30 de julho de 2007


Mário Quintana (1906-1994)




Poema da gare de Astapovo


O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,
Contra uma parede nua...
Sentou-se... e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali à sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A Morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância!

Mário Quintana

2 comentários:

Cymbron disse...

No dia 30 desapareceu também um grande escritor... Antoine de Saint-Exupéry, que para quem não sabe também era aviador da França durante a segunda guerra mundial.
Ele escreveu qualquer coisa que lembrei lá em casa...
Jinho

Graça disse...

É verdade, Exupéry escreveu muitas coisas, como dizes, e os seus muitos voos são sobejamente conhecidos. Simplesmente, como é fácil reparar, não "coincido" com a morte... nem com todas as vidas...

Jinho