the faceted crystal.

Stephen Spender

27 de fevereiro de 2006


Ruy Belo (1933-1978)


TO HELENA

Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
A maneira mais triste de se estar contente
a de estar mais sozinho em meio de mais gente
de mais tarde saber alguma coisa antecipadamente
Emotiva atitude de quem age friamente
inalterável forma de se ser sempre diferente
maneira mais complexa de viver mais simplesmente
de ser-se o mesmo sempre e ser surpreendente
de estar num sítio tanto mais se mais ausente
e mais ausente estar se mais presente
de mais perto se estar se mais distante
de sentir mais o frio em tempo quente
O modo mais saudável de se estar doente
de se ser verdadeiro e revelar-se que se mente
de mentir muito verdadeiramente
de dizer a verdade falsamente
de se mostrar profundo superficialmente
de ser-se o mais real sendo aparente
de menos agredir mais agressivamente
de ser-se singular se mais corrente
e mais contraditório quanto mais coerente
A via enviesada para ir-se em frente
a treda actuação de quem actua lealmente
e é tão impassível como comovente
O modo mais precário de ser mais permanente
de tentar tanto mais quanto menos se tente
de ser pacífico e ao mesmo tempo combatente
de estar mais no passado se mais no presente
de não se ter ninguém e ter em cada homem um parente
de ser tão insensível como quem mais sente
de melhor se curvar se altivamente
de perder a cabeça mas serenamente
de tudo perdoar e todos justiçar dente por dente
de tanto desistir e de ser tão constante
de articular melhor sendo menos fluente
e fazer maior mal quando se está mais inocente
É sob aspecto frágil revelar-se resistente
é para interessar-se ser indiferente
Quando helena recusa é que consente
se tão pouco perdoa é por ser indulgente
baixa os olhos se quer ser insolente
Ninguém é tão inconscientemente consciente
tão inconsequentemente consequente
Se em tantos dons abunda é por ser indigente
e só convence assim por não ser muito convincente
e melhor fundamenta o mais insubsistente
Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
O mar a terra o fumo a pedra simultaneamente

Ruy Belo, Transporte no Tempo
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26 de fevereiro de 2006


Vercors (1902-1991)

Não vinha rigorosamente todas as noites, mas não me lembro de uma única noite em que ele nos tenha deixado sem falar. Inclinava-se para o fogo e enquanto oferecia ao calor das chamas um pouco de si próprio, a sua voz sussurrante fazia-se ouvir suavemente e esses serões foram um interminável monólogo sobre os assuntos que lhe povoavam o coração — o seu país, a música, a França. Nem uma só vez tentou obter de nós qualquer resposta, uma aprovação qual­quer, ou mesmo um sorriso. Não falava durante muito tempo — pelo menos, nunca durante mais tempo do que na primeira noite. Pronunciava algumas frases, por vezes interrompidas por silêncios, outras vezes encadeando-se com a continuidade monótona de uma oração. Ora se mantinha imóvel contra a lareira, como uma cariátide, ora se aproximava, sem deixar de falar, de um objecto ou de um desenho na parede. Depois, calava-se, inclinava-se e desejava-nos uma boa noite.

Uma vez (era no tempo das suas primeiras visitas), disse:
— O que haverá de diferente entre um fogo do meu país e este fogo? A lenha, as chamas, a chaminé são semelhantes naturalmente. Mas a luz, não. A luz depende dos objectos que ilumi­na, dos habitantes desta sala, dos móveis, das paredes, dos livros nas prateleiras...

— Porque gostarei tanto desta sala? — disse, pensativo. Não é que seja de uma grande beleza, desculpem-me!... — E riu: — Isto é, não é uma
sala de museu... Quanto aos móveis, não se pode dizer: que maravilha!... Não... Mas esta sala tem uma alma. Toda esta casa tem uma alma.

Estava voltado para as prateleiras da estante. Numa breve carícia, os seus dedos percorriam as lombadas dos livros.
— ... Balzac, Barres, Baudelaire, Beaumarchais, Boileau, Buffon... Chateaubriand, Corneille, Descartes, Fénelon, Flaubert... La Fontaine, France, Gautier, Hugo... Que convite! — disse com um ligeiro riso, abanando a cabeça. — E cheguei apenas à letra H!... Nem Molière, nem Rabelais, nem Racine, nem Pascal, nem Stendhal, nem Voltaire, nem Montaigne, nem todos os outros!... — Passava lentamente pelos livros e, de vez em quando, deixava escapar um imperceptível «Ha!» quando, suponho eu, lia um nome que não pensava encontrar. — Nos Ingleses —, continuou, — pensa-se imediata­mente: Shakespeare. Nos Italianos: Dante. Em Espanha: Cervantes. E nós, de imediato: Goethe. Depois, é necessário procurar. Mas, se dizemos: e a França? Então, quem surge imediatamente? Molière? Racine? Hugo? Voltaire? Rabelais? ou outro? Avolumam-se, qual multidão à entrada de um teatro. Quem se deve deixar entrar em primeiro lugar?

Vercors, O Silêncio do Mar
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25 de fevereiro de 2006

Renoir, «Coucher de Soleil»
Pierre Auguste Renoir (1847-1919)

21 de fevereiro de 2006


W. H. Auden ( 1907-1973)


As I walked out one evening,
Walking down Bristol Street,
The crowds upon the pavement
Were fields of harvest wheat.


And down by the brimming river
I heard a lover sing
Under an arch of the railway:
“Love has no ending.


“I’ll love you, dear, I’ll love you
Till China and Africa meet,
And the river jumps over the mountain
And the salmon sing in the street,


“I’ll love you till the ocean
Is folded and hung up to dry
And the seven stars go squawking
Like geese about the sky.


“The years shall run like rabbits,
For in my arms I hold
The Flower of the Ages,
And the first love of the world.”


But all the clocks in the city
Began to whirr and chime:
“O let not Time deceive you,
You cannot conquer Time.


“In the burrows of the Nightmare
Where Justice naked is,
Time watches from the shadow
And coughs when you would kiss.


“In headaches and in worry
Vaguely life leaks away,
And Time will have his fancy
To-morrow or to-day.


“Into many a green valley
Drifts the appalling snow;
Time breaks the threaded dances
And the diver’s brilliant bow.


“O plunge your hands in water,
Plunge them in up to the wrist;
Stare, stare in the basin
And wonder what you’ve missed.


“The glacier knocks in the cupboard,
The desert sighs in the bed,
And the crack in the tea-cup opens
A lane to the land of the dead.


“Where the beggars raffle the banknotes
And the Giant is enchanting to Jack,
And the Lily-white Boy is a Roarer,
And Jill goes down on her back.


“O look, look in the mirror?
O look in your distress:
Life remains a blessing
Although you cannot bless.


“O stand, stand at the window
As the tears scald and start;
You shall love your crooked neighbour
With your crooked heart.”


It was late, late in the evening,
The lovers they were gone;
The clocks had ceased their chiming,
And the deep river ran on.

W.H. Auden

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19 de fevereiro de 2006


Carson McCullers (1917-1967)

.

In the town there were two mutes, and they were always together. Early every morning they would come out from the house where they lived and walk arm in arm down the street to work. The two friends were very different. The one who always steered the way was an obese and dreamy Greek. In the summer he would come out wearing a yellow or green polo shirt stuffed sloppily into his trousers in front and hanging loose behind. When it was colder he wore over this a shapeless gray sweater. His face was round and oily, with half-closed eyelids and lips that curved in a gentle, stupid smile. The other mute was tall. His eyes had a quick, intelligent expression. He was always immaculate and very soberly dressed.

Every morning the two friends walked silently together until they reached the main street of the town. Then when they came to a certain fruit and candy store they paused for a moment on the sidewalk outside. The Greek, Spiros Antonapoulos, worked for his cousin, who owned this fruit store. His job was to make candies and sweets, uncrate the fruits, and to keep the place clean. The thin mute, John Singer, nearly always put his hand on his friend's arm and looked for a second into his face before leaving him. Then after this good-bye Singer crossed the street and walked on alone to the jewelry store where he worked as a silverware engraver.
In the late afternoon the friends would meet again. Singer came back to the fruit store and waited until Antonapoulos was ready to go home. The Greek would be lazily unpacking a case of peaches or melons, or perhaps looking at the funny paper in the kitchen behind the store where he cooked. Before their departure Antonapoulos always opened a paper sack he kept hidden during the day on one of the kitchen shelves. Inside were stored various bits of food he had collected - a piece of fruit, samples of candy, or the butt-end of a liverwurst. Usually before leaving Antonapoulos waddled gently to the glassed case in the front of the store where some meats and cheeses were kept. He glided open the back of the case and his fat hand groped lovingly for some particular dainty inside which he had wanted. Sometimes his cousin who owned the place did not see him. But if he noticed he stared at his cousin with a warning in his tight, pale face. Sadly Antonapoulos would shuffle the morsel from one corner of the case to the other. During these times Singer stood very straight with his hands in his pockets and looked in another direction. He did not like to watch this little scene between the two Greeks. For, excepting drinking and a certain solitary secret pleasure, Antonapoulos loved to eat more than anything else in the world.
In the dusk the two mutes walked slowly home together. At home Singer was always talking to Antonapoulos. His hands shaped the words in a swift series of designs. His face was eager and his gray-green eyes sparkled brightly. With his thin, strong hands he told Antonapoulos all that had happened during the day.
Antonapoulos sat back lazily and looked at Singer. It was seldom that he ever moved his hands to speak at all --- and then it was to say that he wanted to eat or to sleep or to drink. These three things he always said with the same vague, fumbling signs. At night, if he were not too drunk, he would kneel down before his bed and pray awhile. Then his plump hands shaped the words ‘Holy Jesus,' or ‘God,' or ‘Darling Mary.' These were the only words Antonapoulos ever said. Singer never knew just how much his friend understood of all the things he told him. But it did not matter.


Carson McCullers, The Heart is a Lonely Hunter

18 de fevereiro de 2006


A. R. Ammons (1926-2001)



Eyesight

It was May before my
attention came
to spring and

my word I said
to the southern slopes
I've

missed it, it
came and went before
I got right to see:

don't worry, said the mountain,
try the later northern slopes
or if

you can climb, climb
into spring: but
said the mountain

it's not that way
with all things, some
that go are gone

A.R. Ammons

17 de fevereiro de 2006


Gustavo Adolfo Bécquer (1836-1870)

Como se arranca el hierro de una herida
su amor de las entrañas me arranqué,
aunque sentí al hacerlo que la vida
me arrancaba con él.

Del altar que le alcé en el alma mía
la voluntad su imagen arrojó,
y la luz de la fe que en ella ardía
ante el ara desierta se apagó.

Aun para combatir mi firme empeño
viene a mi mente su visión tenaz...
¡Cuándo podré dormir con ese sueño
en que acaba el soñar!

Gustavo Adolfo Bécquer

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8 de fevereiro de 2006


Elisabeth Bishop (1911-1979)


One Art


The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.


--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

Elisabeth Bishop

6 de fevereiro de 2006


Padre António Vieira (1608-1697)


Para quem não recear um duelo com um dos mais hábeis esgrimistas da prosa portuguesa, recomenda-se, por exemplo,
este sermão...
.

1 de fevereiro de 2006

hipóteses individuais

Habituo-me, self-service, a fazer da visão
um modo de não ver. Guardo o tédio
como alguns jóias velhas. Talvez um dia,
quem sabe. Às vezes creio que também
sou um filho de Deus, embora nada no
bilhete de identidade ou no ritmo diário
o faça prever. Pressinto, desastrado coração,
que há um talvez e que o tédio, afinal,
é tão-só um modo de ter e ser dono,
de poder abrir e fechar portas e janelas
como quem fica à espera de que
a insónia dê lugar ao sono. Com essas
manchas de inteligência, com os relâmpagos
dessa lucidez, levanto-me e procuro
um horóscopo diferente, em que ninguém
crê, nem eu. Curiosamente, habituo-me
a morrer como se fosse um café na hora
de fechar: periscas no chão, mesas e cadeiras
— vazias, empilhadas —, uma luz verde
que chega a ser bela quando alguém
acende um cigarro.

Carlos Bessa

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28 de janeiro de 2006


Vergílio Ferreira (1916-1996)


12 - Outubro (quinta). A fúria da vida. Porque a vida é furiosa e só a morte é sossegada. Verifico-o muitas vezes, medito-o algumas dessas muitas. Hoje, por exemplo, a cidade é inimiga da vida, ou seja da Natureza, transformando-a num fortim de cimento. Mas a Natureza está sempre de atalaia, à espera do mínimo descuido para avançar. E se o descuido se prolonga, esmaga o fortim e submerge-o em floresta. Mas a cidade também está vigilante e mantém-na à distância do seu rancor. Em todo o caso, há descuidos mínimos em que não repara. E imediatamente a Natureza aproveita. E aproveita das formas mais incríveis. Ontem parei o carro no parque de estacionamento. E ao sair reparei que em toda a placa de cimento, densa e unida como um ódio, havia uma fenda minúscula em que o ódio estalava. E logo, rompendo furiosa, uma haste de erva. Como viera para ali? Como farejara o sítio para se realizar no seu milagre? Não o soube, não o sei. Sei apenas do meu espanto ajoelhado perante aquela maravilha e da minha intensa alegria pelo triunfo da vida, mesmo sob a pata pesada de uma placa de cimento.
.
Vergílio Ferreira, Conta Corrente - nova série I, Lisboa, Bertrand, 1993

27 de janeiro de 2006



Lewis Carroll (1832-1898)



A VALENTINE

And cannot pleasures, while they last,
Be actual unless, when past,
They leave us shuddering and aghast,
With anguish smarting?
And cannot friends be firm and fast,
And yet bear parting?

And must I then, at Friendship’s call,
Calmly resign the little all
(Trifling, I grant, it is and small)
I have of gladness,
And lend my being to the thrall
Of gloom and sadness?

And think you that I should be dumb,
And full dolorum omnium,
Excepting when you choose to come
And share my dinner?
At other times be sour and glum
And daily thinner?

Must he then only live to weep,
Who’d prove his friendship true and deep
By day a lonely shadow creep,
At night-time languish,
Oft raising in his broken sleep
The moan of anguish?

The lover, if for certain days
His fair one be denied his gaze,
Sinks not in grief and wild amaze,
But, wiser wooer,
He spends the time in writing lays,
And posts them to her.

And if the verse flow free and fast,
Till even the poet is aghast,
A touching Valentine at last
The post shall carry,
When thirteen days are gone and past
Of February.

Farewell, dear friend, and when we meet,
In desert waste or crowded street,
Perhaps before this week shall fleet,
Perhaps to-morrow.
I trust to find your heart the seat
Of wasting sorrow.

Lewis Carroll. Phantasmagoria and other poems.

24 de janeiro de 2006


Edith Wharton (1862-1937)




O dia estava a desvanecer-se num pôr de Sol suave, rasgado aqui e ali por uma luz amarela eléctrica, e passavam poucas pes­soas na pequena praça para onde tinham virado. Dallas parou de novo e olhou para cima.
— Deve ser aqui — disse, dando o braço ao pai com um mo­vimento de que a timidez de Archer não fugiu. E ficaram juntos a olhar a casa.
Era um edifício moderno, sem características distintas excepto muitas janelas, e com agradáveis varandas à frente pintadas de creme. Numa das varandas superiores, que ficava bem acima das copas arredondadas dos castanheiros da Praça, as gelosias ainda estavam descidas, como se o sol tivesse acabado de partir.
— Qual será o andar? — perguntou Dallas, e, dirigindo-se para a porte-cochère, pôs a cabeça na janela da porteira voltou-se e dis­se: — O quinto deve ser aquele das gelosias. — Archer continuou imóvel a olhar para as janelas de cima como se o fim da sua pe­regrinação tivesse sido atingido.
— Vamos lá, sabe, são quase seis horas — disse-lhe o filho. O pai olhou para um banco vazio sob as árvores.
— Acho que me vou sentar ali um momento — disse.
— Porquê, não está bem? — exclamou o filho.
— Oh, perfeitamente, mas gostava que você subisse sem mim, por favor.
Dallas parou diante dele, visivelmente espantado:
— Mas então, pai, quer dizer que não vai subir?
— Não sei — disse Archer lentamente.
— Se o pai não for, ela não vai entender.
— Vai, meu rapaz, talvez eu vá depois.
Dallas olhou-o através do crepúsculo.
— Mas que vou eu dizer?
— Meu caro, não sabes sempre o que dizer? — respondeu o pai com um sorriso.
— Muito bem, vou dizer que o pai é antiquado e prefere subir os cinco andares porque não gosta de elevadores. O pai sorriu novamente.
— Diz apenas que eu sou antiquado.
Dallas olhou-o de novo e depois, com um gesto incrédulo, en­trou na escada e desapareceu da vista.
Archer sentou-se num banco e continuou a olhar para a varan­da cerrada. Calculou o tempo que o filho levaria no elevador até ao quinto andar, a tocar à campainha, a ser admitido no hall e de­pois introduzido na sala. Imaginou Dallas a entrar nessa sala com o seu passo rápido, o sorriso aberto e atraente e pensou se teriam razão ao dizer que o filho «saía a ele».
Depois, tentou ver as pessoas já na sala — pois provavelmen­te a essa hora social haveria mais de uma pessoa —, e entre elas uma senhora morena e pálida que olharia rápida, se ergueria a meio e estenderia uma mão longa, esguia, com três anéis... pensou que ela deveria estar sentada num sofá de canto perto do fogo, com azáleas atrás dela numa mesa.
— É mais real para mim do que se eu subisse — ouviu-se di­zer a si próprio; e o medo que a última sombra de realidade per­desse o seu limite conservou-o no banco enquanto os minutos passavam.
Ficou sentado longo tempo no crepúsculo crescente, com os olhos sempre postos na varanda. Finalmente, uma luz brilhou na janela e um momento mais tarde um criado veio à varanda, subiu as gelosias e fechou as portadas.
Então, como se fosse o sinal por que esperava, Newland Archer levantou-se lentamente e voltou sozinho para o hotel.
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Edith Wharton, A Idade da Inocência
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Lavado em Lágrimas

23 de janeiro de 2006

Para o Mito:

AINDA HÁ MAR

(D. Sebastião aparecerá numa grande nau
por detrás do Ilhéu em Vila Franca do Campo)

Ainda há naus e viagem algures em nós
Ainda há mar
Ainda há naus para chegar ao outro lado
Lá onde só se espera
O inesperado

Talvez um dia por detrás do Ilhéu
Do meio da mágoa e da neblina
Porque ainda há viagem e Taprobana
Ainda há naus para passar
Além do tédio e da rotina

Ainda há mar
Ainda há naus para a abstracção
Matemática dos astros e dos ventos
Navegação do mito e seu teorema
Ainda há mar

Ao menos no poema


Manuel Alegre, Atlântico

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22 de janeiro de 2006


George Gordon Byron (1788-1824)



She walks in beauty, like the night
Of cloudless climes and starry skies;
And all that's best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes:
Thus mellowed to that tender light
Which heaven to gaudy day denies.

One shade the more, one ray the less,
Had half impaired the nameless grace
Which waves in every raven tress,
Or softly lightens o'er her face;
Where thoughts serenely sweet express
How pure, how dear their dwelling-place.

And on that cheek, and o'er that brow,
So soft, so calm, yet eloquent,
The smiles that win, the tints that glow,
But tell of days in goodness spent,
A mind at peace with all below,
A heart whose love is innocent!

Lord Byron

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21 de janeiro de 2006


Joaquim Matos (1929)


No regresso do olhar cresce a distância
um laço solto entre um corpo e outro corpo

Entre nós se abastece o universo

a sombra entre um porto e outro porto


Joaquim Matos, Palavra Indeferida

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19 de janeiro de 2006


Eugénio de Andrade (1923-2005)



Encostas a face à melancolia e nem sequer
ouves o rouxinol. Ou é a cotovia?
Suportas mal o ar, dividido
entre a fidelidade que deves

à terra de tua mãe e ao quase branco
azul onde a ave se perde.
A música, chamemos-lhe assim,
foi sempre a tua ferida, mas também

foi sobre as dunas a exaltação.
Não oiças o rouxinol. Ou a cotovia.
É dentro de ti
que toda a música é ave.

Eugénio de Andrade, Branco no Branco

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17 de janeiro de 2006


William Stafford (1914-1993)

Security

Tomorrow will have an island. Before night
I always find it. Then on to the next island.
These places hidden in the day separate
and come forward if you beckon.
But you have to know they are there before they exist.


Some time there will be a tomorrow without any island.
So far, I haven't let that happen, but after
I'm gone others may become faithless and careless.
Before them will tumble the wide unbroken sea,
and without any hope they will stare at the horizon.


So to you, Friend, I confide my secret:
to be a discoverer you hold close whatever
you find, and after a while you decide
what it is. Then, secure in where you have been,
you turn to the open sea and let go.

William Stafford

15 de janeiro de 2006


Ossip Mandelstam (1891-1938)


Silentium

She has not yet been born:
she is music and word,
and therefore the untorn,
fabric of what is stirred.

Silent the ocean breathes.
Madly day’s glitter roams.
Spray of pale lilac foams,
in a bowl of grey-blue leaves.

May my lips rehearse
the primordial silence,
like a note of crystal clearness,
sounding, pure from birth!

Stay as foam Aphrodite – Art –
and return, Word, where music begins:
and, fused with life’s origins,
be ashamed heart, of heart!

Ossip Mandelstam

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10 de janeiro de 2006

É nas costas que se sente a perda.
A parte da frente consegue manter as aparências.
Pelo menos, a nossa cara pode encarar-se no espelho. É a nuca que sente a solidão.
Podemos abraçar a barriga e enrolarmo-nos à sua volta. Mas as costas permanecem sozinhas.
É por isso que as sereias e os djinns são retratados com as costas ocas -- jamais alguém lhes encosta uma barriga quente. Em vez disso, é ali que trabalha o cinzel de escultor da solidão.
Não se encontra a solidão. Ela vem por detrás e acerta o passo pelo nosso.

SVEN LINDQVIST. «Exterminem todas as bestas».

7 de janeiro de 2006


Helder Moura Pereira (1949)



Tal como Emily Dickinson
tenho muito frio a escrever.
Mas tomara eu ser como Emily Dickinson,
tomara eu ser.

Só tenho vivido em cidades
onde nem sequer há tempestades
quanto mais tempestades
como aquelas que Emily Dickinson descrevia.

Sabia bem como a terra tem idades
e repetições com as mesmas qualidades:
a força do vento, o chumbo da água, maldades —
mas são maldades vitais, Deus não dormia.

Falarei de quê, da vida rasgada?
Ousarei o quê dentro da minha apatia?
Dizer que descrevo a lareira apagada
e que há um círculo quadrado na minha geometria
não pode interessar à verdadeira poesia.


Helder Moura Pereira, A Tua Cara Não Me É Estranha

4 de janeiro de 2006


Umberto Eco (1932)




Senhora,
como posso esperar mercê de quem me destrói? E contudo a quem se não a vós posso confiar a minha pena procurando conforto, se não na vossa atenção, ao menos à minha inescutada palavra? Se amor é uma medicina que cura todas as dores com uma dor ainda maior, não poderei talvez entendê-lo como uma pena que mata por excesso qual­quer outra pena, de modo a tornar-se o fármaco de todas, menos de si própria? Dado que se alguma vez vi beleza, e a pretendi, não foi senão o sonho da vossa, por que razão deverei queixar-me se outra beleza para mim é igualmente sonho? Pior seria se aquela eu fizesse minha, e com ela me saciasse, não sofrendo mais pela imagem da vossa: que de bem escasso medicamento haveria eu gozado, e o mal se acrescentaria por remorso desta infidelidade. Melhor é confiar na vossa imagem, tanto mais agora que entrevi mais uma vez um ini­miga de quem não conheço o rosto e queria talvez nunca o conhecer. Para ignorar este espectro odiado, que me socorra o vosso amado fantasma. Que de mim faça ao menos o amor um fragmento insensível, uma mandrágora, uma fonte de pedra que deite fora toda a angústia...

Umberto Eco, A Ilha do Dia Antes

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3 de janeiro de 2006


Vasco Graça Moura (1942)



uma palavra no coração


...mit einer Hoffnung auf ein kommendes Wort im Herzen
Paul Celan

quando celan visitou heidegger, e passearam
pelo bosque antes da chuva, ao despedir-se escreveu
no livro da casa sobre a esperança de uma
palavra a vir no coração. e repetiu em todtnauberg,

dois anos antes de morrer, a referência obscura
à linha escrita nesse livro, de uma esperança, então, de que,
a um ser pensante?, de um ser pensante?,
viesse uma palavra no coração. no coração, no lugar onde

a palavra reconcilia por lá se encontrar desde antes,
esperadamente. ao coração, seria menos visceral.
ou já lá estava pronta a vir ou não valia a pena
fosse quebrado o silêncio em tanta expectativa.

as raízes do fogo e do sangue são as raízes
violentas do poema, no seu magma revolto de estranhezas
ou nalguma ténue chama azulando-se em sílabas
delicadas como asas. instalada no coração,

uma palavra, uma oferenda de música e plantas silvestres,
viria a irromper do orvalho, benfazeja, transportando
se não o esquecimento, a paz. uma palavra.
tudo o que celan pedia e não sabemos se obteve

e talvez ainda procurasse numa noite de abril, no rio sena.

Vasco Graça Moura

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1 de janeiro de 2006

E.M.Forster, por Vasco
E. M. Forster (1879-1970)


Miss Abbott, don't worry over me. Some people are born not to do things. I'm one of them; I never did anything at school or at the Bar. [...] I never expect anything to happen now, and so I am never disappointed. You would be surprised to know what my great events are. Going to the theatre yesterday, talking to you now -- I don't suppose I shall ever meet anything greater. I seem fated to pass through the world without colliding with it or moving it -- and I'm sure I can't tell you whether the fate's good or evil. I don't die -- I don't fall in love. And if other people die or fall in love they always do it when I'm just not there. You are quite right; life to me is just a spectacle, which -- thank God, and thank Italy, and thank you -- is now more beautiful and heartening than it has ever been before.

E. M. Forster, Where Angels Fear to Tread
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30 de dezembro de 2005

Podemos ficar sentados a noite inteira
à espera de um sinal que nunca chega,
podemos num desespero sem nome perder
o gosto de tudo, enquanto o eu permanece
brilhante, estupidamente brilhante,
a sussurrar-nos ao ouvido a desgraça;
podemos, numa lufa-lufa, ir de filme
em filme, de livro em livro, como quem
sem terra procura uma casa, um lugar
a que possa chamar seu, onde tenha os seus
pertences e tempo para rir e tempo para
se aborrecer. Podemos ter pena de nós próprios,
podemos viver.


*Além dos sentidos comuns, poderes usa-se nos Açores como sinónimo de muito.


Carlos Bessa, Em Partes Iguais, Lisboa, Assírio & Alvim, 2004

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29 de dezembro de 2005

Sernesi,«Abetelle pistoiesi»
Raffaello Sernesi (1838-1866)

21 de dezembro de 2005

música para todos os tempos #2




Johann Sebastian Bach ||
«Concertos Brandeburgueses»
Concentus Musicus Wien, Nikolaus Harnoncourt (dir.)
Concerto Brandeburguês n.º 4, em Sol Maior, bwv 1049 -- Allegro [1.º andamento]

20 de dezembro de 2005



Victor Matos e Sá (1926-1975)

Quando os teus olhos absorvem
todas as cores da minha
mais íntima tristeza,
e compreendes e calas e prometes
um lugar qualquer na tua alma,
e a tua voz demora a regressar
ao neutro compromisso das palavras,

sei que as tuas mãos ajudariam
a limpar estas lágrimas antigas
por dentro do meu rosto.

Victor Matos e Sá

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Todas as noites canto, porque sou pago para isso, mas as canções que ouviste eram pézinhos e sapateiras para os turistas de passagem e para aqueles americanos que se estão a rir lá ao fundo e que daqui a pouco se vão embora aos ziguezagues. As minhas verdadeiras canções são só quatro chama-ritas, pois o meu repertório é escasso, e depois eu estou a ficar velho, e fumo de mais e a minha voz está rouca. Tenho de vestir este balandrau açoreano que se usava em tempos, porque os americanos gostam do pitoresco, depois voltam para o Texas e contam que estiveram numa tasca, numa ilha perdida, onde um velho com uma capa cantava o folclore do seu povo. Querem a viola de arame que dá este som de feira melancólica, e eu canto-lhes modinhas pirosas onde a rima é sempre a mesma, mas tanto faz, eles não percebem e, como vês, bebem gin tónico. Mas tu, o que é que procuras, que todas as noites vens aqui? Tu és curioso e procuras outra coisa, porque é a segunda vez que me convidas a beber, mandas vir vinho «de cheiro» como se fosses dos nossos, és estrangeiro e finges falar como nós, mas bebes pouco e depois ficas calado e esperas que fale eu. Disseste que és escritor e, no fundo, talvez a tua profissão tenha alguma coisa a ver com a minha. Todos os livros são estúpidos, há sempre pouco de verdadeiro neles, e contudo li muitos nos últimos trinta anos, mesmo italianos, naturalmente todos traduzidos, aquele de que mais gostei chamava-se Canaviais no vento, de uma tal Deledda, leste-o? E depois tu és jovem e gostas de mulheres, bem vi como olhavas para aquela mulher muito bonita com o pescoço alto, olhaste para ela toda a noite, não sei se estás com ela, também ela olhava para ti e talvez te pareça estranho, mas tudo isto acordou em mim qualquer coisa, deve ser porque bebi de mais. Sempre escolhi o demais na vida e isto é uma perdição, mas não há nada a fazer quando se nasce assim.

Em frente da nossa casa havia uma atafona, nesta ilha chamava-se assim, era uma espécie de nora que andava à volta, agora já não as há, falo-te de há muitos anos, ainda tu não tinhas nascido. Se penso nela ouço ainda o seu ranger, é um dos ruídos da minha infância que me ficaram na memória, a minha mãe mandava-me com o cântaro buscar água e eu, para enganar o cansaço, acompanhava o movimento com uma canção de embalar e às vezes adormecia deveras. Para além da nora havia um muro caiado e depois o precipício e, ao fundo, o mar. Éramos três irmãos e eu era o mais jovem. O meu pai era um homem lento, comedido nos gestos e nas palavras, com os olhos tão claros que pareciam de água, a sua barca chamava-se Madrugada, que era também, em família, o nome da minha mãe. Meu pai era baleeiro, como o fora seu pai, mas em certas épocas do ano, quando as baleias não passam, praticava a pesca às moreias e nós íamos com ele, e também a nossa mãe. Agora já não se faz assim, mas quando eu era criança usava-se um ritual que fazia parte da pesca. As moreias pescam-se de noite, quando nasce a lua, e para as atrair usava-se uma canção que não tinha palavras: era um canto, uma melodia primeiro baixa e lânguida e depois aguda, nunca mais voltei a ouvir um canto com tanta pena, parecia que vinha do fundo do mar ou das almas perdidas na noite, era um canto tão antigo como as nossas ilhas, agora já ninguém o sabe, perdeu-se, e talvez seja melhor assim porque trazia consigo uma maldição ou um destino, como que uma magia. Meu pai saía com a barca, era noite, movia os remos devagar, perpendicularmente, para não fazer barulho, e nós, os meus irmãos e a minha mãe, sentávamo-nos na falésia e começávamos aquele canto. Às vezes eles calavam-se e queriam que fosse eu a chamar porque diziam que a minha voz era melodiosa como nenhuma outra e que as moreias não resistiam. Penso que a minha voz não era melhor do que a dos outros: queriam que fosse eu a cantar, só porque era o mais novo e dizia-se que as moreias gostam das vozes claras. Talvez fosse uma superstição sem fundamento, mas isso não tem importância. Depois, nós crescemos e a minha mãe morreu. Meu pai ficou mais taciturno e, às vezes, à noite, ficava sentado no muro da falésia a olhar para o mar. A partir daí, saíamos só para as baleias, nós três éramos grandes e fortes e o meu pai confiou-nos arpões e lanças, como exigia a sua idade. Depois, um dia, os meus irmãos deixaram-nos. O do meio partiu para a América, só o disse no dia da partida, eu fui ao porto despedir-me dele, o meu pai não foi. O outro foi trabalhar como camionista para o continente, era um rapaz risonho que sempre gostara do ruído dos motores, quando o guarda republicano nos veio participar o acidente, eu estava sozinho em casa e ao meu pai contei-o à ceia.

Continuámos nós dois a ir às baleias. Agora era mais difícil, era preciso recorrer a assalariados, porque com menos de cinco pessoas não se pode sair e o meu pai teria querido que eu me casasse, porque uma casa sem uma mulher não é uma verdadeira casa. Mas eu tinha vinte e cinco anos e gostava de brincar ao amor, todos os domingos ia até ao porto e mudava de namorada, na Europa era tempo de guerra e nos Açores a gente ia e vinha, todos os dias um navio atracava aqui ou noutro lado, e em Porto Pim falavam-se todas as línguas.

Encontrei-a um domingo no porto. Estava vestida de branco, com os ombros nus e com um chapéu de renda. Parecia saída de um quadro e não de um daqueles navios carregados de pessoas que fugiam para as Américas. Olhei-a longamente e também ela olhou para mim. É estranho como o amor pode entrar dentro de nós. Em mim entrou ao notar duas pequenas rugas que mal se lhe esboçavam à volta dos olhos e pensei assim: já não é muito nova. Pensei assim talvez porque, ao rapaz que eu era, uma mulher madura parecia mais velha do que a sua idade real. Que tinha pouco mais de trinta anos só o soube muito mais tarde, quando saber a sua idade já não servia de nada. Dei-lhe os bons-dias e perguntei-lhe em que podia ser-lhe útil. Indicou-me a mala que estava a seus pés. Leva-a ao «Bote», disse-me na minha língua. O «Bote» não é um lugar para senhoras, disse eu. Eu não sou uma senhora, respondeu, sou a nova patroa.

No domingo seguinte, voltei à cidade. O «Bote» nesse tempo era um local estranho, não era exactamente uma taberna para pescadores, e eu só lá tinha entrado uma vez. Sabia que havia dois séparés nas traseiras onde diziam que se jogava a dinheiro e a sala do bar tinha uma abóbada baixa, com um grande espelho de arabescos e as mesas de pau de figueira. Os clientes eram todos estrangeiros, parecia que estavam todos em férias, na realidade passavam o dia a espiarem-se, cada um fingindo ser de um país que não era o seu, e nos intervalos jogavam às cartas. O Faial, nesses anos, era um lugar incrível. Ao balcão servia um canadiano baixo, com patilhas em bico, chamava-se Denis e falava português como os de Cabo Verde, conhecia-o porque ao sábado vinha ao porto comprar peixe, no «Bote» podia-se jantar, ao domingo. Foi ele que depois me ensinou inglês.

Queria falar com a patroa, disse-lhe eu. A senhora vem só depois das oito, respondeu com superioridade. Sentei-me a uma mesa e mandei vir o jantar. Por volta das nove chegou ela, havia outros clientes, viu-me e cumprimentou-me distraidamente, e depois sentou-se num canto onde estava um velho senhor de bigode branco. Só então me apercebi de como era bonita, duma beleza que me punha em fogo, era isto que me tinha levado ali, mas até àquele momento não o tinha percebido realmente. E naquele momento o que eu percebia ordenou-se dentro de mim com clareza e quase me deu uma vertigem. Passei a noite a olhá-la, com os punhos apoiados às têmporas, e quando saiu, segui-a a uma certa distância. Caminhava ligeira, sem se voltar, como quem não se importa de ser seguida, passou a porta da muralha de Porto Pim e começou a descer a baía. Do outro lado do golfo, onde acaba o promontório, isolada entre as rochas, entre um canavial e uma palmeira, há uma casa de pedra. Talvez já a tenhas visto, agora é uma casa desabitada e as janelas estão a cair, tem algo de sinistro, qualquer dia o telhado desaba, se é que ainda não desabou. Ela morava ali, mas então era uma casa branca, com esquadrias azuis à volta das portas e das janelas. Entrou, fechou a porta e a luz apagou-se. Eu sentei-me numa rocha e esperei. A meio da noite iluminou-se uma janela, ela assomou e eu olhei-a. As noites são silenciosas em Porto Pim, basta falar no escuro para se ouvir à distância. Deixa-me entrar, supliquei-lhe. Ela fechou a persiana e apagou a luz. A lua estava a nascer, com um véu vermelho de lua de Verão. Sentia-me perturbado, a água marulhava à minha volta, tudo era tão intenso e ao mesmo tempo longe, e lembrei-me de quando era criança e à noite, da falésia, chamava as moreias, e então tive uma fantasia, não pude conter-me, e comecei a cantar aquele canto. Cantei muito devagar, como um lamento ou uma súplica, com a mão atrás da orelha para guiar a voz. Daí a pouco a porta abriu-se e eu entrei no escuro da casa e encontrei-me nos seus braços. Chamo-me Yeborath, disse apenas.

Tu sabes o que é traição? A traição, a traição verdadeira, é quando sentes vergonha e desejarias ser outro. Eu queria ter sido outro quando fui dizer adeus ao meu pai e os seus olhos me seguiam, enquanto eu embrulhava o arpão no oleado e o pendurava num prego da cozinha e punha a tiracolo a viola que me dera pelos meus vinte anos: decidi mudar de profissão, disse rapidamente, vou cantar num local de Porto Pim, virei ver-te aos sábados. Mas naquele sábado não fui e nem sequer no sábado seguinte, e mentindo a mim próprio dizia para comigo que iria no outro sábado. E assim veio o Outono, e passou o Inverno, e eu cantava. Fazia também outras pequenas tarefas, porque às vezes alguns clientes bebiam demais e para os amparar ou mandá-los embora era preciso um braço forte que Denis não tinha. E depois escutava o que diziam os clientes que fingiam estar de férias, é fácil escutar as confidências dos outros quando se é cantor de taberna, e como vês também é fácil fazê-las. Ela esperava-me na casa de Porto Pim e agora já não precisava de bater à porta. Perguntava-lhe: quem és, donde vens?, porque não nos vamos embora para longe destes tipos absurdos que fingem jogar às cartas?, quero ficar contigo para sempre. Ela ria e deixava-me perceber a razão daquela sua vida, e dizia-me: espera mais um pouco e partiremos juntos, tens de ter confiança em mim, mais do que isto não posso dizer-te. Depois punha-se nua à janela, fitava a lua e dizia-me: canta o teu chamariz, mas em voz baixa. Enquanto eu cantava, pedia-me que a amasse, e eu possuía-a de pé, apoiada ao parapeito da janela enquanto ela fitava a noite como se esperasse qualquer coisa.

Aconteceu no dia 10 de Agosto. Pelo São Lourenço o céu está cheio de estrelas cadentes, contei treze ao voltar para casa. Encontrei a porta fechada, e bati. Depois voltei a bater com mais força, porque a luz estava acesa. Ela abriu e ficou à porta, mas eu afastei-a com o braço. Parto amanhã, disse, a pessoa que esperava voltou. Sorria como se me estivesse a agradecer, e quem sabe porquê pensei que ela estava a pensar no meu canto. No fundo do quarto um vulto mexeu-se. Era um homem idoso que se estava a vestir. O que é que esse quer?, perguntou-lhe naquela língua que agora eu percebia. Está bêbado, disse ela, em tempos era baleeiro, mas deixou o arpão pela viola, durante a tua ausência foi meu criado. Manda-o embora, disse ele sem olhar para mim.

Havia um reflexo claro sobre a baía de Porto Pim. Percorri o golfo como quando, num sonho, te encontras de repente do outro lado da paisagem. Não pensei em nada porque não queria pensar. A casa do meu pai estava às escuras, porque ele deitava-se cedo. Mas não estava a dormir, como muitas vezes acontece com os velhos que jazem imóveis no escuro como se fosse uma espécie de sono. Entrei sem acender a luz, mas ele ouviu-me. Voltaste, murmurou. Eu fui à parede do fundo e peguei no meu arpão. Movia-me à luz da lua. Não se vai às baleias a esta hora da noite, disse ele da sua cama. É uma moreia, disse eu. Não sei se percebeu o que eu queria dizer, mas não replicou, nem se mexeu. Pareceu-me que me fazia um sinal de adeus com a mão, mas talvez fosse a minha imaginação ou um jogo de sombra na penumbra. Não o voltei a ver, morreu muito antes de eu cumprir a minha pena. O meu irmão também não o voltei a ver. No ano passado, recebi uma fotografia dele, está um homem gordo, de cabelos brancos, rodeado por um grupo de desconhecidos que devem ser os filhos e as noras, estão sentados na varanda de uma casa de madeira e as cores são exageradas como as dos postais. Dizia-me que se quisesse ir para o pé dele, lá há trabalho para todos e à vida é fácil. Quase me pareceu cómico. O que quer dizer uma vida fácil, quando a vida já passou?

E se tu ficares mais um pouco e a voz não me falhar, esta noite canto-te a melodia que marcou o destino desta minha vida. Há trinta anos que não a canto e pode ser que a voz não aguente. Não sei porque o faço, ofereço-a àquela mulher do pescoço alto e à força que tem um rosto quando aflora noutro, e isto certamente tocou-me uma corda. E a ti, italiano, que vens aqui todas as noites e se vê que és ávido de histórias verdadeiras para fazeres delas papel, ofereço-te esta história que acabas de ouvir. Podes até pôr o nome de quem ta contou, mas não aquele por que sou conhecido nesta tasca, que é um nome para turistas de passagem. Escreve que esta é a verdadeira história de Lucas Eduíno, que matou com o arpão a mulher que julgava sua, em Porto Pim.

Ah, só numa coisa não me tinha mentido, descobri-o no processo. Chamava-se mesmo Yeborath. Se isso pode ter importância.

Antonio Tabucchi, in Mulher de Porto Pim

19 de dezembro de 2005


Vitorino Nemésio (1901-1978)




Ao entardecer os campos enchiam-se de neblina, o Pico ficava baço e monumental nas águas. Dos lados da estrada da Caldeira sentiu-se uma tropeada, depois pó e um cavaleiro no encalço de uma senhora a galope: ― Slowly! Let go him alone ... Os cavalos meteram a trote e puseram-se a par. O de Roberto Clark vinha suado, com um pouco de espuma na barriga e sinal de sangue num ilhal. O de Margarida, enxuto, meteu a passo.
― Ah, não posso mais ... O tio desafiou-me e deixou-se ficar para trás! Assim não vale ...
― Largaste-te logo ... Eu bem te disse: prender e folgar ... prender e folgar ... E depois, deixaste-o fazer a curva a galope com a mão do outro lado. That’s dangerous! ...
Roberto Clark exprimia-se correntemente em português; só tinha um nada de entonação ingénua, cheia de ohs, que tanto divertia a sobrinha; às vezes hesitava um pouco, à procura de certas palavras, fazendo estalar os dedos como quem deixa fugir precisamente a que convinha. Era um rapaz alto, espadaúdo. Vestia um casaco de sport e calção encordoado, à Chantilly, um boné escocês enterrado até às sobrancelhas ruivas, debaixo das quais espreitavam dois olhinhos sem cor precisa, como que metidos n’água.
― Que bom, galopar! E depois, este não é como a Jóia, que apanhou aquele passo escangalhado da charrette ...
― Quê? A égua de teu pai, o peru? ... Half-bred ... Já lhe disse que tem de vendê-la.
― Ah! Se o tio conseguisse! ...
― Com o dobro do dinheiro da Jóia arranja-se um bom cavalo. Eu ponho o resto. É o meu presente de anos.
Margarida sorriu; mas mostrou-se reservada, lassou um pouco as rédeas do bridão e compôs o cabelo. Não sabia o que era fazer anos desde a última vez que os passara na Pedra da Burra, nas Vinhas, quando o avô ainda se mexia e teimava em meter-se ao Canal. Em Fevereiro havia muitos dias de mar bravo, as lanchas afocinhavam nas grandes covas de água cavadas pelo vento da Guia. Para tirar o avô das escadinhas eram duas pessoas: o Manuel Bana dentro da lancha a agarrá-lo por um braço, o cobrador nos degraus do cais, de mão estendida, e sempre aquele perigo de escorregar nos limos. Mas teimava; metia-se no vão da janela do pomar quase entalado pela mesa, estendia o baralho das paciências na coberta de tapete com a garrafa de whisky ao lado, a caixa dos charutos e dos sisos do whist aberta. Ficava ali tardes ... a ouvir a tesoura de Manuel Bana, que podava defronte.
Nesse ano quisera nas Vinhas todas as famílias amigas ― lanchas atrás de lanchas, o portão do pátio aberto para a charrette e com argolas para os burros. Tinham jantado na falsa por cima do barracão das canoas, por arrumar mais gente. A última vez que enfeitaram o bolo com rosas de que ela gostasse, as primeiras rosas de trepar do quintal do tio Mateus Dulmo. E camélias fechadas do Pico, como uns copinhos ... Vinte velas a arder diante do seu talher!
― Estás velha, hem? ...
― Velha, não; mas enfim ... o tempo não passa só para quem viajou muito como o tio. Quem me dera! ...
― Viajar ou envelhecer?
― Talvez as duas coisas ...
Sentiu sede de se abrir toda ao tio, explicar aqueles dois pontos que ele isolara tão bem a rasto da recordação do seu dia de anos no Pico; mas não achou palavras sensatas, ou pelo menos capazes de serem ditas ali de selim a selim, nos campos tão bonitos. As culturas começavam a cobrir-se das primeiras flores singelas; os olhinhos das árvores abotoavam discretamente. O verde-negro dos pastos, o verde dos Açores, quente e húmido, emborralhava-se até longe. Os cavalos seguiam de cabeça comprida, fazendo vibrar de vez em quando as ventas.
... Envelhecer não seria; mas era deixar passar um grande espaço de tempo, como um troço de filme em branco, fechar os olhos ao peso daquela doçura da volta, tapar os ouvidos como quem teve um mau dia e chora ao meter-se na cama, moída, gasta ... Na manhã seguinte acordar, mas passados uns anos, longe do Faial, ou noutro Faial só com o caminho à roda, o Pico em frente ... gaivotas ... sem ninguém.
O tio tinha dito: «viajar ou envelhecer?» Margarida gastara a resposta naquele silêncio e os olhos nas orelhas do cavalo.

Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal, Lisboa, IN-CM, 1999 (excerto do cap. IX)

16 de dezembro de 2005

Kandinsky, «Murnau with Church»
Vasil'yevich Kandinsky (1866-1944)

15 de dezembro de 2005





Esplanadas

um sofrimento parecia revelar
a vida ainda mais
a estranha dor de que se perca
o que facilmente se perde:
o silêncio as esplanadas da tarde
a confidência dócil de certos arredores
os meses seguidos sem nenhum cálculo

por vezes é tão criminoso
não percebemos
uma palavra, uma jura, uma alegria

José Tolentino de Mendonça, Baldios


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12 de dezembro de 2005

Edvard Munch, «Melancolia»
Edvard Munch (1863-1944)

11 de dezembro de 2005


Manuel Gusmão (1945)


É isto: a noite de manhã
Tu levantas-te

Manhã e noite não se vêem ao espelho
antes o estilhaçam para dentro
desencontram-se interminavelmente

mas ouvem-se uma à outra entre as salas da casa

Tu estás súbita ali na esquina do corredor
sinto por momentos a tua cara negra
e a imensidão do teu corpo anoitecido

passas-me a manhã devagar
de mão a mão
como um mapa fosforescente

onde por certo íamos morrer


Manuel Gusmão, Mapas O Assombro A Sombra
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10 de dezembro de 2005


Emily Dickinson (1830-1886)


Ample make this bed.
Make this bed with awe;
In it wait till judgment break
Excellent and fair.

Be its mattress straight,
Be its pillow round;
Let no sunrise’ yellow noise
Interrupt this ground.

Emily Dickinson

9 de dezembro de 2005

música para todos os tempos #1



D. Bomtempo & Carlos Seixas ||
«Estudos e Toccatas»
Sofia Lourenço (piano) || Numérica
[12] -- Carlos Seixas, Toccata

8 de dezembro de 2005


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7 de dezembro de 2005



Noam Chomsky (n. 1928)


«A good way of finding out who won a war, who lost a war, and what the war was about, is to ask who's cheering and who's depressed after it's over - this can give you interesting answers. So, for example, if you ask that question about the Second World War, you find out that the winners were the Nazis, the German industrialists who had supported Hitler, the Italian Fascists and the war criminals that were sent off to South America - they were all cheering at the end of the war. The losers of the war were the anti-fascist resistance, who were crushed all over the world. Either they were massacred like in Greece or South Korea, or just crushed like in Italy and France. That's the winners and losers. That tells you partly what the war was about. Now let's take the Cold War: Who's cheering and who's depressed? Let's take the East first. The people who are cheering are the former Communist Party bureaucracy who are now the capitalist entrepreneurs, rich beyond their wildest dreams, linked to Western capital, as in the traditional Third World model, and the new Mafia. They won the Cold War. The people of East Europe obviously lost the Cold War; they did succeed in overthrowing Soviet tyranny, which is a gain, but beyond that they've lost - they're in miserable shape and declining further. If you move to the West, who won and who lost? Well, the investors in General Motors certainly won. They now have this new Third World open again to exploitation - and they can use it against their own working classes. On the other hand, the workers in GM certainly didn't win, they lost. They lost the Cold War, because now there's another way to exploit them and oppress them and they're suffering from it.»