15 de novembro de 2004


Enquanto ganhas a vida
Eu roubo os dias ao tempo
E sento-me a saborear
O seu gosto imerecido
E um leve aroma de vitória


Deve ser óptimo ser tu
Não ter a agonia de ser
Nem o espanto de não ver
Sentir o que sempre sentiste
Deve ser óptimo ser tu
Adormecer a vida devagar
Sem pressas - que o mundo espera por quem nunca sonha sem razão
Por quem nunca entrega o coração ou a alma aflita aos que a pedem
Deve ser óptimo ser tu
Ter o sabor infinito da piedade pelos outros
O prazer supremo de ver o escuro
E a claridade proibida
Sem medo de estar presente
E sempre ausente de ti
Ter a certeza dos dias previsíveis
Do timbre exacto das horas
Do compasso preciso das palavras
Saber-te de cor
Deve ser óptimo medir a dor
Explicar os versos vazios da noite
Escandir o que nunca foi
Sem encontrar um rasto de mágoa
Decorar o silêncio aos poucos
Seguir sem dúvidas o passo seguro da verdade
O velho mapa do esquecimento
A viagem de dentro de ti
Para ires desvivendo lentamente
Sem nunca aprender a gritar
Sem nunca tocar o solo e tremer
Devias saber que não há resposta para a vida
Só o sim da morte
Mas deixa-te estar à tona dos dias
Sem conhecer o voo submerso
Deixa que o tempo te embale
Sem que oiças a canção da noite
No desengano azul da manhã
Ou sintas a paralisia inquieta
Dos que sabem o caminho de si
O trilho triste da solidão
Deixa-te estar

Em ti
Porque deve ser óptimo ser tu
Sem ouvir a estridência de ti
A melodia vaga que ninguém sabe
Sem expiar dia a dia a culpa de quem se é
Nesse sono perene de ti próprio
Nesse sossego dos que se ouvem ao longe
Deve ser óptimo
Os olhos dos outros trazem a nossa luz
Devolvem-nos
Mas vês bem a sós
O que tomas por ti
Por mim
Desconheces o lume da amargura
O rasgo fundo da derrota
Só a letargia de saberes sempre porquê
A confortável manta da loucura por cumprir
A crepitação suave do ódio doméstico
Na tua lareira interior
Onde nunca te avivaste
Remendando sempre a tempo
A tremura da voz
O tecido barato das lágrimas
A inconveniente ânsia de chamas
Deve ser mesmo óptimo ser tu
O que diz sempre o que pensa que diz
O que nunca mas nunca se encanta com o feitiço alheio
O que espera o que sabe que vai chegar
Deve ser óptimo
Morrer devagar

5 comentários:

Vera Cymbron disse...

Magestral!
Magnifico!
Excelente!
Queres mais?! Sabes o quanto eu adoro este teu poema.
Jinhos

ps- vou fazer um link lá em casa para esse poema!

Alexandre disse...

acho que é muito melhor sermos nós próprios...

Graça disse...

É isso que digo, Alexandre, ou melhor, é isso que acho que digo, ou que queria dizer, ou que tentei dizer. Se calhar nem sempre é fácil saber o que se diz...

Graça disse...

Blue, és a prova de que se o amor é cego, a amizade usa óculos escuros - e bengala branca :) - de qualquer forma, obrigada pelos aplausos, flores e tapete vermelho. Os "flashes" é que me incomodam um pouco...

Ly disse...

Delicado e doloroso.
Andava procurando palavras assim para descrever uma certa pessoa... e tu descrevestes perfeitamente.
"Deve ser optimo morrer devagar".
Adorei mesmo.
Guardarei este escrito.

Parabéns.