9 de setembro de 2006


Cesare Pavese (1908-1950)



VIRÁ A MORTE E TERÁ OS TEUS OLHOS

Virá a morte e terá os teus olhos
esta morte que nos acompanha
da manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra vã,
um grito emudecido, um silêncio.
Assim os vejo todas as manhãs
quando sobre ti te inclinas
ao espelho. Ó cara esperança,
nesse dia saberemos também nós,
que és a vida e és o nada.

Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como deixar um vício,
como ver no espelho
re-emergir um rosto morto,
como ouvir lábios cerrados.
Desceremos ao vórtice mudo.

Cesare Pavese (tradução de Jorge de Sena)


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4 de setembro de 2006


Raul de Carvalho (1920-1984)

Serpente morta, por instantes


Sinto que me afeiçoo
a ti.
Por motivos ignorados, ia a escrever.
Arrependi-me. Os motivos são outros, residem lá no fundo da minha consciência, e dela saltam! livres! e livres, são claros — impõem se,
circunscrevem-se, precisam-se; entristecem-me.
Eu nunca soube nunca o que era a companhia.
Começo a habituar-me. A viver a teu lado.
Não é que se desfaça a bruma; há poços cheios de inverno, calafetados. Tenho dificuldade é compreender por que ris, porque és ágil e firme,
quando o és.
Reprimo, muitas vezes, as lágrimas. Falo-te docemente. Não respondes. E o teu silêncio é cúmplice do meu, formam, sem querer, uma rosa que
brota da mesma haste. Floresce em casa que já não é alheia.
A voluptuosidade nascente do teu corpo é um vaso que eu encho com
carinho. Beijo-te, apenas. E as recordações são capitosas.
Mas o astro que reflectiu meu nome,
empalideceu, puxou por mim para o outro lado.
E eis-me deitado ao pé de ti, desperto, lembrando como é triste ter a morte na frente, ter a vida na frente...
Soluços, soluços são os que se não ouvem.
Contagiam.
E, dentro da cabeça, zumbem abelhas de desconforto e mágoa. A noite
iniciada não tem fim.

Raul de Carvalho

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1 de setembro de 2006


António Lobo Antunes (1942)


É da tua mão que eu preciso agora

É da tua mão que eu preciso agora. Há momentos, sabes, que me sinto tão cansado, todos estes dias cheios de palavras que me fogem. Então penso em ti: Joana. Penso: vou contar-te uma coisa. Há pouco tempo morreu a filha de um amigo meu, homem generoso e bom, melhor do que alguma vez fui. Um cemitério é um lugar horrível e a dor dele doía-me. Depois de tudo acabar voltei para o automóvel. Eram muitos passos nas veredas a voltarem para os automóveis. O caixãozinho branco. Aquelas árvores que tu conheces de quando a gente há dois anos. Despedi-me das pessoas um pouco ao acaso, sem sentir os dedos que apertava: têm tantos dedos as pessoas. Nem me lembro já porquê abri a mala do carro. Estavam lá dentro coisas tuas de Espanha: batas, papéis, as inutilidades confusas que estás sempre a juntar. Peguei numa das tuas batas, abracei-a. E desatei num choro de menino, de cabeça inclinada para a mala do carro na esperança de que não me vissem. Depois lá enxuguei o nariz à manga
nunca perdi o hábito de enxugar o nariz à manga
engoli-me a mim mesmo e vim-me embora. Sempre que me sento no teu carro lembro-me de ti. Também me lembro quando não me sento no carro mas sempre que me sento no carro lembro-me de ti. De ti e de Malanje onde começaste a ser, e as mangueiras tremem-me no interior do sangue.
Mas é da tua mão que eu preciso agora. Há momentos em que me farto de ser homem: tudo tão pesado, tão estranho, tão difícil. Eu vou tendo paciência e no entanto, às vezes as coi­sas magoam, há ideias que entram na gente como espinhos. Não se podem tirar com uma pinça: ficam lá. É então que a cara prin­cipia a estragar-se e a gente
dizem
envelhece. Necessito de muito pouca coisa hoje em dia: uns livros, o meu trabalho de escrever, amigos que se estreitam com o tempo, alguns deixados para trás, não sei onde. A minha avó dizia que fui a pessoa por quem chorava mais. Nunca acre­ditei. Era autoritária, mimada, sedutora: tratava-me tão bem! Jogávamos a ver qual de nós dois conquistava o outro: andáva­mos mais ou menos empatados
(sabes como detesto perder)
e nisto ela morreu. Recordo-me de sair de sua casa e vir à cervejaria comer. Ainda não tinha tempo de sentir-lhe a ausên­cia. Pedi o jornal desportivo ao empregado. Ao voltar para cima achei-a vestida sobre a cama.
Agora é novembro, tenho frio, ando às voltas com um romance de que não estou a gostar. Nunca estou a gostar do que escrevo, acho aquele em que trabalho o mais difícil, acho que as palavras me derrotam. Frases puxadas como pedras de um poço que não vejo. Banalidades que me indignam por estarem tão longe do que quero. Capítulos que me fogem, o plano da his­tória dinamitado pelos caprichos da minha mão, que não faz o que pretendo: escapa-se sempre, inventa, tenho de apanhá-la a meio de um período inverosímil. Talvez seja por isso que preciso da tua. Ou não por isso: não bebo e no entanto há alturas em que me sinto tão só que é quase o mesmo. E sem essa solidão não me é possível escrever. O meu amigo a quem morreu a filha chama-se José Francisco. Quando sorri os cantos da boca parecem levantar voo. Faz-me bem. Gostava de sorrir assim. Experimentei ao espelho e não é igual. Quer dizer, a boca curvou-se mas os olhos ficaram fixos, duros. Deixei de sorrir e enchi a cara de espuma da barba, até ser apenas nariz e olhos. Então sorri outra vez e os olhos acharam graça e mudaram. Os meus olhos sérios olhavam para os meus olhos divertidos. Pisquei o esquerdo e o espelho piscou o direito. Lavei a cara, apaguei a luz, saí. Por um segundo veio-me a sensação de caminhar em Malanje. Aquele cheiro da terra, demorado, opaco, violento. E pronto, é tarde. Em chegando ao fim da página aca­bou-se. Ponho a tampa na caneta, os cotovelos na mesa e fico a observar a parede. Nem vou reler isto, mando tal e qual. Prefiro observar a parede, deixar-me impregnar devagarinho pela essên­cia das coisas. Esta cadeira, aquele móvel, uma manchinha de cinza no chão, as minhas mãos geladas de frio a acabarem esta crónica. Se calhar amanhã telefono-te. Ou regresso ao romance na teimosia dos cães. Penso: nem que deixe a pele nele hei-de conseguir acabá-lo. Comecei-o no princípio de outubro, falta muito. Alinho os papéis, ponho tudo em ordem para a escrita. Nem que deixe a pele nele hei-de conseguir acabá-lo. Leio a última frase, continuo. Só por um bocadinho de nada, antes que continue, importas-te de tirar as batas do carro? Importas-te de me dar a mão?
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António Lobo Antunes, Segundo Livro de Crónicas
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27 de agosto de 2006

Man Ray, «The Gift»
Man Ray (1890-1976)
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26 de agosto de 2006


Julio Cortázar (1914-1984)


NO ME DES TREGUA


No me des tregua, no me perdones nunca.
Hostígame en la sangre,
que cada cosa cruel sea tú que vuelves.
¡No me dejes dormir, no me des paz!
Entonces ganaré mi reino,
naceré lentamente.
No me pierdas como una música fácil,
no seas caricia ni guante;
tálame como un sílex, desespérame.

Julio Cortázar

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25 de agosto de 2006


Ana Marques Gastão (1962)


Deixa-me dormir
quando
morre a noite.
Assim o amor
será absoluto
sacrifício
impassível sangue
árido prazer.

Deixa-me dormir
quando
morre a noite.
Assim o amor
guardará
uma grega ilusão
de sonho
e embriaguez.

Deixa-me dormir
quando
morre a noite.
Assim o amor
terá merecido
a dor, veloz,
insustentável
e imoderada.

Deixa-me dormir
quando
morre a noite.
Assim o amor
dir-nos-á
sois abandonados
cristos
na boca de deus.

Ana Marques Gastão

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24 de agosto de 2006


Jorge Luís Borges (1899-1986)

1964

I

Ya no es mágico el mundo. Te han dejado.
Ya no compartirás la clara luna
ni los lentos jardines. Ya no hay una
luna que no sea espejo del pasado,


cristal de soledad, sol de agonías.
Adiós las mutuas manos y las sienes
que acercaba el amor. Hoy sólo tienes
la fiel memoria y los desiertos días.


Nadie pierde (repites vanamente)
sino lo que no tiene y no ha tenido
nunca, pero no basta ser valiente


para aprender el arte del olvido.
Un símbolo, una rosa, te desgarra
y te puede matar una guitarra.

II

Ya no seré feliz. Tal vez no importa.
Hay tantas otras cosas en el mundo;
un instante cualquiera es más profundo
y diverso que el mar. La vida es corta


y aunque las horas son tan largas, una
oscura maravilla nos acecha,
la muerte, ese otro mar, esa otra flecha
que nos libra del sol y de la luna


y del amor. La dicha que me diste
y me quitaste debe ser borrada;
lo que era todo tiene que ser nada.


Sólo que me queda el goce de estar triste,
esa vana costumbre que me inclina
al Sur, a cierta puerta, a cierta esquina.

Jorge Luís Borges

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19 de agosto de 2006


Ogden Nash (1902-1971)



Pretty Halcyon Days

How pleasant to sit on the beach,
On the beach, on the sand, in the sun,
With ocean galore within reach,
And nothing at all to be done!
No letters to answer,
No bills to be burned,
No work to be shirked,
No cash to be earned,
It is pleasant to sit on the beach
With nothing at all to be done!
How pleasant to look at the ocean,
Democratic and damp; indiscriminate;
It fills me with noble emotion
To think I am able to swim in it.

To lave in the wave,
Majestic and chilly,
Tomorrow I crave;
But today it is silly.
It is pleasant to look at the ocean;
Tomorrow, perhaps, I shall swim in it.
How pleasant to gaze at the sailors.
As their sailboats they manfully sail
With the vigor of vikings and whalers
In the days of the vikings and whale.
They sport on the brink
Of the shad and the shark;
If its windy they sink;
If it isn't, they park.
It is pleasant to gaze at the sailors,
To gaze without having to sail.

How pleasant the salt anesthetic
Of the air and the sand and the sun;
Leave the earth to the strong and athletic,
And the sea to adventure upon.
But the sun and the sand
No contractor can copy;
We lie in the land
Of the lotus and poppy;
We vegetate, calm and aesthetic,
On the beach, on the sand, in the sun.

Ogden Nash

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16 de agosto de 2006


Charles Bukowski (1920-1994)

The Laughing Heart


your life is your life.
don’t let it be clubbed into dank submission.
be on the watch.
there are ways out.
there is a light somewhere.
it may not be much light but
it beats the darkness.
be on the watch.
the gods will offer you chances.
know them.
take them.
you can’t beat death but
you can beat death in life, sometimes.
and the more often you learn to do it,
the more light there will be.
your life is your life.
know it while you have it.
you are marvelous.
the gods wait to delight
in you.

Charles Bukowski


Tom Waits e Bono recitam Bukowski

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15 de agosto de 2006


José Agostinho Baptista (1948)

Parte-se

Parte-se,
como uma ânfora desmedida,
o meu coração.
É Junho,
começam a abrir-se as flores da melancolia.

Desço os degraus da casa e da terra.
Fecho os olhos.
E por dentro da sua cor,
por dentro da sua luz verde,
esses olhos partem para o mar,
quando o crepúsculo cai do outro lado dos
espelhos

Parece que os girassóis se erguem na berma
das estradas.
Parece que as cegonhas dormem.

Nem tu,
cujo rosto vi desenhar-se tantas vezes no
rosto da lua, me poderás salvar.

José Agostinho Baptista, Esta Voz é Quase o Vento

9 de agosto de 2006


Philip Larkin (1922-1985)


This Be The Verse

They fuck you up, your mum and dad.
They may not mean to, but they do.
They fill you with the faults they had
And add some extra, just for you.

But they were fucked up in their turn
By fools in old-style hats and coats,
Who half the time were soppy-stern
And half at one another's throats.

Man hands on misery to man.
It deepens like a coastal shelf.
Get out as early as you can,
And don't have any kids yourself.

Philip Larkin

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8 de agosto de 2006


Sara Teasdale (1884-1933)


The Song For Colin

I sang a song at dusking time
Beneath the evening star,
And Terence left his latest rhyme
To answer from afar.

Pierrot laid down his lute to weep,
And sighed, "She sings for me."
But Colin slept a careless sleep
Beneath an apple tree.

Sara Teasdale



Outra nascida a 8 de Agosto escreveu

O teste


Por vezes, dobramos a esquina e temos um encontro imediato com o passado. E somos surpreendidos com o coração que já não salta. E damos conta de que o tempo faz coisas inacreditáveis. E vamos dormir descansados, a sorrir, e a pensar porque é que isto não aconteceu há mais tempo. Amanhã é outro dia. Não... amanhã, são todos os dias depois do dia de hoje. Vai estar sol, de certeza.

Parabéns, Romã!

7 de agosto de 2006

Emil Nolde, «Mar de Outono»
Emil Nolde (1867-1956)
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2 de agosto de 2006


José Afonso (1929-1987)


Que Amor Não me Engana

Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se de antiga chama
Mal vive a amargura

Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia

E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito

Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira

Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera

Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
O nascer do dia

José Afonso


1 de agosto de 2006


Herman Melville (1819-1891)


Chamem-me Ismael. Há alguns anos, quantos ao certo, não importa, com pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e sem nada de especial que me interessasse em terra, veio-me à ideia meter-me num navio e ver a parte aquática do mundo. É uma maneira que eu tenho de afugentar a melancolia e regularizar a circulação. Sempre que na minha boca se desenha um esgar carrancudo; sempre que me vai na alma um Novembro húmido e cinzento, sempre que dou comigo a deter-me involuntariamente em frente das agências funerárias ou a engrossar o séquito de todos os funerais com que me deparo; e, especialmente, sempre que me sinto invadido por um estado de espírito de tal maneira mórbido, que só os sólidos princípios morais me impedem de descer à rua com a ideia deliberada de arrancar metodicamente os chapéus a todos os transeuntes, nessa altura, dou-me conta que está na hora de me fazer ao mar, quanto antes. É o meu estratagema para evitar o suicídio. Catão lança-se sobre a espada com um floreado filosófico; eu, calmamente embarco. Nada há de surpreendente nisto. Embora não se dêem conta, tal como eu, quase todos os homens acalentam, mais tarde ou mais cedo, este desejo de mar.

Herman Melville, Moby Dick
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23 de julho de 2006

he sat naked and drunk in a room of summer
night, running the blade of the knife
under his fingernails, smiling, thinking
of all the letters he had received
telling him that
the way he lived and wrote about
that--
it had kept them going when
all seemed
truly
hopeless.
putting the blade on the table, he
flicked it with a finger
and it whirled
in a flashing circle
under the light.
who the hell is going to save
me? he
thought.
as the knife stopped spinning
the answer came:
you're going to have to
save yourself.
still smiling,
a: he lit a
cigarette
b: he poured
another
drink
c: gave the blade
another
spin.

Charles Bukowski, The Last Night of the Earth Poems

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22 de julho de 2006

Edward Hopper, «Sun in an empty room»
Edward Hopper (1882-1967)
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18 de julho de 2006


Yevgeny Yevtushenko (1933)

Being Late


Something dangerous
is beginning:
I
am coming late
to my own self.
I made an appointment
with my thoughts--
the thoughts
were snatched
from me.
I made an appointment
with Faulkner--
but they made me
go to a banquet.
I made an appointment
with history,
but a grass-widow
dragged me into bed.
Worse
than barbed wire
are birthday parties,
mine and others',
and roasted suckling pigs
hold me
like a sprig of parsley
between their teeth!
Led away for good
to a life absolutely not my own,
everything that I eat,
eats me,
everything that I drink,
drinks me.
I made an appointment
with myself,
but they invite me
to feast on my own spareribs.
I am garlanded
from all sides
not by strings of bagels,
but by the holes of bagels,
and I look like
an anthology
of zeros.
Life gets broken
into hundreds of lifelets,
that exhaust
and execute me.
In order
to get through to myself
I had to smash my body
against others',
and my fragments,
my smithereens,
are trampled
by the roaring crowd.
I am trying
to glue myself together,
but my arms
are still severed.
I'd write
with my left leg,
but both the left
and the right
have run off,
in different directions.
I don't know--
where is my body?
And soul?
Did it really fly off,
without a murmured
"good-bye!"?
How do I break through
to a faraway namesake,
waiting for me
in the cold somewhere?
I've forgotten
under which clock
I am waiting
for myself.
For those who don't know
who they are,
time
does not exist.
No one is
under the clock.
On the clock
there is nothing.
I am late for my appointment
with me.
There is no one.
Nothing but cigarette butts.
Only one flicker--
a lonely,
dying
spark...

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Yevgeny Yevtushenko
(Tradução inglesa de Albert C. Todd)
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15 de julho de 2006

Rembrandt, «Fausto»
Rembrandt Harmenszoon van Rijn(1606-1669)