24 de abril de 2010




Sossegar



para a Irene Pereira


O que eu mais queria neste mundo era sossegar. Eis um verbo que é preciso redimir. Sossegar não é descansar, nem traz felicidade, nem se assemelha, senão superficialmente, à paz ou à tranquilidade. Não quero acalmar-me, ou serenar, ou assentar. O sossego é um estado de bonança.
O sossego é um estado de excepção, em que a alma vem ao encon­tro do corpo. Pode sossegar-se em momentos de grande agitação, de um acesso de amor, em que esse amor parece lucidez. É este o sossego com que sonho — uma presença consciente de verdade no que se sente -, oposto à parança estúpida, queda e adormecida, falsa, aquém da aler­ta. Não gosto do sossego como alívio ou interrupção. Nem gosto da maneira como se usa o verbo descansar, que deveria significar repousar (recuperar as forças, etc.) em vez de sossegar, como por exemplo: «Ainda bem que me avisaste, porque assim fico mais descansada». É tão ridículo como uma criada dizer: «A senhora não pode vir ao telefone porque está a sossegar».
Na época do stress e dos calmantes, das psicoterapias e das manias new age, sossegar foi destituído da sua beleza própria, da sua frescura, da sua actividade.
Sossegar não é descansar - não é uma consequência do cansaço. Quando Rebelo da Silva, citado por Moraes, que por sua vez cita o dicionário de Freire, diz «O coração não sossega, a vida cansa», ambas as coisas são verdadeiras, mas a associação é enganadora, porque o cora­ção não sossega por causa de a vida cansar. Há cansaços bons. Não. O coração não sossega, porque não tem com que sossegar.
Mais que a felicidade e a paz, o mundo precisa de sossegar. O sossegamento é a forma mais precisa de liberdade. Mas não é uma liberdade negativa (estar livre de medos, de constrangimentos, de opressões), mas uma liberdade positiva — uma liberdade para sentir o que se sente e con­fiar no que se sente, e ter tempo, e vontade, e confiança no que se faz.
Quando se olha para o rosto duma pessoa amada, ou se recebe dela um gesto de amor, sossega-se. Quando se sabe de antemão o que vai acontecer, ou como alguém se vai comportar, sossega-se. Quando se participa num acto de bondade, ou se assiste a um, sossega-se. Quando se é desculpado, sossega-se. Quando se faz uma promessa ou um plano que sabemos que se irá cumprir, sossega-se. Isso é sossegar.
Quando dois amantes decidem ter um filho, por muito medo que isso possa provocar, sossega-se. Quando aparece um amigo sem avisar, interrompendo tudo o que se tencionava fazer, sossega-se. Quando se está a lutar contra a injustiça e a maldade, com todas as forças que se tem, sossega-se. Quando se lê um poema ou uma história bonita, por muito triste que seja, sossega-se. Quando se acredita em Deus. Isso, sim, é sossegar.
Gosto de sossegar como verbo transitivo. Sossegar só por si não chega. É mais bonito sossegar alguém. Quando se pede «Sossega o meu coração» e se consegue sossegar. Quando se sai, quando se faz um esfor­ço para sossegar alguém. E não é adormecendo ou tranquilizando, em jeito de médico a dar um sedativo, que se sossega uma pessoa. É enchendo-lhe a alma de amor, confiança, alegria, esperança e tudo o mais que é o presente a tornar-se, de repente, futuro. É o futuro que sossega. «Amanhã vamos passear» sossega mais que «Não te preocupes» ou «Deixa lá, que eu trato disso».
A aquietação, como o sono, é uma espécie de morte. Sossegar não é jazer. É viver. Uma pessoa sossegada é capaz de deitar abaixo uma floresta. O sossego não é um descanso — é uma força. Não é estar isolado e longe, deixado em paz - é estar determinado no meio do turbilhão da vida.
O sossego é, em grande parte, uma expressão espiritual de segurança. Sossegar é saber com o que se conta, desde o azul do céu aos irmãos. O coração sossega em quem se conhece. Sossegar é conhecer uma tota­lidade, as coisas feias ou bonitas, mas previsíveis e familiares. É por isso que sossega olhar para um rosto amado, que se conhece, ouvir a voz dessa pessoa, mesmo quando está a dizer disparates. Não há falinhas mansas que tragam o sossego dos gritos duma pessoa com quem se pode contar. E um alívio. Só a ordem pode sossegar, por muito alterosa que seja. A tempestade sossega o marinheiro que conhece bem o barco e o mar.
No nosso tempo as pessoas querem o sossego menor das sopas e do descanso. Serem «deixadas» dalguma forma ou doutra: «Eu quero é que me deixem em paz». Querem fugir. Querem ir para o campo. Meditar. Descobrir o «eu» interior. Mas a solidão e o silêncio não sossegam. Para isso mais vale tomar um Lexotan.
Só os outros nos podem sossegar mesmo no meio da vida, em plena acção, se pode, e vale a pena, estar sossegado. O «eu» interior é uma algazarra de desasossego. Para mais, árida e desinteressante. O budismo de trazer por casa que invadiu a nossa cultura, uma espécie de narcisis­mo espiritual, traduz uma noção repugnante de superioridade. Os outros podem ser o inferno, mas cada indivíduo ainda o é mais.
Não me saem da cabeça os instantes, poucos, em que me senti sos­segar - e foi sempre graças a outra pessoa, vista ou lida, conhecida ou desconhecida, viva ou morta, menina ou crescida, sábia ou maluca, próxima ou longínqua, mas sempre presente, mais presente que eu pró­prio. Eu próprio, por defeito, talvez, não consigo lá chegar. Nunca encontrei o sossego nos outros — foram sempre os outros que me sosse­garam. E quase nunca deliberadamente.
Lembro-me, em particular, dum momento, que obviamente não vou contar, mas que consistiu apenas em olhar para alguém e sentir que tudo nela me era querido e conhecido e familiar.
Não há no mundo paisagem como o rosto duma pessoa amada, sobretudo quando está agitado, a rir-se ou a zangar-se, desprevenido,apanhado nos nossos olhos como se estivesse dentro deles já. Sentir essa mistura de perdição e de proximidade é verdadeiramente sossegar.


Miguel Esteves Cardoso, Explicações de Português (texto com supressões)


18 de abril de 2010

Van Gogh, Noite Estrelada




NOX

Noite, vão para ti meus pensamentos,
Quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
Tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...

Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno Mal, que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece alguns momentos...

Oh! Antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o Mundo, te esquecesses,

E ele, o Mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!

Antero de Quental, Sonetos

10 de abril de 2010


27 de março de 2010




Encostei-me a ti,
sabendo que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem
depus a minha vida em ti.
Como sabia bem tudo isso,
e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar,
quando caí.


Cecília Meireles


27 de fevereiro de 2010

Foto de Irene Suchocki

Às vezes tenho medo, muito medo.
Às vezes sofro.
Às vezes, penso nas pessoas que amo e penso na
possibilidade de as perder.
Às vezes vejo alguém doente e fico incomodado.
Pode não ser um amigo ou familiar.
Posso estar a vê-lo pela primeira vez.
Mas fico incomodado.
Aquela doença pertence-me.

Todas as doenças pertencem a toda a gente.
Todos os sofrimentos pertencem a toda a gente.
Todas as mortes pertencem um pouco a toda a gente.
Às vezes sinto isso muito,
outras vezes sinto menos.
Quando sinto menos posso preocupar-me com o mundo,
brincar com a poesia,
com a filosofia e com as palavras.
Mas quando sinto, deixo de conseguir pensar.
Quando sofro ou sinto o que alguém sofre, deixo mesmo
de querer ser inteligente.
Se estivermos cheios a sentir, não temos espaço para pensar.
Não fazem sentido as lógicas,
as filosofias,
as discussões.
Todo o nosso corpo sente.
E o que resta? Nada.
Só existe aquela morte, aquela doença, aquela velhice.
Só aquele pai que amo e está a envelhecer. Só aquela mãe
que amo e está a envelhecer.
Só aquele amigo que morreu num estúpido acidente.
Só aquele amigo que se tornou amargo
porque a mulher o deixou.
Só o amor e a falta de amor.
As mulheres que nos enganam e as mulheres que são enganadas,
as mulheres e os homens que enganam.
Os amigos que deixam de o ser,
alguns inimigos que morrem, e temos pena.
Que importa o resto?
Onde está o livro importante?
O filme que resolve?
Podemos chorar à frente de um quadro, mas não resolve nada.
Podemos pintar um quadro, escrever um poema, mostrar às
mulheres bonitas como somos bonitos, exibir o nosso corpo,
mas que adianta?
Estamos sozinhos.
Se não estamos, vamos estar.
Os amigos vão-nos deixando, vão-nos deixar.
Vão morrer ou nós vamos morrer.
Ou então deixam de nos telefonar, ou então deixamos de
lhes querer telefonar.
Estamos sozinhos. As pessoas que amo vão morrer.
Os livros não resolvem nada. A poesia é bonita e por vezes
descansa, acalma, mas não resolve nada, não resolve nada.
Somos artistas ou não somos, e qualquer coisa que seja não
adianta nada e nada impede.
Escrevemos poemas, mas não ajudam ninguém.
Escrevemos peças de teatro, sorrimos, tentamos pensar,
tentamos ter ideias, tentamos distrair as pessoas, tentamos
fazer pensar as pessoas, tentamos fazer chorar as pessoas, e
isso é bom, e até pode ser bonito, mas não adianta nada,
não resolve nada,
não adianta nada.

Gonçalo M. Tavares, O homem ou é tonto ou é mulher

14 de fevereiro de 2010




Se nesse dia eu tivesse medido 3 metros e 28 centímetros e tivesse chegado com a minha cabeça depositada numa bandeja, não essa cabeça que às vezes já imaginaste quando não estou, quando ainda não cheguei, quando ainda não sou eu, mas sim essa cabeça que é outra cabeça na qual não te encontras, nem descobres sinais, nem um corpo, nem uma voz que te fale. Eu, cai o fruto da árvore, a lágrima do abandono. É o mundo, é o sonho, é o teu nascimento, é o dia em que cai a tua cabeça. Devias estar contente porque ainda conservas o teu sorriso. Eu, é o som, o reconhecimento das vozes que te habitam, o rumor do rio. Ah, se eu tivesse sido essa cabeça e a fúria da espada e o caminho desesperado que se segue para deter o juízo com as lágrimas crispadas entre os braços e uma árvore, uma enorme árvore desmaiando dentro do peito. Corre, corre, corre, corre. Se o fizeres depressa talvez possas chegar a ver o dia da tua morte. 3 metros e 28 centímetros com a cabeça bordada no passado e a música submersa. Corre, corre, corre, até conseguires dar com as tuas costas, até te encontrares contigo próprio e te aperceberes que corres atrás de ti, corre até ultrapassares 365 dias e veres o mundo como um chapéu que um elefante comeu e esse elefante foi comido por uma serpente.

Oliverio Macias Alvarez , Um Mundo Estranho
(tradução de José Agostinho Baptista)

6 de fevereiro de 2010

Foto de Pedro Cruz



O Poeta em Lisboa

Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.

Segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror.

Entra no café.
Abre um livro fantástico, impossível.

Mas não lê.
Trabalha - numa música secreta, inaudível.
Pede um cigarro. Fuma.
Labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.

Fuma mais. Outra vez.
E atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.

Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.

Sonâmbulo, magntfico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.
Um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.

Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.

Febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos,
Fiel, atenta
a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.

António José Forte

31 de janeiro de 2010



A caixa das cartas antigas


Ainda está por decidir a caixa
onde somamos
cartas de quem nos queria antes
do acordar aqui. Mas
como ordenar essas linhas
(mesmo que
para as ler de vez)
sem ter que rever cada voz?
Resistindo à distracção de
ter que aceder à memória?
Sendo fiel ao momento sem
ser
desleal com o passado?
Usando apenas as mãos
sem usar dos sentimentos?
Revisitando os lugares
sem saudar as personagens?

chaves que deves fazer por
perder nas despedidas
se
no agudo vão de escadas que sobe ao teu coração
a caixa é uma teia
(ardilosamente montada)
pronta a reter a pressa de
um
voo mais desprevenido.



João Luís Barreto Guimarães

23 de janeiro de 2010




Love after Love

The time will come
when, with elation
you will greet yourself arriving
at your own door, in your own mirror
and each will smile at the other's welcome,


and say, sit here. Eat.
You will love again the stranger who was your self.
Give wine. Give bread. Give back your heart
to itself, to the stranger who has loved you


all your life, whom you ignored
for another, who knows you by heart.
Take down the love letters from the bookshelf,


the photographs, the desperate notes,
peel your own image from the mirror.
Sit. Feast on your life.


Derek Walcott

11 de janeiro de 2010

Fotografia de Ibán Ramón

o sol ensina o único caminho
a voz da memória irrompe lodosa
ainda não partimos e já tudo esquecemos
caminhamos envoltos num alvéolo de ouro fosforecente
os corpos diluem-se na delicada pele das pedras
falam os rios deste regresso e pelas margens ressoam passos
os poços onde nos debruçámos aproximam-se perigosamente
da ausência e da sede procurámos os rostos na água
conseguimos não esquecer a fome que nos isolou
de oásis em oásis

hoje
é o sangue branco das cobras que perpetua o lugar
o peso de súbitas cassiopeias nos olhos
quando o veludo da noite vem roer a pouco e pouco a planície

caminhamos ainda
sabemos que deixou de haver tempo para nos olharmos
a fuga só é possível para dentro dos fragmentados corpos
e um dia...quem sabe?
chegaremos
Al Berto





7 de janeiro de 2010




Cheguei a ter medo de te perder,
tu não chegaste sequer a ter medo.
Este silêncio de já não termos palavras
ouve-se nas outras palavras que trocamos.

Miserável mundo nosso e alheio,
igual ao que todos disseram da sua época,
e pior, porque este vivemos nós
e conhecemos nós, cada um conforme pode.

Já morrerem os ídolos todos da infância
e os da adolescência vão a caminho,
sobrevivente é o teu olhar cego
(hoje há já só um dos Righteous Brothers).

Na feira de velharias uma caixa
para tabaco com uma rosa verde.
Tem o preço ainda em escudos, uma falha
num dos cantos, uma pequena cruz de cal.

Permaneces aí, à lareira, lendo livros vivos
e o seu turbilhão de palavras profundas.
Nunca mais chega o medo de nos perdermos,
eco um do outro em ricochete de silêncios.

Helder Moura Pereira, Mútuo Consentimento, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005

5 de janeiro de 2010

3 de janeiro de 2010

Foto de Carla van de Puttelaar



fragmento


são asas de alvoroço ou são sinais?

são sombras agitadas na descida?
são palavras aladas junto ao cais?

são um rumor no vento? ou repetida
animação do instante nas manhãs
quando ao passar da gente passa a vida

e alguém espera olhando as horas vãs?


Vasco Graça Moura

20 de dezembro de 2009





Toma – é para ti
esta primeira rosa

Tem o nome tranquilo
das coisas que ninguém chama

Dorme de olhos leves e é talvez
O vulto mais puro da ternura

Morre, depois, de ser tão plena
e cai, no último instante, para dentro
de todos os dias que a guardaram.

Vítor Matos e Sá


6 de dezembro de 2009




Song of Childhood


When the child was a child
It walked with its arms swinging,
wanted the brook to be a river,
the river to be a torrent,
and this puddle to be the sea.

When the child was a child,
it didn’t know that it was a child,
everything was soulful,
and all souls were one.

When the child was a child,
it had no opinion about anything,
had no habits,
it often sat cross-legged,
took off running,
had a cowlick in its hair,
and made no faces when photographed.

When the child was a child,
It was the time for these questions:
Why am I me, and why not you?
Why am I here, and why not there?
When did time begin, and where does space end?
Is life under the sun not just a dream?
Is what I see and hear and smell not just an illusion of a world before the world?
Given the facts of evil and people.
does evil really exist?
How can it be that I, who I am,
didn’t exist before I came to be,
and that, someday, I, who I am, will no longer be who I am?

When the child was a child,
It choked on spinach, on peas, on rice pudding,
and on steamed cauliflower,
and eats all of those now, and not just because it has to.

When the child was a child,

it awoke once in a strange bed,
and now does so again and again.
Many people, then, seemed beautiful,
and now only a few do, by sheer luck.

It had visualized a clear image of Paradise,
and now can at most guess,
could not conceive of nothingness,
and shudders today at the thought.

When the child was a child,
It played with enthusiasm,
and, now, has just as much excitement as then,
but only when it concerns its work.

When the child was a child,
It was enough for it to eat an apple, … bread,
And so it is even now.

When the child was a child,
Berries filled its hand as only berries do,
and do even now,
Fresh walnuts made its tongue raw,
and do even now,
it had, on every mountaintop,
the longing for a higher mountain yet,
and in every city,
the longing for an even greater city,
and that is still so,
It reached for cherries in topmost branches of trees
with an elation it still has today,
has a shyness in front of strangers,
and has that even now.
It awaited the first snow,
And waits that way even now.

When the child was a child,
It threw a stick like a lance against a tree,
And it quivers there still today.


Peter Handke

5 de dezembro de 2009



Interior Portrait

You don't survive in me
because of memories;
nor are you mine because
of a lovely longing's strength.
.
What does make you present
is the ardent detour
that a slow tenderness
traces in my blood.
.
I do not need
to see you appear;
being born sufficed for me
to lose you a little less.
.
Rainer Maria Rilke (Versão inglesa de A. Poulin)
..

22 de novembro de 2009



The Five Stages of Grief


The night I lost you
someone pointed me towards
the Five Stages of Grief
Go that way, they said,
it's easy, like learning to climb
stairs after the amputation.
And so I climbed.
Denial was first.
I sat down at breakfast
carefully setting the table
for two. I passed you the toast-
you sat there. I passed
you the paper-you hid
behind it.
Anger seemed so familiar.
I burned the toast, snatched
the paper and read the headlines myself.
But they mentioned your departure,
and so I moved on to
Bargaining. What could I exchange
for you? The silence
after storms? My typing fingers?
Before I could decide, Depression
came puffing up, a poor relation
its suitcase tied together
with string. In the suitcase
were bandages for the eyes
and bottles sleep. I slid
all the way down the stairs
feeling nothing.
And all the time Hope
flashed on and off
in detective neon.
Hope was a signpost pointing
straight in the air.
Hope was my uncle's middle name,
he died of it.
After a year I am still climbing, though my feet slip
on your stone face.
The treeline
has long since disappeared;
green is a color
I have forgotten.

But now I see what I am climbing
towards: Acceptance
written in capital letters,
a special headline:
Acceptance
its name is in lights.
I struggle on,
waving and shouting.
Below, my whole life spreads its surf,
all the landscapes I've ever known
or dreamed of. Below
a fish jumps: the pulse
in your neck.
Acceptance. I finally
reach it.
But something is wrong.
Grief is a circular staircase.
I have lost you.


Linda Pastan

8 de novembro de 2009





Caramba

Ó senhor da loja
já que a vida é curta
diga-me lá, se souber
quantos metros tem a dor

E já que ainda por cima
a vida é pesada
diga-me lá, se puder
quantos quilos tem o amor

E já que a paciência
tem os seus limites
diga-me lá quantos são
que é p´ra eu saber se espero ou não
quando for desesperar

Já que a vida é curta
e o futuro, diz que está aqui já
(Sei lá)
já que o futuro vem
em peças separadas p´ra montar
(Ah! Ah! Ah!)
Antes que se esgote
reserve desde já o seu exemplar

Caramba
está-se p´ráqui a dançar na corda bamba
sem se saber para que lado é que se cai
nem com que pé é que se samba

Ó senhor da loja
já que a vida é bela
diga-me lá, se souber
em que espelho a devo olhar

Mas se por outro lado
diz que a vida é dura
arranje-me aí, se tiver
um capacete p´ra eu marrar

E já que a vida é feita
de pequenos nadas
guarde-me aí quatro ou cinco
que é p´ra quando for domingo
eu os poder saborear

Já que a vida é curta
e o futuro diz que está aqui já
(Sei lá)
Já que o futuro vem
em peças separadas p´ra montar
(Ah! Ah! Ah!)
Antes que se esgote
Reserve desde já o seu exemplar

Caramba
está-se p´ráqui a dançar na corda bamba
sem se saber para que lado é que se cai
nem com que pé é que se samba

Ó senhor da loja
já que a vida é breve
arranje-me aí os ponteiros
dum relógio que atrasar

E já que no fundo
vai tudo a dar ao mesmo
diga-me se o mesmo é mesmo
tudo o que ainda vai mudar

E já que é preciso
deitar contas à vida
desconte-me aí os meses
em que apenas fiz as vezes
doutro que não era eu

Já que a vida é curta
e o futuro diz que está aqui já
(Sei lá)
Já que o futuro vem
em peças separadas p´ra montar
(Ah! Ah! Ah!)
Antes que se esgote
Reserve desde já o seu exemplar

Caramba
está-se p´ráqui a dançar na corda bamba

Sérgio Godinho (letra e música)

7 de novembro de 2009



Soneto à maneira de Camões

Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é meu tormento.

Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês - pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.

Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.
.
Sophia de Mello Breyner Andresen
.

13 de outubro de 2009




LENGHT OF MOON

Then the golden hour
Will tick its last
And the flame will go down in the flower.
A briefer length of moon
Will mark the sea-line and the yellow dune.
Then we may think of this, yet
There will be something forgotten
And something we should forget.
It will be like all things we know:
A stone will fail; a rose is sure to go.
It will be quiet then and we may stay long at the picket gate
But there will be less to say.

Arna Bontemps

4 de outubro de 2009




Cigarettes And Whiskey And Wild, Wild Women


(from a song)


Perhaps I was born kneeling,
born coughing on the long winter,
born expecting the kiss of mercy,
born with a passion for quickness
and yet, as things progressed,
I learned early about the stockade
or taken out, the fume of the enema.
By two or three I learned not to kneel,
not to expect, to plant my fires underground
where none but the dolls, perfect and awful,
could be whispered to or laid down to die.

Now that I have written many words,
and let out so many loves, for so many,
and been altogether what I always was—
a woman of excess, of zeal and greed,
I find the effort useless.
Do I not look in the mirror,
these days,
and see a drunken rat avert her eyes?
Do I not feel the hunger so acutely
that I would rather die than look
into its face?
I kneel once more,
in case mercy should come
in the nick of time.

Anne Sexton

.

26 de setembro de 2009




I

Time present and time past
Are both perhaps present in time future,
And time future contained in time past.
If all time is eternally present
All time is unredeemable.
What might have been is an abstraction
Remaining a perpetual possibility
Only in a world of speculation.
What might have been and what has been
Point to one end, which is always present.
Footfalls echo in the memory
Down the passage which we did not take
Towards the door we never opened
Into the rose-garden. My words echo
Thus, in your mind.


T. S. Eliot, Four Quartets, "Burnt Norton"(excerto)

,

25 de setembro de 2009


24 de setembro de 2009



Às vezes sentia que as suas palavras não lhe per­tenciam e frequentemente surpreendia-se a falar sozinho como se fosse um outro que falasse com ele. Um médico de Paris diagnosticou-lhe histeria e prescreveu-lhe um tratamento eléctrico. Antero anotou que sofria de infinito e talvez fosse uma doença mais plausível para ele. Talvez estivesse apenas cansado da forma transitória e imperfeita do ideal e da paixão, e a sua ansiedade encaminhava-se já para uma outra ordem geométrica. Nos seus escritos começou a aparecer a palavra Nada, que lhe parecia a forma mais perfeita de perfeição. Ia já a entrar no seu quadragésimo nono ano e regressou à sua ilha.
Na manhã do dia 11 de Setembro de 1891, saiu da sua casa de Ponta Delgada, desceu a pé a íngreme rua cheia de sombra até à Igreja Matriz e entrou numa pequena espingardaria da esquina. Vestia um fato preto e sobre a camisa branca levava uma gravata segurada com um alfinete com uma concha. O proprietário era um homem amável e gordo que gostava de cães e de gravuras antigas. Havia um ventilador de latão que girava lenta­mente no tecto. O proprietário mostrou ao cliente uma bela gravura seiscentista, comprada recente­mente, que representava uma matilha de cães perseguindo um veado. O velho lojista tinha sido amigo de seu pai, e Antero lembrou-lhe que, em menino, os dois homens o levavam com eles à feira de Caloura, onde havia os cavalos mais belos de São Miguel. Ficaram longamente a falar de cães e de cavalos, depois Antero comprou um pequeno revólver. Quando saiu da loja o campanário da Matriz estava a bater as onze. Ele percorreu lentamente toda a beira-mar até à capitania do porto e deteve-se longamente no cais a olhar para os veleiros.
.
Antonio Tabucchi, "Antero de Quental. Uma vida" (excerto)

19 de setembro de 2009




IV

Eu dantes tinha olhos verdes,
só agora reparei.
Verdes, viam tudo verde...
Porque eram verdes não sei.

Sorriam àquela flor
que havia na água parada
(verde flor na verde água
da vida transfigurada).

Hoje olham e reconhecem
que há muito mais cores para ver:
cor de flor que logo esquecem,
cor de charco a apodrecer.

Maria Judite de Carvalho, A Flor que Havia na Água Parada

9 de setembro de 2009

4 de setembro de 2009




Un hombre del pueblo de Neguá, en la costa de Colombia, pudo subir al cielo. A la vuelta, contó. Dijo que había contemplado, desde allá arriba, la vida humana. Y dijo que somos un mar de fueguitos.- El mundo es eso - reveló- un montón de gente, un mar de fueguitos. Cada persona brilla con la luz propia entre todas las demás. No hay dos fuegos iguales. Hay gente de fuegos grandes y fuegos chicos y fuegos de todos los colores. Hay gente de fuego sereno, que ni se entera del viento, y gente de fuego loco, que llena el aire de chispas; algunos fuegos, fuegos bobos, no alumbran ni queman, pero otros arden la vida con tantas ganas que no se puede mirarlos sin parpadear, y quien se acerca se enciende.

Eduardo Galeano, El libro de los abrazos

30 de agosto de 2009




Salad Spinner

after Francis Picabia

You must grab time by the hair,
couple subconscious helixes
in the space of a secret.

You must tickle the improbable
and believe in the impossibility
of crossroads.

You must learn to suspend
ten grams of white, five grams of black
in hopes of true scarlet.

You must know how to fall from below
to favor the zenith
of mornings to the manner born.

You must love the four mouths
floating around the silky doubt
of dead assumptions.

Bill Berkson

20 de agosto de 2009





In un momento

In un momento
Sono sfiorite le rose
I petali caduti
Perché io non potevo dimenticare le rose
Le cercavamo insieme
Abbiamo trovato delle rose
Erano le sue rose erano le mie rose
Questo viaggio chiamavamo amore
Col nostro sangue e colle nostre lagrime facevamo le rose
Che brillavano un momento al sole del mattino
Le abbiamo sfiorite sotto il sole tra i rovi
Le rose che non erano le nostre rose
Le mie rose le sue rose

P.S. E così dimenticammo le rose.

(per Sibilla Aleramo)


Dino Campana


17 de agosto de 2009

9 de agosto de 2009




Queria de ti um país de bondade e de bruma
queria de ti o mar de uma rosa de espuma
.
Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação
.

8 de agosto de 2009




28

El aire es fresco, frío, por la calle.
Aposté mi fortuna a un solo envite
creyendo, apresurado, que tenía
los naipes de escalera de color.

Y resultó un farol al enseñarlos.

Nunca podré tener acceso al podio.
No es válida la entrada que poseo.
Toda mi vida he estado en la estación
donde no pasa el tren que yo aguardaba.


José María Fonollosa, Destrucción De La Mañana





30 de julho de 2009




The night is darkening round me,
The wild winds coldly blow;
But a tyrant spell has bound me,
And I cannot, cannot go.

The giant trees are bending
Their bare boughs weighed with snow;
The storm is fast descending,
And yet I cannot go.

Clouds beyond clouds above me,
Wastes beyond wastes below;
But nothing drear can move me:
I will not, cannot go.

Emily Brontë


Fui "agraciada" com um "selinho" da Lygia do Blog Paralelo e, agora, segundo as regras, é necessário:
. exibir o selo no blogue
. linkar o blogue que enviou o selo
. apresentar cinco desejos pessoais de consumo que contribuam para o glamour
. reenviar o selo a cinco "vítimas" ("blogueiras")

Cá vão os cinco desejos:
- pilhas de revistas de BD, de preferência os velhos almanaques da Disney (é pena não se poder comprar a vontade de os ler da infância)
- perfumes e afins (géis de banho, cremes corporais...- aceito donativos para este, por exemplo)
- livros (os de poesia são os mais difíceis de encontrar por cá, portanto, os mais cobiçados), cds e dvds - e estantes e caixas para arrumar o que já se amontoa
- um telemóvel novo, com um dispositivo qualquer que faça as pessoas responderem às mensagens que se enviam
- carro com motorista (ou, pelo menos, o motorista - dá logo outro charme)

Próximas vítimas:
Se calhar, o melhor é fugir às regras e deixar o "selinho" à disposição...

19 de julho de 2009



It’s deep into the night. You must have gone to bed.
The Milky Way lit up in celebration.
No need to rush. I have no reasons left
to stir you with the lightning of communications.
So to say, the incident dissolved.
The love boat smashed against reality.
We’re even. And we should absolve
mutual hurts, grudges and anxieties.
What eerie silence, as if the world went numb.
The sky bequeathed to us its constellations.
In moments like these I’d like to be the one
with centuries, and history and the creation.

Vladimir Maiakovsky

14 de julho de 2009


Gustav Klimt, Fulfillment
.

10 de julho de 2009


Inscrição na Areia

O meu amor não tem
importância nenhuma.
Não tem o peso nem
de uma rosa de espuma!

Desfolha-se por quem?
Para quem se perfuma?

O meu amor não tem
importância nenhuma.

Cecília Meireles

7 de julho de 2009


Marc Chagall, Sain Jean Cap Ferrat
.

4 de julho de 2009




J'ai tant rêvé de toi

J'ai tant rêvé de toi que tu perds ta réalité.
Est-il encore temps d'atteindre ce corps vivant
Et de baiser sur cette bouche la naissance
De la voix qui m'est chère?

J'ai tant rêvé de toi que mes bras habitués

En étreignant ton ombre
A se croiser sur ma poitrine ne se plieraient pas
Au contour de ton corps, peut-être.
Et que, devant l'apparence réelle de ce qui me hante
Et me gouverne depuis des jours et des années,
Je deviendrais une ombre sans doute.
O balances sentimentales.

J'ai tant rêvé de toi qu'il n'est plus temps

Sans doute que je m'éveille.
Je dors debout, le corps exposé
A toutes les apparences de la vie
Et de l'amour et toi, la seule
qui compte aujourd'hui pour moi,
Je pourrais moins toucher ton front
Et tes lèvres que les premières lèvres
et le premier front venu.

J'ai tant rêvé de toi, tant marché, parlé,

Couché avec ton fantôme
Qu'il ne me reste plus peut-être,
Et pourtant, qu'à être fantôme
Parmi les fantômes et plus ombre
Cent fois que l'ombre qui se promène
Et se promènera allègrement
Sur le cadran solaire de ta vie.

Robert Desnos, Corps et biens
.

30 de junho de 2009




EXORCISMO

Levanta-te, não chores.
Tens de saber que às vezes é difícil
matar o que nos mata,
ir aguçando o gume do cutelo
e movê-lo depois, logo em relâmpago,
até que o monstro seja degolado
e não fique sequer uma gota de sangue,
da cicuta voraz que lhe corria
plas veias tão geladas, sob a pele
que terias beijado quase a medo
em busca de um sabor que fosse o fogo
e o ar e a água,
mas era só veneno adocicado,
daquele que vicia sem parecer viciar
e nos deixa sem cura a vida inteira.

Levanta-te, bem sabes,
desde o tempo dos contos infantis,
que todo o mal procura disfarçar-se
em rostos como aquele,
na perfeição volátil desse abismo
a que chamam beleza e vai ardendo
em lânguidos sorrisos e olhares
feitos de pura seda, seduzindo
espíritos como o teu,
demasiado inocentes ou perversos
para desconfiar da eternidade
ou para resistir à luz fosforescente
que, obedecendo às leis da natureza,
sempre soube atrair até à morte
o alucinado voo das borboletas.

Levanta-te, vá lá, não tenhas medo
de apertar o gatilho as vezes necessárias
para que tudo morra - os estertores
da tua alma ou do teu corpo
mesmo assim doem menos, acredita,
que o travo torvo dos piores remorsos.
E se vires que é preciso
rasgar dentro de ti, antes de serem escritos,
os mil e um poemas
que haverias de ler, talvez sem esforço,
à flor daquela face, não hesites,
porque a felicidade tem um preço
e os versos, quaisquer versos, são apenas
a memória infiel deste vento que move
as árvores lá fora enquanto é noite,
mas que às primeiras horas da manhã
deixará elevar-se um nevoeiro
tão espesso e esbranquiçado, que o amor
será nesse momento uma palavra baça
que nada te dirá, a ti ou a ninguém.

Fernando Pinto do Amaral, Poemas Escolhidos (1990-2007)

.

27 de junho de 2009





Now I'm quietly waiting for
the catastrophe of my personality
to seem beautiful again,
and interesting, and modern.


The country is gray and
brown and white in trees,
snows and skies of laughter
always diminishing, less funny
not just darker, not just gray.


It may be the coldest day of
the year, what does he think of
that? I mean, what do I? And if I do,
perhaps I am myself again.


Frank O'Hara (Excerto do poema "Mayakovsky")

.


26 de junho de 2009





MUITO MAIS GRAVE
Todas as parcelas da minha vida têm algo teu
e isso na verdade não é nada de extraordinário
tu o sabes tão objectivamente como eu

no entanto há algo que gostaria de clarificar
quando digo todas as parcelas
não me refiro somente a esta de agora
a esta de esperar-te e aleluia encontrar-te
e caralho perder-te
e voltar a encontrar-te
e oxalá nada mais

não me refiro somente a que de repente digas
vou chorar
e eu com um discreto nó na garganta
bom chora
e que um lindo aguaceiro invisível nos ampare
e talvez por isso venha em seguida o sol

não me refiro somente a que dia após dia
aumente o stock das nossas pequenas
e decisivas cumplicidades
ou que eu possa ou acreditar que possa
converter os meus reveses em vitórias
ou que me faças o terno presente
do teu mais recente desespero

não
a coisa é muitíssimo mais grave

quando digo todas as parcelas
quero dizer que para além desse doce cataclismo
também estás a reescrever a minha infância
essa idade em que se diz coisas adultas e solenes
e os solenes adultos as celebram
e tu ao invés sabes que isso não serve
quero dizer que estás a rearmar a minha adolescência
esse tempo em que fui um velho carregado de receios
e tu sabes ao invés extrair desse páramo
o meu gérmen de alegria e regá-lo olhando-o

quero dizer que estás a sacudir a minha juventude
esse cântaro que ninguém nunca tomou entre as suas mãos
essa sombra que ninguém aproximou da sua sombra
e tu ao invés sabes estremecê-la
até que comecem a cair as folhas secas
e fique a armação da minha verdade sem proezas

quero dizer que estás a abraçar a minha maturidade
esta mistura de espanto e experiência
este estranho confim de angústia e neve
esta vela que ilumina a morte
este precipício da pobre vida

como vês é mais grave
muitíssimo mais grave
porque com estas ou com outras palavras
quero dizer que não és somente
a querida rapariga que és
mas também as esplêndidas
ou cautelosas mulheres
que quis ou quero

porque graças a ti descobri
(dirás que já era tempo
e com razão)
que o amor é uma baía linda e generosa
que se ilumina e se escurece
conforme venha a vida

uma baía onde os barcos
chegam e vão embora

chegam com pássaros e augúrios
e vão embora com sereias e neblinas
uma baía linda e generosa
onde os barcos chegam
e vão embora
mas tu
por favor
não vás embora.

Mario Benedetti
(Encontrado aqui)
.

23 de junho de 2009

Se há coisa que me enoja, é a cópia reles disfarçada: http://pripersi.blogspot.com/2008/08/em-pura-coincidncia.html

20 de junho de 2009

14 de junho de 2009






LOGO QUE PASSE A MONÇÃO



Num banco de névoas calmas quero ficar enterrado
Num casebre de bambú na minha esteira deitado
A fumar um narguilé até que passe a monção
Enquanto a chuva derrama a sua triste canção
____________________
Sei que tenho de partir logo que suba a maré
Mas até ela subir volto a encher o narguilé
Meu capitão já é hora de partir e levantar ferro
Não me quero ir embora diga que foi ao meu enterro

Deixem-me ficar deitado a ouvir a chuva a cair
Que ainda estou acordado só tenho a alma a dormir
Como a folha de bambú a deslizar na corrente
Apenas presa ao mundo por um fio de água morrente
__________________
Nos arrozais morre a chuva noutra água há-de nascer
Abatam-me ao efectivo também eu me vou sem morrer
Para quê ter de partir logo que passe a monção
Se encontrei toda a fortuna no lume deste morrão

Ópio bendito ópio minhas feridas mitiguei
Meu bálsamo para a dor de ser
Em ti me embalsamei
Ópio maldito ópio foi para isto que cheguei
Uma pausa no caminho
Numa névoa me tornei


Carlos Tê/ Rui Veloso, Auto da Pimenta

13 de junho de 2009






Não digas nada!
Não,nem a verdade!
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada!
Deixa esquecer.
_______________
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz...
Não digas nada.


Fernando Pessoa

16 de maio de 2009



Aunt Jennifer's Tigers


Aunt Jennifer's tigers prance across a screen,
Bright topaz denizens of a world of green.
They do not fear the men beneath the tree;
They pace in sleek chivalric certainty.


Aunt Jennifer's fingers fluttering through her wool
Find even the ivory needle hard to pull.
The massive weight of Uncle's wedding band
Sits heavily upon Aunt Jennifer's hand.


When Aunt is dead, her terrified hands will lie
Still ringed with ordeals she was mastered by.
The tigers in the panel that she made
Will go on prancing, proud and unafraid.


Adrienne Rich

25 de abril de 2009






Abril de Abril



Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.

Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.

Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.

Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.

Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.

Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas.

Manuel Alegre

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18 de abril de 2009




Nocturno

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...
-
Como um canto longínquo – triste e lento –
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...
-
A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.
-
E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!

Antero de Quental,
Sonetos
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