11 de abril de 2009




Coming To This




We have done what we wanted.
We have discarded dreams, preferring the heavy industry
of each other, and we have welcomed grief
and called ruin the impossible habit to break.


And now we are here.
The dinner is ready and we cannot eat.
The meat sits in the white lake of its dish.
The wine waits.


Coming to this
has its rewards: nothing is promised, nothing is taken away.
We have no heart or saving grace,
no place to go, no reason to remain.



Mark Strand



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8 de abril de 2009



J'aimais

J'aimais les fées et les princesses
Qu'on me disait n'exister pas
J'aimais le feu et la tendresse
Tu vois je vous rêvais déjà

J'aimais les tours hautes et larges
Pour voir au large venir l'amour
J'aimais les tours de cœur de garde
Tu vois je vous guettais déjà

J'aimais le col ondoyant des vagues
Les saules nobles languissant vers moi
J'aimais la ligne tournante des algues
Tu vois je vous savais déjà

J'aimais courir jusqu'à tomber
J'aimais la nuit jusqu'au matin
Je n'aimais rien non j'ai adoré
Tu vois je vous aimais déjà

J'aimais l'été pour ses orages
Et pour la foudre sur le toit
J'aimais l'éclair sur ton visage
Tu vois je vous brûlais déjà

J'aimais la pluie noyant l'espace
Au long des brumes du pays plat
J'aimais la brume que le vent chasse
Tu vois je vous pleurais déjà

J'aimais la vigne et le houblon
Les villes du Nord les laides de nuit
Les fleuves profonds m'appelant au lit
Tu vois je vous oubliais déjà


Jacques Brel

7 de abril de 2009



Ele — Bom-dia.
Ela (Bastante depois.) — Bom-dia.
(Sorri-se.)
Ele — Faz-me o favor. Sabe dizer-me o nome deste sítio?
Ela — Aqui não é sítio nenhum.
Ele — É a primeira vez que estou em sítio nenhum.
Ela — Para onde é que o senhor deseja ir?
Ele — Para sítio nenhum. Vou de passeio. Ao acaso. Gosto de saber os nomes por onde ando.
Ela — Aqui não tem nenhum nome.
Ele (Olhando a cena.) — Uma casa. Não se faz uma casa em sítio nenhum.
Ela — Isto esteve para ser um sítio com um nome. O senhor viu aqui uma casa. Chama a isto uma casa?
Ele — Os restos de uma casa.
Ela — Nem isso. Também não. Não chegou a ser uma casa. Ficou a meio.
Ele — Não passou das paredes.
Ela — Ficou parada à nascença. Para sempre.
Ele — Não parece obra recente.
Ela — Nem antiga. O que é velho parece antigo. Mas o antigo não envelhece.

Ele — Esta ficou no começo e envelheceu.
Ela — Envelheceu parada de nascença.
Ele — Ruínas do que não se fez.
Ela — Bastante modernas.
Ele — Por qualquer razão não foi adiante.
Ela — Não foi. Não foi uma casa.



Almada Negreiros, Deseja-se Mulher (excerto)

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5 de abril de 2009


AMIZADE


De mais ninguém senão de ti, preciso:
Do teu sereno olhar, do teu sorriso,
Da tua mão pousada no meu ombro.
Ouvir-te murmurar: - "Espera e confia!"
E sentir converter-se em harmonia,
O que era, dantes, confusão e assombro.


Carlos Queirós
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21 de março de 2009




Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe uma paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
.
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...
.
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...

Alberto Caeiro



16 de março de 2009






Bordas de hielo

Vengo a verte pasar todos los días,
vaporcito encantado siempre lejos...
Tus ojos son dos rubios capitanes;
tu labio es un brevísimo pañuelo
rojo que ondea ¡en un adiós de sangre!

Vengo a verte pasar; hasta que un día,
embriagada de tiempo y de crueldad,
vaporcito encantado siempre lejos,
la estrella de la tarde partirá!

Las jarcias; vientos que traicionan; vientos
de mujer que pasó!
Tus fríos capitanes darán orden;
y quien habrá partido seré yo...

César Vallejo

14 de março de 2009





Último dos poemas de um marinheiro

das paixões só conheci as mais pequenas
aquelas que nasciam na palma das mãos e desapareciam
com a água do mar. mas não eram paixões por barcos
ou pássaros ou cabelos teus: só uma fenda no céu
verde e azul e uma casa desabitada

das paixões só conheci as mais pequenas
como se no minuto imediato eu tivesse de esperar a morte
ou as aves no seu regresso do norte
de resto, implorei aos deuses uma morada branca
onde nenhum peixe chegasse antes do alvorocer
onde nenhum nome coubesse, onde nenhum olhar entrasse
implorei aos deuses o seu encantamento
não o seu dó. foi então que, das paixões, das mais pequenas
surgiram os teus olhos tão verdes e tão brancos
que só eu neles poderia poisar como um pescador
sem mar onde navegar ou lavar o rosto.




Francisco José Viegas, As Imagens




9 de março de 2009




Privilegio


Io sono un buon compagno. Agevolmente
mi si prende per mano, e quello faccio
ch'altri mi chiede, bene e lietamente.

Ma l'anima secreta che non mente
a se stessa mormora sue parole
Anche talvolta un dio mi chiama, e vuole
ch'io l'ascolti. Ai pensieri
che io mi nascondo allora, al cuor che batte
dentro, all'intensità del mio dolore,
ogni uguaglianza fra gli uomini spengo.

Ho questo privilegio. E lo mantengo.

Umberto Saba
Privilege

I am a good friend. I’m easily
taken by the hand, and I do what
others ask of me, well and cheerfully.

But my secret soul that does not lie
to itself murmurs its own words.
And sometimes a god calls me and wants
me to listen to him. With the thoughts
that are born in me then, with my heart
beating inside, with the intensity of my pain,
I reject all likeness with other men.

I have this privilege. And I will keep it.

Tradução inglesa de George Hochfield and Leonard Nathan

27 de fevereiro de 2009



Povoamento


No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera


Ruy Belo

25 de fevereiro de 2009



Em Lisboa com Cesário Verde


Nesta cidade, onde agora me sinto
mais estrangeiro do que um gato persa;
nesta Lisboa, onde mansos e lisos
os dias passam a ver as gaivotas,
e a cor dos jacarandás floridos
se mistura à do Tejo, em flor também;
só o Cesário vem ao meu encontro,
me faz companhia, quando de rua
em rua procuro um rumor distante
de passos ou aves, nem eu já sei bem.
Só ele ajusta a luz feliz dos seus
Versos aos olhos ardidos que são
os meus agora; só ele traz a sombra
de um verão muito antigo, com corvetas
lentas ainda no rio, e a música,
sumo do sol a escorrer da boca,
ó minha infância, meu jardim fechado,
ó meu poeta, talvez fosse contigo
que aprendi a pesar sílaba a sílaba
cada palavra, essas que tu levaste
quase sempre, como poucos mais,
à suprema perfeição da língua.


Eugénio de Andrade

22 de fevereiro de 2009




Hoje é um dia qualquer. As coisas acontecem sempre
num dia qualquer, nós é que referenciamos o dia
em que as coisas aconteceram. O 14 de Julho, o 25 de Abril,
"faz hoje quinze anos que", "completam-se dois séculos amanhã",
e todos os dias acontecem coisas importantes para cada um de nós,
só que há dias em que as coisas que acontecem
são importantes para todos. Então o dia
deixa de ser um dia qualquer e, à posteriori, é quase sempre,
e para sempre, um dia de referência. Foi
num dia qualquer que te conheci. E, num dia qualquer,
comecei a amar-te. E amo-te. Todos os dias. Até qualquer dia.
O amor, a dor, a gente, toda a gente,
acaba, inevitavelmente, num dia qualquer.



Joaquim Pessoa, Vou-me embora de mim
.

9 de fevereiro de 2009





The Taxi


When I go away from you
The world beats dead
Like a slackened drum.
I call out for you against the jutted stars
And shout into the ridges of the wind.
Streets coming fast,
One after the other,
Wedge you away from me,
And the lamps of the city prick my eyes
So that I can no longer see your face.
Why should I leave you,
To wound myself upon the sharp edges of the night?
.
Amy Lowell
.

8 de fevereiro de 2009




Mattina


M’illumino
d’immenso


Giuseppe Ungaretti


.



1 de fevereiro de 2009



What happens to a dream deferred?



Does it dry up
Like a raisin in the sun?
Or fester like a sore--
And then run?
Does it stink like rotten meat?
Or crust and sugar over--
like a syrupy sweet?

Maybe it just sags
like a heavy load.

Or does it explode?


Langston Hughes


30 de janeiro de 2009


11 de janeiro de 2009




Mar


Nunca conseguiu viver longe do mar. A sua adolescência ficara cheia de dunas e de camarinhas, de falésias e águias, de tempestades, de nomes de barcos e de peixes; de aves e de luz coalhada à roda duma ilha.
Conhecera a ansiedade daqueles que, ao entardecer, olham meio cegos a vastidão incendiada do oceano - e ninguém sabe se esperam alguma coisa, alguma revelação, ou se estão ali sentados, apenas, para morrer.
Aprendera, também, que o mar, aquele mar - tarde ou cedo — só existiria dentro de si: como uma dor afiada, como um vestígio qualquer a que nos agarramos para suportar a melancólica travessia do mundo.
Depois, partiu para longe. E durante anos recordou, em sonhos, o mar avistado pela última vez ao fundo das ruas. Procurou-o sempre por onde andou, obsessivamente — mas nunca chegou a encontrá-lo. (...)


Al Berto, O Anjo Mudo


26 de dezembro de 2008





entrevista

[...]
mudo todos os dias de roupa inte
rior. sim, claro que tenho orgulho ni
sso. porquê? porque é higiénico, qu
e é que quer dizer higiénico? lim
po, limpo, mas a pergunta é absurd
a, totalmente absurda, não tem res
posta, é totalmente absurda, lamen
to ter de dizê-lo, mas estas pergu
ntas todas são muito estranhas.

qual é a minha opinião acerca d
este livro? não sei, não o li. se g
ostaria de o ler? não sei, precisa
ria de lê-lo primeiro, para respo
nder a essa questão, mas acho tud
o isto muito duvidoso, estas ques
tões, estes temas, tudo isto, não s
ei, não me está a agradar nada,
de resto são horas de me retirar.

uma última declaração? com todo o
gosto: não tenho dúvidas de que
nada nos impede de continuarmos
como até aqui, e é isso que me dá
confiança no futuro, pois o futuro
só é possível se não deixarmos de
ser o que sempre fomos no passado.





Alberto Pimenta

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26 de novembro de 2008



..
.
Homenagem a Ricardo Reis


..............I


Não creias, Lídia, que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiámos colher.


Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.


Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não-vivido deixa.


Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo


Sophia de Mello Breyner Andresen, Dual


23 de novembro de 2008







Elogio da Distância


Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.




Aqui, coração
que andou entre os homens, arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:




Mais negro no negro, estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.




Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.




Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.




Na fonte dos teus olhos
um enforcado estrangula o baraço.

Paul Celan, Papoila e Memória
Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno

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14 de novembro de 2008


Amadeo de Souza-Cardoso, «Entrada»
.

7 de novembro de 2008





É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.


É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.


O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.


O que é preciso esquecer é o dia carregado de actos,
a ideia de recompensa e de glória.


O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.


Cecília Meireles


.

4 de novembro de 2008



This Happened

A student, a young woman, in a fourth-floor hallway of her lycée,
perched on the ledge of an open window chatting with friends between classes;
a teacher passes and chides her, Be careful, you might fall, almost banteringly chides her, You might fall,
and the young woman, eighteen, a girl really, though she wouldn't think that,
as brilliant as she is, first in her class, and Beautiful, too, she's often told,
smiles back, and leans into the open window, which wouldn't even be open if it were winter, if it were winter someone would have closed it (Close it!),
leans into the window, farther, still smiling, farther and farther,
though it takes less time than this, really an instant, and lets herself fall. Herself fall.

A casual impulse, a fancy, never thought of until now, hardly thought of even now... No, more than impulse or fancy, the girl knows what she's doing,
the girl means something, the girl means to mean, because, it occurs to her in that instant, that beautiful or not, bright yes or no,
she's not who she is, she's not the person she is, and the reason, she suddenly knows,
is that there's been so much premeditation where she is, so much plotting and planning,
there's hardly a person where she is, or if there is, it's not her, or not wholly her,
it's a self inhabited, lived in by her, and seemingly even as she thinks it she knows what's been missing: grace, not premeditation but grace,
a kind of being in the world spontaneously, with grace.

Weightfully upon me was the world.
Weightfully this self which graced the world yet never wholly itself.
Weightfully this self which weighed upon me,
the release from which is what I desire and what I achieve.
And the girl remembers, in this infinite instant already so many times divided, the sadness she felt once, hardly knowing she felt it, merely to inhabit herself.
Yes, the girl falls, absurd to fall, even the earth with its compulsion to take unto itself all that falls must know that falling is absurd, yet the falling girl isn't myself,
or she is myself, but a self I took of my own volition unto myself.
Forever. With grace. This happened.


C. K. Williams




1 de novembro de 2008



Não faço a menor ideia de como nasce o amor e tenho imenso medo de descobrir como ele acaba.
Esta ideia nem parece minha, mas aconteceu-me agora mesmo, depois de assistir a uma cena esquisita aqui dentro de minha casa.
Na minha casa acontecem muitas cenas esquisitas, vais ficar a conhecê-las todas, portanto, aguenta-te e observa.
Está ali uma mulher a chorar, tem que se lhe diga, mas já revelo quem ela é. Agora quero que saibas quem eu sou.
Chamo-me Maria Ana. Isso mesmo, Maria Ana e não Mariana, há muita gente que se engana e eu passo a vida a corrigir. O nome foi escolhido pela minha avó Lupita, que se chama na realidade Guadalupe, é um bocado gorda, um grande bocado louca e ainda por cima é uma espanhola que fala muito. Vive em Madrid ao lado de um museu que se chama Prado e quando eu era pequena julgava que era um museu sobre vacas e ovelhas, pois essas andam sempre no prado, com as moscas, os cães e os pastores, e afinal é um museu dedicado a obras de pintura, é mesmo uma das maiores galerias do Mundo e expõe obras que foram pintadas entre os séculos XV e XIX, fui lá com a minha avó Lupita que gosta muito de ir a toda a parte e adorei e conheci Goya, as pinturas dele - e Goya é um dos maiores pintores de Espanha e isso.
Chamo-me Maria Ana - e não Mariana. Repito, porque quase toda a gente troca o meu nome.

Alexandre Honrado, A família que nao cabia dentro de casa
,

27 de outubro de 2008

Máquina de escrever de Fernando Pessoa



And death shall have no dominion.
Dead men naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.



And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan't crack;
And death shall have no dominion.



And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.
Dylan Thomas


25 de outubro de 2008


The Traveller




They pointed me out on the highway, and they said
'That man has a curious way of holding his head.'


They pointed me out on the beach; they said 'That man
Will never become as we are, try as he can.'


They pointed me out at the station, and the guard
Looked at me twice, thrice, thoughtfully & hard.
I took the same train that the others took,
To the same place. Were it not for that look
And those words, we were all of us the same.
I studied merely maps. I tried to name
The effects of motion on the travellers,
I watched the couple I could see, the curse
And blessings of that couple, their destination,
The deception practised on them at the station,
Their courage. When the train stopped and they knew
The end of their journey, I descended too.


John Berryman
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23 de outubro de 2008




Amélia Pinto Pais, no seu Ao longe os barcos de flores, atribui generosamente a este blogue o prémio Dardos, gesto que, uma vez mais, agradeço. Contrariando as regras, resolvi,antes, destacar alguns blogues inactivos, dos quais tenho saudades:

asa de papel com chá

mitografias

o misantropo enjaulado

onbubilation

prazeres minúsculos

rainsong

turno da noite

vulgar de lineu




Informações sobre o Prémio Dardos:


Com o Prémio Dardos reconhecem-se os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.Ao recebermos e aceitarmos o “Prémio Dardos” devemos seguir algumas regras:


1. - Exibir a imagem do selo;


2. - Linkar o blogue que lhe atribuiu o prémio;


3. - Entregar o Prémio Dardos a quinze (15) outros blogues .

17 de outubro de 2008





Nascimento último

Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.
.
António Ramos Rosa



15 de outubro de 2008




APOSTILA

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha...
O trabalho honesto e superior...
O trabalho à Virgílio, à Mílton...
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos - nem mais nem menos -
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)...
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos -
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo...
Sim, verbalismo...
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
Não ter um acto indefinido nem factício...

Não ter um movimento desconforme com propósitos...
Boas maneiras da alma...
Elegância de persistir...

Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajaras tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto a vida?)

Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.

Álvaro de Campos

13 de outubro de 2008



33


Fácil palabra. Nunca hubo palabra
Fácil para entregar ni recibirse.
Siempre el trayecto le cortó las alas,
El aire avaro le robó matices
Y ese fervor con que la pronunciamos
Redujo la fragancia de su origen.
Aprende en ello que si amor te digo
Es más amor de lo que tú percibes:
Que te llega el reflejo y eso basta
Para que te circunde e ilumine.


Hugo Lindo



12 de outubro de 2008






Não tenho grande fé de encontrar-te
na vida eterna.
Era já problemático falar-te
na terrena.
A culpa é do sistema
das comunicações.
Descobrem-se muitas mas não aquela
que tornaria ridículas, e até inúteis,
as outras.




Eugenio Montale (Tradução de David Mourão-Ferreira)


.

9 de outubro de 2008



God


God is a concept

By which we measure

Our pain

I'll say it again

God is a concept

By which we measure

Our pain


I don't believe in magic

I don't believe in I-ching

I don't believe in Bible

I don't believe in tarot

I don't believe in Hitler

I don't believe in Jesus

I don't believe in Kennedy

I don't believe in Buddha

I don't believe in Mantra

I don't believe in Gita

I don't believe in Yoga

I don't believe in kings

I don't believe in Elvis

I don't believe in Zimmerman

I don't believe in Beatles

I just believe in me

Yoko and me

And that's reality


The dream is over

What can I say?

The dream is over

Yesterday

I was the Dreamweaver

But now I'm reborn

I was the Walrus

But now I'm John

And so dear friends

You'll just have to carry on

The dream is over


John Lennon
.

6 de outubro de 2008

Foto de B.Berenika




Se eu pudesse dar-te aquilo que não tenho
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo com que sonhas
e o que só por mim poderá ter sonhado


Se eu pudesse dar-te o sopro que me foge
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo que descubro
e descobrir-te o que de mim se esconde


Então serias aquele que existe
e o que só por mim poderá ter sonhado



Ana Hatherly


.

4 de outubro de 2008

Dia Mundial do Animal



2 de outubro de 2008






The house was quiet and the world was calm.
The reader became the book; and summer night
Was like the conscious being of the book.
The house was quiet and the world was calm.
The words were spoken as if there was no book,
Except that the reader leaned above the page,
Wanted to lean, wanted much most to be
The scholar to whom the book is true, to whom
The summer night is like a perfection of thought.
The house was quiet because it had to be.
The quiet was part of the meaning, part of the mind:
The access of perfection to the page.
And the world was calm. The truth in a calm world,
In which there is no other meaning, itself
Is calm, itself is summer and night, itself
Is the reader leaning late and reading there.


Wallace Stevens
.

28 de setembro de 2008






Uma palavra sobre a tarde

Começas a dobrar os calções, a camisa.
As sandálias guardam,
como um cão, as sombras.
A água jorra da fonte e o clarão da manhã cai
sobre as cadeiras da varanda.
Os frutos, na relva húmida, são as dispersas maçãs
dos teus gestos.
Os barcos ainda não partiram.
Nem o oiro dos teus cabelos se agita
com a brisa triste de setembro.
Há ainda uma guitarra e uma festa
quando cantas.
O sol, essa lâmina agora cega,
rasga-te as vestes,
o linho e a seda da loucura.
Partir é um regresso
à noite outonal,
ao cair lento das folhas,
ao olhar que se dobra
com o alto trigo da tarde
até ao imenso crepúsculo
das últimas palavras.


Eduardo Bettencourt Pinto

15 de setembro de 2008





Quantas vezes, Amor, me tens ferido?
Quantas vezes, Razão, me tens curado?
Quão fácil de um estado a outro estado
O mortal sem querer é conduzido!

Tal, que em grau venerando, alto e luzido,
Como que até regia a mão do fado,
Onde o Sol, bem de todos, lhe é vedado,
Depois com ferros vis se vê cingido:

Para que o nosso orgulho as asas corte,
Que variedade inclui esta medida,
Este intervalo da existência à morte!

Travam-se gosto e dor; sossego e lida;
É lei da natureza, é lei da sorte,
Que seja o mal e o bem matiz da vida.


Manuel Maria Barbosa du Bocage
.

13 de setembro de 2008




Quero escrever-te um poema que
tenha um sentido claro como o
que os teus olhos me disseram.


Poderia ser um poema de amor,
tão breve como o instante em
que me deixaste ver os teus olhos.


Mas o que os olhos dizem não cabe
num poema, nem eu sei como se diz
o amor que só os olhos conhecem.



Nuno Júdice


..

7 de setembro de 2008






Floriram por engano as rosas bravas
No inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
¿Quem as esparze - quanta flor! -, do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?



Camilo Pessanha


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4 de setembro de 2008






E o amor transformou-se noutra coisa com o mesmo nome.

Era disto que falavam as mães quando davam conselhos

às filhas e diziam: o amor vem depois. Era isto o depois.

Uma ternura simples, quase dolorosa, muitos silêncios,

todas as horas do dia e um poema que se dissolve dentro

de mim e que, devagar, sem rosto, desaparece.


(Helsínquia, Maio de 2007)




José Luís Peixoto, Gaveta de Papéis






1 de setembro de 2008




................................ porque se alguma coisa os
anos me ensinaram foi a desconfiar das emoções grandiosas, dos sentimentos grandiosos, das palavras grandiosas, culpabilidade, generosidade, arrependimento, honra, orgulho, coragem, sacrifício, que ocultam pequeninos interesses viscosos como egoísmo, medo, inveja, estupidez, preguiça, eu para a Raquel
.................................— Tretas
a rever o Álvaro a fugir-lhe,a sacudir os beijos, a não falar com ela, a erguer as sobrancelhas ao céu, a fitar-lhe com desgosto as farripas, os bibelots, os vestidos, o Álvaro que queria o divórcio por ter arranjado uma mulher a dias mais competente e uma enfermeira melhor num apartamento sem máscaras nem litografias sem palhaços, o Álvaro que nem se devia recordar do filho porque os homens não suportam o sofrimento ou o passado, os homens, felizmente para eles, esquecem, e somos nós que não esquecemos, que conservamos tudo na memória, que nos recordamos como eu recordo a romãzeira, a estrada do Cacuaco e o quintal de Luanda, como eu recordo o meu pai no sofá de Campolide, debaixo do quadro dos cavalos, sem se queixar das dores, e a Raquel à procura dos cigarros, distraída da chuva
................................— Meteu-se-lhe na cabeça
que Carlos Gardel está vivo em Santo António dos Cavaleiros, meteu-se-lhe na cabeça despedir-se da agência e morar com ele para lhe promover a carreira (...).





António Lobo Antunes, A Morte de Carlos Gardel



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29 de agosto de 2008








Painting by Vuillard


Two dumpy women with buns were drinking coffee

In a narrow kitchen—at least I think a kitchen
And I think it was whitewashed, in spite of all the shade.
They were flat brown, they were as brown as coffee.
Wearing brown muslin? I really could not tell.
How I loved this painting, they had grown so old
That everything had got less complicated,
Brown clothes and shade in a sunken whitewashed kitchen.

But it’s not like that for me: age is not simpler
Or less enjoyable, not dark, not whitewashed.
The people sitting on the marble steps
Of the national gallery, people in the sunlight,
A party of handsome children eating lunch
And drinking chocolate milk, and a young woman
Whose t-shirt bears the defiant word WHATEVER,
And wrinkled folk with visored hats and cameras
Are vivid, they are not browned, not in the least,
But if they do not look like coffee they look
As pungent and startling as good strong coffee tastes,
Possibly mixed with chicory. And no cream.


Thom Gunn


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28 de agosto de 2008






Exit


Just when hope withers, the visa is granted.
The door opens to a street like in the movies,
clean of people, of cats; except it is your street
you are leaving. A visa has been granted,
"provisionally"-a fretful word.
The windows you have closed behind
you are turning pink, doing what they do
every dawn. Here it's gray. The door
to the taxicab waits. This suitcase,
the saddest object in the world.
Well, the world's open. And now through
the windshield the sky begins to blush
as you did when your mother told you
what it took to be a woman in this life.

Rita Dove
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23 de agosto de 2008


Pauline Barrett



Almost the shell of a woman after the surgeon’s knife!
And almost a year to creep back into strength,

Till the dawn of our wedding decennial

Found me my seeming self again.

We walked the forest together,

By a path of soundless moss and turf.

But I could not look in your eyes,

And you could not look in my eyes,

For such sorrow was ours—the beginning of gray in your hair,

And I but a shell of myself.

And what did we talk of?—sky and water,

Anything, ’most, to hide our thoughts.

And then your gift of wild roses,

Set on the table to grace our dinner.

Poor heart, how bravely you struggled

To imagine and live a remembered rapture!

Then my spirit drooped as the night came on,

And you left me alone in my room for a while,

As you did when I was a bride, poor heart.

And I looked in the mirror and something said:

“One should be all dead when one is half-dead—”

Nor ever mock life, nor ever cheat love.”

And I did it looking there in the mirror—

Dear, have you ever understood?



Edgar Lee Masters, Spoon River Anthology
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22 de agosto de 2008



EL DESCAMPADO



A Dámaso Alonso


Tú estás en ese taxi parado, sí, eres Tú
—un bulto en el crepúsculo— junto al bordillo blanco
donde se acaba el campo de enfrente o descampado.
Lo sé, aunque no te he visto (y aunque dentro del taxi
no hay nadie). Está lloviendo con fuerza. Está empezando
a oler en la ciudad a campo de muy lejos...
Y tú estás en el taxi como en una capilla
que fuera entre las hazas ermita solitaria.
(Lo sé, porque esos trigos que se iluminan, lejos...,
y ese río parado, con sus aguas crecidas
de pronto...) Llueve fuerte y estás dentro del taxi
(tal vez junto a ese chófer fatigado al volante).
Sé que dentro del taxi no hay nadie, pero huele
a lluvia de muy lejos. Suena esa luvia. Y pienso
sin ganas: ser poeta, suspender en el aire
laborioso de un día y otro día unas pocas
palabras necesarias, y quitarse de en medio.
Porque uno —su difícil vivir— ya no hace falta
si quedan las palabras. Ser poeta: orientarse,
como esa luz dudosa cruzando el descampado
y en vez de una existencia brillante, tener alma.
Por eso, algo me quito de en medio: estoy viviendo
como un taxi parado junto al bordillo blanco
(y hay un cerco de alegres sonrisas y de manos
fieles a sus celestes contactos en la sombra).
Porque Tú, el más activo —y el más ocioso— estabas
aquí, junto al farol de luz verde en la noche.
Tú, sin libros; Tú, libre con brazos, con miradas,
estabas sin testigos y medías —ocioso—
mis pasos por mi cuarto (donde caben mis años).
Y los trigos en éxtasis de Castilla la Vieja,
los ríos llameantes con sus aguas crecidas,
seguían a lo lejos relevándote (mientras
detrás de mis cristales aparece el retraso
de ese barro, esos charcos del ancho descampado,
¡yo también descampado, desterrado del campo!) Porque Tú, el más activo —y el más ocioso— estabas
aquí, junto al farol de luz verde en lan oche.
Tú, sin libros; Tú, libre con brazos, con miradas,
estabas sin testigos y medías —ocioso—
mis pasos por mi cuarto (donde caben mis años).
Y los trigos en éxtasis de Castilla la Vieja,
los ríos llameantes con sus aguas crecidas,
seguían a lo lejos relevándote (mientras
detrás de mis cristales aparece el retraso
de ese barro, esos charcos del ancho descampado,
¡yo también descampado, desterrado del campo!)

Luis Felipe Vivanco


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20 de agosto de 2008

Obrigada, Roberto


Ed è subito sera


Ognuno sta solo sul cuor della terra
Trafitto da un raggio di sole:
ed è subito sera.



Salvatore Quasimodo,Ed è subito sera


18 de agosto de 2008





A HISTÓRIA DE UMA HISTÓRIA



Era uma vez uma história

acabava antes de começar
e começava depois do fim

os seus heróis entravam nela
depois de terem morrido
e abandonavam-na
antes de nascerem

os seus heróis falavam
de um certo mundo e de um certo céu
diziam toda a espécie de coisas

só não diziam
o que eles próprios não sabiam
que eram apenas heróis de uma história

de uma história que acaba
antes de começar

e começa
antes de acabar


Ted Hughes, O Fazer da Poesia (tradução de Helder Moura Pereira)
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16 de agosto de 2008





Bluebird


there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pur whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?


Charles Bukowski

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15 de agosto de 2008





Tempo


Não sei se te nomeie ou nomeie o vento,
isto que passa
e procura os outros lugares onde o pólen cai.
Talvez uma colmeia confie ao seu mel o que
ficou de um ano
em que a tempestade não se fez ouvir sobre
as corolas.
O que viste antes de Setembro perdeu-se,
apagou-se,
afastou-se sem dizer nada,
como os barcos que pouco a pouco se
afastaram da nossa vida,
calados e brancos,
com as suas gaivotas de asas fechadas,
envelhecendo lado a lado, sobre o convés.

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José Agostinho Baptista

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11 de agosto de 2008





Words For Departure
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1
Nothing was remembered, nothing forgotten.
When we awoke, wagons were passing on the warm summer pavements,
The window-sills were wet from rain in the night,
Birds scattered and settled over chimneypots
As among grotesque trees.
Nothing was accepted, nothing looked beyond.
Slight-voiced bells separated hour from hour,
The afternoon sifted coolness
And people drew together in streets becoming deserted.
There was a moon, and light in a shop-front,
And dusk falling like precipitous water.
Hand clasped hand
Forehead still bowed to forehead--
Nothing was lost, nothing possessed
There was no gift nor denial.
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2
I have remembered you.
You were not the town visited once,
Nor the road falling behind running feet.
You were as awkward as flesh
And lighter than frost or ashes.
You were the rind,
And the white-juiced apple,
The song, and the words waiting for music.
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3
You have learned the beginning;
Go from mine to the other.
Be together; eat, dance, despair,
Sleep, be threatened, endure.
You will know the way of that.
But at the end, be insolent;
Be absurd--strike the thing short off;
Be mad--only do not let talk
Wear the bloom from silence.
And go away without fire or lantern
Let there be some uncertainty about your departure.
.
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Louise Bogan
LBLouise Bogan

9 de agosto de 2008



Homenagem a Cesário Verde

Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas


Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
Que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!


Mário Cesariny, Pena Capital
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