26 de setembro de 2006

Nascido a 26 de Setembro


George Gershwin (1898-1937)

20 de setembro de 2006


Luis Cernuda (1902-1963)


Desdita

Um dia compreendeu como seus braços eram
Somente feitos de nuvens;
Impossível com nuvens abraçar até ao fundo
Um corpo, uma sorte.

A sorte é redonda e conta lentamente
As estrelas do estio.
Fazem falta uns braços seguros como o vento,
E como o mar um beijo.

Mas ele como seus lábios,
Com seus lábios não sabe dizer senão palavras;
Palavras até ao tecto,
Palavras até ao solo,
E seus braços são nuvens que transformam a vida
Em ar navegável.

Luis Cernuda (tradução de João Emanuel Diogo)


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18 de setembro de 2006


Maria Judite de Carvalho (1921-1998)


O MAL

Era um rapazinho estranho, pensavam os colegas e a família, pouco à vontade, caminhando de mansinho, cerimonioso, na vida, e às vezes como que esquecido dela. Não entrava no esquema, e as pessoas que o rodeavam sentiam-se frustradas e até impotentes, irritadas às vezes, perante a sua inércia e o seu desinteresse, mais ainda perante o seu leve, quase inexistente interesse por coisas que eram decerto erradas porque as ignoravam. Dir-se-ia que ele se ia perdendo aos poucos, ao longo dos dias. O seu olhar redondo parecia às vezes ficar pegado, ali e além, mas sempre num ali e num além desinteressantes para os outros, perigosos, e quando um grito ou uma repreensão obrigava o olhar a soltar-se, a criança parecia de repente magoada, perplexa e só, num mundo desconhecido.
Na escola aprendia com dificuldade e o computador que dava mensal­mente as notas, com a sua gelada isenção de máquina, queixava-se sempre dele em cartão perfurado. Não gostava de números, o que afligia os pais, porque os números eram a única solução para os homens e ninguém podia ganhar a vida sem conviver com eles intimamente. Também não se inte­ressava muito pelos jogos nem mesmo pela televisão que tinha no quarto, e passavam-se dias em que nem sequer tocava nos botões do aparelho maravilhoso. O «écran» era programado para a sua idade e para os gos­tos que alguém muito sabedor, sem a menor hesitação lhe atribuía. Cada pessoa tinha a sua televisão, programada de um modo especial, assim eram feitas as casas. O «écran» acendia-se numa espécie de altar, porque se tratava de um só deus omnipresente embora tivesse um rosto e uma voz para cada um dos seus adoradores. Como, de resto, todos os deuses de todos os tempos.
O rapazinho deambulava pois pela escola ou pela casa, como um corpo sem alma. À noite, enquanto o pai e a mãe olhavam em êxtase para os «écrans» respectivos, não se punha outra hipótese, o rapazinho metia-se no elevador e ia até ao terraço que ficava no quinquagésimo andar. Ali acabara o reino das moscas e o único f í era luminoso e parecia suspenso no tecto côncavo da abóbada celeste, porque era poeira de estrelas. E então escrevia no ar e apagava o que escrevia e escrevia de novo.
Um dia a mãe seguiu-o, Se queria adoecer, disse-lhe. Já que gostava de ver o céu, por que não ligava para o programa das nove horas? Era a mesma coisa, era mesmo muito melhor e a casa estava aquecida.
Corou, envergonhado ou até assustado, sem saber porquê mas com a consciência intranquila de estar a cometer uma interdição, e essa intran­quilidade vinha-lhe do facto de não conhecer ninguém que perdesse tempo a olhar para o céu. A mãe tinha razão. Os rapazes da escola e as raparigas, claro, falavam desse programa. E havia também os planetários e os grandes telescópios públicos. Mas aí está, nada, disso o interessava. Era multo cien­tífico e sem mistério. Ele gostava era daquele pozinho de luz, suspenso sobre a sua cabeça. Mas nessa noite a mãe acusa-o de a tomar infeliz,
e o rapazinho, que gostava muito dela, prometeu emendar-se e ficar atento às coisas da vida.
Cumpriu na medida do possível. Aprendeu a lidar com os números, tão áridos, e soube mexer com relativo à-vontade nos mil botões das muitas máquinas indispensáveis ao dia-a-dla das criaturas. Os pais, tranquilizados, respiraram fundo. O filho estava finalmente a preparar-se para a vida.
Um dia, porém, ele fez um poema. Não sabia que era um poema porque coisas dessas, inúteis ao bem-estar e ao progresso, já não se aprendiam nas escolas. Mas o rapazinho estava sentado à sua máquina electrónica para traçar o esboço de um relatório e em vez disso fez um poema em que se tratava de uma prisão invisível, da proibição de viver a de morrer, da obrigatoriedade de esperar uma vida inteira, se necessário fosse, por coisa nenhuma. Era um poemazinho ingénuo, mas ele sentiu-se tão assus­tado como quando a mãe o surpreendera a olhar para as estrelas. E escondeu-o, bem escondido, no fundo de uma gaveta,
Um dia alguém bem pensante da família achou o poema e foi mostrá-lo à mãe, que o leu, angustiada. Ela sabia daquele mal antigo e persistente cuja cura só fora descoberta havia umas dezenas de anos. A cura, quando a doença estava no princípio. Estaria no princípio a doença do filho? Não teria já nascido doente sem ela o saber?
A noite falou com o marido e no dia seguinte levaram o rapazinho à clínica dos casos urgentes. O médico fez multas perguntas, leu o texto muitas vezes para o perceber bem, quis saber o que a criança sentira ao escrevê-lo, porque o escrevera, para quê, tomou notas, forneceu-as ao computador-ajudante. Aquilo de ter ido ao último andar olhar o céu — quantas vezes? Quando fora a primeira? — era um sintoma aborrecido. O exame durou uma hora. Depois o médico sentou-se à sua mesa de tra­balho, leu a resposta, fechou os olhos, abriu-os, declarou aos pais em pânico: «O que ele tem chama-se poesia.»
«Era o que eu receava», disse o pai. «Era o que eu receava», repetiu.
«Houve alguém na família...» ia perguntar o médico.
A mãe precipitou-se: «Não, não, ninguém. Somos todos absolutamente normais.»
«Então há esperança. Se fizer o tratamento com regularidade, há espe­rança.»
Fez o tratamento e curou-se. Uma pílula azul e outra verde pela manhã, um comprimido à tarde, uma injecção semanal. Durante três meses. Quando voltou ao médico estava curado.
Dai em diante deu-se todo às máquinas e ergueu muros que impediam toda e qualquer fuga para além do quotidiano. Sentiu-se, de resto, muito bem no esquema que passou a considerar certo. E entre outras coisas converteu-se ao deus caseiro. Foi um homem como os outros homens, portanto feliz, que mais se podia desejar?


Maria Judite de Carvalho
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17 de setembro de 2006


William Carlos Williams (1883-1963)


This Is Just to Say

I have eaten
the plums
that were in
the icebox

and which
you were probably
saving
for breakfast

Forgive me
they were delicious
so sweet
and so cold

William Carlos Williams

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16 de setembro de 2006


Vladimir Holan (1905-1980)


Human Voice

Stone and star do not force their music on us,
flowers are silent, things hold something back,
because of us, animals deny
their own harmony of innocence and stealth,
the wind has always its chastity of simple gesture
and what song is only the mute birds know,
to whom you tossed an unthreshed sheaf on Christmas Eve.

To be is enough for them and that is beyond words. But we,
we are afraid not only in the dark,
even in the abundant light
we do not see our neighbour
and desperate for exorcism
cry out in terror: 'Are you there? Speak!'

Vladimir Holan

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13 de setembro de 2006


Natália Correia (1923-1993)


De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Natália Correia

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9 de setembro de 2006


Cesare Pavese (1908-1950)



VIRÁ A MORTE E TERÁ OS TEUS OLHOS

Virá a morte e terá os teus olhos
esta morte que nos acompanha
da manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra vã,
um grito emudecido, um silêncio.
Assim os vejo todas as manhãs
quando sobre ti te inclinas
ao espelho. Ó cara esperança,
nesse dia saberemos também nós,
que és a vida e és o nada.

Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como deixar um vício,
como ver no espelho
re-emergir um rosto morto,
como ouvir lábios cerrados.
Desceremos ao vórtice mudo.

Cesare Pavese (tradução de Jorge de Sena)


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4 de setembro de 2006


Raul de Carvalho (1920-1984)

Serpente morta, por instantes


Sinto que me afeiçoo
a ti.
Por motivos ignorados, ia a escrever.
Arrependi-me. Os motivos são outros, residem lá no fundo da minha consciência, e dela saltam! livres! e livres, são claros — impõem se,
circunscrevem-se, precisam-se; entristecem-me.
Eu nunca soube nunca o que era a companhia.
Começo a habituar-me. A viver a teu lado.
Não é que se desfaça a bruma; há poços cheios de inverno, calafetados. Tenho dificuldade é compreender por que ris, porque és ágil e firme,
quando o és.
Reprimo, muitas vezes, as lágrimas. Falo-te docemente. Não respondes. E o teu silêncio é cúmplice do meu, formam, sem querer, uma rosa que
brota da mesma haste. Floresce em casa que já não é alheia.
A voluptuosidade nascente do teu corpo é um vaso que eu encho com
carinho. Beijo-te, apenas. E as recordações são capitosas.
Mas o astro que reflectiu meu nome,
empalideceu, puxou por mim para o outro lado.
E eis-me deitado ao pé de ti, desperto, lembrando como é triste ter a morte na frente, ter a vida na frente...
Soluços, soluços são os que se não ouvem.
Contagiam.
E, dentro da cabeça, zumbem abelhas de desconforto e mágoa. A noite
iniciada não tem fim.

Raul de Carvalho

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1 de setembro de 2006


António Lobo Antunes (1942)


É da tua mão que eu preciso agora

É da tua mão que eu preciso agora. Há momentos, sabes, que me sinto tão cansado, todos estes dias cheios de palavras que me fogem. Então penso em ti: Joana. Penso: vou contar-te uma coisa. Há pouco tempo morreu a filha de um amigo meu, homem generoso e bom, melhor do que alguma vez fui. Um cemitério é um lugar horrível e a dor dele doía-me. Depois de tudo acabar voltei para o automóvel. Eram muitos passos nas veredas a voltarem para os automóveis. O caixãozinho branco. Aquelas árvores que tu conheces de quando a gente há dois anos. Despedi-me das pessoas um pouco ao acaso, sem sentir os dedos que apertava: têm tantos dedos as pessoas. Nem me lembro já porquê abri a mala do carro. Estavam lá dentro coisas tuas de Espanha: batas, papéis, as inutilidades confusas que estás sempre a juntar. Peguei numa das tuas batas, abracei-a. E desatei num choro de menino, de cabeça inclinada para a mala do carro na esperança de que não me vissem. Depois lá enxuguei o nariz à manga
nunca perdi o hábito de enxugar o nariz à manga
engoli-me a mim mesmo e vim-me embora. Sempre que me sento no teu carro lembro-me de ti. Também me lembro quando não me sento no carro mas sempre que me sento no carro lembro-me de ti. De ti e de Malanje onde começaste a ser, e as mangueiras tremem-me no interior do sangue.
Mas é da tua mão que eu preciso agora. Há momentos em que me farto de ser homem: tudo tão pesado, tão estranho, tão difícil. Eu vou tendo paciência e no entanto, às vezes as coi­sas magoam, há ideias que entram na gente como espinhos. Não se podem tirar com uma pinça: ficam lá. É então que a cara prin­cipia a estragar-se e a gente
dizem
envelhece. Necessito de muito pouca coisa hoje em dia: uns livros, o meu trabalho de escrever, amigos que se estreitam com o tempo, alguns deixados para trás, não sei onde. A minha avó dizia que fui a pessoa por quem chorava mais. Nunca acre­ditei. Era autoritária, mimada, sedutora: tratava-me tão bem! Jogávamos a ver qual de nós dois conquistava o outro: andáva­mos mais ou menos empatados
(sabes como detesto perder)
e nisto ela morreu. Recordo-me de sair de sua casa e vir à cervejaria comer. Ainda não tinha tempo de sentir-lhe a ausên­cia. Pedi o jornal desportivo ao empregado. Ao voltar para cima achei-a vestida sobre a cama.
Agora é novembro, tenho frio, ando às voltas com um romance de que não estou a gostar. Nunca estou a gostar do que escrevo, acho aquele em que trabalho o mais difícil, acho que as palavras me derrotam. Frases puxadas como pedras de um poço que não vejo. Banalidades que me indignam por estarem tão longe do que quero. Capítulos que me fogem, o plano da his­tória dinamitado pelos caprichos da minha mão, que não faz o que pretendo: escapa-se sempre, inventa, tenho de apanhá-la a meio de um período inverosímil. Talvez seja por isso que preciso da tua. Ou não por isso: não bebo e no entanto há alturas em que me sinto tão só que é quase o mesmo. E sem essa solidão não me é possível escrever. O meu amigo a quem morreu a filha chama-se José Francisco. Quando sorri os cantos da boca parecem levantar voo. Faz-me bem. Gostava de sorrir assim. Experimentei ao espelho e não é igual. Quer dizer, a boca curvou-se mas os olhos ficaram fixos, duros. Deixei de sorrir e enchi a cara de espuma da barba, até ser apenas nariz e olhos. Então sorri outra vez e os olhos acharam graça e mudaram. Os meus olhos sérios olhavam para os meus olhos divertidos. Pisquei o esquerdo e o espelho piscou o direito. Lavei a cara, apaguei a luz, saí. Por um segundo veio-me a sensação de caminhar em Malanje. Aquele cheiro da terra, demorado, opaco, violento. E pronto, é tarde. Em chegando ao fim da página aca­bou-se. Ponho a tampa na caneta, os cotovelos na mesa e fico a observar a parede. Nem vou reler isto, mando tal e qual. Prefiro observar a parede, deixar-me impregnar devagarinho pela essên­cia das coisas. Esta cadeira, aquele móvel, uma manchinha de cinza no chão, as minhas mãos geladas de frio a acabarem esta crónica. Se calhar amanhã telefono-te. Ou regresso ao romance na teimosia dos cães. Penso: nem que deixe a pele nele hei-de conseguir acabá-lo. Comecei-o no princípio de outubro, falta muito. Alinho os papéis, ponho tudo em ordem para a escrita. Nem que deixe a pele nele hei-de conseguir acabá-lo. Leio a última frase, continuo. Só por um bocadinho de nada, antes que continue, importas-te de tirar as batas do carro? Importas-te de me dar a mão?
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António Lobo Antunes, Segundo Livro de Crónicas
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27 de agosto de 2006

Man Ray, «The Gift»
Man Ray (1890-1976)
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26 de agosto de 2006


Julio Cortázar (1914-1984)


NO ME DES TREGUA


No me des tregua, no me perdones nunca.
Hostígame en la sangre,
que cada cosa cruel sea tú que vuelves.
¡No me dejes dormir, no me des paz!
Entonces ganaré mi reino,
naceré lentamente.
No me pierdas como una música fácil,
no seas caricia ni guante;
tálame como un sílex, desespérame.

Julio Cortázar

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25 de agosto de 2006


Ana Marques Gastão (1962)


Deixa-me dormir
quando
morre a noite.
Assim o amor
será absoluto
sacrifício
impassível sangue
árido prazer.

Deixa-me dormir
quando
morre a noite.
Assim o amor
guardará
uma grega ilusão
de sonho
e embriaguez.

Deixa-me dormir
quando
morre a noite.
Assim o amor
terá merecido
a dor, veloz,
insustentável
e imoderada.

Deixa-me dormir
quando
morre a noite.
Assim o amor
dir-nos-á
sois abandonados
cristos
na boca de deus.

Ana Marques Gastão

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24 de agosto de 2006


Jorge Luís Borges (1899-1986)

1964

I

Ya no es mágico el mundo. Te han dejado.
Ya no compartirás la clara luna
ni los lentos jardines. Ya no hay una
luna que no sea espejo del pasado,


cristal de soledad, sol de agonías.
Adiós las mutuas manos y las sienes
que acercaba el amor. Hoy sólo tienes
la fiel memoria y los desiertos días.


Nadie pierde (repites vanamente)
sino lo que no tiene y no ha tenido
nunca, pero no basta ser valiente


para aprender el arte del olvido.
Un símbolo, una rosa, te desgarra
y te puede matar una guitarra.

II

Ya no seré feliz. Tal vez no importa.
Hay tantas otras cosas en el mundo;
un instante cualquiera es más profundo
y diverso que el mar. La vida es corta


y aunque las horas son tan largas, una
oscura maravilla nos acecha,
la muerte, ese otro mar, esa otra flecha
que nos libra del sol y de la luna


y del amor. La dicha que me diste
y me quitaste debe ser borrada;
lo que era todo tiene que ser nada.


Sólo que me queda el goce de estar triste,
esa vana costumbre que me inclina
al Sur, a cierta puerta, a cierta esquina.

Jorge Luís Borges

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19 de agosto de 2006


Ogden Nash (1902-1971)



Pretty Halcyon Days

How pleasant to sit on the beach,
On the beach, on the sand, in the sun,
With ocean galore within reach,
And nothing at all to be done!
No letters to answer,
No bills to be burned,
No work to be shirked,
No cash to be earned,
It is pleasant to sit on the beach
With nothing at all to be done!
How pleasant to look at the ocean,
Democratic and damp; indiscriminate;
It fills me with noble emotion
To think I am able to swim in it.

To lave in the wave,
Majestic and chilly,
Tomorrow I crave;
But today it is silly.
It is pleasant to look at the ocean;
Tomorrow, perhaps, I shall swim in it.
How pleasant to gaze at the sailors.
As their sailboats they manfully sail
With the vigor of vikings and whalers
In the days of the vikings and whale.
They sport on the brink
Of the shad and the shark;
If its windy they sink;
If it isn't, they park.
It is pleasant to gaze at the sailors,
To gaze without having to sail.

How pleasant the salt anesthetic
Of the air and the sand and the sun;
Leave the earth to the strong and athletic,
And the sea to adventure upon.
But the sun and the sand
No contractor can copy;
We lie in the land
Of the lotus and poppy;
We vegetate, calm and aesthetic,
On the beach, on the sand, in the sun.

Ogden Nash

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16 de agosto de 2006


Charles Bukowski (1920-1994)

The Laughing Heart


your life is your life.
don’t let it be clubbed into dank submission.
be on the watch.
there are ways out.
there is a light somewhere.
it may not be much light but
it beats the darkness.
be on the watch.
the gods will offer you chances.
know them.
take them.
you can’t beat death but
you can beat death in life, sometimes.
and the more often you learn to do it,
the more light there will be.
your life is your life.
know it while you have it.
you are marvelous.
the gods wait to delight
in you.

Charles Bukowski


Tom Waits e Bono recitam Bukowski

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15 de agosto de 2006


José Agostinho Baptista (1948)

Parte-se

Parte-se,
como uma ânfora desmedida,
o meu coração.
É Junho,
começam a abrir-se as flores da melancolia.

Desço os degraus da casa e da terra.
Fecho os olhos.
E por dentro da sua cor,
por dentro da sua luz verde,
esses olhos partem para o mar,
quando o crepúsculo cai do outro lado dos
espelhos

Parece que os girassóis se erguem na berma
das estradas.
Parece que as cegonhas dormem.

Nem tu,
cujo rosto vi desenhar-se tantas vezes no
rosto da lua, me poderás salvar.

José Agostinho Baptista, Esta Voz é Quase o Vento

9 de agosto de 2006


Philip Larkin (1922-1985)


This Be The Verse

They fuck you up, your mum and dad.
They may not mean to, but they do.
They fill you with the faults they had
And add some extra, just for you.

But they were fucked up in their turn
By fools in old-style hats and coats,
Who half the time were soppy-stern
And half at one another's throats.

Man hands on misery to man.
It deepens like a coastal shelf.
Get out as early as you can,
And don't have any kids yourself.

Philip Larkin

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8 de agosto de 2006


Sara Teasdale (1884-1933)


The Song For Colin

I sang a song at dusking time
Beneath the evening star,
And Terence left his latest rhyme
To answer from afar.

Pierrot laid down his lute to weep,
And sighed, "She sings for me."
But Colin slept a careless sleep
Beneath an apple tree.

Sara Teasdale



Outra nascida a 8 de Agosto escreveu

O teste


Por vezes, dobramos a esquina e temos um encontro imediato com o passado. E somos surpreendidos com o coração que já não salta. E damos conta de que o tempo faz coisas inacreditáveis. E vamos dormir descansados, a sorrir, e a pensar porque é que isto não aconteceu há mais tempo. Amanhã é outro dia. Não... amanhã, são todos os dias depois do dia de hoje. Vai estar sol, de certeza.

Parabéns, Romã!

7 de agosto de 2006

Emil Nolde, «Mar de Outono»
Emil Nolde (1867-1956)
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2 de agosto de 2006


José Afonso (1929-1987)


Que Amor Não me Engana

Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se de antiga chama
Mal vive a amargura

Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia

E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito

Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira

Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera

Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
O nascer do dia

José Afonso


1 de agosto de 2006


Herman Melville (1819-1891)


Chamem-me Ismael. Há alguns anos, quantos ao certo, não importa, com pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e sem nada de especial que me interessasse em terra, veio-me à ideia meter-me num navio e ver a parte aquática do mundo. É uma maneira que eu tenho de afugentar a melancolia e regularizar a circulação. Sempre que na minha boca se desenha um esgar carrancudo; sempre que me vai na alma um Novembro húmido e cinzento, sempre que dou comigo a deter-me involuntariamente em frente das agências funerárias ou a engrossar o séquito de todos os funerais com que me deparo; e, especialmente, sempre que me sinto invadido por um estado de espírito de tal maneira mórbido, que só os sólidos princípios morais me impedem de descer à rua com a ideia deliberada de arrancar metodicamente os chapéus a todos os transeuntes, nessa altura, dou-me conta que está na hora de me fazer ao mar, quanto antes. É o meu estratagema para evitar o suicídio. Catão lança-se sobre a espada com um floreado filosófico; eu, calmamente embarco. Nada há de surpreendente nisto. Embora não se dêem conta, tal como eu, quase todos os homens acalentam, mais tarde ou mais cedo, este desejo de mar.

Herman Melville, Moby Dick
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23 de julho de 2006

he sat naked and drunk in a room of summer
night, running the blade of the knife
under his fingernails, smiling, thinking
of all the letters he had received
telling him that
the way he lived and wrote about
that--
it had kept them going when
all seemed
truly
hopeless.
putting the blade on the table, he
flicked it with a finger
and it whirled
in a flashing circle
under the light.
who the hell is going to save
me? he
thought.
as the knife stopped spinning
the answer came:
you're going to have to
save yourself.
still smiling,
a: he lit a
cigarette
b: he poured
another
drink
c: gave the blade
another
spin.

Charles Bukowski, The Last Night of the Earth Poems

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22 de julho de 2006

Edward Hopper, «Sun in an empty room»
Edward Hopper (1882-1967)
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18 de julho de 2006


Yevgeny Yevtushenko (1933)

Being Late


Something dangerous
is beginning:
I
am coming late
to my own self.
I made an appointment
with my thoughts--
the thoughts
were snatched
from me.
I made an appointment
with Faulkner--
but they made me
go to a banquet.
I made an appointment
with history,
but a grass-widow
dragged me into bed.
Worse
than barbed wire
are birthday parties,
mine and others',
and roasted suckling pigs
hold me
like a sprig of parsley
between their teeth!
Led away for good
to a life absolutely not my own,
everything that I eat,
eats me,
everything that I drink,
drinks me.
I made an appointment
with myself,
but they invite me
to feast on my own spareribs.
I am garlanded
from all sides
not by strings of bagels,
but by the holes of bagels,
and I look like
an anthology
of zeros.
Life gets broken
into hundreds of lifelets,
that exhaust
and execute me.
In order
to get through to myself
I had to smash my body
against others',
and my fragments,
my smithereens,
are trampled
by the roaring crowd.
I am trying
to glue myself together,
but my arms
are still severed.
I'd write
with my left leg,
but both the left
and the right
have run off,
in different directions.
I don't know--
where is my body?
And soul?
Did it really fly off,
without a murmured
"good-bye!"?
How do I break through
to a faraway namesake,
waiting for me
in the cold somewhere?
I've forgotten
under which clock
I am waiting
for myself.
For those who don't know
who they are,
time
does not exist.
No one is
under the clock.
On the clock
there is nothing.
I am late for my appointment
with me.
There is no one.
Nothing but cigarette butts.
Only one flicker--
a lonely,
dying
spark...

.
Yevgeny Yevtushenko
(Tradução inglesa de Albert C. Todd)
.

15 de julho de 2006

Rembrandt, «Fausto»
Rembrandt Harmenszoon van Rijn(1606-1669)

12 de julho de 2006


Henry David Thoreau (1817-1862)



[4] I left the woods for as good a reason as I went there. Perhaps it seemed to me that I had several more lives to live, and could not spare any more time for that one. It is remarkable how easily and insensibly we fall into a particular route, and make a beaten track for ourselves. I had not lived there a week before my feet wore a path from my door to the pond-side; and though it is five or six years since I trod it, it is still quite distinct. It is true, I fear, that others may have fallen into it, and so helped to keep it open. The surface of the earth is soft and impressible by the feet of men; and so with the paths which the mind travels. How worn and dusty, then, must be the highways of the world, how deep the ruts of tradition and conformity! I did not wish to take a cabin passage, but rather to go before the mast and on the deck of the world, for there I could best see the moonlight amid the mountains. I do not wish to go below now.

[10] Why should we be in such desperate haste to succeed and in such desperate enterprises? If a man does not keep pace with his companions, perhaps it is because he hears a different drummer. Let him step to the music which he hears, however measured or far away. It is not important that he should mature as soon as an apple tree or an oak. Shall he turn his spring into summer? If the condition of things which we were made for is not yet, what were any reality which we can substitute? We will not be shipwrecked on a vain reality. Shall we with pains erect a heaven of blue glass over ourselves, though when it is done we shall be sure to gaze still at the true ethereal heaven far above, as if the former were not?
.
Henry David Thoreau, Walden
.

9 de julho de 2006

Hurt

I hurt myself today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that's real
The needle tears a hole
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember everything

What have I become
My sweetest friend
Everyone I know
goes away in the end
And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt

I wear this crown of thorns
Upon my liar's chair
Full of broken thoughts
I cannot repair
Beneath the stains of time
The feelings disappear
You are someone else
I am still right here

What have I become
My sweetest friend
Everyone I know
Goes away in the end
And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt

If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way

Michael Trent Reznor



7 de julho de 2006

Marc Chagall,«Au dessus de la ville»
Marc Chagall (1887-1985)

6 de julho de 2006

Frida Kahlo, «El Abrazo de Amor del Universo»
Frida Kahlo (1907-1954)

5 de julho de 2006



Bill Watterson (1958)
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29 de junho de 2006


Vasko Popa (1922-1991)


Give Me Back My Rags #4

Get out of my walled infinity
Of the star circle round my heart
Of my mouthful of sun

Get out of the comic sea of my blood
Of my flow of my ebb
Get out of my stranded silence

Get out I said get out

Get out of my living abyss
Of the bare father-tree within me

Get out how long must I cry get out

Get out of my bursting head
Get out just get out

Vasko Popa


Tradução inglesa de Anne Pennington)
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27 de junho de 2006


Frank O'Hara (1926-1966)

As Planned

After the first glass of vodka
you can accept just about anything
of life even your own mysteriousness
you think it is nice that a box
of matches is purple and brown and is called
La Petite and comes from Sweden
for they are words that you know and that
is all you know words not their feelings
or what they mean and you write because
you know them not because you understand them
because you don't you are stupid and lazy
and will never be great but you do
what you know because what else is there?

Frank O'Hara

25 de junho de 2006


Ingeborg Bachmann (1926-1973)

A GRANDE CARGA

Foi embarcada a grande carga do Verão,
pronto a zarpar, no cais, está o barco do sol,
quando a gaivota cai e te grita o sinal.
Foi embarcada a grande carga do Verão.

Pronto a zarpar, no cais, está o barco do sol,
e à proa, sobre os lábios das figuras,
abre-se o ominoso riso dos lemures.
Pronto a zarpar, no cais, está o barco do sol.

Quando a gaivota cai e te grita o sinal,
então vem do poente a ordem de afundar;
mas é de olhos na luz que te vais afogar,
quando a gaivota cai e te grita o sinal.

Ingeborg Bachmann

(Tradução de João Barrento e Judite Berkemeyer)

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24 de junho de 2006


Eloy Sanchez Rosillo (1948)

Principio y fin

Puede ser que te digas: "El verano que viene
quiero volver a Italia", o: "El año que hoy empieza
tengo que aprovecharlo; con un poco de suerte
acabaré mi libro", y también: "Cuando crezca
mi hijo, ¿qué haré yo sin el don de su infancia?".
Pero el verano próximo, en verdad, ya ha pasado;
terminaste hace muchos años el libro aquel
en el que ahora trabajas; tu hijo se hizo un hombre
y siguió su camino, lejos de ti. Los días
que vendrán ya vinieron. Y luego cae la noche.
A la vez respiramos la luz y la ceniza.
Principio y fin habitan en el mismo relámpago.

Eloy Sanchez Rosillo

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17 de junho de 2006


António Franco Alexandre (1944)


deixo acesa, mas muda, a tv que derrama
uma luz submarina sobre a cama desfeita,
o corpo imaginado em que dormi.
Toda a noite esperei que me chamasse
a pancada das mãos numa mesa de galo,
ou do baralho gasto me saísse,
na lotaria universal, essa palavra incerta
quase a rimar contigo; e já
me esgueiro pelas frinchas da janela,
disperso na manhã leve e tranquila
como uma sombra mais incandescente.
Fora, a piscina do mar está lisa e fina
e apetece subir, pelas colunas de ar, ao céu
do deus desengonçado, ameaçá-lo
com a ignorância humana, a indiferença, a morte,
as coisas que não sabe nem pressente:
como um vampiro se não vê ao espelho,
como lobos vulgares são gente humana,
como os devora a imagem nunca vista,
como sempre se enganam a caminho
de um vago coração adormecido.


António Franco Alexandre

13 de junho de 2006


Fernando Pessoa (1888-1935)



Quero ser livre insincero
Sem crença, dever ou posto.
Prisões, nem de amor as quero.
Não me amem, porque não gosto.

Quando canto o que não minto
E choro o que sucedeu,
É que esqueci o que sinto
E que julgo que não sou eu.

De mim mesmo viandante
Olho as músicas na aragem,
E a minha mesma alma errante
É uma canção de viagem.

Fernando Pessoa

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11 de junho de 2006


Anna Akhmátova (1889-1966)

Lot's Wife

The just man followed then his angel guide
Where he strode on the black highway, hulking and bright;
But a wild grief in his wife's bosom cried,
Look back, it is not too late for a last sight

Of the red towers of your native Sodom, the square
Where once you sang, the gardens you shall mourn,
And the tall house with empty windows where
You loved your husband and your babes were born.

She turned, and looking on the bitter view
Her eyes were welded shut by mortal pain;
Into transparent salt her body grew,
And her quick feet were rooted in the plain.

Who would waste tears upon her? Is she not
The least of our losses, this unhappy wife?
Yet in my heart she will not be forgot
Who, for a single glance, gave up her life.

Anna Akhmátova

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10 de junho de 2006

Gustave Courbet, «Beach Scene»
Gustave Courbet (1819-1877)
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5 de junho de 2006


Federico Garcia Lorca (1898-1936)



CORRIENTE

El que camina
se enturbia.
El agua corriente
no ve las estrellas.
El que camina
se olvida.
Y el que se para
sueña.

Federico Garcia Lorca

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31 de maio de 2006


Walt Whitman (1819-1892)


Pleno de vida agora

Pleno de vida agora, concreto, visível,
Eu, aos quarenta anos de idade e aos oitenta e três dos Estados Unidos,
A ti que viverás dentro de um século ou vários séculos mais,
A ti, que ainda não nasceste, me dirijo, procurando-te.

Quando leres isto, eu que era visível, serei invisível,
Agora és tu, concreto, visível, aquele que me lê, aquele que me procura,
Imagino quanto serias feliz se eu estivesse a teu lado e fosse teu companheiro,
Sê tão feliz como se eu estivesse contigo. (Não penses que não estou agora junto a ti.)

Walt Whitman, Cálamo

(tradução de José Agostinho Baptista)


30 de maio de 2006

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Countee Cullen (1903-1946)

The Wise


The WiseDead men are wisest, for they know
How far the roots of flowers go,
How long a seed must rot to grow.

Dead men alone bear frost and rain
On throbless heart and heatless brain,
And feel no stir of joy or pain.

Dead men alone are satiate;
They sleep and dream and have no weight,
To curb their rest, of love or hate.

Strange, men should flee their company,
Or think me strange who long to be
Wrapped in their cool immunity.

Countee Cullen

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20 de maio de 2006


Maria Teresa Horta (1937)


Poema sobre a recusa

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda

Maria Teresa Horta

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19 de maio de 2006


Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)


Além-Tédio

Nada me expira já, nada me vive
-Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, enfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.

E sé me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...

Mário de Sá-Carneiro

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11 de maio de 2006

Salvador Dalí, «A Persistência da Memória»
Salvador Dalí (1904-1989)
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9 de maio de 2006


Charles Simic (1938)

The Oldest Child

The night still frightens you.
You know it is interminable
And of vast, unimaginable dimensions.
"That's because His insomnia is permanent,"
You've read some mystic say.
Is it the point of His schoolboy's compass
That pricks your heart?

Somewhere perhaps the lovers lie
Under the dark cypress trees,
Trembling with happiness,
But here there's only your beard of many days
And a night moth shivering
Under your hand pressed against your chest.

Oldest child, Prometheus
Of some cold, cold fire you can't even name
For which you're serving slow time
With that night moth's terror for company.

Charles Simic

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7 de maio de 2006


Archibald MacLeish (1892-1982)



Ars Poetica


A poem should be palpable and mute
As a globed fruit,

Dumb
As old medallions to the thumb,

Silent as the sleeve-worn stone
Of casement ledges where the moss has grown--

A poem should be wordless
As the flight of birds.

*

A poem should be motionless in time
As the moon climbs,

Leaving, as the moon releases
Twig by twig the night-entangled trees,

Leaving, as the moon behind the winter leaves,
Memory by memory the mind--

A poem should be motionless in time
As the moon climbs.

*

A poem should be equal to:
Not true.

For all the history of grief
An empty doorway and a maple leaf.

For love
The leaning grasses and two lights above the sea--

A poem should not mean
But be.

Archibald MacLeish
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6 de maio de 2006


Amadeu Baptista (1953)


FRIDA KAHLO E OS DESENHOS DO MUNDO

Creio que a adolescência tocou o teu rosto
para fazer crescer a perturbação ainda hoje visível no olhar, o modo surpreendente
como os cabelos deslizam para a brancura
são a prova inequívoca do enigma, o vaticínio marca-te no rosto um pouco dessa tristeza avassaladora e ténue de quem atravessa
uma cidade para se perder no instante
de uma fonte, mão que toca a cor imponderável
das coisas para extrair do passado
uma medida de ferro, um fio de oiro,
um pássaro azul. Vejo-te passar nesse navio longínquo que há-de um dia pertencer ao vento, decifro o reflexo de um brilho que te sobe
para os ombros como o frágil ramo
de uma árvore vivaz e suavemente flutua
sobre a transparência para identificar o anjo
que te precede, um pouco após o sinal redutor da inocência e a infinita doçura de quem foi perseguido e arrancou das entranhas
subtílimos silêncios para resistir ao assédio
das pedras, os poderes aniquiladores, o rumo das coisas quando a tempestade triunfou
sobre a tempestade e a memória entregou
o resgate de não haver resgate.
Deste lugar te avisto e avisto o mar,
esta passagem conduz ao indizível encontro com as estrelas, sol e noite, os mínimos percalços que a natureza desoculta das sombras e faz explodir em fragmentos translúcidos
onde se inscreve a mensagem,
uma última notícia do paraíso perdido
em que um traço de luz corresponde
ao augúrio da brisa, a voz secreta que nos une
e separa, a palavra onde o deslumbramento
é um labirinto que pela alucinação
percorremos no incontornável fulgor
de um momento perpétuo.

Amadeu Baptista

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3 de maio de 2006

tenho uma estátua fluorescente da virgem
maria que me dá confiança e brilha à noite.
tenho os joelhos magoados. o calvário dos fiéis
devia ser menos árduo.
tenho trezentos e sessenta e cinco santos numa
caixa calendário daquelas em que cada dia
tem um chocolate.
tenho um lencinho branco onde limpo as
lágrimas enquanto assisto a uma vigília via tv
depois da minha última ceia de hoje.
às vezes quando o vapor é muito, tenho o
salvador no espelho. deito-me de consciência
limpa, não me esqueci das velinhas, nem de
deixar a moedinha na caixa, e o meu "livro de
orações" tem um delicioso cheiro a mofo.
dormirei o sono dos justos e talvez não acorde
quando o galo da minha vizinha cantar três
vezes e o meu senhorio o tentar apedrejar.
sinto-me bem e deus queira que consiga não
me masturbar.
ámen.

_nuno marques

[A NAIFA -- 3 minutos antes de a maré encher]

1 de maio de 2006

Jules Breton, «Asleep in the woods»
Jules Breton (1827-1906)

29 de abril de 2006

Os poemas podem ser desolados
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho.

Rui Pires Cabral

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Nuno Júdice (1949)


ROTINA

Ao abrir a janela do quarto para outras
janelas de outros quartos, ao veres a rua que desemboca
noutras ruas, e as pessoas que se cruzam, no início da
manhã, sem pensarem com quem se cruzam
em cada início de manhã, talvez te apeteça
voltar para dentro, onde ninguém te espera. Mas
o dia nasceu - um outro dia, e a contagem do tempo
começou a partir do momento em que
abriste a janela, e em que todas as janelas
da rua se abriram, como a tua. Então, resta-te
saber com quem te irás cruzar, esta manhã: se
o rosto que vais fixar, por uns instantes, retribuirá
o teu gesto; ou se alguém, no primeiro café que
tomares, te devolverá a mesma inquietação
que saboreias, enquanto esperas que o líquido
arrefeça.

Nuno Júdice

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27 de abril de 2006

História de Ayandal




Nesses tempos, numa outra terra, junto ao grande oceano, na aldeia de C´noth vivia Ayandal.
Ayandal era um dos jovens da aldeia. E, como todos os outros jovens da aldeia, sonhava com o dia em que se tornasse adulto e pudesse acompanhar os homens, nos barcos, viajando pelo oceano, pescando, visitando terras distantes, conhecendo outras pessoas e vendo coisas, sabendo o que não poderia saber na aldeia.

...

O dia chegou em que Ayandal se tornava adulto. Acordou ainda antes de o sol se levantar no horizonte. Vestiu-se, bebeu uma caneca de leite, pegou no saco de provisões que a sua mãe lhe tinha preparado. Saiu de casa, olhou uma vez para ela e correu para o cais. Chegou ao raiar da alvorada. Esperavam-no os anciãos da aldeia, a ele e aos outros sete jovens que nesse dia deveriam fazer a Prova.
Quando finalmente estavam todos reunidos, um dos anciãos tomou a palavra. Cada um dos jovens, no seu bote, deveria navegar até perder vista de terra e encontrar um barco com velas listadas brancas e azuis. Nesse barco ser-lhes-ia dado algo que deveriam trazer aos anciãos.
Ayandal correu para o seu bote, desamarrou-o do cais e pegou nos remos.
Quando saiu da enseada era já o primeiro dos oito. Rapidamente arrumou os remos no fundo do bote e içou a vela única.
O bote deslizava sobre as águas e Ayandal, olhando para trás, via a aldeia tornando-se mais e mais pequena, até desaparecer, a costa tornando-se mais e mais indistinta, os bosques, os prados, os montes tornando-se uma massa indistinta de verde e castanho, até tudo se tornar uma enorme mancha cinza junto ao mar azul e depois desaparecer.
O bote deslizava sobre as águas e, para além do azul do mar e do céu, Ayandal via apenas sete manchas negras que ele sabia serem os botes dos seus companheiros. Olhando em frente viu algo. Primeiro, só um pequeníssimo ponto negro no meio do azul do mar. Depois, enquanto o seu bote avançava, o ponto crescia para uma mancha, e de uma mancha tomava a forma de um barco. Ayandal via agora que era um grande barco mercante, as velas com listas azuis e brancas. Ayandal recolheu a vela do seu bote e remou, aproximando-se do barco.
Ayandal chegou junto ao barco, de onde lançaram uma corda e uma escada. A corda usou-a para amarrar o seu bote, a escada para subir ao barco. Os marinheiros cumprimentaram-no alegremente por ter sido o primeiro a chegar e um deles deu-lhe um colar com uma pequena placa em madeira. Nela viu uma inscrição com a insígnia de capitão. Sorrindo, colocou o colar ao pescoço, despediu-se rapidamente dos marinheiros e voltou ao seu bote. Enquanto o desamarrava viu as manchas no meio do mar tornarem-se os botes de dois dos seus companheiros que se aproximavam do barco. Ayandal remou até ganhar distância do grande barco mercante, recolheu os remos e voltou a içar a vela.
Regressava agora à aldeia e seria o primeiro na Prova. Olhando em frente, via já uma forma cinza entre o mar e o céu, e olhando para trás, apenas um pontinho negro.
Foi então que Ayandal viu um peixe, um enorme peixe vermelho nadando perto do seu bote. E pensou no que diriam na aldeia se, para além da placa de madeira, trouxesse também aquele enorme peixe vermelho. Imaginou as caras dos anciãos, dos seus pais e irmãos, imaginou a cara de todos na aldeia, os comentários que fariam sobre ele, o valoroso Ayandal, o primeiro a chegar ao barco, o primeiro a retornar à aldeia e ainda com tempo para pescar. Tudo isto pensou Ayandal no tempo que levou ao peixe passar por debaixo do bote.
Ayandal, vendo o peixe distanciar-se, acordou dos seus sonhos, reorientou a vela e fixou o mastro amarrando-o com uma corda. Pegou no arpão, amarrou-lhe a corda grande e esperou até estar suficientemente perto daquele grande, vermelho peixe. Então, fixando bem os seus pés no fundo do bote e agarrando com firmeza o arpão, fez pontaria. Arremessou o arpão, atingindo o peixe a meio do dorso.
E o céu tornou-se cinzento com nuvens e as vagas tornaram-se maiores e o vento soprou com mais força. Ayandal largou a corda do arpão e agarrou a do mastro segurando-a o melhor que podia. Mas a força de Ayandal não se comparava à força do mar, e ele viu a corda partir-se e o mastro rodar de encontro a ele e a escuridão...

Quanto tempo durou a tempestade, Ayandal não soube. Quando acordou viu que o céu mais uma vez era azul, o mar calmo e nem uma brisa soprava. Levantou-se e viu também que o mastro e a vela tinham sido levados pela tempestade, mas que lhe sobravam ainda os remos. Olhando em volta, viu, para leste e não muito longe, uma mancha castanha que se estendia por todo o horizonte. Começou a remar e, olhando por cima do ombro, vendo a mancha tornar-se mais nítida houve algo que o sobressaltou. Era terra que ele via, mas não a terra que ele conhecia. Chegou a uma praia, arrastou o bote até junto às rochas, onde o deixou. Voltou para junto da água, fez uma concha com as mãos e provou a água. Sorriu. Poderia não conhecer aquele lugar, mas a água tinha a mesma deliciosa falta de sabor que a do mar que conhecia.
Caminhou terra adentro, procurando pessoas e comida. E comida encontrou, mas não pessoas. Talvez estivesse numa zona não povoada, pensou. Voltou para a praia e, com o seu bote e alguns ramos e arbustos, fez um abrigo para essa noite. Tentava dormir e não conseguia. Saiu do abrigo e, olhando o céu, percebeu o que o preocupava. Não reconhecia uma única estrela, não reconhecia nada no céu. Tudo era completamente diferente.

...

Não tendo bote nem maneira de fazer um novo, decidiu explorar aquela terra, procurando alguém que o pudesse ajudar. Durante anos vagueou, sem encontrar pessoas. Um dia houve em que encontrou uma aldeia. E os homens que encontrou nessa aldeia nada sabiam da sua língua nem, como veio a descobrir, da sua terra ou de como fazer barcos. E Ayandal ensinou-lhes o que sabia sobre barcos e sobre o mar, e com eles começou a conhecer aquela nova terra.

Um dia Ayandal voltou a ver o mar. E lembrou-se da sua aldeia. Ajoelhou-se, fez uma concha com as mãos e provou a água. Havia algo estranho naquela água, um sabor que lhe lembrava alguma coisa que há muito esquecera. Mas Ayandal não se conseguia lembrar. Levantou-se, olhou o mar e voltou para dentro de terra.
Muitos anos se passaram e muitas vezes Ayandal voltou a ver o mar, e muitas vezes o atravessou, em barcos iguais aos que tinha conhecido na sua aldeia e no seu mundo. E muitos mais anos se passaram, e os barcos em que atravessava o mar já não eram de madeira, eram de metal, e os barcos em que atravessava o mar já não eram de metal, eram de coisas de que ele não sabia o nome.

...

Uma noite Ayandal chegou a uma praia. Olhou em frente, para a escuridão do mar, e para cima, para as estrelas que nunca deixariam de ser estranhas para ele.
Então Ayandal lembrou-se. Lembrou-se de ser pequeno e de chorar e da água dos seus olhos ter aquele gosto salgado. E lembrou-se de todos aqueles que tinha deixado e da tristeza que sentiriam pelo seu desaparecimento, de quantas lágrimas teriam sido precisas para tornar o mar salgado. E de que nenhuma dessas lágrimas era dele.

Ernesto Rodrigues Sampaio

26 de abril de 2006


Vicente Aleixandre (1898-1984)



EL POETA SE ACUERDA DE SU VIDA

Perdonadme: he dormido.
Y dormir no es vivir. Paz a los hombres.
Vivir no es suspirar o presentir palabras que aún nos vivan.
¿Vivir en ellas? Las palabras mueren.
Bellas son al sonar, mas nunca duran.
Así esta noche clara. Ayer cuando la aurora
o cuando el día cumplido estira el rayo
final, ya en tu rostro acaso.
Con tu pincel de luz cierra tus ojos.
Duerme.
La noche es larga, pero ya ha pasado.

Vicente Aleixandre

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