30 de junho de 2009




EXORCISMO

Levanta-te, não chores.
Tens de saber que às vezes é difícil
matar o que nos mata,
ir aguçando o gume do cutelo
e movê-lo depois, logo em relâmpago,
até que o monstro seja degolado
e não fique sequer uma gota de sangue,
da cicuta voraz que lhe corria
plas veias tão geladas, sob a pele
que terias beijado quase a medo
em busca de um sabor que fosse o fogo
e o ar e a água,
mas era só veneno adocicado,
daquele que vicia sem parecer viciar
e nos deixa sem cura a vida inteira.

Levanta-te, bem sabes,
desde o tempo dos contos infantis,
que todo o mal procura disfarçar-se
em rostos como aquele,
na perfeição volátil desse abismo
a que chamam beleza e vai ardendo
em lânguidos sorrisos e olhares
feitos de pura seda, seduzindo
espíritos como o teu,
demasiado inocentes ou perversos
para desconfiar da eternidade
ou para resistir à luz fosforescente
que, obedecendo às leis da natureza,
sempre soube atrair até à morte
o alucinado voo das borboletas.

Levanta-te, vá lá, não tenhas medo
de apertar o gatilho as vezes necessárias
para que tudo morra - os estertores
da tua alma ou do teu corpo
mesmo assim doem menos, acredita,
que o travo torvo dos piores remorsos.
E se vires que é preciso
rasgar dentro de ti, antes de serem escritos,
os mil e um poemas
que haverias de ler, talvez sem esforço,
à flor daquela face, não hesites,
porque a felicidade tem um preço
e os versos, quaisquer versos, são apenas
a memória infiel deste vento que move
as árvores lá fora enquanto é noite,
mas que às primeiras horas da manhã
deixará elevar-se um nevoeiro
tão espesso e esbranquiçado, que o amor
será nesse momento uma palavra baça
que nada te dirá, a ti ou a ninguém.

Fernando Pinto do Amaral, Poemas Escolhidos (1990-2007)

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5 comentários:

Vera Cymbron disse...

Fico nas tentativas tantas vezes...mas o sol nunca se vai embora.

Li o resto, faz-me bem cá vir...
Jinho

Graça disse...

Ainda bem, Vera. És sempre bem-vinda.
Beijinho!

Pêndulo disse...

Adorei o poema, Graça... e copiei-o para o meu cantinho :/

Beijinhos

Julieta disse...

Mais um poema que julgo ser seu publicado no site Olhares, por Maria Emilia Loureiro, que diz que é dela ou de um irmão...
Confira p.f.

http://olhares.aeiou.pt/levanta-te_foto3216441.

Graça disse...

O poema não é meu, é de Fernando Pinto do Amaral e tenho essa indicação no post. De qualquer forma, agradeço IMENSO a quem se revolta como eu com estas coisas. Bem tentei encontrar a foto, mas nem ela nem a autora. Já estava a afiar as minhas garras para lhe cair em cima... Acho que devíamos criar uma espécie de brigada anti-plágio na net, é espantoso como as pessoas assinam abaixo de poemas conhecidos, não percebo, é uma humilhação tremenda, mais vale passar por intelectual do que por ladrão, não é? Se tiver outro link, por favor, deixe aqui ou no email. Eu tenho um prazer quase sádico em desmascarar este tipo de coisas, sejam minhas ou não. Abraço!