8 de Novembro de 2009





Caramba

Ó senhor da loja
já que a vida é curta
diga-me lá, se souber
quantos metros tem a dor

E já que ainda por cima
a vida é pesada
diga-me lá, se puder
quantos quilos tem o amor

E já que a paciência
tem os seus limites
diga-me lá quantos são
que é p´ra eu saber se espero ou não
quando for desesperar

Já que a vida é curta
e o futuro, diz que está aqui já
(Sei lá)
já que o futuro vem
em peças separadas p´ra montar
(Ah! Ah! Ah!)
Antes que se esgote
reserve desde já o seu exemplar

Caramba
está-se p´ráqui a dançar na corda bamba
sem se saber para que lado é que se cai
nem com que pé é que se samba

Ó senhor da loja
já que a vida é bela
diga-me lá, se souber
em que espelho a devo olhar

Mas se por outro lado
diz que a vida é dura
arranje-me aí, se tiver
um capacete p´ra eu marrar

E já que a vida é feita
de pequenos nadas
guarde-me aí quatro ou cinco
que é p´ra quando for domingo
eu os poder saborear

Já que a vida é curta
e o futuro diz que está aqui já
(Sei lá)
Já que o futuro vem
em peças separadas p´ra montar
(Ah! Ah! Ah!)
Antes que se esgote
Reserve desde já o seu exemplar

Caramba
está-se p´ráqui a dançar na corda bamba
sem se saber para que lado é que se cai
nem com que pé é que se samba

Ó senhor da loja
já que a vida é breve
arranje-me aí os ponteiros
dum relógio que atrasar

E já que no fundo
vai tudo a dar ao mesmo
diga-me se o mesmo é mesmo
tudo o que ainda vai mudar

E já que é preciso
deitar contas à vida
desconte-me aí os meses
em que apenas fiz as vezes
doutro que não era eu

Já que a vida é curta
e o futuro diz que está aqui já
(Sei lá)
Já que o futuro vem
em peças separadas p´ra montar
(Ah! Ah! Ah!)
Antes que se esgote
Reserve desde já o seu exemplar

Caramba
está-se p´ráqui a dançar na corda bamba

Sérgio Godinho (letra e música)

7 de Novembro de 2009



Soneto à maneira de Camões

Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é meu tormento.

Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês - pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.

Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.
.
Sophia de Mello Breyner Andresen
.

13 de Outubro de 2009




LENGHT OF MOON

Then the golden hour
Will tick its last
And the flame will go down in the flower.
A briefer length of moon
Will mark the sea-line and the yellow dune.
Then we may think of this, yet
There will be something forgotten
And something we should forget.
It will be like all things we know:
A stone will fail; a rose is sure to go.
It will be quiet then and we may stay long at the picket gate
But there will be less to say.

Arna Bontemps

4 de Outubro de 2009




Cigarettes And Whiskey And Wild, Wild Women


(from a song)


Perhaps I was born kneeling,
born coughing on the long winter,
born expecting the kiss of mercy,
born with a passion for quickness
and yet, as things progressed,
I learned early about the stockade
or taken out, the fume of the enema.
By two or three I learned not to kneel,
not to expect, to plant my fires underground
where none but the dolls, perfect and awful,
could be whispered to or laid down to die.

Now that I have written many words,
and let out so many loves, for so many,
and been altogether what I always was—
a woman of excess, of zeal and greed,
I find the effort useless.
Do I not look in the mirror,
these days,
and see a drunken rat avert her eyes?
Do I not feel the hunger so acutely
that I would rather die than look
into its face?
I kneel once more,
in case mercy should come
in the nick of time.

Anne Sexton

.

26 de Setembro de 2009




I

Time present and time past
Are both perhaps present in time future,
And time future contained in time past.
If all time is eternally present
All time is unredeemable.
What might have been is an abstraction
Remaining a perpetual possibility
Only in a world of speculation.
What might have been and what has been
Point to one end, which is always present.
Footfalls echo in the memory
Down the passage which we did not take
Towards the door we never opened
Into the rose-garden. My words echo
Thus, in your mind.


T. S. Eliot, Four Quartets, "Burnt Norton"(excerto)

,

25 de Setembro de 2009


24 de Setembro de 2009



Às vezes sentia que as suas palavras não lhe per­tenciam e frequentemente surpreendia-se a falar sozinho como se fosse um outro que falasse com ele. Um médico de Paris diagnosticou-lhe histeria e prescreveu-lhe um tratamento eléctrico. Antero anotou que sofria de infinito e talvez fosse uma doença mais plausível para ele. Talvez estivesse apenas cansado da forma transitória e imperfeita do ideal e da paixão, e a sua ansiedade encaminhava-se já para uma outra ordem geométrica. Nos seus escritos começou a aparecer a palavra Nada, que lhe parecia a forma mais perfeita de perfeição. Ia já a entrar no seu quadragésimo nono ano e regressou à sua ilha.
Na manhã do dia 11 de Setembro de 1891, saiu da sua casa de Ponta Delgada, desceu a pé a íngreme rua cheia de sombra até à Igreja Matriz e entrou numa pequena espingardaria da esquina. Vestia um fato preto e sobre a camisa branca levava uma gravata segurada com um alfinete com uma concha. O proprietário era um homem amável e gordo que gostava de cães e de gravuras antigas. Havia um ventilador de latão que girava lenta­mente no tecto. O proprietário mostrou ao cliente uma bela gravura seiscentista, comprada recente­mente, que representava uma matilha de cães perseguindo um veado. O velho lojista tinha sido amigo de seu pai, e Antero lembrou-lhe que, em menino, os dois homens o levavam com eles à feira de Caloura, onde havia os cavalos mais belos de São Miguel. Ficaram longamente a falar de cães e de cavalos, depois Antero comprou um pequeno revólver. Quando saiu da loja o campanário da Matriz estava a bater as onze. Ele percorreu lentamente toda a beira-mar até à capitania do porto e deteve-se longamente no cais a olhar para os veleiros.
.
Antonio Tabucchi, "Antero de Quental. Uma vida" (excerto)

19 de Setembro de 2009




IV

Eu dantes tinha olhos verdes,
só agora reparei.
Verdes, viam tudo verde...
Porque eram verdes não sei.

Sorriam àquela flor
que havia na água parada
(verde flor na verde água
da vida transfigurada).

Hoje olham e reconhecem
que há muito mais cores para ver:
cor de flor que logo esquecem,
cor de charco a apodrecer.

Maria Judite de Carvalho, A Flor que Havia na Água Parada

9 de Setembro de 2009

The Beatles Official Widget

4 de Setembro de 2009




Un hombre del pueblo de Neguá, en la costa de Colombia, pudo subir al cielo. A la vuelta, contó. Dijo que había contemplado, desde allá arriba, la vida humana. Y dijo que somos un mar de fueguitos.- El mundo es eso - reveló- un montón de gente, un mar de fueguitos. Cada persona brilla con la luz propia entre todas las demás. No hay dos fuegos iguales. Hay gente de fuegos grandes y fuegos chicos y fuegos de todos los colores. Hay gente de fuego sereno, que ni se entera del viento, y gente de fuego loco, que llena el aire de chispas; algunos fuegos, fuegos bobos, no alumbran ni queman, pero otros arden la vida con tantas ganas que no se puede mirarlos sin parpadear, y quien se acerca se enciende.

Eduardo Galeano, El libro de los abrazos

30 de Agosto de 2009




Salad Spinner

after Francis Picabia

You must grab time by the hair,
couple subconscious helixes
in the space of a secret.

You must tickle the improbable
and believe in the impossibility
of crossroads.

You must learn to suspend
ten grams of white, five grams of black
in hopes of true scarlet.

You must know how to fall from below
to favor the zenith
of mornings to the manner born.

You must love the four mouths
floating around the silky doubt
of dead assumptions.

Bill Berkson

20 de Agosto de 2009





In un momento

In un momento
Sono sfiorite le rose
I petali caduti
Perché io non potevo dimenticare le rose
Le cercavamo insieme
Abbiamo trovato delle rose
Erano le sue rose erano le mie rose
Questo viaggio chiamavamo amore
Col nostro sangue e colle nostre lagrime facevamo le rose
Che brillavano un momento al sole del mattino
Le abbiamo sfiorite sotto il sole tra i rovi
Le rose che non erano le nostre rose
Le mie rose le sue rose

P.S. E così dimenticammo le rose.

(per Sibilla Aleramo)


Dino Campana


17 de Agosto de 2009

9 de Agosto de 2009




Queria de ti um país de bondade e de bruma
queria de ti o mar de uma rosa de espuma
.
Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação
.

8 de Agosto de 2009




28

El aire es fresco, frío, por la calle.
Aposté mi fortuna a un solo envite
creyendo, apresurado, que tenía
los naipes de escalera de color.

Y resultó un farol al enseñarlos.

Nunca podré tener acceso al podio.
No es válida la entrada que poseo.
Toda mi vida he estado en la estación
donde no pasa el tren que yo aguardaba.


José María Fonollosa, Destrucción De La Mañana





30 de Julho de 2009




The night is darkening round me,
The wild winds coldly blow;
But a tyrant spell has bound me,
And I cannot, cannot go.

The giant trees are bending
Their bare boughs weighed with snow;
The storm is fast descending,
And yet I cannot go.

Clouds beyond clouds above me,
Wastes beyond wastes below;
But nothing drear can move me:
I will not, cannot go.

Emily Brontë


Fui "agraciada" com um "selinho" da Lygia do Blog Paralelo e, agora, segundo as regras, é necessário:
. exibir o selo no blogue
. linkar o blogue que enviou o selo
. apresentar cinco desejos pessoais de consumo que contribuam para o glamour
. reenviar o selo a cinco "vítimas" ("blogueiras")

Cá vão os cinco desejos:
- pilhas de revistas de BD, de preferência os velhos almanaques da Disney (é pena não se poder comprar a vontade de os ler da infância)
- perfumes e afins (géis de banho, cremes corporais...- aceito donativos para este, por exemplo)
- livros (os de poesia são os mais difíceis de encontrar por cá, portanto, os mais cobiçados), cds e dvds - e estantes e caixas para arrumar o que já se amontoa
- um telemóvel novo, com um dispositivo qualquer que faça as pessoas responderem às mensagens que se enviam
- carro com motorista (ou, pelo menos, o motorista - dá logo outro charme)

Próximas vítimas:
Se calhar, o melhor é fugir às regras e deixar o "selinho" à disposição...

19 de Julho de 2009



It’s deep into the night. You must have gone to bed.
The Milky Way lit up in celebration.
No need to rush. I have no reasons left
to stir you with the lightning of communications.
So to say, the incident dissolved.
The love boat smashed against reality.
We’re even. And we should absolve
mutual hurts, grudges and anxieties.
What eerie silence, as if the world went numb.
The sky bequeathed to us its constellations.
In moments like these I’d like to be the one
with centuries, and history and the creation.

Vladimir Maiakovsky

14 de Julho de 2009


Gustav Klimt, Fulfillment
.

10 de Julho de 2009


Inscrição na Areia

O meu amor não tem
importância nenhuma.
Não tem o peso nem
de uma rosa de espuma!

Desfolha-se por quem?
Para quem se perfuma?

O meu amor não tem
importância nenhuma.

Cecília Meireles

7 de Julho de 2009


Marc Chagall, Sain Jean Cap Ferrat
.

4 de Julho de 2009




J'ai tant rêvé de toi

J'ai tant rêvé de toi que tu perds ta réalité.
Est-il encore temps d'atteindre ce corps vivant
Et de baiser sur cette bouche la naissance
De la voix qui m'est chère?

J'ai tant rêvé de toi que mes bras habitués

En étreignant ton ombre
A se croiser sur ma poitrine ne se plieraient pas
Au contour de ton corps, peut-être.
Et que, devant l'apparence réelle de ce qui me hante
Et me gouverne depuis des jours et des années,
Je deviendrais une ombre sans doute.
O balances sentimentales.

J'ai tant rêvé de toi qu'il n'est plus temps

Sans doute que je m'éveille.
Je dors debout, le corps exposé
A toutes les apparences de la vie
Et de l'amour et toi, la seule
qui compte aujourd'hui pour moi,
Je pourrais moins toucher ton front
Et tes lèvres que les premières lèvres
et le premier front venu.

J'ai tant rêvé de toi, tant marché, parlé,

Couché avec ton fantôme
Qu'il ne me reste plus peut-être,
Et pourtant, qu'à être fantôme
Parmi les fantômes et plus ombre
Cent fois que l'ombre qui se promène
Et se promènera allègrement
Sur le cadran solaire de ta vie.

Robert Desnos, Corps et biens
.

30 de Junho de 2009




EXORCISMO

Levanta-te, não chores.
Tens de saber que às vezes é difícil
matar o que nos mata,
ir aguçando o gume do cutelo
e movê-lo depois, logo em relâmpago,
até que o monstro seja degolado
e não fique sequer uma gota de sangue,
da cicuta voraz que lhe corria
plas veias tão geladas, sob a pele
que terias beijado quase a medo
em busca de um sabor que fosse o fogo
e o ar e a água,
mas era só veneno adocicado,
daquele que vicia sem parecer viciar
e nos deixa sem cura a vida inteira.

Levanta-te, bem sabes,
desde o tempo dos contos infantis,
que todo o mal procura disfarçar-se
em rostos como aquele,
na perfeição volátil desse abismo
a que chamam beleza e vai ardendo
em lânguidos sorrisos e olhares
feitos de pura seda, seduzindo
espíritos como o teu,
demasiado inocentes ou perversos
para desconfiar da eternidade
ou para resistir à luz fosforescente
que, obedecendo às leis da natureza,
sempre soube atrair até à morte
o alucinado voo das borboletas.

Levanta-te, vá lá, não tenhas medo
de apertar o gatilho as vezes necessárias
para que tudo morra - os estertores
da tua alma ou do teu corpo
mesmo assim doem menos, acredita,
que o travo torvo dos piores remorsos.
E se vires que é preciso
rasgar dentro de ti, antes de serem escritos,
os mil e um poemas
que haverias de ler, talvez sem esforço,
à flor daquela face, não hesites,
porque a felicidade tem um preço
e os versos, quaisquer versos, são apenas
a memória infiel deste vento que move
as árvores lá fora enquanto é noite,
mas que às primeiras horas da manhã
deixará elevar-se um nevoeiro
tão espesso e esbranquiçado, que o amor
será nesse momento uma palavra baça
que nada te dirá, a ti ou a ninguém.

Fernando Pinto do Amaral, Poemas Escolhidos (1990-2007)

.

27 de Junho de 2009





Now I'm quietly waiting for
the catastrophe of my personality
to seem beautiful again,
and interesting, and modern.


The country is gray and
brown and white in trees,
snows and skies of laughter
always diminishing, less funny
not just darker, not just gray.


It may be the coldest day of
the year, what does he think of
that? I mean, what do I? And if I do,
perhaps I am myself again.


Frank O'Hara (Excerto do poema "Mayakovsky")

.


26 de Junho de 2009





MUITO MAIS GRAVE
Todas as parcelas da minha vida têm algo teu
e isso na verdade não é nada de extraordinário
tu o sabes tão objectivamente como eu

no entanto há algo que gostaria de clarificar
quando digo todas as parcelas
não me refiro somente a esta de agora
a esta de esperar-te e aleluia encontrar-te
e caralho perder-te
e voltar a encontrar-te
e oxalá nada mais

não me refiro somente a que de repente digas
vou chorar
e eu com um discreto nó na garganta
bom chora
e que um lindo aguaceiro invisível nos ampare
e talvez por isso venha em seguida o sol

não me refiro somente a que dia após dia
aumente o stock das nossas pequenas
e decisivas cumplicidades
ou que eu possa ou acreditar que possa
converter os meus reveses em vitórias
ou que me faças o terno presente
do teu mais recente desespero

não
a coisa é muitíssimo mais grave

quando digo todas as parcelas
quero dizer que para além desse doce cataclismo
também estás a reescrever a minha infância
essa idade em que se diz coisas adultas e solene
e os solenes adultos as celebram
e tu ao invés sabes que isso não serve
quero dizer que estás a rearmar a minha adolescência
esse tempo em que fui um velho carregado de receios
e tu sabes ao invés extrair desse páramo
o meu gérmen de alegria e regá-lo olhando-o

quero dizer que estás a sacudir a minha juventude
esse cântaro que ninguém nunca tomou entre as suas mãos
essa sombra que ninguém aproximou da sua sombra
e tu ao invés sabes estremecê-la
até que comecem a cair as folhas secas
e fique a armação da minha verdade sem proezas

quero dizer que estás a abraçar a minha maturidade
esta mistura de espanto e experiência
este estranho confim de angústia e neve
esta vela que ilumina a morte
este precipício da pobre vida

como vês é mais grave
muitíssimo mais grave
porque com estas ou com outras palavras
quero dizer que não és somente
a querida rapariga que és
mas também as esplêndidas
ou cautelosas mulheres
que quis ou quero

porque graças a ti descobri
(dirás que já era tempo
e com razão)
que o amor é uma baía linda e generosa
que se ilumina e se escurece
conforme venha a vida

uma baía onde os barcos
chegam e vão embora

chegam com pássaros e augúrios
e vão embora com sereias e neblinas
uma baía linda e generosa
onde os barcos chegam
e vão embora
mas tu
por favor
não vás embora.

Mario Benedetti
(Encontrado aqui)
.

23 de Junho de 2009

Se há coisa que me enoja, é a cópia reles disfarçada: http://pripersi.blogspot.com/2008/08/em-pura-coincidncia.html

20 de Junho de 2009

14 de Junho de 2009






LOGO QUE PASSE A MONÇÃO



Num banco de névoas calmas quero ficar enterrado
Num casebre de bambú na minha esteira deitado
A fumar um narguilé até que passe a monção
Enquanto a chuva derrama a sua triste canção
____________________
Sei que tenho de partir logo que suba a maré
Mas até ela subir volto a encher o narguilé
Meu capitão já é hora de partir e levantar ferro
Não me quero ir embora diga que foi ao meu enterro

Deixem-me ficar deitado a ouvir a chuva a cair
Que ainda estou acordado só tenho a alma a dormir
Como a folha de bambú a deslizar na corrente
Apenas presa ao mundo por um fio de água morrente
__________________
Nos arrozais morre a chuva noutra água há-de nascer
Abatam-me ao efectivo também eu me vou sem morrer
Para quê ter de partir logo que passe a monção
Se encontrei toda a fortuna no lume deste morrão

Ópio bendito ópio minhas feridas mitiguei
Meu bálsamo para a dor de ser
Em ti me embalsamei
Ópio maldito ópio foi para isto que cheguei
Uma pausa no caminho
Numa névoa me tornei


Carlos Tê/ Rui Veloso, Auto da Pimenta

13 de Junho de 2009






Não digas nada!
Não,nem a verdade!
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada!
Deixa esquecer.
_______________
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz...
Não digas nada.


Fernando Pessoa

16 de Maio de 2009



Aunt Jennifer's Tigers


Aunt Jennifer's tigers prance across a screen,
Bright topaz denizens of a world of green.
They do not fear the men beneath the tree;
They pace in sleek chivalric certainty.


Aunt Jennifer's fingers fluttering through her wool
Find even the ivory needle hard to pull.
The massive weight of Uncle's wedding band
Sits heavily upon Aunt Jennifer's hand.


When Aunt is dead, her terrified hands will lie
Still ringed with ordeals she was mastered by.
The tigers in the panel that she made
Will go on prancing, proud and unafraid.


Adrienne Rich

25 de Abril de 2009






Abril de Abril



Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.

Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.

Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.

Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.

Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.

Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas.

Manuel Alegre

.