8 de maio de 2010




As árvo­res cres­cem sós.
E a sós flo­res­cem.
Come­çam por ser nada.

Pouco a pouco
se levan­tam do chão, se alteiam palmo a palmo.
Cres­cendo dei­tam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nas­cem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esbo­çando as flo­res,
e então cres­cem as flo­res, e as flo­res pro­du­zem fru­tos,
e os fru­tos dão semen­tes,
e as semen­tes pre­pa­ram novas árvores.

E tudo sem­pre a sós, a sós con­sigo mes­mas.
Sem verem, sem ouvi­rem, sem fala­rem.
Sós.
De dia e de noite.
Sem­pre sós.

Os ani­mais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvo­res não.
Soli­tá­rias, as árvo­res,
exau­ram terra e sol silen­ci­o­sa­mente.
Não pen­sam, não sus­pi­ram, não se quei­xam.
Esten­dem os bra­ços como se implo­ras­sem;
com o vento sol­tam ais como se sus­pi­ras­sem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sem­pre sós.
Nas pla­ní­cies, nos mon­tes, nas flo­res­tas,
a cres­cer e a flo­rir sem consciência.

Vir­tude vege­tal viver a sós
e entre­tanto dar flores.


Antó­nio Gedeão


2 comentários:

Vera Cymbron disse...

As árvores são heroínas!
Jinho

Graça disse...

Concordo, Vera.

Beijinho.