30 de julho de 2009




The night is darkening round me,
The wild winds coldly blow;
But a tyrant spell has bound me,
And I cannot, cannot go.

The giant trees are bending
Their bare boughs weighed with snow;
The storm is fast descending,
And yet I cannot go.

Clouds beyond clouds above me,
Wastes beyond wastes below;
But nothing drear can move me:
I will not, cannot go.

Emily Brontë


Fui "agraciada" com um "selinho" da Lygia do Blog Paralelo e, agora, segundo as regras, é necessário:
. exibir o selo no blogue
. linkar o blogue que enviou o selo
. apresentar cinco desejos pessoais de consumo que contribuam para o glamour
. reenviar o selo a cinco "vítimas" ("blogueiras")

Cá vão os cinco desejos:
- pilhas de revistas de BD, de preferência os velhos almanaques da Disney (é pena não se poder comprar a vontade de os ler da infância)
- perfumes e afins (géis de banho, cremes corporais...- aceito donativos para este, por exemplo)
- livros (os de poesia são os mais difíceis de encontrar por cá, portanto, os mais cobiçados), cds e dvds - e estantes e caixas para arrumar o que já se amontoa
- um telemóvel novo, com um dispositivo qualquer que faça as pessoas responderem às mensagens que se enviam
- carro com motorista (ou, pelo menos, o motorista - dá logo outro charme)

Próximas vítimas:
Se calhar, o melhor é fugir às regras e deixar o "selinho" à disposição...

19 de julho de 2009



It’s deep into the night. You must have gone to bed.
The Milky Way lit up in celebration.
No need to rush. I have no reasons left
to stir you with the lightning of communications.
So to say, the incident dissolved.
The love boat smashed against reality.
We’re even. And we should absolve
mutual hurts, grudges and anxieties.
What eerie silence, as if the world went numb.
The sky bequeathed to us its constellations.
In moments like these I’d like to be the one
with centuries, and history and the creation.

Vladimir Maiakovsky

14 de julho de 2009


Gustav Klimt, Fulfillment
.

10 de julho de 2009


Inscrição na Areia

O meu amor não tem
importância nenhuma.
Não tem o peso nem
de uma rosa de espuma!

Desfolha-se por quem?
Para quem se perfuma?

O meu amor não tem
importância nenhuma.

Cecília Meireles

7 de julho de 2009


Marc Chagall, Sain Jean Cap Ferrat
.

4 de julho de 2009




J'ai tant rêvé de toi

J'ai tant rêvé de toi que tu perds ta réalité.
Est-il encore temps d'atteindre ce corps vivant
Et de baiser sur cette bouche la naissance
De la voix qui m'est chère?

J'ai tant rêvé de toi que mes bras habitués

En étreignant ton ombre
A se croiser sur ma poitrine ne se plieraient pas
Au contour de ton corps, peut-être.
Et que, devant l'apparence réelle de ce qui me hante
Et me gouverne depuis des jours et des années,
Je deviendrais une ombre sans doute.
O balances sentimentales.

J'ai tant rêvé de toi qu'il n'est plus temps

Sans doute que je m'éveille.
Je dors debout, le corps exposé
A toutes les apparences de la vie
Et de l'amour et toi, la seule
qui compte aujourd'hui pour moi,
Je pourrais moins toucher ton front
Et tes lèvres que les premières lèvres
et le premier front venu.

J'ai tant rêvé de toi, tant marché, parlé,

Couché avec ton fantôme
Qu'il ne me reste plus peut-être,
Et pourtant, qu'à être fantôme
Parmi les fantômes et plus ombre
Cent fois que l'ombre qui se promène
Et se promènera allègrement
Sur le cadran solaire de ta vie.

Robert Desnos, Corps et biens
.

30 de junho de 2009




EXORCISMO

Levanta-te, não chores.
Tens de saber que às vezes é difícil
matar o que nos mata,
ir aguçando o gume do cutelo
e movê-lo depois, logo em relâmpago,
até que o monstro seja degolado
e não fique sequer uma gota de sangue,
da cicuta voraz que lhe corria
plas veias tão geladas, sob a pele
que terias beijado quase a medo
em busca de um sabor que fosse o fogo
e o ar e a água,
mas era só veneno adocicado,
daquele que vicia sem parecer viciar
e nos deixa sem cura a vida inteira.

Levanta-te, bem sabes,
desde o tempo dos contos infantis,
que todo o mal procura disfarçar-se
em rostos como aquele,
na perfeição volátil desse abismo
a que chamam beleza e vai ardendo
em lânguidos sorrisos e olhares
feitos de pura seda, seduzindo
espíritos como o teu,
demasiado inocentes ou perversos
para desconfiar da eternidade
ou para resistir à luz fosforescente
que, obedecendo às leis da natureza,
sempre soube atrair até à morte
o alucinado voo das borboletas.

Levanta-te, vá lá, não tenhas medo
de apertar o gatilho as vezes necessárias
para que tudo morra - os estertores
da tua alma ou do teu corpo
mesmo assim doem menos, acredita,
que o travo torvo dos piores remorsos.
E se vires que é preciso
rasgar dentro de ti, antes de serem escritos,
os mil e um poemas
que haverias de ler, talvez sem esforço,
à flor daquela face, não hesites,
porque a felicidade tem um preço
e os versos, quaisquer versos, são apenas
a memória infiel deste vento que move
as árvores lá fora enquanto é noite,
mas que às primeiras horas da manhã
deixará elevar-se um nevoeiro
tão espesso e esbranquiçado, que o amor
será nesse momento uma palavra baça
que nada te dirá, a ti ou a ninguém.

Fernando Pinto do Amaral, Poemas Escolhidos (1990-2007)

.

27 de junho de 2009





Now I'm quietly waiting for
the catastrophe of my personality
to seem beautiful again,
and interesting, and modern.


The country is gray and
brown and white in trees,
snows and skies of laughter
always diminishing, less funny
not just darker, not just gray.


It may be the coldest day of
the year, what does he think of
that? I mean, what do I? And if I do,
perhaps I am myself again.


Frank O'Hara (Excerto do poema "Mayakovsky")

.


26 de junho de 2009





MUITO MAIS GRAVE
Todas as parcelas da minha vida têm algo teu
e isso na verdade não é nada de extraordinário
tu o sabes tão objectivamente como eu

no entanto há algo que gostaria de clarificar
quando digo todas as parcelas
não me refiro somente a esta de agora
a esta de esperar-te e aleluia encontrar-te
e caralho perder-te
e voltar a encontrar-te
e oxalá nada mais

não me refiro somente a que de repente digas
vou chorar
e eu com um discreto nó na garganta
bom chora
e que um lindo aguaceiro invisível nos ampare
e talvez por isso venha em seguida o sol

não me refiro somente a que dia após dia
aumente o stock das nossas pequenas
e decisivas cumplicidades
ou que eu possa ou acreditar que possa
converter os meus reveses em vitórias
ou que me faças o terno presente
do teu mais recente desespero

não
a coisa é muitíssimo mais grave

quando digo todas as parcelas
quero dizer que para além desse doce cataclismo
também estás a reescrever a minha infância
essa idade em que se diz coisas adultas e solenes
e os solenes adultos as celebram
e tu ao invés sabes que isso não serve
quero dizer que estás a rearmar a minha adolescência
esse tempo em que fui um velho carregado de receios
e tu sabes ao invés extrair desse páramo
o meu gérmen de alegria e regá-lo olhando-o

quero dizer que estás a sacudir a minha juventude
esse cântaro que ninguém nunca tomou entre as suas mãos
essa sombra que ninguém aproximou da sua sombra
e tu ao invés sabes estremecê-la
até que comecem a cair as folhas secas
e fique a armação da minha verdade sem proezas

quero dizer que estás a abraçar a minha maturidade
esta mistura de espanto e experiência
este estranho confim de angústia e neve
esta vela que ilumina a morte
este precipício da pobre vida

como vês é mais grave
muitíssimo mais grave
porque com estas ou com outras palavras
quero dizer que não és somente
a querida rapariga que és
mas também as esplêndidas
ou cautelosas mulheres
que quis ou quero

porque graças a ti descobri
(dirás que já era tempo
e com razão)
que o amor é uma baía linda e generosa
que se ilumina e se escurece
conforme venha a vida

uma baía onde os barcos
chegam e vão embora

chegam com pássaros e augúrios
e vão embora com sereias e neblinas
uma baía linda e generosa
onde os barcos chegam
e vão embora
mas tu
por favor
não vás embora.

Mario Benedetti
(Encontrado aqui)
.

23 de junho de 2009

Se há coisa que me enoja, é a cópia reles disfarçada: http://pripersi.blogspot.com/2008/08/em-pura-coincidncia.html

20 de junho de 2009

14 de junho de 2009






LOGO QUE PASSE A MONÇÃO



Num banco de névoas calmas quero ficar enterrado
Num casebre de bambú na minha esteira deitado
A fumar um narguilé até que passe a monção
Enquanto a chuva derrama a sua triste canção
____________________
Sei que tenho de partir logo que suba a maré
Mas até ela subir volto a encher o narguilé
Meu capitão já é hora de partir e levantar ferro
Não me quero ir embora diga que foi ao meu enterro

Deixem-me ficar deitado a ouvir a chuva a cair
Que ainda estou acordado só tenho a alma a dormir
Como a folha de bambú a deslizar na corrente
Apenas presa ao mundo por um fio de água morrente
__________________
Nos arrozais morre a chuva noutra água há-de nascer
Abatam-me ao efectivo também eu me vou sem morrer
Para quê ter de partir logo que passe a monção
Se encontrei toda a fortuna no lume deste morrão

Ópio bendito ópio minhas feridas mitiguei
Meu bálsamo para a dor de ser
Em ti me embalsamei
Ópio maldito ópio foi para isto que cheguei
Uma pausa no caminho
Numa névoa me tornei


Carlos Tê/ Rui Veloso, Auto da Pimenta

13 de junho de 2009






Não digas nada!
Não,nem a verdade!
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada!
Deixa esquecer.
_______________
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz...
Não digas nada.


Fernando Pessoa

16 de maio de 2009



Aunt Jennifer's Tigers


Aunt Jennifer's tigers prance across a screen,
Bright topaz denizens of a world of green.
They do not fear the men beneath the tree;
They pace in sleek chivalric certainty.


Aunt Jennifer's fingers fluttering through her wool
Find even the ivory needle hard to pull.
The massive weight of Uncle's wedding band
Sits heavily upon Aunt Jennifer's hand.


When Aunt is dead, her terrified hands will lie
Still ringed with ordeals she was mastered by.
The tigers in the panel that she made
Will go on prancing, proud and unafraid.


Adrienne Rich

25 de abril de 2009






Abril de Abril



Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.

Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.

Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.

Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.

Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.

Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas.

Manuel Alegre

.

18 de abril de 2009




Nocturno

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...
-
Como um canto longínquo – triste e lento –
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...
-
A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.
-
E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!

Antero de Quental,
Sonetos
.

17 de abril de 2009



I had a farm in Africa at the foot of the Ngong Hills. The Equator runs across these highlands, a hundred miles to the North, and the farm lay at an altitude of over six thousand feet. In the day-time you felt that you had got high up, near to the sun, but the early mornings and evenings were limpid and restful, and the nights were cold. (…)
The chief feature of the landscape, and of your life in it, was the air. Looking back on a sojourn in the African highlands, you are struck by your feeling of having lived for a time up in the air. (…) Up in this air you breathed easily, drawing in a vital assurance and lightness of heart. In the highlands you woke up in the morning and thought: Here I am, where I ought to be.

Karen Blixen, Out of Africa

16 de abril de 2009






How I Became Charming, Likeable and Delightful



I sleep very late. I commit suicide at 65%. My life is very cheap, it's
only 30% of life for me. My life has 30% of life. It lacks arms,
strings and a few buttons. 5% is devoted to a state of semi-lucid
stupor accompanied by anaemic crackling. This 5% is called
DADA. So life is cheap. Death is a bit more expensive. But life is
charming and death is equally charming.
A few days ago I was at a meeting of imbeciles. There were a lot of
people there. Everyone was charming. Tristan Tzara, a small,
absurd and insignificant individual was giving a lecture on the art of
becoming charming. He was charming, at that. Everyone is
charming. And witty. It's delightful, isn't it? Everyone is delightful,
at that. 9 degrees below zero. It's charming, isn't it? No, it isn't
charming. God isn't up to it. He isn't even in the directory. But
even so he's charming.
Ambassadors, poets, counts, princes, musicians, journalists, actors,
writers, diplomats, directors, dressmakers, socialists, princesses
and baronesses are charming.
You're all of you charming, very subtle, witty and delightful.
Tristan Tzara says to you: he's quite willing to do something else,
but he prefers to remain an idiot, a practical joker and a hoaxer. Be
sincere for a moment: what I've just said to you - is it charming
or idiotic?



Tristan Tzara
.

11 de abril de 2009




Coming To This




We have done what we wanted.
We have discarded dreams, preferring the heavy industry
of each other, and we have welcomed grief
and called ruin the impossible habit to break.


And now we are here.
The dinner is ready and we cannot eat.
The meat sits in the white lake of its dish.
The wine waits.


Coming to this
has its rewards: nothing is promised, nothing is taken away.
We have no heart or saving grace,
no place to go, no reason to remain.



Mark Strand



.