14 de fevereiro de 2010




Se nesse dia eu tivesse medido 3 metros e 28 centímetros e tivesse chegado com a minha cabeça depositada numa bandeja, não essa cabeça que às vezes já imaginaste quando não estou, quando ainda não cheguei, quando ainda não sou eu, mas sim essa cabeça que é outra cabeça na qual não te encontras, nem descobres sinais, nem um corpo, nem uma voz que te fale. Eu, cai o fruto da árvore, a lágrima do abandono. É o mundo, é o sonho, é o teu nascimento, é o dia em que cai a tua cabeça. Devias estar contente porque ainda conservas o teu sorriso. Eu, é o som, o reconhecimento das vozes que te habitam, o rumor do rio. Ah, se eu tivesse sido essa cabeça e a fúria da espada e o caminho desesperado que se segue para deter o juízo com as lágrimas crispadas entre os braços e uma árvore, uma enorme árvore desmaiando dentro do peito. Corre, corre, corre, corre. Se o fizeres depressa talvez possas chegar a ver o dia da tua morte. 3 metros e 28 centímetros com a cabeça bordada no passado e a música submersa. Corre, corre, corre, até conseguires dar com as tuas costas, até te encontrares contigo próprio e te aperceberes que corres atrás de ti, corre até ultrapassares 365 dias e veres o mundo como um chapéu que um elefante comeu e esse elefante foi comido por uma serpente.

Oliverio Macias Alvarez , Um Mundo Estranho
(tradução de José Agostinho Baptista)

2 comentários:

Vera Cymbron disse...

Acho que não sou capaz de comentar este excerto, que foi postado no dia em que mais se ama ou mais se finge - sempre fui muito crua com estas datas, enfim - mas em tom de devaneio, louco e algo pensado, diria que ainda bem que muita gente nunca caiu em tentação de acreditar que a serpente pode comer um elefante (mesmo que possa comer um chapéu) ou de medir estes 3 metros e 28.
Jinho

Graça disse...

Olha, nem reparei na data... Mas o texto não é alusivo a ela, de qualquer forma.
Obrigada pelo comentário.
Beijinho.