
Emil Nolde (1867-1956)
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Às vezes, encontro-me nas palavras dos outros. Mais raramente, nas minhas. Por pura coincidência. Em pura coincidência.

Que Amor Não me Engana
Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se de antiga chama
Mal vive a amargura
Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia
E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito
Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira
Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera
Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
O nascer do dia
José Afonso





As Planned
After the first glass of vodka
you can accept just about anything
of life even your own mysteriousness
you think it is nice that a box
of matches is purple and brown and is called
La Petite and comes from Sweden
for they are words that you know and that
is all you know words not their feelings
or what they mean and you write because
you know them not because you understand them
because you don't you are stupid and lazy
and will never be great but you do
what you know because what else is there?
Frank O'Hara

A GRANDE CARGA
Foi embarcada a grande carga do Verão,
pronto a zarpar, no cais, está o barco do sol,
quando a gaivota cai e te grita o sinal.
Foi embarcada a grande carga do Verão.
Pronto a zarpar, no cais, está o barco do sol,
e à proa, sobre os lábios das figuras,
abre-se o ominoso riso dos lemures.
Pronto a zarpar, no cais, está o barco do sol.
Quando a gaivota cai e te grita o sinal,
então vem do poente a ordem de afundar;
mas é de olhos na luz que te vais afogar,
quando a gaivota cai e te grita o sinal.
Ingeborg Bachmann
(Tradução de João Barrento e Judite Berkemeyer)
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Principio y fin
Puede ser que te digas: "El verano que viene
quiero volver a Italia", o: "El año que hoy empieza
tengo que aprovecharlo; con un poco de suerte
acabaré mi libro", y también: "Cuando crezca
mi hijo, ¿qué haré yo sin el don de su infancia?".
Pero el verano próximo, en verdad, ya ha pasado;
terminaste hace muchos años el libro aquel
en el que ahora trabajas; tu hijo se hizo un hombre
y siguió su camino, lejos de ti. Los días
que vendrán ya vinieron. Y luego cae la noche.
A la vez respiramos la luz y la ceniza.
Principio y fin habitan en el mismo relámpago.
Eloy Sanchez Rosillo
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deixo acesa, mas muda, a tv que derrama
uma luz submarina sobre a cama desfeita,
o corpo imaginado em que dormi.
Toda a noite esperei que me chamasse
a pancada das mãos numa mesa de galo,
ou do baralho gasto me saísse,
na lotaria universal, essa palavra incerta
quase a rimar contigo; e já
me esgueiro pelas frinchas da janela,
disperso na manhã leve e tranquila
como uma sombra mais incandescente.
Fora, a piscina do mar está lisa e fina
e apetece subir, pelas colunas de ar, ao céu
do deus desengonçado, ameaçá-lo
com a ignorância humana, a indiferença, a morte,
as coisas que não sabe nem pressente:
como um vampiro se não vê ao espelho,
como lobos vulgares são gente humana,
como os devora a imagem nunca vista,
como sempre se enganam a caminho
de um vago coração adormecido.


Lot's Wife
The just man followed then his angel guide
Where he strode on the black highway, hulking and bright;
But a wild grief in his wife's bosom cried,
Look back, it is not too late for a last sight
Of the red towers of your native Sodom, the square
Where once you sang, the gardens you shall mourn,
And the tall house with empty windows where
You loved your husband and your babes were born.
She turned, and looking on the bitter view
Her eyes were welded shut by mortal pain;
Into transparent salt her body grew,
And her quick feet were rooted in the plain.
Who would waste tears upon her? Is she not
The least of our losses, this unhappy wife?
Yet in my heart she will not be forgot
Who, for a single glance, gave up her life.
Anna Akhmátova
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Pleno de vida agora
Pleno de vida agora, concreto, visível,
Eu, aos quarenta anos de idade e aos oitenta e três dos Estados Unidos,
A ti que viverás dentro de um século ou vários séculos mais,
A ti, que ainda não nasceste, me dirijo, procurando-te.
Quando leres isto, eu que era visível, serei invisível,
Agora és tu, concreto, visível, aquele que me lê, aquele que me procura,
Imagino quanto serias feliz se eu estivesse a teu lado e fosse teu companheiro,
Sê tão feliz como se eu estivesse contigo. (Não penses que não estou agora junto a ti.)
Walt Whitman, Cálamo
(tradução de José Agostinho Baptista)

The Wise
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The Oldest Child
The night still frightens you.
You know it is interminable
And of vast, unimaginable dimensions.
"That's because His insomnia is permanent,"
You've read some mystic say.
Is it the point of His schoolboy's compass
That pricks your heart?
Somewhere perhaps the lovers lie
Under the dark cypress trees,
Trembling with happiness,
But here there's only your beard of many days
And a night moth shivering
Under your hand pressed against your chest.
Oldest child, Prometheus
Of some cold, cold fire you can't even name
For which you're serving slow time
With that night moth's terror for company.
Charles Simic
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As crianças da minha rua
As crianças da minha rua estiveram na praia - e vieram tristes.
- Coitadinhas, têm saudades do mar - disse-me alguém, talvez a pensar no último flirt do seu último veraneio de pessoa bem vivida.
Mas as crianças da minha rua não têm saudades: só eu sei por que estiveram na praia - e vieram tristes.
*
A minha rua é suja, esburacada, carcomida de velhice. Não tem passeios, porque ali ninguém passeia , nem nome nas esquinas. Mas chamam-lhe a Rua de Detrás, certamente porque as casas, atarracadas, ficam detrás de vivendas dominadoras, e a gente que nelas mora anda sempre atrás nas passadas da vida.
Rua de gente que trabalha. Em certas horas, é silenciosa e quieta; noutras, movimentada e garrulha. Tem fluxos e refluxos , como as águas do mar. As crianças da minha rua não conheciam o mar, mas adoravam a rua.
Pelas tardes cálidas de Verão, os moradores vinham para a soleira das portas, e ali ficavam a tomar o ar, que é fresco e gratuito, e a contar as novidades velhinhas da sua vida sempre igual.
As crianças - umas raquíticas, outras semi-nuas - vinham também (agora já não vêm) espalhar-se em grupos a brincar. E então a rua convertia-se no mundo encantador da sua imaginação. Havia buracos que eram precipícios; pedras que semelhavam castelos; montes de lixo convertidos em florestas. O mar era o fio de água que escorria pelas valetas; os bocados de madeira flutuavam como barcos, os papéis rasgados transformavam-se em peixes. Até a areia, que o vento arrastava aos montões, era removida, com mil cuidados, nas latas enferrujadas.
Nada faltava às crianças da minha rua. Não: faltava-lhes iodo – dissera aquele senhor que tinha saudades do último flirt.
E , certo dia deste Verão, as crianças da minha rua lá foram para a praia, todas iguais nos seus babeiros de riscado, que mãos caridosas talharam em horas de contrição.
Instalaram-se num recanto da praia, sob olhares vigilantes. De manhã, tomavam banho pela mão dos banheiros. Um, dois ... – a respirar. Depois secavam ao sol o fatinho de algodão azul, colado ao corpo enfezado, a tiritar. De tarde, voltavam para o recanto, em filas, duas a duas, e ficavam a revolver a areia, em grupos silenciosos.
Distante, no extremo da praia, outras crianças brincavam. Meninos que possuíam barcos de corda, peixes de borracha coloridos, baldes caprichosos - um mundo de brinquedos.
*
Chegaram há dias. Possuíam um mundo de fantasias, e agora já não olham para o fio de água que escorre pelas valetas, e, nos montes de lixo, as latas e papéis velhos jazem abandonados.
As crianças da minha rua estiveram na praia – e vieram tristes. Mas só eu e elas sabemos porquê.
Soeiro Pereira Gomes, Crónicas



What though the radiance
Which was once so bright
Be now for ever taken from my sight,
Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass,
Of glory in the flower,
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind;
In the primal sympathy
Which having been must ever be;
In the soothing thoughts that spring
Out of human suffering;
In the faith that looks through death,
In years that bring the philosophic mind.
William Wordsworth, Intimations of Immortality from Recollections of Early Childhood (excerto)
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Robert Frost
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fim de poema
.....................................................
Para que nem tudo vos seja sonegado,
cultivai a surdina.
Eu fico em surdina.
Em surdina aparo
os utensílios,
em surdina me preparo
para morrer.
Amo, chut!, em surdina;
a minha vida,
nesga entre dois ponteiros, fecha-se
em surdina.
Sebastião Alba, A Noite Dividida


WATER
It was a Maine lobster town-
each morning boatloads of hands
pushed off for granite
quarries on the islands,
and left dozens of bleak
white frame houses stuck
like oyster shells
on a hill of rock,
and below us, the sea lapped
the raw little match-stick
mazes of a weir,
where the fish for bait were trapped.
Remember?We sat on a slab of rock.
>From this distance in time
it seems the color
of iris, rotting and turning purpler,
but it was only
the usual gray rock
turning the usual green
when drenched by the sea.
The sea drenched the rock
at our feet all day,
and kept tearing away
flake after flake.
One night you dreamed
you were a mermaid clinging to a wharf-pile,
and trying to pull
off the barnacles with your hands.
We wished our two souls
might return like gulls
to the rock.In the end,
the water was too cold for us.
Robert Lowell
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What I expected, was
Thunder, fighting.
Long struggles with men
And climbing.
After continual straining
I should grow strong;
Then the rocks would shake
And I rest long.
What I had not foreseen
Was the gradual day
Weakening the will
Leaking the brightness away,
The lack of good to touch,
The fading of body and soul
Smoke before wind,
Corrupt, insubstantial.
The wearing of Time,
And the watching of cripples pass
With limbs shaped like questions
In their odd twist,
The pulverous grief
Melting bones with pity,
The sick falling from earth-
These, I could not foresee.
Expecting always
Some brightness to hold in trust
Some final innocence
Exempt from dust,
That, hanging solid,
Would dangle through all
Like the created poem,
Or the faceted crystal.
Stephen Spender

