13 de outubro de 2008



33


Fácil palabra. Nunca hubo palabra
Fácil para entregar ni recibirse.
Siempre el trayecto le cortó las alas,
El aire avaro le robó matices
Y ese fervor con que la pronunciamos
Redujo la fragancia de su origen.
Aprende en ello que si amor te digo
Es más amor de lo que tú percibes:
Que te llega el reflejo y eso basta
Para que te circunde e ilumine.


Hugo Lindo



12 de outubro de 2008






Não tenho grande fé de encontrar-te
na vida eterna.
Era já problemático falar-te
na terrena.
A culpa é do sistema
das comunicações.
Descobrem-se muitas mas não aquela
que tornaria ridículas, e até inúteis,
as outras.




Eugenio Montale (Tradução de David Mourão-Ferreira)


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9 de outubro de 2008



God


God is a concept

By which we measure

Our pain

I'll say it again

God is a concept

By which we measure

Our pain


I don't believe in magic

I don't believe in I-ching

I don't believe in Bible

I don't believe in tarot

I don't believe in Hitler

I don't believe in Jesus

I don't believe in Kennedy

I don't believe in Buddha

I don't believe in Mantra

I don't believe in Gita

I don't believe in Yoga

I don't believe in kings

I don't believe in Elvis

I don't believe in Zimmerman

I don't believe in Beatles

I just believe in me

Yoko and me

And that's reality


The dream is over

What can I say?

The dream is over

Yesterday

I was the Dreamweaver

But now I'm reborn

I was the Walrus

But now I'm John

And so dear friends

You'll just have to carry on

The dream is over


John Lennon
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6 de outubro de 2008

Foto de B.Berenika




Se eu pudesse dar-te aquilo que não tenho
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo com que sonhas
e o que só por mim poderá ter sonhado


Se eu pudesse dar-te o sopro que me foge
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo que descubro
e descobrir-te o que de mim se esconde


Então serias aquele que existe
e o que só por mim poderá ter sonhado



Ana Hatherly


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4 de outubro de 2008

Dia Mundial do Animal



2 de outubro de 2008






The house was quiet and the world was calm.
The reader became the book; and summer night
Was like the conscious being of the book.
The house was quiet and the world was calm.
The words were spoken as if there was no book,
Except that the reader leaned above the page,
Wanted to lean, wanted much most to be
The scholar to whom the book is true, to whom
The summer night is like a perfection of thought.
The house was quiet because it had to be.
The quiet was part of the meaning, part of the mind:
The access of perfection to the page.
And the world was calm. The truth in a calm world,
In which there is no other meaning, itself
Is calm, itself is summer and night, itself
Is the reader leaning late and reading there.


Wallace Stevens
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28 de setembro de 2008






Uma palavra sobre a tarde

Começas a dobrar os calções, a camisa.
As sandálias guardam,
como um cão, as sombras.
A água jorra da fonte e o clarão da manhã cai
sobre as cadeiras da varanda.
Os frutos, na relva húmida, são as dispersas maçãs
dos teus gestos.
Os barcos ainda não partiram.
Nem o oiro dos teus cabelos se agita
com a brisa triste de setembro.
Há ainda uma guitarra e uma festa
quando cantas.
O sol, essa lâmina agora cega,
rasga-te as vestes,
o linho e a seda da loucura.
Partir é um regresso
à noite outonal,
ao cair lento das folhas,
ao olhar que se dobra
com o alto trigo da tarde
até ao imenso crepúsculo
das últimas palavras.


Eduardo Bettencourt Pinto

15 de setembro de 2008





Quantas vezes, Amor, me tens ferido?
Quantas vezes, Razão, me tens curado?
Quão fácil de um estado a outro estado
O mortal sem querer é conduzido!

Tal, que em grau venerando, alto e luzido,
Como que até regia a mão do fado,
Onde o Sol, bem de todos, lhe é vedado,
Depois com ferros vis se vê cingido:

Para que o nosso orgulho as asas corte,
Que variedade inclui esta medida,
Este intervalo da existência à morte!

Travam-se gosto e dor; sossego e lida;
É lei da natureza, é lei da sorte,
Que seja o mal e o bem matiz da vida.


Manuel Maria Barbosa du Bocage
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13 de setembro de 2008




Quero escrever-te um poema que
tenha um sentido claro como o
que os teus olhos me disseram.


Poderia ser um poema de amor,
tão breve como o instante em
que me deixaste ver os teus olhos.


Mas o que os olhos dizem não cabe
num poema, nem eu sei como se diz
o amor que só os olhos conhecem.



Nuno Júdice


..

7 de setembro de 2008






Floriram por engano as rosas bravas
No inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
¿Quem as esparze - quanta flor! -, do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?



Camilo Pessanha


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4 de setembro de 2008






E o amor transformou-se noutra coisa com o mesmo nome.

Era disto que falavam as mães quando davam conselhos

às filhas e diziam: o amor vem depois. Era isto o depois.

Uma ternura simples, quase dolorosa, muitos silêncios,

todas as horas do dia e um poema que se dissolve dentro

de mim e que, devagar, sem rosto, desaparece.


(Helsínquia, Maio de 2007)




José Luís Peixoto, Gaveta de Papéis






1 de setembro de 2008




................................ porque se alguma coisa os
anos me ensinaram foi a desconfiar das emoções grandiosas, dos sentimentos grandiosos, das palavras grandiosas, culpabilidade, generosidade, arrependimento, honra, orgulho, coragem, sacrifício, que ocultam pequeninos interesses viscosos como egoísmo, medo, inveja, estupidez, preguiça, eu para a Raquel
.................................— Tretas
a rever o Álvaro a fugir-lhe,a sacudir os beijos, a não falar com ela, a erguer as sobrancelhas ao céu, a fitar-lhe com desgosto as farripas, os bibelots, os vestidos, o Álvaro que queria o divórcio por ter arranjado uma mulher a dias mais competente e uma enfermeira melhor num apartamento sem máscaras nem litografias sem palhaços, o Álvaro que nem se devia recordar do filho porque os homens não suportam o sofrimento ou o passado, os homens, felizmente para eles, esquecem, e somos nós que não esquecemos, que conservamos tudo na memória, que nos recordamos como eu recordo a romãzeira, a estrada do Cacuaco e o quintal de Luanda, como eu recordo o meu pai no sofá de Campolide, debaixo do quadro dos cavalos, sem se queixar das dores, e a Raquel à procura dos cigarros, distraída da chuva
................................— Meteu-se-lhe na cabeça
que Carlos Gardel está vivo em Santo António dos Cavaleiros, meteu-se-lhe na cabeça despedir-se da agência e morar com ele para lhe promover a carreira (...).





António Lobo Antunes, A Morte de Carlos Gardel



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29 de agosto de 2008








Painting by Vuillard


Two dumpy women with buns were drinking coffee

In a narrow kitchen—at least I think a kitchen
And I think it was whitewashed, in spite of all the shade.
They were flat brown, they were as brown as coffee.
Wearing brown muslin? I really could not tell.
How I loved this painting, they had grown so old
That everything had got less complicated,
Brown clothes and shade in a sunken whitewashed kitchen.

But it’s not like that for me: age is not simpler
Or less enjoyable, not dark, not whitewashed.
The people sitting on the marble steps
Of the national gallery, people in the sunlight,
A party of handsome children eating lunch
And drinking chocolate milk, and a young woman
Whose t-shirt bears the defiant word WHATEVER,
And wrinkled folk with visored hats and cameras
Are vivid, they are not browned, not in the least,
But if they do not look like coffee they look
As pungent and startling as good strong coffee tastes,
Possibly mixed with chicory. And no cream.


Thom Gunn


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28 de agosto de 2008






Exit


Just when hope withers, the visa is granted.
The door opens to a street like in the movies,
clean of people, of cats; except it is your street
you are leaving. A visa has been granted,
"provisionally"-a fretful word.
The windows you have closed behind
you are turning pink, doing what they do
every dawn. Here it's gray. The door
to the taxicab waits. This suitcase,
the saddest object in the world.
Well, the world's open. And now through
the windshield the sky begins to blush
as you did when your mother told you
what it took to be a woman in this life.

Rita Dove
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23 de agosto de 2008


Pauline Barrett



Almost the shell of a woman after the surgeon’s knife!
And almost a year to creep back into strength,

Till the dawn of our wedding decennial

Found me my seeming self again.

We walked the forest together,

By a path of soundless moss and turf.

But I could not look in your eyes,

And you could not look in my eyes,

For such sorrow was ours—the beginning of gray in your hair,

And I but a shell of myself.

And what did we talk of?—sky and water,

Anything, ’most, to hide our thoughts.

And then your gift of wild roses,

Set on the table to grace our dinner.

Poor heart, how bravely you struggled

To imagine and live a remembered rapture!

Then my spirit drooped as the night came on,

And you left me alone in my room for a while,

As you did when I was a bride, poor heart.

And I looked in the mirror and something said:

“One should be all dead when one is half-dead—”

Nor ever mock life, nor ever cheat love.”

And I did it looking there in the mirror—

Dear, have you ever understood?



Edgar Lee Masters, Spoon River Anthology
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22 de agosto de 2008



EL DESCAMPADO



A Dámaso Alonso


Tú estás en ese taxi parado, sí, eres Tú
—un bulto en el crepúsculo— junto al bordillo blanco
donde se acaba el campo de enfrente o descampado.
Lo sé, aunque no te he visto (y aunque dentro del taxi
no hay nadie). Está lloviendo con fuerza. Está empezando
a oler en la ciudad a campo de muy lejos...
Y tú estás en el taxi como en una capilla
que fuera entre las hazas ermita solitaria.
(Lo sé, porque esos trigos que se iluminan, lejos...,
y ese río parado, con sus aguas crecidas
de pronto...) Llueve fuerte y estás dentro del taxi
(tal vez junto a ese chófer fatigado al volante).
Sé que dentro del taxi no hay nadie, pero huele
a lluvia de muy lejos. Suena esa luvia. Y pienso
sin ganas: ser poeta, suspender en el aire
laborioso de un día y otro día unas pocas
palabras necesarias, y quitarse de en medio.
Porque uno —su difícil vivir— ya no hace falta
si quedan las palabras. Ser poeta: orientarse,
como esa luz dudosa cruzando el descampado
y en vez de una existencia brillante, tener alma.
Por eso, algo me quito de en medio: estoy viviendo
como un taxi parado junto al bordillo blanco
(y hay un cerco de alegres sonrisas y de manos
fieles a sus celestes contactos en la sombra).
Porque Tú, el más activo —y el más ocioso— estabas
aquí, junto al farol de luz verde en la noche.
Tú, sin libros; Tú, libre con brazos, con miradas,
estabas sin testigos y medías —ocioso—
mis pasos por mi cuarto (donde caben mis años).
Y los trigos en éxtasis de Castilla la Vieja,
los ríos llameantes con sus aguas crecidas,
seguían a lo lejos relevándote (mientras
detrás de mis cristales aparece el retraso
de ese barro, esos charcos del ancho descampado,
¡yo también descampado, desterrado del campo!) Porque Tú, el más activo —y el más ocioso— estabas
aquí, junto al farol de luz verde en lan oche.
Tú, sin libros; Tú, libre con brazos, con miradas,
estabas sin testigos y medías —ocioso—
mis pasos por mi cuarto (donde caben mis años).
Y los trigos en éxtasis de Castilla la Vieja,
los ríos llameantes con sus aguas crecidas,
seguían a lo lejos relevándote (mientras
detrás de mis cristales aparece el retraso
de ese barro, esos charcos del ancho descampado,
¡yo también descampado, desterrado del campo!)

Luis Felipe Vivanco


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20 de agosto de 2008

Obrigada, Roberto


Ed è subito sera


Ognuno sta solo sul cuor della terra
Trafitto da un raggio di sole:
ed è subito sera.



Salvatore Quasimodo,Ed è subito sera


18 de agosto de 2008





A HISTÓRIA DE UMA HISTÓRIA



Era uma vez uma história

acabava antes de começar
e começava depois do fim

os seus heróis entravam nela
depois de terem morrido
e abandonavam-na
antes de nascerem

os seus heróis falavam
de um certo mundo e de um certo céu
diziam toda a espécie de coisas

só não diziam
o que eles próprios não sabiam
que eram apenas heróis de uma história

de uma história que acaba
antes de começar

e começa
antes de acabar


Ted Hughes, O Fazer da Poesia (tradução de Helder Moura Pereira)
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16 de agosto de 2008





Bluebird


there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pur whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?


Charles Bukowski

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15 de agosto de 2008





Tempo


Não sei se te nomeie ou nomeie o vento,
isto que passa
e procura os outros lugares onde o pólen cai.
Talvez uma colmeia confie ao seu mel o que
ficou de um ano
em que a tempestade não se fez ouvir sobre
as corolas.
O que viste antes de Setembro perdeu-se,
apagou-se,
afastou-se sem dizer nada,
como os barcos que pouco a pouco se
afastaram da nossa vida,
calados e brancos,
com as suas gaivotas de asas fechadas,
envelhecendo lado a lado, sobre o convés.

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José Agostinho Baptista

.


11 de agosto de 2008





Words For Departure
.
1
Nothing was remembered, nothing forgotten.
When we awoke, wagons were passing on the warm summer pavements,
The window-sills were wet from rain in the night,
Birds scattered and settled over chimneypots
As among grotesque trees.
Nothing was accepted, nothing looked beyond.
Slight-voiced bells separated hour from hour,
The afternoon sifted coolness
And people drew together in streets becoming deserted.
There was a moon, and light in a shop-front,
And dusk falling like precipitous water.
Hand clasped hand
Forehead still bowed to forehead--
Nothing was lost, nothing possessed
There was no gift nor denial.
.
2
I have remembered you.
You were not the town visited once,
Nor the road falling behind running feet.
You were as awkward as flesh
And lighter than frost or ashes.
You were the rind,
And the white-juiced apple,
The song, and the words waiting for music.
.
3
You have learned the beginning;
Go from mine to the other.
Be together; eat, dance, despair,
Sleep, be threatened, endure.
You will know the way of that.
But at the end, be insolent;
Be absurd--strike the thing short off;
Be mad--only do not let talk
Wear the bloom from silence.
And go away without fire or lantern
Let there be some uncertainty about your departure.
.
.
Louise Bogan
LBLouise Bogan

9 de agosto de 2008



Homenagem a Cesário Verde

Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas


Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
Que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!


Mário Cesariny, Pena Capital
.

8 de agosto de 2008



Dejo correr la sangre de las manos.
Acostado en la cama la examino.
Las sábanas la sorben dulcemente
con la quieta avidez de su blancura.

Brota incesantemente. A borbotones.
Tibia y curiosa asoma a mis muñecas
y escapa presurosa de mis manos.

Son manos de vencido. Ellas debían
coger la gloria, amor, coger dinero.
Un día las creí capaces de ello.

Pero nada aprehendieron. No eran hábiles.
O el empeño excedió su exigua fuerza.
Pobres manos humildes y vacías.

Tiemblan un poco. Tiemblan asustadas.
Asustadas y débiles parecen
pedir excusas porque son mediocres.

Les sonrío a mis manos. Las levanto
y las uno. Las siento desvalidas.
Y atisbo como repta sigiloso
ese zumo tan rojo de la vida.

José María Fonollosa, Destrucción de la mañana
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1 de agosto de 2008



Nos mains au jardin

Nous avons eu cette idée
de planter nos mains au jardin

Branches des dix doigts
Petits arbres d'ossements
Chère plate-bande.

Tout le jour
Nous avons attendu l'oiseau roux
Et les feuilles fraîches
A nos ongles polis.

Nul oiseau
Nul printemps
Ne se sont pris au piège de nos mains coupées.

Pour une seule fleur
Une seule minuscule étoile de couleur
Un seul vol d'aile calme
Pour une seule note pure
Répétée trois fois.

Il faudra la saison prochaine
Et nos mains fondues comme l'eau.

Anne Hébert, Poèmes

30 de julho de 2008




The Old Stoic

Riches I hold in light esteem,
And love I laugh to scorn;
And lust of fame was but a dream
That vanish'd with the morn:

And if I pray, the only prayer
That moves my lips for me
Is, "Leave the heart that now I bear,
And give me liberty!"

Yes, as my swift days near their goal,
'Tis all that I implore:
In life and death a chainless soul,
With courage to endure.

Emily Brontë

26 de julho de 2008




[II]

Todo amor es fantasía;
él inventa el año, el día,
la hora y su melodía;
inventa el amante y, más,
la amada. No prueba nada,
contra el amor, que la amada
no haya existido jamás.



Antonio Machado,"Otras Canciones a Guiomar"


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24 de julho de 2008

Foto de Bruno Cirac

The Far Side Of Your Moon


The far side of your moon is black,
And glorious grows the vine;
Ask anything of me you lack,
But only what is mine.


Yours is the great wheel of the sun
And yours the unclouded sky;
Then take my stars, take every one
But wear them openly.


Walking in splendor through the plain
For all the world to see,
Since none alive shall view again
The match of you and me.


Robert Graves

18 de julho de 2008




Memento


Like a reminder of this life
of trams, sun, sparrows,
and the flighty uncontrolledness
of streams leaping like thermometers,
and because ducks are quacking somewhere
above the crackling of the last, paper-thin ice,
and because children are crying bitterly
(remember children's lives are so sweet!)
and because in the drunken, shimmering starlight
the new moon whoops it up,
and a stocking crackles a bit at the knee,
gold in itself and tinged by the sun,
like a reminder of life,
and because there is resin on tree trunks,
and because I was madly mistaken i
n thinking that my life was over,
like a reminder of my life -
you entered into me on stockinged feet.
You entered - neither too late nor too early -
at exactly the right time, as my very own,
and with a smile, uprooted me
from memories, as from a grave.
And I, once again whirling among
the painted horses, gladly exchange,
for one reminder of life, all its memories.

Yevgeny Yevtushenko

15 de julho de 2008



Barefoot

We took off our shoes

In the middle of the hot city.
And we looked so loose,
Like newborn and pretty.
With the same speed, if we could

Free our thoughts for a while
From their heavy boots —
It would be easier, mile after mile,
To leap barefoot into childhood.

Abraham Sutzkever
.

13 de julho de 2008


To John Clare

Well, honest John, how fare you now at home?
The spring is come, and birds are building nests;
The old cock-robin to the sty is come,
With olive feathers and its ruddy breast;
And the old cock, with wattles and red comb,
Struts with the hens, and seems to like some best,
Then crows, and looks about for little crumbs,
Swept out by little folks an hour ago;
The pigs sleep in the sty; the bookman comes--
The little boy lets home-close nesting go,
And pockets tops and taws, where daisies blow,
To look at the new number just laid down,
With lots of pictures, and good stories too,
And Jack the Giant-killer's high renown.

John Clare


12 de julho de 2008

Retrato de Jeanne Hébuterne
Amedeo Modigliani
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7 de julho de 2008


Marc Chagall, Aleko

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6 de julho de 2008


Frida Kahlo, Raíces
.

29 de junho de 2008




Give Me Back My Rags #11



I've wiped your face off my face

Ripped your shadow off my shadow

Leveled the hills in you

Turned your plains into hills

Set your seasons quarreling

Turned all the ends of the world from you

Wrapped the path of my life around you

My impenetrable my impossible path

Just try to meet me now



Vasko Popa
.

28 de junho de 2008




HAVING A COKE WITH YOU

is even more fun than going to San Sebastian, Irún, Hendaye, Biarritz, Bayonne
or being sick to my stomach on the Travesera de Gracia in Barcelona
partly because in your orange shirt you look like a better happier St. Sebastian
partly because of my love for you, partly because of your love for yoghurt
partly because of the fluorescent orange tulips around the birches
partly because of the secrecy our smiles take on before people and statuary
it is hard to believe when I’m with you that there can be anything as still
as solemn as unpleasantly definitive as statuary when right in front of it
in the warm New York 4 o’clock light we are drifting back and forth
between each other like a tree breathing through its spectacles
and the portrait show seems to have no faces in it at all, just paint
you suddenly wonder why in the world anyone ever did them
I look
at you and I would rather look at you than all the portraits in the world
except possibly for the Polish Rider occasionally and anyway it’s in the Frick
which thank heavens you haven’t gone to yet so we can go together the first time
and the fact that you move so beautifully more or less takes care of Futurism
just as at home I never think of the Nude Descending a Staircase or
at a rehearsal a single drawing of Leonardo or Michelangelo that used to wow me
and what good does all the research of the Impressionists do them
when they never got the right person to stand near the tree when the sun sank
or for that matter Marino Marini when he didn’t pick the rider as carefully
as the horse
it seems they were all cheated of some marvellous experience
which is not going to go wasted on me which is why I’m telling you about it


Frank O’Hara, Selected Poems

19 de junho de 2008




Teresinha

O primeiro me chegou
Como quem vem do florista
Trouxe um bicho de pelúcia
Trouxe um broche de ametista
Me contou suas viagens
E as vantagens que ele tinha
Me mostrou o seu relógio
Me chamava de rainha
Me encontrou tão desarmada
Que tocou meu coração
Mas não me negava nada
E, assustada, eu disse não

O segundo me chegou
Como quem chega do bar
Trouxe um litro de aguardente
Tão amarga de tragar
Indagou o meu passado
E cheirou minha comida
Vasculhou minha gaveta
Me chamava de perdida
Me encontrou tão desarmada
Que arranhou meu coração
Mas não me entregava nada
E, assustada, eu disse não

O terceiro me chegou
Como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada
Também nada perguntou
Mal sei como ele se chama
Mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama
E me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não
Se instalou feito um posseiro
Dentro do meu coração


Chico Buarque



..
.

17 de junho de 2008




Já lentamente sofro a tua água, o sopro
da memória nas colinas.
deste-me um corpo, a casa
onde acordar o vento, e a terra, e a paz
desconhecida.
nesta cave de pele te implorei os dias
o óleo da manhã nas mãos desertas.
a cada instante me devora o gume
embotado da tua
luz sonora.

afasta do meu rosto a tua vã promessa. deixa
que seja brando o sono sem lembrança,
um chão de terra nua.
do teu jardim de chamas me despeço.

António Franco Alexandre, Visitação




13 de junho de 2008



Na véspera de não partir nunca
Ao menos não há que arrumar malas
Nem que fazer planos em papel,
Com acompanhamento involuntário de esquecimentos,
Para o partir ainda livre do dia seguinte.
Não há que fazer nada
Na véspera de não partir nunca.
Grande sossego de já não haver sequer de que ter sossego!
Grande tranquilidade a que nem sabe encolher ombros
Por isto tudo, ter pensado o tudo
É o ter chegado deliberadamente a nada.
Grande alegria de não ter precisão de ser alegre,
Como uma oportunidade virada do avesso.
Ah, quantas vezes vivo
A vida vegetativa do pensamento!
Todos os dias sine linea
Sossego, sim, sossego...
Grande tranquilidade...
Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas!
Que prazer olhar para as malas fitando como para nada!
Dormita, alma, dormita!
Aproveita, dormita!
Dormita!
É pouco o tempo que tens!
Dormita!
É a véspera de não partir nunca!



Álvaro de Campos

10 de junho de 2008






De vós me aparto, ó vida! Em tal mudança,
Sinto vivo da morte o sentimento;
Não sei para que é ter contentamento,
Se mais há-de perder quem mais alcança.



Mas dou-vos esta firme segurança:
Que, posto que me mate meu tormento,
Pelas águas do eterno esquecimento
Segura passará minha lembrança.



Antes sem vós meus olhos se entristeçam,
Que com qualquer cous'outra se contentem;
Antes os esqueçais, que vos esqueçam.



Antes nesta lembrança se atormentem,
Que com esquecimento desmereçam
A glória que em sofrer tal pena sentem.




Luís de Camões




9 de junho de 2008




(Marcha fúnebre para uma borboleta pisada.)

Pobre borboleta morta
que se desfez num sopro
de poeira de asas!

Que ficou de ti no mundo?

O desenho de um voo
com rasto de pólen?

Um corpo caído
de cores mais inúteis?

Uma nódoa apenas
sem a grandeza da morte
- porque a morte é só humana?

(Quero lá saber!... O que me dói
é tudo ser borboleta morta.)


José Gomes Ferreira, Poeta Militante I

8 de junho de 2008


Sara

I laid on a dune, I looked at the sky,
When the children were babies and played on the beach.
You came up behind me, I saw you go by,
You were always so close and still within reach.


Sara, Sara,
Whatever made you want to change your mind?
Sara, Sara,
So easy to look at, so hard to define.

I can still see them playin' with their pails in the sand,
They run to the water their buckets to fill.
I can still see the shells fallin' out of their hands
As they follow each other back up the hill.

Sara, Sara,
Sweet virgin angel, sweet love of my life,
Sara, Sara,
Radiant jewel, mystical wife.

Sleepin' in the woods by a fire in the night,
Drinkin' white rum in a Portugal bar,
Them playin' leapfrog and hearin' about Snow White,
You in the marketplace in Savanna-la-Mar.

Sara, Sara,
It's all so clear, I could never forget,
Sara, Sara,
Lovin' you is the one thing I'll never regret.

I can still hear the sounds of those Methodist bells,
I'd taken the cure and had just gotten through,
Stayin' up for days in the Chelsea Hotel,
Writin' "Sad-Eyed Lady of the Lowlands" for you.

Sara, Sara,
Wherever we travel we're never apart.
Sara, oh Sara,
Beautiful lady, so dear to my heart.

How did I meet you? I don't know.
A messenger sent me in a tropical storm.
You were there in the winter, moonlight on the snow
And on Lily Pond Lane when the weather was warm.

Sara, oh Sara,
Scorpio Sphinx in a calico dress,
Sara, Sara,
You must forgive me my unworthiness.

Now the beach is deserted except for some kelp
And a piece of an old ship that lies on the shore.
You always responded when I needed your help,
You gimme a map and a key to your door.

Sara, oh Sara,
Glamorous nymph with an arrow and bow,
Sara, oh Sara,
Don't ever leave me, don't ever go.

Bob Dylan

6 de junho de 2008


Diego Vélazquez, Arachne

5 de junho de 2008

a





El poeta habla por telefóno con el amor

Tu voz regó la duna de mi pecho
en la dulce cabina de madera.
Por el sur de mis pies fue primavera
y al norte de mi frente flor de helecho.

Pino de luz por el espacio estrecho
cantó sin alborada y sementera
y mi llanto prendió por vez primera
coronas de esperanza por el techo.

Dulce y lejana voz por mí vertida.
Dulce y lejana voz por mí gustada.
Lejana y dulce voz amortecida.

Lejana como oscura corza herida.
Dulce como un sollozo en la nevada.
¡Lejana y dulce en tuétano metida!

Federico Garcia Lorca



4 de junho de 2008





é depois das primeiras chuvas
que recuamos
ao limiar de uma tristeza consentida

ao recolhimento calculado de remorsos

sem préstimo

o inverno é um balanço espesso

uma lama que cerca o coração

atravessa-se devagar de uma soleira

para a protecção de todas as soleiras
porque a paixão das travessias é antiga
nelas se esquece da morte
quem se esqueceu da vida.





Manuel Afonso Costa



31 de maio de 2008



LII

The spotted hawk swoops by and accuses me, he complains
of my gab and my loitering.


I too am not a bit tamed, I too am untranslatable,
I sound my barbaric yawp over the roofs of the world.


The last scud of day holds back for me,
It flings my likeness after the rest and true as any on the shadow'd wilds,
It coaxes me to the vapor and the dusk.


I depart as air, I shake my white locks at the runaway sun,
I effuse my flesh in eddies, and drift it in lacy jags.


I bequeath myself to the dirt to grow from the grass I love,
If you want me again look for me under your boot-soles.


You will hardly know who I am or what I mean,
But I shall be good health to you nevertheless,
And filter and fibre your blood.


Failing to fetch me at first keep encouraged,
Missing me one place search another,
I stop somewhere waiting for you.

Walt Whitman, Song of Myself

29 de maio de 2008




Voy a dormir

Dientes de flores, cofia de rocío,
manos de hierbas, tú, nodriza fina,
tenme prestas las sábanas terrosas
y el edredón de musgos escardados.


Voy a dormir, nodriza mía, acuéstame.
Ponme una lámpara a la cabecera;
una constelación, la que te guste;
todas son buenas, bájala un poquito.


Déjame sola: oyes romper los brotes...
te acuna un pie celeste desde arriba
y un pájaro te traza unos compases


para que olvides... Gracias... Ah, un encargo:
si él llama nuevamente por teléfono
le dices que no insista, que he salido.


Alfonsina Storni

24 de maio de 2008


When You Are Old


When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;


How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;


And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.


William Butler Yeats

22 de maio de 2008




3.



pouco mais há a dizer, caminho largando os últimos resíduos da memória. fragmentos de noite escritos com o coração a pressentir as catástrofes do mundo. a grande solidão é um lugar branco povoado de mitos, de tristezas e de alegria. mas estou quase sempre triste. algumas fotografias revelam-me que noutros lugares já estivera triste, por exemplo, no fundo deste poço vi inclinar-se a sombra adolescente que fui. água lunar, canaviais, luminosos escaravelhos. este sol queimando a pele das plantas. caminho pelos textos e reparo em tudo isto. o que começo deixo inacabado, como deixarei a vida, tenho a certeza, inacabada. o mundo pertenceu-me, a memória revela-me essa herança, esse bem. hoje, apenas sinto o vento reacender feridas, nada possuo, nem sequer o sofrimento. outra memória vai tomando forma, assusta-me. ainda quase nada aconteceu e já envelheci tanto. um jogo de estilhaços é tudo o que possuo, a memória que vem ainda não tem a dor dentro dela. as fotografias e os textos, teu rosto, poderiam projectar-me para um futuro mais feliz, ou contarem-me os desastres dos recomeçados regressos. mas, quando mais tarde conseguir reparar que a vida vibrou em mim, um instante, terei a certeza de que nada daquilo me pertenceu. nem mesmo a vida, nenhuma morte, na mesma posição, reclinado sobre meu frágil corpo, recomeço a escrever, estou de novo ocupado em esquecer-me. a escrita é precária morada para o vaguear do coração. resta-me a perturbação de ter atravessado os dias, humildemente, sem queixumes. anoitece ou amanhece, tanto faz.



Al Berto, O Medo