
Brota incesantemente. A borbotones.
Son manos de vencido. Ellas debían
Pero nada aprehendieron. No eran hábiles.
Tiemblan un poco. Tiemblan asustadas.
Les sonrío a mis manos. Las levanto
José María Fonollosa, Destrucción de la mañana
Às vezes, encontro-me nas palavras dos outros. Mais raramente, nas minhas. Por pura coincidência. Em pura coincidência.




John Clare








Sara
I laid on a dune, I looked at the sky,Bob Dylan

El poeta habla por telefóno con el amor
Tu voz regó la duna de mi pecho
en la dulce cabina de madera.
Por el sur de mis pies fue primavera
y al norte de mi frente flor de helecho.
Pino de luz por el espacio estrecho
cantó sin alborada y sementera
y mi llanto prendió por vez primera
coronas de esperanza por el techo.
Dulce y lejana voz por mí vertida.
Dulce y lejana voz por mí gustada.
Lejana y dulce voz amortecida.
Lejana como oscura corza herida.
Dulce como un sollozo en la nevada.
¡Lejana y dulce en tuétano metida!








Charles Simic






Leer, leer, leer, vivir la vida
que otros soñaron.
Leer, leer, leer, el alma olvida
las cosas que pasaron.
Se quedan las que quedan, las ficciones,
las flores de la pluma,
las solas, las humanas creaciones,
el poso de la espuma.
Leer, leer, leer; ¿seré lectura
mañana también yo?
¿Seré mi creador, mi criatura,
seré lo que pasó?
Miguel de Unamuno







Qualquer luz é melhor que a noite escura
O frasco de verniz em cima do microondas, onde costuma deixar o bloco com os recados para a mulher a dias. Dou sempre com dois tipos de letra na mesma página, o recado dela em cima e a resposta da mulher a dias em baixo. Algumas moedas que sobraram das compras. E a canção americana a repetir dentro de mim
Qualquer luz é melhor que a noite escura.
Hoje o meu filho acordou a meio da noite a chorar. Tem só três anos. Pensei que fosse febre ou os dentes ou isso de modo que lhe peguei ao colo e o trouxe a observar a rua, da cozinha. Agrada-me a cozinha à noite, com a bancada de tampo de granito e aqueles aparelhos eléctricos, quadrados e grandes, que parecem tornar-se mais úteis no escuro. Agrada-me o seu aspecto competente e os intestinos misteriosos cheios de parafusos e ventoinhas. Máquinas brancas, óculos redondos onde a roupa gira misturada com espuma. Pensei ligar uma das máquinas para entreter o meu filho. Para me entreter a mim. As vezes sento-me numa cadeira e fico a ver. Dão estalos, mudam de velocidade, de ruído. Como organismos vivos. O meu filho cheira a sono e a lágrimas. A rua quieta. Automóveis alinhados contra o passeio. Descubro o meu entre uma furgoneta cinzenta coberta de pó e um carro tapado com um pano. Conheço o dono. Aos domingos, em calções, tira o pano e gasta horas a limpar o carro com uma esponja. Nunca sorri. Limpar o carro é para ele o acto mais importante deste mundo. Quando acaba mete-se de novo em casa e regressa passada meia hora com a família atrás. Passeiam até ao jantar orgulhosos da sua maravilha asseada. Há uma canção dizendo que qualquer luz é melhor que a noite escura. Uma voz americana, rugosa. Qualquer luz é melhor que a noite escura.
Cansado de chorar o meu filho calou-se. Torno a deitá-lo. Fica quieto, de mãos fechadas, a dormir numa expressão de desdém. Torno à cozinha. A minha mulher deixou um frasco de verniz de unhas na bancada. Também ela dorme mas de bruços, prendendo a almofada. Acontece-lhe murmurar frases que não entendo sem sair do seu sono. O frasco de verniz em cima do microondas onde costuma deixar o bloco com os recados para a mulher a dias. Dou sempre com dois tipos de letra na mesma página, o recado dela em cima e a resposta da mulher a dias em baixo. Algumas moedas que sobraram das compras. E a canção americana a repetir dentro de mim
Qualquer luz é melhor que a noite escura.
Por que motivo continuo aqui? Há o meu filho, há a minha mulher. Será só isso? Perguntas e perguntas sem qualquer resposta. A minha cabeça anda cheia de perguntas. Não dúvidas. Não inquietações. Perguntas. A minha mãe costumava dizer-me Quando fores mais velho hás-de compreender. Não devo ter envelhecido seja o que for dado que não compreendo nada.
Concentro-me na rua enquanto farrapos de ideias, de lembranças, me invadem e se afastam. Por exemplo a minha avó a tapar os espelhos com lençóis quando alguém morria na família. Garantia que se a morte se encontrasse no espelho nunca mais se ia embora. Também não nos deixava deitar pão fora: guardava saquinhos e saquinhos de pão duro. Quando havia demasiados sacos e a minha mãe protestava, a minha avó desaparecia na escada com eles e voltava de mãos a abanar. Nunca ninguém soube onde escondia o pão. Faleceu com setenta e seis anos e a partir do seu falecimento a morte passou a encontrar-se à vontade nos espelhos.
Daqui a nada volto para a cama. Os lençóis mornos. Os números fosforescentes do despertador a azularem o quarto. A gravura com uma criança e um urso. Tudo coisas reais. Agradáveis. Verdadeiras. Fixo-me na gravura e as perguntas abandonam-me a pouco e pouco. A lembrança da minha avó também. Onde escondia o pão? Já não penso nisso. Já não penso em nada. Sinto-me resvalar devagarinho descendo, descendo, com a canção a repetir-me aos ouvidos que qualquer luz é melhor que a noite escura. Qualquer luz é melhor que a noite escura. Mesmo que apareça uma rapariga muito bonita não hei-de abandonar a minha vida.
António Lobo Antunes, Livro de Crónicas

Dejando de lado los motivos, atengámonos a la manera correcta de llorar, entendiendo por esto un llanto que no ingrese en el escándalo, ni que insulte a la sonrisa con su paralela y torpe semejanza. El llanto medio u ordinario consiste en una contracción general del rostro y un sonido espasmódico acompañado de lágrimas y mocos, estos últimos al final, pues el llanto se acaba en el momento en que uno se suena enérgicamente. Para llorar, dirija la imaginación hacia usted mismo, y si esto le resulta imposible por haber contraído el hábito de creer en el mundo exterior, piense en un pato cubierto de hormigas o en esos golfos del estrecho de Magallanes en los que no entra nadie, nunca. Llegado el llanto, se tapará con decoro el rostro usando ambas manos con la palma hacia adentro. Los niños llorarán con la manga del saco contra la cara, y de preferencia en un rincón del cuarto. Duración media del llanto, tres minutos.
Julio Cortázar, Historias de cronopios y de famas

Es el amor. Tendré que cultarme o que huir.
Crecen los muros de su cárcel, como en un sueño atroz.
La hermosa máscara ha cambiado, pero como siempre es la única.
¿De qué me servirán mis talismanes: el ejercicio de las letras,
la vaga erudición, el aprendizaje de las palabras que usó el áspero Norte para cantar sus mares y sus espadas,
la serena amistad, las galerías de la biblioteca, las cosas comunes,
los hábitos, el joven amor de mi madre, la sombra militar de mis muertos, la noche intemporal, el sabor del sueño?
Estar contigo o no estar contigo es la medida de mi tiempo.
Ya el cántaro se quiebra sobre la fuente, ya el hombre se
levanta a la voz del ave, ya se han oscurecido los que miran por las ventanas, pero la sombra no ha traído la paz.
Es, ya lo sé, el amor: la ansiedad y el alivio de oír tu voz, la espera y la memoria, el horror de vivir en lo sucesivo.
Es el amor con sus mitologías, con sus pequeñas magias inútiles.
Hay una esquina por la que no me atrevo a pasar.
Ya los ejércitos me cercan, las hordas.
(Esta habitación es irreal; ella no la ha visto.)
El nombre de una mujer me delata.
Me duele una mujer en todo el cuerpo.
Jorge Luís Borges