30 de janeiro de 2009


11 de janeiro de 2009




Mar


Nunca conseguiu viver longe do mar. A sua adolescência ficara cheia de dunas e de camarinhas, de falésias e águias, de tempestades, de nomes de barcos e de peixes; de aves e de luz coalhada à roda duma ilha.
Conhecera a ansiedade daqueles que, ao entardecer, olham meio cegos a vastidão incendiada do oceano - e ninguém sabe se esperam alguma coisa, alguma revelação, ou se estão ali sentados, apenas, para morrer.
Aprendera, também, que o mar, aquele mar - tarde ou cedo — só existiria dentro de si: como uma dor afiada, como um vestígio qualquer a que nos agarramos para suportar a melancólica travessia do mundo.
Depois, partiu para longe. E durante anos recordou, em sonhos, o mar avistado pela última vez ao fundo das ruas. Procurou-o sempre por onde andou, obsessivamente — mas nunca chegou a encontrá-lo. (...)


Al Berto, O Anjo Mudo


26 de dezembro de 2008





entrevista

[...]
mudo todos os dias de roupa inte
rior. sim, claro que tenho orgulho ni
sso. porquê? porque é higiénico, qu
e é que quer dizer higiénico? lim
po, limpo, mas a pergunta é absurd
a, totalmente absurda, não tem res
posta, é totalmente absurda, lamen
to ter de dizê-lo, mas estas pergu
ntas todas são muito estranhas.

qual é a minha opinião acerca d
este livro? não sei, não o li. se g
ostaria de o ler? não sei, precisa
ria de lê-lo primeiro, para respo
nder a essa questão, mas acho tud
o isto muito duvidoso, estas ques
tões, estes temas, tudo isto, não s
ei, não me está a agradar nada,
de resto são horas de me retirar.

uma última declaração? com todo o
gosto: não tenho dúvidas de que
nada nos impede de continuarmos
como até aqui, e é isso que me dá
confiança no futuro, pois o futuro
só é possível se não deixarmos de
ser o que sempre fomos no passado.





Alberto Pimenta

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26 de novembro de 2008



..
.
Homenagem a Ricardo Reis


..............I


Não creias, Lídia, que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiámos colher.


Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.


Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não-vivido deixa.


Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo


Sophia de Mello Breyner Andresen, Dual


23 de novembro de 2008







Elogio da Distância


Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.




Aqui, coração
que andou entre os homens, arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:




Mais negro no negro, estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.




Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.




Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.




Na fonte dos teus olhos
um enforcado estrangula o baraço.

Paul Celan, Papoila e Memória
Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno

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14 de novembro de 2008


Amadeo de Souza-Cardoso, «Entrada»
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7 de novembro de 2008





É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.


É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.


O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.


O que é preciso esquecer é o dia carregado de actos,
a ideia de recompensa e de glória.


O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.


Cecília Meireles


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4 de novembro de 2008



This Happened

A student, a young woman, in a fourth-floor hallway of her lycée,
perched on the ledge of an open window chatting with friends between classes;
a teacher passes and chides her, Be careful, you might fall, almost banteringly chides her, You might fall,
and the young woman, eighteen, a girl really, though she wouldn't think that,
as brilliant as she is, first in her class, and Beautiful, too, she's often told,
smiles back, and leans into the open window, which wouldn't even be open if it were winter, if it were winter someone would have closed it (Close it!),
leans into the window, farther, still smiling, farther and farther,
though it takes less time than this, really an instant, and lets herself fall. Herself fall.

A casual impulse, a fancy, never thought of until now, hardly thought of even now... No, more than impulse or fancy, the girl knows what she's doing,
the girl means something, the girl means to mean, because, it occurs to her in that instant, that beautiful or not, bright yes or no,
she's not who she is, she's not the person she is, and the reason, she suddenly knows,
is that there's been so much premeditation where she is, so much plotting and planning,
there's hardly a person where she is, or if there is, it's not her, or not wholly her,
it's a self inhabited, lived in by her, and seemingly even as she thinks it she knows what's been missing: grace, not premeditation but grace,
a kind of being in the world spontaneously, with grace.

Weightfully upon me was the world.
Weightfully this self which graced the world yet never wholly itself.
Weightfully this self which weighed upon me,
the release from which is what I desire and what I achieve.
And the girl remembers, in this infinite instant already so many times divided, the sadness she felt once, hardly knowing she felt it, merely to inhabit herself.
Yes, the girl falls, absurd to fall, even the earth with its compulsion to take unto itself all that falls must know that falling is absurd, yet the falling girl isn't myself,
or she is myself, but a self I took of my own volition unto myself.
Forever. With grace. This happened.


C. K. Williams




1 de novembro de 2008



Não faço a menor ideia de como nasce o amor e tenho imenso medo de descobrir como ele acaba.
Esta ideia nem parece minha, mas aconteceu-me agora mesmo, depois de assistir a uma cena esquisita aqui dentro de minha casa.
Na minha casa acontecem muitas cenas esquisitas, vais ficar a conhecê-las todas, portanto, aguenta-te e observa.
Está ali uma mulher a chorar, tem que se lhe diga, mas já revelo quem ela é. Agora quero que saibas quem eu sou.
Chamo-me Maria Ana. Isso mesmo, Maria Ana e não Mariana, há muita gente que se engana e eu passo a vida a corrigir. O nome foi escolhido pela minha avó Lupita, que se chama na realidade Guadalupe, é um bocado gorda, um grande bocado louca e ainda por cima é uma espanhola que fala muito. Vive em Madrid ao lado de um museu que se chama Prado e quando eu era pequena julgava que era um museu sobre vacas e ovelhas, pois essas andam sempre no prado, com as moscas, os cães e os pastores, e afinal é um museu dedicado a obras de pintura, é mesmo uma das maiores galerias do Mundo e expõe obras que foram pintadas entre os séculos XV e XIX, fui lá com a minha avó Lupita que gosta muito de ir a toda a parte e adorei e conheci Goya, as pinturas dele - e Goya é um dos maiores pintores de Espanha e isso.
Chamo-me Maria Ana - e não Mariana. Repito, porque quase toda a gente troca o meu nome.

Alexandre Honrado, A família que nao cabia dentro de casa
,

27 de outubro de 2008

Máquina de escrever de Fernando Pessoa



And death shall have no dominion.
Dead men naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.



And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan't crack;
And death shall have no dominion.



And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.
Dylan Thomas


25 de outubro de 2008


The Traveller




They pointed me out on the highway, and they said
'That man has a curious way of holding his head.'


They pointed me out on the beach; they said 'That man
Will never become as we are, try as he can.'


They pointed me out at the station, and the guard
Looked at me twice, thrice, thoughtfully & hard.
I took the same train that the others took,
To the same place. Were it not for that look
And those words, we were all of us the same.
I studied merely maps. I tried to name
The effects of motion on the travellers,
I watched the couple I could see, the curse
And blessings of that couple, their destination,
The deception practised on them at the station,
Their courage. When the train stopped and they knew
The end of their journey, I descended too.


John Berryman
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23 de outubro de 2008




Amélia Pinto Pais, no seu Ao longe os barcos de flores, atribui generosamente a este blogue o prémio Dardos, gesto que, uma vez mais, agradeço. Contrariando as regras, resolvi,antes, destacar alguns blogues inactivos, dos quais tenho saudades:

asa de papel com chá

mitografias

o misantropo enjaulado

onbubilation

prazeres minúsculos

rainsong

turno da noite

vulgar de lineu




Informações sobre o Prémio Dardos:


Com o Prémio Dardos reconhecem-se os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.Ao recebermos e aceitarmos o “Prémio Dardos” devemos seguir algumas regras:


1. - Exibir a imagem do selo;


2. - Linkar o blogue que lhe atribuiu o prémio;


3. - Entregar o Prémio Dardos a quinze (15) outros blogues .

17 de outubro de 2008





Nascimento último

Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.
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António Ramos Rosa



15 de outubro de 2008




APOSTILA

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha...
O trabalho honesto e superior...
O trabalho à Virgílio, à Mílton...
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos - nem mais nem menos -
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)...
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos -
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo...
Sim, verbalismo...
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
Não ter um acto indefinido nem factício...

Não ter um movimento desconforme com propósitos...
Boas maneiras da alma...
Elegância de persistir...

Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajaras tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto a vida?)

Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.

Álvaro de Campos

13 de outubro de 2008



33


Fácil palabra. Nunca hubo palabra
Fácil para entregar ni recibirse.
Siempre el trayecto le cortó las alas,
El aire avaro le robó matices
Y ese fervor con que la pronunciamos
Redujo la fragancia de su origen.
Aprende en ello que si amor te digo
Es más amor de lo que tú percibes:
Que te llega el reflejo y eso basta
Para que te circunde e ilumine.


Hugo Lindo



12 de outubro de 2008






Não tenho grande fé de encontrar-te
na vida eterna.
Era já problemático falar-te
na terrena.
A culpa é do sistema
das comunicações.
Descobrem-se muitas mas não aquela
que tornaria ridículas, e até inúteis,
as outras.




Eugenio Montale (Tradução de David Mourão-Ferreira)


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9 de outubro de 2008



God


God is a concept

By which we measure

Our pain

I'll say it again

God is a concept

By which we measure

Our pain


I don't believe in magic

I don't believe in I-ching

I don't believe in Bible

I don't believe in tarot

I don't believe in Hitler

I don't believe in Jesus

I don't believe in Kennedy

I don't believe in Buddha

I don't believe in Mantra

I don't believe in Gita

I don't believe in Yoga

I don't believe in kings

I don't believe in Elvis

I don't believe in Zimmerman

I don't believe in Beatles

I just believe in me

Yoko and me

And that's reality


The dream is over

What can I say?

The dream is over

Yesterday

I was the Dreamweaver

But now I'm reborn

I was the Walrus

But now I'm John

And so dear friends

You'll just have to carry on

The dream is over


John Lennon
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6 de outubro de 2008

Foto de B.Berenika




Se eu pudesse dar-te aquilo que não tenho
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo com que sonhas
e o que só por mim poderá ter sonhado


Se eu pudesse dar-te o sopro que me foge
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo que descubro
e descobrir-te o que de mim se esconde


Então serias aquele que existe
e o que só por mim poderá ter sonhado



Ana Hatherly


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4 de outubro de 2008

Dia Mundial do Animal



2 de outubro de 2008






The house was quiet and the world was calm.
The reader became the book; and summer night
Was like the conscious being of the book.
The house was quiet and the world was calm.
The words were spoken as if there was no book,
Except that the reader leaned above the page,
Wanted to lean, wanted much most to be
The scholar to whom the book is true, to whom
The summer night is like a perfection of thought.
The house was quiet because it had to be.
The quiet was part of the meaning, part of the mind:
The access of perfection to the page.
And the world was calm. The truth in a calm world,
In which there is no other meaning, itself
Is calm, itself is summer and night, itself
Is the reader leaning late and reading there.


Wallace Stevens
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