Às vezes, encontro-me nas palavras dos outros. Mais raramente, nas minhas. Por pura coincidência. Em pura coincidência.
3 de junho de 2013
ALEGREMENTE, NO AUTOCARRO
As crianças tristes passam alegres no autocarro,
cantando em altos berros e intrometendo-se com quem passa.
Vão todas ao Posto vacinar-se de graça.
A vacina é triste, as crianças são tristes,
mas passam todas, alegremente, no autocarro.
Os soldados tristes passam alegres no autocarro,
entoando as canções que cantavam nas romarias da sua terra.
Vão para o cais do embarque tomar o paquete que os levará para a guerra.
A guerra é triste, os soldados são tristes,
mas passam todos, alegremente, no autocarro.
Os operários tristes passam alegremente no autocarro,
cantando e gesticulando com a garrafa de vinho na mão.
Vão todos para a fábrica vigiar as máquinas e carregar num botão.
A fábrica é triste, os operários são tristes,
mas passam todos, alegremente, no autocarro.
Os camponeses tristes passam alegres no autocarro,
cantando e dando vivas ao longo do percurso.
Vão todos à cidade, de fato novo, aplaudir o discurso.
O discurso é triste, os camponeses são tristes,
mas passam todos, alegremente, no autocarro.
Alegremente, no autocarro.
António Gedeão, Obra Completa
25 de março de 2013
20 de outubro de 2012
Junto à água
Os homens temem as longas viagens,
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.
Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às veredas da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.
Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!
E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos
e sem escuridão, sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.
Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia.
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.
Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às veredas da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.
Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!
E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos
e sem escuridão, sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.
Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia.
7 de setembro de 2012
Imagens que passais pela retina
dos meus olhos, porque não vos fixais?
Que passais como a água cristalina
por uma fonte para nunca mais!....
Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
- Porque ides sem mim, não me levais?
Sem vós o que são os meus olhos abertos?
- O espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos...
Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão casual de meus dedos incertos,
- Estranha sombra em movimentos vãos.
Camilo Pessanha
30 de agosto de 2012
Amor à vista
A mulher que não há começa em ti
Começa em ti a sempre tão ausente
A sempre tão distante e tão aqui
Tão doente da partida e tão presente.
Começa em ti a sempre incomeçada
A que por nunca ser nunca perdi
A que era amor do amor: corpo de nada.
A mulher que não há começa em ti.
Começa em ti um tempo em que ajoelho
Tempo de amar ou templo: terra e mar.
Meus olhos deslumbrados com Açores
À vista: eu que sou Gonçalo Velho
Vivendo a glória extrema de chegar
Às tuas ilhas que direi de amores.
Manuel Alegre
11 de agosto de 2012
Song For The Last Act
Now that I have your face by heart, I look
Less at its features than its darkening frame
Where quince and melon, yellow as young flame,
Lie with quilled dahlias and the shepherd's crook.
Beyond, a garden, There, in insolent ease
The lead and marble figures watch the show
Of yet another summer loath to go
Although the scythes hang in the apple trees.
Now that I have your face by heart, I look.
Now that I have your voice by heart, I read
In the black chords upon a dulling page
Music that is not meant for music's cage,
Whose emblems mix with words that shake and bleed.
The staves are shuttled over with a stark
Unprinted silence. In a double dream
I must spell out the storm, the running stream.
The beat's too swift. The notes shift in the dark.
Now that I have your voice by heart, I read.
Now that I have your heart by heart, I see
The wharves with their great ships and architraves;
The rigging and the cargo and the slaves
On a strange beach under a broken sky.
O not departure, but a voyage done!
The bales stand on the stone; the anchor weeps
Its red rust downward, and the long vine creeps
Beside the salt herb, in the lengthening sun.
Now that I have your heart by heart, I see.
Less at its features than its darkening frame
Where quince and melon, yellow as young flame,
Lie with quilled dahlias and the shepherd's crook.
Beyond, a garden, There, in insolent ease
The lead and marble figures watch the show
Of yet another summer loath to go
Although the scythes hang in the apple trees.
Now that I have your face by heart, I look.
Now that I have your voice by heart, I read
In the black chords upon a dulling page
Music that is not meant for music's cage,
Whose emblems mix with words that shake and bleed.
The staves are shuttled over with a stark
Unprinted silence. In a double dream
I must spell out the storm, the running stream.
The beat's too swift. The notes shift in the dark.
Now that I have your voice by heart, I read.
Now that I have your heart by heart, I see
The wharves with their great ships and architraves;
The rigging and the cargo and the slaves
On a strange beach under a broken sky.
O not departure, but a voyage done!
The bales stand on the stone; the anchor weeps
Its red rust downward, and the long vine creeps
Beside the salt herb, in the lengthening sun.
Now that I have your heart by heart, I see.
Louise Bogan
28 de julho de 2012
Se quiseres que eu me perca
buscarei outra ilha.
Esperarei a sombra diante dos olhos,
o milhafre na ravina de crisântemos.
Ao longe, correndo para a primeira luz do dia,
estarei à tua espera,
acenando com a mão esquerda,
avançando sobre o mar.
Não te esqueças,
aprendi um dia como deus nos traz um sono
leve que nos cega.
Rui Coias
21 de julho de 2012
19 de julho de 2012
Once people get under my skin,
they never find the exit.
They romp around,
fill my insides with their song and dance,
make lots of noise, using my dumbness as their cover-up.
I’m full to bursting with wise men
and fools- they’ve utterly exhausted me!
So much so that my skin’s
quite worn through
by their heels, rubbing from inside!
Give me a chance to breathe!
It’s all impossible!
I’m stuffed to the gills
with those who’ve brought me so much joy
as well as those who’ve given most offence.
What has come over me?
What can I do with this great throng
stuck in my own small heart-
police are needed to keep order there!
I’ve gone a little cracked,
for there, in that secluded shade,
I’ve dropped none of the women
and none of them’s dropped me!
It’s awkward to revive dead friendships
however much you tire yourself with trying.
The only friends I’ve lost
were on the outside,
but of those inside I’ve lost nobody.
All the people in my life I’ve quarreled with,
or made friends with,
or only shaken hands with,
have merged in a new life under the old one’s skin-
a secret conflagration without flame.
The repossession of the unpossessable
is like a waterfall that rushes upward.
Those who have died
have been born again in me,
those who have not been born as yet
cry out.
My population is too large,
beyond the strength of just one man-
but then, a person would be incomplete
if he contained no others.
Yevgeny Yevtushenko
Tradução inglesa de Arthur Boyars e Simon Franklin
4 de julho de 2012
Le dernier poème
J'ai
rêvé tellement fort de toi,
J'ai
tellement marché, tellement parlé,
Tellement aimé ton ombre,
Qu'il ne me reste plus rien de toi,
Il me reste d'être l'ombre parmi les ombres
D'être cent fois plus ombre
que l'ombre
D'être l'ombre qui viendra et
reviendra
dans ta vie ensoleillée.
Robert Desnos
Tanto sonhei contigo,
andei tanto, falei
tanto,
tanto amei a tua sombra,
que já nada me resta de ti.
Eu só posso ser a
sombra de entre as sombras
de ser uma centena
de vezes mais que a sombra
de ser a sombra
que sempre virá e retorna
na tua vida cheia de
sol.
Tradução encontrada aqui
Sonhei tanto contigo,
Andei tanto, falei tanto,
Amei tanto a tua sombra,
Que não me resta mais nada de ti.
Resta-me ser a sombra entre as sombras
Ser cem vezes mais sombra que a sombra
Ser a sombra que virá e voltará
em tua vida ensolarada.
Andei tanto, falei tanto,
Amei tanto a tua sombra,
Que não me resta mais nada de ti.
Resta-me ser a sombra entre as sombras
Ser cem vezes mais sombra que a sombra
Ser a sombra que virá e voltará
em tua vida ensolarada.
Tradução encontrada aqui
1 de julho de 2012
Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une - é estar ausentes.
Reinaldo Ferreira
23 de maio de 2012
![]() |
| Foto de Mito |
fechar-me, calar-me, adormecer espantosamente.
Sem mover os dedos,
sem abrir os lábios,
irei devagar, mais tarde, à hora do sol que se
apaga,
à beira de um rio negro,
quando o coração pára.
Serei apenas um homem sem nome,
caminhando ao acaso, pelas ruas de uma cidade
que devora a sua luz.
Não quero ser mais nada.
Sou a estátua cega, sou de dentro, e por dentro
me perdi.
José Agostinho Baptista, Quatro Luas
21 de maio de 2012
Foto de Mito
.
.
e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia
Al Berto
20 de maio de 2012

Decepção à regra
Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?
João Luís Barreto Guimarães
29 de abril de 2012
Gosto de coisas tristes mas contentes. Não disse isto, desculpa, o que quero dizer é que gosto de coisas felizes mas tristes. Ora, "a mesma coisa", dirás! Talvez, mas o que te quero revelar é que sinto que sempre gostei de chorar quando estou alegre. A tristeza mais bela de todas é a felicidade com lágrimas nos olhos.Agora sim, exactamente isto. O contrário aqui não é verdade. As coisas tristes são realmente tristes, não havendo para mim qualquer beleza nelas. Ontem chorei no concerto dos Goldfrapp e pensei em ti. Não me perguntes porquê, porque não sei. Nem tudo tem que ter uma resposta. Chorei, admito, como um rapazinho que não aguenta a emoção de ver a mãe chegar de uma viagem muito longa.
Há muito tempo, durante a minha infãncia, o meu pai, fazia-me algo de muito parecido quando, religiosamente, chegava a casa por volta das seis e meia da tarde. Lembro-me bem, como se fosse hoje, que a minha mãe, conhecedora como ninguém da silhueta dele me dizia "vem ali em cima o teu pai" e eu, não duvidando nunca desta sensibilidade, corria de braços abertos a rua inteira para encontrar o regaço do meu pai, que me dava dois beijinhos e me trazia de volta, como recompensa, às cavalitas. Tinha seis anos, talvez menos, talvez mais, não sei, mas o que guardo daí era o meu pai parado no meio da rua, a rir-se, de braços abertos com se fosse um deus, orgulhoso e atento aos carros que passavam, à minha espera, para me atirar ao ar como só um pai sabe fazer.
E depois daí, do alto dos seus ombros, sentia-me maior do que tudo à minha volta, e acenava à minha mãe que, com um lenço branco e humor refinado, gritava “ai, que rico filhinho, ai que bela prendinha!”
Se um dia for pai, gostava de ter um filho que fizesse o mesmo por mim, que corresse para mim como eu corria para o meu, que me amasse tanto como ele amava (e ama, presumo) e me esperasse religiosamente como eu o fazia, todos os dias, esperando o sábio sinal da minha mãe que me dizia sempre, todos os dias antes de partir, "vai pelo passeio, pelo carreirinho (assim é que era), tem cuidado com os carros".
Ainda hoje, com 26 anos, perdi a esperança de fazer com que a minha mãe e o meu pai deixassem de fazer os mesmos pedidos, as mesmas recomendações, os mesmos avisos.Invariavelmente, “não chegues tarde a casa”, “fecha as portas do carro”, “telefona quando chegares”. Não há maneira de os fazer desistir, da mesma forma, que se torna complicado desistir de alguém, de fazer as mesmas perguntas, de clamar idênticos pedidos. Não há outra forma, a não ser habituarmo-nos a isto, mesmo que nos pareça igual a sempre, mas desde que nos saiba tão bem como das primeiras vezes.
E sendo assim, não resisto a uma estranha analogia entre tudo isto de que te falo e a paixão que sinto por ti.
A minha paixão por ti é eu ser orfão, viver num reformatório e esperar pela visita de alguém que me tire dali. Calma, ainda não é isto. A minha paixão por ti é estar numa fila imensa com meninos mais bonitos que eu, bem melhor tratados, mas mesmo assim, fazendo tudo para que me escolhas a mim e me leves para fora. Porque é a ti que eu quero e a mais ninguém. E mesmo quieto, estou aos saltos cá dentro quando te vejo, mesmo mudo, estou a gritar para que me leves daqui, mesmo aqui, entre todos, faço força com os olhos para que fiquem maiores à tua passagem. E mesmo que não me leves desta vez, fico à espera de outra, e mais outra, até ao dia, em que não sobra mais ninguém, em que só estou eu ali, sozinho, sem mais meninos bonitos, sem mais nada, quase nu, com uma roupa velha e suja, à espera que me agarres. E se, mesmo assim, não o fizeres, quero que saibas que dali não saio sem ti, mesmo que ali fique, para sempre, toda a vida, na certeza de que não me vendi a outra pessoa, na esperança de que tu voltes. Porque é o teu regresso que me importa, porque é esse bocadinho em que te vejo que me faz ficar de lágrimas nos olhos mas contente cá por dentro. Porque é mesmo isto, é mesmo isto que eu penso, a mais bela das tristezas é a felicidade com lágrimas nos olhos.
Fernando Alvim, No dia em que fugimos tu não estavas em casa
25 de abril de 2012
10 de abril de 2012
8 de abril de 2012
Primeiro prenúncio de trovoada de depois de amanhã.
As primeiras nuvens, brancas, pairam baixas no céu mortiço
Da trovoada de depois de amanhã?
Tenho a certeza, mas a certeza é mentira.
Ter certeza é não estar vendo.
Depois de amanhã não há.
O que há é isto:
Um céu azul, um pouco baço, umas nuvens brancas no horizonte,
Com um retoque de sujo em baixo como se viesse negro depois,
Isto é o que hoje é,
E, como hoje por enquanto é tudo, isto é tudo.
Quem sabe se eu estarei morto depois de amanhã?
Se eu estiver morto depois de amanhã, a trovoada de depois de amanhã
Será outra trovoada do que seria se eu não tivesse morrido.
Bem sei que a trovoada não cai da minha vista,
Mas se eu não estiver no mundo,
O mundo será diferente —
Haverá eu a menos —
E a trovoada cairá num mundo diferente e não será a mesma trovoada.
Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos
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