8 de agosto de 2008



Dejo correr la sangre de las manos.
Acostado en la cama la examino.
Las sábanas la sorben dulcemente
con la quieta avidez de su blancura.

Brota incesantemente. A borbotones.
Tibia y curiosa asoma a mis muñecas
y escapa presurosa de mis manos.

Son manos de vencido. Ellas debían
coger la gloria, amor, coger dinero.
Un día las creí capaces de ello.

Pero nada aprehendieron. No eran hábiles.
O el empeño excedió su exigua fuerza.
Pobres manos humildes y vacías.

Tiemblan un poco. Tiemblan asustadas.
Asustadas y débiles parecen
pedir excusas porque son mediocres.

Les sonrío a mis manos. Las levanto
y las uno. Las siento desvalidas.
Y atisbo como repta sigiloso
ese zumo tan rojo de la vida.

José María Fonollosa, Destrucción de la mañana
.

1 de agosto de 2008



Nos mains au jardin

Nous avons eu cette idée
de planter nos mains au jardin

Branches des dix doigts
Petits arbres d'ossements
Chère plate-bande.

Tout le jour
Nous avons attendu l'oiseau roux
Et les feuilles fraîches
A nos ongles polis.

Nul oiseau
Nul printemps
Ne se sont pris au piège de nos mains coupées.

Pour une seule fleur
Une seule minuscule étoile de couleur
Un seul vol d'aile calme
Pour une seule note pure
Répétée trois fois.

Il faudra la saison prochaine
Et nos mains fondues comme l'eau.

Anne Hébert, Poèmes

30 de julho de 2008




The Old Stoic

Riches I hold in light esteem,
And love I laugh to scorn;
And lust of fame was but a dream
That vanish'd with the morn:

And if I pray, the only prayer
That moves my lips for me
Is, "Leave the heart that now I bear,
And give me liberty!"

Yes, as my swift days near their goal,
'Tis all that I implore:
In life and death a chainless soul,
With courage to endure.

Emily Brontë

26 de julho de 2008




[II]

Todo amor es fantasía;
él inventa el año, el día,
la hora y su melodía;
inventa el amante y, más,
la amada. No prueba nada,
contra el amor, que la amada
no haya existido jamás.



Antonio Machado,"Otras Canciones a Guiomar"


.

24 de julho de 2008

Foto de Bruno Cirac

The Far Side Of Your Moon


The far side of your moon is black,
And glorious grows the vine;
Ask anything of me you lack,
But only what is mine.


Yours is the great wheel of the sun
And yours the unclouded sky;
Then take my stars, take every one
But wear them openly.


Walking in splendor through the plain
For all the world to see,
Since none alive shall view again
The match of you and me.


Robert Graves

18 de julho de 2008




Memento


Like a reminder of this life
of trams, sun, sparrows,
and the flighty uncontrolledness
of streams leaping like thermometers,
and because ducks are quacking somewhere
above the crackling of the last, paper-thin ice,
and because children are crying bitterly
(remember children's lives are so sweet!)
and because in the drunken, shimmering starlight
the new moon whoops it up,
and a stocking crackles a bit at the knee,
gold in itself and tinged by the sun,
like a reminder of life,
and because there is resin on tree trunks,
and because I was madly mistaken i
n thinking that my life was over,
like a reminder of my life -
you entered into me on stockinged feet.
You entered - neither too late nor too early -
at exactly the right time, as my very own,
and with a smile, uprooted me
from memories, as from a grave.
And I, once again whirling among
the painted horses, gladly exchange,
for one reminder of life, all its memories.

Yevgeny Yevtushenko

15 de julho de 2008



Barefoot

We took off our shoes

In the middle of the hot city.
And we looked so loose,
Like newborn and pretty.
With the same speed, if we could

Free our thoughts for a while
From their heavy boots —
It would be easier, mile after mile,
To leap barefoot into childhood.

Abraham Sutzkever
.

13 de julho de 2008


To John Clare

Well, honest John, how fare you now at home?
The spring is come, and birds are building nests;
The old cock-robin to the sty is come,
With olive feathers and its ruddy breast;
And the old cock, with wattles and red comb,
Struts with the hens, and seems to like some best,
Then crows, and looks about for little crumbs,
Swept out by little folks an hour ago;
The pigs sleep in the sty; the bookman comes--
The little boy lets home-close nesting go,
And pockets tops and taws, where daisies blow,
To look at the new number just laid down,
With lots of pictures, and good stories too,
And Jack the Giant-killer's high renown.

John Clare


12 de julho de 2008

Retrato de Jeanne Hébuterne
Amedeo Modigliani
.

7 de julho de 2008


Marc Chagall, Aleko

.

6 de julho de 2008


Frida Kahlo, Raíces
.

29 de junho de 2008




Give Me Back My Rags #11



I've wiped your face off my face

Ripped your shadow off my shadow

Leveled the hills in you

Turned your plains into hills

Set your seasons quarreling

Turned all the ends of the world from you

Wrapped the path of my life around you

My impenetrable my impossible path

Just try to meet me now



Vasko Popa
.

28 de junho de 2008




HAVING A COKE WITH YOU

is even more fun than going to San Sebastian, Irún, Hendaye, Biarritz, Bayonne
or being sick to my stomach on the Travesera de Gracia in Barcelona
partly because in your orange shirt you look like a better happier St. Sebastian
partly because of my love for you, partly because of your love for yoghurt
partly because of the fluorescent orange tulips around the birches
partly because of the secrecy our smiles take on before people and statuary
it is hard to believe when I’m with you that there can be anything as still
as solemn as unpleasantly definitive as statuary when right in front of it
in the warm New York 4 o’clock light we are drifting back and forth
between each other like a tree breathing through its spectacles
and the portrait show seems to have no faces in it at all, just paint
you suddenly wonder why in the world anyone ever did them
I look
at you and I would rather look at you than all the portraits in the world
except possibly for the Polish Rider occasionally and anyway it’s in the Frick
which thank heavens you haven’t gone to yet so we can go together the first time
and the fact that you move so beautifully more or less takes care of Futurism
just as at home I never think of the Nude Descending a Staircase or
at a rehearsal a single drawing of Leonardo or Michelangelo that used to wow me
and what good does all the research of the Impressionists do them
when they never got the right person to stand near the tree when the sun sank
or for that matter Marino Marini when he didn’t pick the rider as carefully
as the horse
it seems they were all cheated of some marvellous experience
which is not going to go wasted on me which is why I’m telling you about it


Frank O’Hara, Selected Poems

19 de junho de 2008




Teresinha

O primeiro me chegou
Como quem vem do florista
Trouxe um bicho de pelúcia
Trouxe um broche de ametista
Me contou suas viagens
E as vantagens que ele tinha
Me mostrou o seu relógio
Me chamava de rainha
Me encontrou tão desarmada
Que tocou meu coração
Mas não me negava nada
E, assustada, eu disse não

O segundo me chegou
Como quem chega do bar
Trouxe um litro de aguardente
Tão amarga de tragar
Indagou o meu passado
E cheirou minha comida
Vasculhou minha gaveta
Me chamava de perdida
Me encontrou tão desarmada
Que arranhou meu coração
Mas não me entregava nada
E, assustada, eu disse não

O terceiro me chegou
Como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada
Também nada perguntou
Mal sei como ele se chama
Mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama
E me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não
Se instalou feito um posseiro
Dentro do meu coração


Chico Buarque



..
.

17 de junho de 2008




Já lentamente sofro a tua água, o sopro
da memória nas colinas.
deste-me um corpo, a casa
onde acordar o vento, e a terra, e a paz
desconhecida.
nesta cave de pele te implorei os dias
o óleo da manhã nas mãos desertas.
a cada instante me devora o gume
embotado da tua
luz sonora.

afasta do meu rosto a tua vã promessa. deixa
que seja brando o sono sem lembrança,
um chão de terra nua.
do teu jardim de chamas me despeço.

António Franco Alexandre, Visitação




13 de junho de 2008



Na véspera de não partir nunca
Ao menos não há que arrumar malas
Nem que fazer planos em papel,
Com acompanhamento involuntário de esquecimentos,
Para o partir ainda livre do dia seguinte.
Não há que fazer nada
Na véspera de não partir nunca.
Grande sossego de já não haver sequer de que ter sossego!
Grande tranquilidade a que nem sabe encolher ombros
Por isto tudo, ter pensado o tudo
É o ter chegado deliberadamente a nada.
Grande alegria de não ter precisão de ser alegre,
Como uma oportunidade virada do avesso.
Ah, quantas vezes vivo
A vida vegetativa do pensamento!
Todos os dias sine linea
Sossego, sim, sossego...
Grande tranquilidade...
Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas!
Que prazer olhar para as malas fitando como para nada!
Dormita, alma, dormita!
Aproveita, dormita!
Dormita!
É pouco o tempo que tens!
Dormita!
É a véspera de não partir nunca!



Álvaro de Campos

10 de junho de 2008






De vós me aparto, ó vida! Em tal mudança,
Sinto vivo da morte o sentimento;
Não sei para que é ter contentamento,
Se mais há-de perder quem mais alcança.



Mas dou-vos esta firme segurança:
Que, posto que me mate meu tormento,
Pelas águas do eterno esquecimento
Segura passará minha lembrança.



Antes sem vós meus olhos se entristeçam,
Que com qualquer cous'outra se contentem;
Antes os esqueçais, que vos esqueçam.



Antes nesta lembrança se atormentem,
Que com esquecimento desmereçam
A glória que em sofrer tal pena sentem.




Luís de Camões




9 de junho de 2008




(Marcha fúnebre para uma borboleta pisada.)

Pobre borboleta morta
que se desfez num sopro
de poeira de asas!

Que ficou de ti no mundo?

O desenho de um voo
com rasto de pólen?

Um corpo caído
de cores mais inúteis?

Uma nódoa apenas
sem a grandeza da morte
- porque a morte é só humana?

(Quero lá saber!... O que me dói
é tudo ser borboleta morta.)


José Gomes Ferreira, Poeta Militante I

8 de junho de 2008


Sara

I laid on a dune, I looked at the sky,
When the children were babies and played on the beach.
You came up behind me, I saw you go by,
You were always so close and still within reach.


Sara, Sara,
Whatever made you want to change your mind?
Sara, Sara,
So easy to look at, so hard to define.

I can still see them playin' with their pails in the sand,
They run to the water their buckets to fill.
I can still see the shells fallin' out of their hands
As they follow each other back up the hill.

Sara, Sara,
Sweet virgin angel, sweet love of my life,
Sara, Sara,
Radiant jewel, mystical wife.

Sleepin' in the woods by a fire in the night,
Drinkin' white rum in a Portugal bar,
Them playin' leapfrog and hearin' about Snow White,
You in the marketplace in Savanna-la-Mar.

Sara, Sara,
It's all so clear, I could never forget,
Sara, Sara,
Lovin' you is the one thing I'll never regret.

I can still hear the sounds of those Methodist bells,
I'd taken the cure and had just gotten through,
Stayin' up for days in the Chelsea Hotel,
Writin' "Sad-Eyed Lady of the Lowlands" for you.

Sara, Sara,
Wherever we travel we're never apart.
Sara, oh Sara,
Beautiful lady, so dear to my heart.

How did I meet you? I don't know.
A messenger sent me in a tropical storm.
You were there in the winter, moonlight on the snow
And on Lily Pond Lane when the weather was warm.

Sara, oh Sara,
Scorpio Sphinx in a calico dress,
Sara, Sara,
You must forgive me my unworthiness.

Now the beach is deserted except for some kelp
And a piece of an old ship that lies on the shore.
You always responded when I needed your help,
You gimme a map and a key to your door.

Sara, oh Sara,
Glamorous nymph with an arrow and bow,
Sara, oh Sara,
Don't ever leave me, don't ever go.

Bob Dylan

6 de junho de 2008


Diego Vélazquez, Arachne

5 de junho de 2008

a





El poeta habla por telefóno con el amor

Tu voz regó la duna de mi pecho
en la dulce cabina de madera.
Por el sur de mis pies fue primavera
y al norte de mi frente flor de helecho.

Pino de luz por el espacio estrecho
cantó sin alborada y sementera
y mi llanto prendió por vez primera
coronas de esperanza por el techo.

Dulce y lejana voz por mí vertida.
Dulce y lejana voz por mí gustada.
Lejana y dulce voz amortecida.

Lejana como oscura corza herida.
Dulce como un sollozo en la nevada.
¡Lejana y dulce en tuétano metida!

Federico Garcia Lorca



4 de junho de 2008





é depois das primeiras chuvas
que recuamos
ao limiar de uma tristeza consentida

ao recolhimento calculado de remorsos

sem préstimo

o inverno é um balanço espesso

uma lama que cerca o coração

atravessa-se devagar de uma soleira

para a protecção de todas as soleiras
porque a paixão das travessias é antiga
nelas se esquece da morte
quem se esqueceu da vida.





Manuel Afonso Costa



31 de maio de 2008



LII

The spotted hawk swoops by and accuses me, he complains
of my gab and my loitering.


I too am not a bit tamed, I too am untranslatable,
I sound my barbaric yawp over the roofs of the world.


The last scud of day holds back for me,
It flings my likeness after the rest and true as any on the shadow'd wilds,
It coaxes me to the vapor and the dusk.


I depart as air, I shake my white locks at the runaway sun,
I effuse my flesh in eddies, and drift it in lacy jags.


I bequeath myself to the dirt to grow from the grass I love,
If you want me again look for me under your boot-soles.


You will hardly know who I am or what I mean,
But I shall be good health to you nevertheless,
And filter and fibre your blood.


Failing to fetch me at first keep encouraged,
Missing me one place search another,
I stop somewhere waiting for you.

Walt Whitman, Song of Myself

29 de maio de 2008




Voy a dormir

Dientes de flores, cofia de rocío,
manos de hierbas, tú, nodriza fina,
tenme prestas las sábanas terrosas
y el edredón de musgos escardados.


Voy a dormir, nodriza mía, acuéstame.
Ponme una lámpara a la cabecera;
una constelación, la que te guste;
todas son buenas, bájala un poquito.


Déjame sola: oyes romper los brotes...
te acuna un pie celeste desde arriba
y un pájaro te traza unos compases


para que olvides... Gracias... Ah, un encargo:
si él llama nuevamente por teléfono
le dices que no insista, que he salido.


Alfonsina Storni

24 de maio de 2008


When You Are Old


When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;


How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;


And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.


William Butler Yeats

22 de maio de 2008




3.



pouco mais há a dizer, caminho largando os últimos resíduos da memória. fragmentos de noite escritos com o coração a pressentir as catástrofes do mundo. a grande solidão é um lugar branco povoado de mitos, de tristezas e de alegria. mas estou quase sempre triste. algumas fotografias revelam-me que noutros lugares já estivera triste, por exemplo, no fundo deste poço vi inclinar-se a sombra adolescente que fui. água lunar, canaviais, luminosos escaravelhos. este sol queimando a pele das plantas. caminho pelos textos e reparo em tudo isto. o que começo deixo inacabado, como deixarei a vida, tenho a certeza, inacabada. o mundo pertenceu-me, a memória revela-me essa herança, esse bem. hoje, apenas sinto o vento reacender feridas, nada possuo, nem sequer o sofrimento. outra memória vai tomando forma, assusta-me. ainda quase nada aconteceu e já envelheci tanto. um jogo de estilhaços é tudo o que possuo, a memória que vem ainda não tem a dor dentro dela. as fotografias e os textos, teu rosto, poderiam projectar-me para um futuro mais feliz, ou contarem-me os desastres dos recomeçados regressos. mas, quando mais tarde conseguir reparar que a vida vibrou em mim, um instante, terei a certeza de que nada daquilo me pertenceu. nem mesmo a vida, nenhuma morte, na mesma posição, reclinado sobre meu frágil corpo, recomeço a escrever, estou de novo ocupado em esquecer-me. a escrita é precária morada para o vaguear do coração. resta-me a perturbação de ter atravessado os dias, humildemente, sem queixumes. anoitece ou amanhece, tanto faz.



Al Berto, O Medo

19 de maio de 2008




TACITURNO



Há ouro marchetado em mim, a pedras raras,
Ouro sinistro em sons de bronzes medievais -
Jóia profunda a minha alma a luzes caras,
Cibório triangular de ritos infernais.



No meu mundo interior cerraram-se armaduras,
Capacetes de ferro esmagaram Princesas.
Toda uma estirpe real de heróis de outras bravuras
Em mim se despojou dos seus brazões e presas.



Heráldicas-luar sobre ímpetos de rubro,
humilhações a liz, desforços de brocado;
Basílicas de tédio, arnezas de crispado,
Insígnias de Ilusão, trofeus de jaspe e Outubro...



A ponte levadiça e baça de Eu-ter-sido
Enferrujou - embalde a tentarão descer...
Sobre fossos de Vago, ameias de inda-querer -
Manhãs de armas ainda em arraiais de olvido...



Percorro-me em salões sem janelas nem portas,
Longas salas de trono a espessas densidades,
Onde os panos de Arrás são esgarçadas saudades,
E os divãs, em redor, ânsias, lassas, absortas...



Há roxos fins de Império em meu renunciar -
Caprichos de cetim do meu desdém Astral...
Há exéquias de heróis na minha dor feudal -
E os meus remorsos são terraços sobre o mar...


Mário de Sá-Carneiro

12 de maio de 2008




1.


(Os anos passarão. Os canteiros hão-de gerar um outro buxo. Outros pássaros virão cantar nos ramos altos do pinheiro manso e dos plátanos. A tia morrerá. E a casa e o jardim, a própria vila, suas rotinas, seus ritmos e seus ecos. Não ficará senão a tua voz na tarde calma. Olá, disseste. E a terra começou a tremer.)


Manuel Alegre, A Terceira Rosa

11 de maio de 2008


Salvador Dalí,O Livro-Árvore



9 de maio de 2008


Charles Simic (1938)


Errata

Where it says snow
read teeth-marks of a virgin
Where it says knife read
you passed through my bones
like a police-whistle
Where it says table read horse
Where it says horse read my migrant's bundle
Apples are to remain apples
Each time a hat appears
think of Isaac Newton
reading the Old Testament
Remove all periods
They are scars made by words
I couldn't bring myself to say
Put a finger over each sunrise
it will blind you otherwise
That damn ant is still stirring
Will there be time left to list
all errors to replace
all hands guns owls plates
all cigars ponds woods and reach
that beer-bottle my greatest mistake
the word I allowed to be written
when I should have shouted
her name

Charles Simic




8 de maio de 2008



Cantiguinha

Meus olhos eram mesmo água,
— te juro —
mexendo um brilho vidrado,
verde-claro, verde-escuro.

Fiz barquinhos de brinquedo,
— te juro —
fui botando todos eles
naquele rio tão puro.

Veio vindo a ventania,
— te juro —
as águas mudam seu brilho,
quando o tempo anda inseguro.

Quando as águas escurecem,
— te juro —
todos os barcos se perdem,
entre o passado e o futuro.

São dois rios os meus olhos,
— te juro —
noite e dia correm, correm,
mas não acho o que procuro.

Cecília Meireles, Viagem

10 de abril de 2008


Sebastião da Gama (1924-1952)


Inscrição

Nada sabe do Mar

quem não morreu no Mar.
Calem-se os poetas
e digam só metade
os que andam sobre as ondas
suspensos por um fio.

Sabe tudo do Mar
quem no Mar perdeu tudo.
Mas dorme lá no fundo,
tem os lábios selados,
e os olhos, reflectem
e claramente explicam
os mistérios do Mar,
para sempre fechados.


Sebastião da Gama

25 de janeiro de 2008


Virginia Woolf (1882-1941)



I feel certain that I am going mad again. I feel we can't go through another of those terrible times. And I shan't recover this time. I begin to hear voices, and I can't concentrate. So I am doing what seems the best thing to do. You have given me the greatest possible happiness. You have been in every way all that anyone could be. I don't think two people could have been happier till this terrible disease came. I can't fight any longer. I know that I am spoiling your life, that without me you could work. And you will I know. You see I can't even write this properly. I can't read. What I want to say is I owe all the happiness of my life to you. You have been entirely patient with me and incredibly good. I want to say that - everybody knows it. If anybody could have saved me it would have been you. Everything has gone from me but the certainty of your goodness. I can't go on spoiling your life any longer.
Virginia Woolf, carta a Leonard Woolf

5 de janeiro de 2008

Devem os blogues ter restrições?

Achei este questionário verdadeiramente suculento e não resisti a dar as minhas (muito discutíveis) respostas.

Em relação às restrições, depende de onde está alojado o blogue. O Blogger, por exemplo, tem algumas em relação ao conteúdo divulgado (http://www.blogger.com/terms.g). Sendo os blogues um espaço de liberdade por excelência, cabe a cada um gerir o seu como entender, e implementar as restrições que considerar ajustadas. Os visitantes têm, naturalmente, direito à liberdade de opinião, mas têm também de respeitar a liberdade do autor do blogue que tem, igualmente, o direito de definir o formato que lhe apetecer, de acordo, bem entendido, com os termos de serviço.
O critério das restrições é simples: o autor do blogue decide. É certo que os visitantes têm direito à livre expressão das suas ideias, mas também é certo que os autores têm o direito de não querer saber a opinião dos outros. A liberdade tem destas coisas. Pode apetecer a um mortal qualquer escrever algo ou citar alguém, pelo simples desejo de partilha, sem que venha outra criatura dar palpites, conselhos edificantes, deixar beijinhos e smileys. Bloquear os comentários é um direito que lhe assiste. Do mesmo modo, pode apetecer a outro mortal auscultar opiniões, suscitar o debate, pelo que, neste caso, permitindo os comentários, terá de se sujeitar às opiniões mais variadas, concorde ou não com elas. Também lhe assiste o direito de apagar comentários que considere ofensivos a si ou a terceiros, muito embora, por uma questão de coerência, as pessoas raramente o façam, preferindo responder aos mesmos.
Os blogues devem servir para o que os gestores dos mesmos quiserem. Se me apetecer mostrar fotos de bijuteria, de rendas e bordados, de criancinhas, de animaizinhos, do diabo que me carregue, mostro. Se preferir um blogue de debate sobre a actualidade política, pois crio-o. Se quiser apresentar narrativas (reais ou fictícias, mais ou menos escaldantes), por que não fazê-lo? Se quiser escrever umas baboseiras poéticas, também ninguém mo pode impedir. Se quiser comentar os acontecimentos desportivos, contar anedotas, dissertar sobre o tempo, a moda, a sociedade, o número de vezes que o homem português ajeita diariamente as partes baixas, o sentido da existência, as moscas, as artes plásticas, o aquecimento global, o canto gregoriano,ou cinema búlgaro, posso perfeitamente dar início a um blogue específico. Ou vários. Ou tratar todos esses temas no mesmo blogue. Quem não gostar do formato ou do conteúdo tem bom remédio – não me visite. Não darei pela sua falta. Se, por masoquismo, teimar em visitar-me e a manifestar o seu desagrado pela forma como me expresso ou como o blogue está estruturado, há-de também (nada mais justo) sujeitar-se à minha opinião ou à minha indiferença. Ao contrário de jornais e revistas, que, de algum modo, sentem a necessidade de agradar aos leitores para vender, os blogues não precisam disso, daí também o seu interesse. Há quem se avalie pelo número de visitas e comentários. Há quem os ignore. E há quem veja um blogue como uma janela por onde atira palavras (pérolas ou lixo, tanto faz, suas ou alheias, tanto faz) sem querer mais nada além disso. Os blogues servem para muita coisa, graças a Deus! Se fosse apenas para "debate de ideias e contraponto de argumentos", isso seria muitíssimo redutor, com blogues semi-clonados uns dos outros, todos com o mesmo formato, todos muito dispostos a expressar a sua sagrada opinião sobre tudo. E sempre que alguém surgisse com um blogue diferente, a blogosfera caía-lhe em cima: “Não, não, os blogues são todos para debate de ideias e contraponto de argumentos!”, “Isso aí o que é? Um poema de Pessoa? Mas enlouqueceste ou quê? Os blogues são para debate de ideias e contraponto de argumentos!”.
Penso que, e no âmbito ainda dessa liberdade de expressão a que se alude no questionário, na blogosfera cabem os blogues para "debate de ideias e contraponto de argumentos" e os que servem para exercícios de ego (de acordo com a divisão apresentada) e devo dizer que os últimos são os mais interessantes, porque há egos fabulosos por aí que me tem agradado imenso descobrir, bastante mais do que as opiniõezinhas pedantes e requentadas de muito boa gente. Egos que se manifestam com as suas palavras, com as palavras de outros, com fotos, com vídeos, com música, em prosa em verso, diariamente, raramente, autobiográficos, fictícios, lacónicos, torrenciais, sóbrios, exuberantes, melancólicos, hilariantes, eu sei lá...
Quanto aos nicknames e afins, em nome da tal liberdade, não vejo porque terá alguém de ser forçado a usar sempre o seu santo nome de baptismo, e também não vejo por que não usá-lo. O que mais me custa ver, sinceramente, é que uma coisa ou outra incomode seja quem for, a ponto de se falar em personalidades múltiplas, o que é algo perfeitamente absurdo. Um nick é uma forma de identificação, e toda a gente sabe que tanto pode como não pode ser o nome real. Uma criatura que tenha, como eu, o banalissimo nome de Ana (na blogosfera haverá umas quinhentas mil), pode, com certeza, optar por um sinónimo que evite confusões sem que a acusem de ter múltipla personalidade, julgo eu (eu, Ana, eu, Graça, etc.). E embora a heteronímia só seja concedida aos que roçam a genialidade ou a loucura, é de louvar os que conseguem multiplicar-se, ou os que têm o engenho para se projectar noutras personagens. Tal como é de louvar quem opta por ser "quem não pode deixar de ser" (sim, sim, era - desgraçada de mim -uma citação de Pessoa, o que, no contexto, é um mau sintoma). São opções. Todas viáveis, todas aceitáveis.
Um texto deixa de ser nosso quando é público? Parcialmente, como é óbvio. Mas, se ofender certos membros do governo, será só do autor, que terá de responder por ele em tribunal, por muito que outros o tenham aplaudido e citado... O que a pergunta quer, de facto, dizer é que, a partir do momento em que o texto é divulgado, quem o escreveu tem de sujeitar-se a críticas, citações, ilustrações, apropriações... – e sem refilar! Estivesse calado! É verdade, infelizmente, e é por isso que muita gente desiste de divulgar seja o que for. Mesmo que, num blogue, o administrador bloqueie os comentários, outro caramelo qualquer pode sempre, no seu próprio blogue ou noutro espaço qualquer, desancar ou homenagear o post alheio e criar até um link para o dito. A partir do momento em que uma pessoa escreve uma palavra e a torna pública, tem de estar preparada para a ver citada numa moldura de lacinhos cor-de-rosa e com borboletas virtuais à volta ou para a ver treslida, desvirtuada, traduzida – ou com outro nome a assiná-la.
Resta-me agradecer ao autor do questionário a oportunidade de lhe responder e de lhe provar que não tenho qualquer receio de me ver ao espelho da minha própria escrita - tenho, sim, o direito de não o fazer, do mesmo modo que ele terá o direito de me criticar.

25 de novembro de 2007

 caricatura de Bordalo Pinheiro
Eça de Queirós (1845-1900)



Foi uma dessas manhãs que preguiçando assim no sofá com a Revista dos Dois Mundos na mão, ele ouviu um rumor na antecâmara, e logo uma voz bem conhecida, bem querida, que dizia por trás do reposteiro:
- Sua Alteza Real está visível?
- Oh!, Ega! - gritou Carlos, dando um salto do sofá.
E caíram nos braços um do outro, beijando-se na face, enternecidos.
- Quando chegaste tu?
- Esta manhã. Caramba! - exclamava Ega, procurando pelo peito, pelos ombros, o seu quadrado de vidro, e entalando-o enfim no olho. - Caramba! Tu vens esplêndido desses Londres, dessas civilizações superiores. Estás com um ar Renascença, um ar Valois... Não há nada como a barba toda!
Carlos ria, abraçando-o outra vez.
- E de onde vens tu, de Celorico?
- Qual Celorico! Da Foz. Mas doente, menino, doente... O fígado, o baço, uma infinidade de vísceras comprometidas. Enfim, doze anos de vinhos e águas-ardentes...
Depois falaram das viagens de Carlos, do Ramalhete, da demora do Ega em Lisboa... Ega vinha para sempre. Tinha dito do alto da diligência, às várzeas de Celorico, o adeus de eternidade.
- Imagina tu, Carlos, amigo, a história deliciosa que me sucede com minha mãe... Depois de Coimbra, naturalmente, sondei-a a respeito de vir viver para Lisboa, confortavelmente, com uns dinheiros largos. Qual, não caiu! Fiquei na quinta, fazendo epigramas ao padre Serafim e a toda a corte do céu. Chega Julho, e aparece nos arredores uma epidemia de anginas. Um horror, creio que vocês lhe chamam diftéricas... A mamã salta imediatamente à conclusão que é a minha presença, a presença do ateu, do demagogo, sem jejuns e sem missa, que ofendeu Nosso Senhor e atraiu o flagelo. Minha irmã concorda. Consultam o padre Serafim. O homem, que não gosta de me ver na quinta, diz que é possível que haja indignação do Senhor - e minha mãe vem pedir-me quase de joelhos, com a bolsa aberta, que venha para Lisboa, que a arruíne, mas que não esteja ali chamando a ira divina. No dia seguinte bati para a Foz...
- E a epidemia...
- Desapareceu logo- disse o Ega, começando a puxar devagar dos dedos magros uma longa luva cor de canário.
Carlos mirava aquelas luvas do Ega; e as polainas de casimira; e o cabelo que ele trazia crescido com uma mecha frisada na testa; e na gravata de cetim uma ferradura de opalas! Era outro Ega, um Ega dândi, vistoso, paramentado, artificial e com pó de arroz - e Carlos deixou enfim escapar a exclamação impaciente que lhe bailava nos lábios:
- Ega, que extraordinário casaco!
Por aquele sol macio e morno de um fim de outono português, o Ega, o antigo boémio de batina esfarrapada, trazia uma peliça, uma sumptuosa peliça de príncipe russo, agasalho de trenó e de neve, ampla, longa, com alamares trespassados à Brandeburgo, e pondo-lhe em torno do pescoço esganiçado e dos pulsos de tísico uma rica e fofa espessura de peles de marta.
- É uma boa peliça, hem? - disse ele logo, erguendo-se, abrindo-a, exibindo a opulência do forro. - Mandei-a vir pelo Strauss... Benefícios da epidemia.
- Como podes tu suportar isso?
- É um bocado pesada, mas tenho andado constipado.
Tornou a recostar-se no sofá, adiantando o sapato de verniz muito bicudo, e, de monóculo no olho, examinou o gabinete.
- E tu que fazes? conta-me lá... Tens isto esplêndido!
Carlos falou dos seus planos, de altas ideias de trabalho, das obras do laboratório... (...)
O Ega, repoltreado, com aquele ar de tranquila e sólida felicidade que Carlos já notara, disse puxando lentamente os punhos:
- É necessário reorganizar essa vida. Precisamos arranjar um cenáculo, uma boemiazinha dourada, umas soirées de inverno, com arte, com literatura... (...)
Desembaraçou-se da opulenta peliça, e apareceu em peitilho de camisa.
- O quê! Tu não trazias nada por baixo? - exclamou Carlos. - Nem colete?
- Não; então não a podia aguentar... Isto é para o efeito moral, para impressionar o indígena... Mas, não há negá-lo, é pesada!
E imediatamente voltou à sua ideia: apenas Craft chegasse do Porto relacionavam-se, organizava-se um Cenáculo, um Decameron de arte e diletantismo, rapazes e mulheres - três ou quatro mulheres para cortarem, com a graça dos decotes, a severidade das filosofias...
Carlos ria-se desta ideia do Ega. Três mulheres de gosto e de luxo, em Lisboa, para adornar um cenáculo! Lamentável ilusão de um homem de Celorico! (...)
- Enfim, exclamou o Ega, se não aparecerem mulheres, importam-se, que é em Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima com os direitos da alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas... Nós julgamo-nos civilizados como os negros de S. Tomé se supõem cavalheiros, se supõem mesmo brancos, por usarem com a tanga uma casaca velha do patrão... Isto é uma choldra torpe. Onde pus eu a charuteira?
Desembaraçado da majestade que lhe dava a peliça o antigo Ega reaparecia, perorando com os seus gestos aduncos de Mefistófeles em verve, lançando-se pela sala como se fosse voar ao vibrar as suas grandes frases, numa luta constante com o monóculo, que lhe caía do olho, que ele procurava pelo peito, pelos ombros, pelos rins, retorcendo-se, deslocando-se, como mordido por bichos. Carlos animava-se também, a fria sala aquecia; discutiam o Naturalismo, Gambeta, o Nihilismo; depois, com ferocidade e à uma, malharam sobre o país...
Mas o relógio ao lado bateu quatro horas; imediatamente Ega saltou sobre a peliça, sepultou-se nela, aguçou o bigode ao espelho, verificou a pose, e, encouraçado nos seus alamares, saiu com um arzinho de luxo e de aventura.
Eça de Queirós, Os Maias

7 de novembro de 2007


Cecília Meireles (1901-1964)





Encomenda


Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê - como esta:
Em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.


Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.


Cecília Meireles

4 de novembro de 2007



Sonnet XIV

If thou must love me, let it be for nought
Except for love's sake only. Do not say
'I love her for her smile-her look-her way
Of speaking gently,-for a trick of thought


That falls in well with mine, and certes brought
A sense of pleasant ease on such a day'-
For these things in themselves, Beloved, may
Be changed, or change for thee,-and love, so wrought,


May be unwrought so. Neither love me for
Thine own dear pity's wiping my cheeks dry,-
A creature might forget to weep, who bore


Thy comfort long, and lose thy love thereby!
But love me for love's sake, that evermore
Thou mayst love on, through love's eternity.


Elizabeth Barret Browning, Sonnets from the Portuguese
.

7 de outubro de 2007

Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o frio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.


Maria do Rosário Pedreira

29 de setembro de 2007


Miguel de Unamuno (1864-1936)



Leer, leer, leer, vivir la vida
que otros soñaron.
Leer, leer, leer, el alma olvida
las cosas que pasaron.
Se quedan las que quedan, las ficciones,
las flores de la pluma,
las solas, las humanas creaciones,
el poso de la espuma.
Leer, leer, leer; ¿seré lectura
mañana también yo?
¿Seré mi creador, mi criatura,
seré lo que pasó?

Miguel de Unamuno

24 de setembro de 2007


Antonio Tabucchi (1943)





A noite está quente, a noite é longa, a noite é magnífica para ouvir histórias, disse o homem que veio sentar-se ao meu lado no muro do pedestal da estátua de D. José. Estava realmente uma noite magnífica, de lua cheia, quente e mole, com alguma coisa de sensual e de mágico, na praça quase não havia carros, a cidade estava como que parada, as pessoas deviam ter-se demorado nas praias e só voltariam mais tarde, o Terreiro do Paço estava solitário, um cacilheiro apitou antes de partir, as únicas luzes que se viam no Tejo eram as suas, tudo estava imóvel como num encantamento, eu olhei para o meu interlocutor, era um vagabundo magro com uns sapatos de ténis e uma camisola amarela, tinha a barba comprida e era quase careca, devia ter a minha idade ou pouco mais, ele olhou para mim e levantou o braço num gesto teatral. Esta é a lua dos poetas, disse, dos poetas e dos contistas, esta é uma noite ideal para ouvir histórias, e para as contar também, não quer ouvir uma história? E porque é que teria de ouvir uma história?, disse eu, não vejo a razão. A razão é simples, respondeu ele, porque é uma noite de lua cheia e porque você está aqui sozinho a olhar para o rio, a sua alma está solitária e saudosa, e uma história podia dar-lhe alegria. Tive um dia cheio de histórias, disse eu, acho que não preciso de mais. O homem cruzou as pernas e apoiou o queixo nas mãos com ar meditabundo e disse: precisamos sempre de uma história mesmo parecendo que não.

Antonio Tabucchi, Requiem


20 de setembro de 2007


Luis Cernuda (1902-1963)



Déjame esta voz


Déjame esta voz que tengo,
Lo mismo que a la pampa le dejan
Sus matorrales de deseo,
Sus ríos secos colgando de las piedras.

Déjame vivir como acero mohoso
Sin puñas, tirando en las nubes;
No quiero saber de la gloria envidiosa
Con rabo y cuernos de ceniza.

Un anillo tuve de luna
Tendida en la noche a comienzos de otoño;
Lo di a un mendigo tan joven
Que sus ojos parecían dos lagos.

Me ahogué en fin, amigos;
Ahora duermo donde nunca despierto.
No saber más de mí mismo es algo triste;
Dame la guitarra para guardar las lágrimas.

Luis Cernuda

http://cvc.cervantes.es/obref/dvi/literatura/sxx/poesia/poesia_14.htm

Obrigada, de novo...




13 de setembro de 2007


Natália Correia (1923-1993)



Há noites que são feitas dos meus braços
e um silêncio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços

de sete noites que nunca foram feitas.

Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa.


Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longínqua onda de seu canto.


Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo.


Natália Correia

11 de setembro de 2007

Voz do Outono




Ouve tu,meu cansado coração;
O que te diz a voz da Natureza:
-" Mais te valera, nu e sem defesa,
Ter nascido em aspérrima solidão,

Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel devesa,
Do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalou, no berço da Ilusão!

Mais valera à tua alma visionária
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba vária,

(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste)
Com ódio e raiva e dor... que ter sonhado
Os sonhos ideais que tu sonhaste" -

Antero de Quental, Sonetos

http://indispensaveis.blogspot.com/2005/09/11-de-setembro-de-1891-o-ltimo-passeio.html

9 de setembro de 2007


Cesare Pavese (1908-1950)



PASSAREI PELA PRAÇA DE ESPANHA


O céu estará límpido.
As ruas abrir-se-ão
na colina de pinheiros e de pedra.
O tumulto das ruas
não mudará esse ar parado.
As flores das fontes
salpicadas de cores
abrirão os olhos como mulheres
divertidas. As escadas
os terraços as andorinhas
cantarão ao sol.
Abrir-se-á aquela rua,
as pedras cantarão,
o coração baterá em sobressalto
como a água nas fontes -
será esta a voz
que subirá as tuas escadas.
As janelas saberão
o odor da pedra e do ar
matinal. Abrir-se-á uma porta.
O tumulto das ruas
será o tumulto do coração
na luz extraviada.

Serás tu - quieta e clara.


Cesare Pavese


4 de setembro de 2007


José Luís Peixoto (1974)





não me arrependo das horas que perdi a esperar-te
quando ainda havia a esperança, a esperança que
havia ainda quando, a esperar-te, perdi horas de que
não me arrependo.


um instante na memória de chegares é mais valioso
do que jardins, do que montanhas, do que anos de
tempo.

arrependo-me de ficar ao sol, de sorrir, de esquecer
que devagar passam os dias. os dias passam devagar,
esquecendo-se de sorrir ao sol e de ficar onde me
arrependo.


José Luís Peixoto

1 de setembro de 2007


António Lobo Antunes (1942)

Qualquer luz é melhor que a noite escura



O frasco de verniz em cima do microondas, onde costuma deixar o bloco com os recados para a mulher a dias. Dou sem­pre com dois tipos de letra na mesma página, o recado dela em cima e a resposta da mulher a dias em baixo. Algumas moedas que sobraram das compras. E a canção americana a repetir den­tro de mim
Qualquer luz é melhor que a noite escura.
Hoje o meu filho acordou a meio da noite a chorar. Tem só três anos. Pensei que fosse febre ou os dentes ou isso de modo que lhe peguei ao colo e o trouxe a observar a rua, da cozinha. Agrada-me a cozinha à noite, com a bancada de tampo de gra­nito e aqueles aparelhos eléctricos, quadrados e grandes, que parecem tornar-se mais úteis no escuro. Agrada-me o seu aspecto competente e os intestinos misteriosos cheios de para­fusos e ventoinhas. Máquinas brancas, óculos redondos onde a roupa gira misturada com espuma. Pensei ligar uma das máqui­nas para entreter o meu filho. Para me entreter a mim. As vezes sento-me numa cadeira e fico a ver. Dão estalos, mudam de velocidade, de ruído. Como organismos vivos. O meu filho cheira a sono e a lágrimas. A rua quieta. Automóveis alinhados contra o passeio. Descubro o meu entre uma furgoneta cinzenta coberta de pó e um carro tapado com um pano. Conheço o dono. Aos domingos, em calções, tira o pano e gasta horas a limpar o carro com uma esponja. Nunca sorri. Limpar o carro é para ele o acto mais importante deste mundo. Quando acaba mete-se de novo em casa e regressa passada meia hora com a família atrás. Passeiam até ao jantar orgulhosos da sua maravilha asseada. Há uma canção dizendo que qualquer luz é melhor que a noite escura. Uma voz americana, rugosa. Qualquer luz é melhor que a noite escura.
Cansado de chorar o meu filho calou-se. Torno a deitá-lo. Fica quieto, de mãos fechadas, a dormir numa expressão de desdém. Torno à cozinha. A minha mulher deixou um frasco de verniz de unhas na bancada. Também ela dorme mas de bruços, prendendo a almofada. Acontece-lhe murmurar frases que não entendo sem sair do seu sono. O frasco de verniz em cima do microondas onde costuma deixar o bloco com os recados para a mulher a dias. Dou sempre com dois tipos de letra na mesma página, o recado dela em cima e a resposta da mulher a dias em baixo. Algumas moedas que sobraram das compras. E a canção americana a repetir dentro de mim
Qualquer luz é melhor que a noite escura.
Por que motivo continuo aqui? Há o meu filho, há a minha mulher. Será só isso? Perguntas e perguntas sem qualquer res­posta. A minha cabeça anda cheia de perguntas. Não dúvidas. Não inquietações. Perguntas. A minha mãe costumava dizer-me Quando fores mais velho hás-de compreender. Não devo ter envelhecido seja o que for dado que não compreendo nada.
Concentro-me na rua enquanto farrapos de ideias, de lem­branças, me invadem e se afastam. Por exemplo a minha avó a tapar os espelhos com lençóis quando alguém morria na famí­lia. Garantia que se a morte se encontrasse no espelho nunca mais se ia embora. Também não nos deixava deitar pão fora: guardava saquinhos e saquinhos de pão duro. Quando havia demasiados sacos e a minha mãe protestava, a minha avó desaparecia na escada com eles e voltava de mãos a abanar. Nunca ninguém soube onde escondia o pão. Faleceu com setenta e seis anos e a partir do seu falecimento a morte passou a encontrar-se à vontade nos espelhos.
Daqui a nada volto para a cama. Os lençóis mornos. Os números fosforescentes do despertador a azularem o quarto. A gra­vura com uma criança e um urso. Tudo coisas reais. Agradáveis. Verdadeiras. Fixo-me na gravura e as perguntas abandonam-me a pouco e pouco. A lembrança da minha avó também. Onde escondia o pão? Já não penso nisso. Já não penso em nada. Sinto-me resvalar devagarinho descendo, descendo, com a can­ção a repetir-me aos ouvidos que qualquer luz é melhor que a noite escura. Qualquer luz é melhor que a noite escura. Mesmo que apareça uma rapariga muito bonita não hei-de abandonar a minha vida.

António Lobo Antunes, Livro de Crónicas

26 de agosto de 2007


Julio Cortázar (1914-1984)


Instrucciones para llorar



Dejando de lado los motivos, atengámonos a la manera correcta de llorar, entendiendo por esto un llanto que no ingrese en el escándalo, ni que insulte a la sonrisa con su paralela y torpe semejanza. El llanto medio u ordinario consiste en una contracción general del rostro y un sonido espasmódico acompañado de lágrimas y mocos, estos últimos al final, pues el llanto se acaba en el momento en que uno se suena enérgicamente. Para llorar, dirija la imaginación hacia usted mismo, y si esto le resulta imposible por haber contraído el hábito de creer en el mundo exterior, piense en un pato cubierto de hormigas o en esos golfos del estrecho de Magallanes en los que no entra nadie, nunca. Llegado el llanto, se tapará con decoro el rostro usando ambas manos con la palma hacia adentro. Los niños llorarán con la manga del saco contra la cara, y de preferencia en un rincón del cuarto. Duración media del llanto, tres minutos.



Julio Cortázar, Historias de cronopios y de famas

24 de agosto de 2007


Jorge Luís Borges (1899-1986)



El amenazado


Es el amor. Tendré que cultarme o que huir.
Crecen los muros de su cárcel, como en un sueño atroz.
La hermosa máscara ha cambiado, pero como siempre es la única.
¿De qué me servirán mis talismanes: el ejercicio de las letras,
la vaga erudición, el aprendizaje de las palabras que usó el áspero Norte para cantar sus mares y sus espadas,
la serena amistad, las galerías de la biblioteca, las cosas comunes,
los hábitos, el joven amor de mi madre, la sombra militar de mis muertos, la noche intemporal, el sabor del sueño?
Estar contigo o no estar contigo es la medida de mi tiempo.
Ya el cántaro se quiebra sobre la fuente, ya el hombre se
levanta a la voz del ave, ya se han oscurecido los que miran por las ventanas, pero la sombra no ha traído la paz.
Es, ya lo sé, el amor: la ansiedad y el alivio de oír tu voz, la espera y la memoria, el horror de vivir en lo sucesivo.
Es el amor con sus mitologías, con sus pequeñas magias inútiles.
Hay una esquina por la que no me atrevo a pasar.
Ya los ejércitos me cercan, las hordas.
(Esta habitación es irreal; ella no la ha visto.)
El nombre de una mujer me delata.
Me duele una mujer en todo el cuerpo.


Jorge Luís Borges