13 de junho de 2010




[Carta a Armando Côrtes-Rodrigues - 4 Ago. 1923]

Meu querido Côrtes-Rodrigues:
Há não sei quantos anos que lhe não escrevo: há tanto tempo que teria agora tanto que contar-lhe que não posso contar-lhe. Só quando falarmos — quando, encontrando-nos, falarmos longamente — poderei contar tudo quanto há a contar desde que nos perdemos de vista e de escrita.
V. o que tem feito? Notícias suas, de certo modo, tenho-as sempre tido, ou pelo Rocha (que acaba de me transmitir as saudades que me envia) ou pelo Duarte de Viveiros.
Esta carta é apenas para lhe escrever — escrever dizendo seja o que for, tornar a falar-lhe, ainda que por escrito... Tanta saudade — cada vez mais tanta! — daqueles tempos antigos do Orpheu, do paùlismo das intersecções e de tudo mais que passou! V. não imagina, apesar da enorme influência que ficou do Orpheu diminuído, moral e intelectualmente tudo.
V. tem visto a Contemporânea. É, de certo modo a sucessora do Orpheu. Mas que diferença! que diferença! Uma ou outra coisa relembra esse passado; o resto, o conjunto...
Escreva-me v., escreva-me sempre que possa. O meu endereço é o mais simples possível: apenas Caixa Postal 147, Lisboa. Se extraviar esta carta e esquecer portanto o 147, lembre-se que basta pôr: Fernando Pessoa - Caixa Postal — Lisboa. Mesmo sem número me chega às mãos.
Dê-me notícias suas, extensas se puder.
Um enorme abraço saudoso e amigo do

Sempre e muito seu

Fernando Pessoa

4-8-1923.


Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues.
(Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944

4 comentários:

paula disse...

parabéns pela imagem que escolheu (talvez lha roube:)) e deixo-lhe aqui, hoje que (como dizia aos meus filhos ao jantar), se fosse vivo faria 122 anos:

«E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos
violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis,
mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de
uma emoção que continue, e entre para a substância
da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir
outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma,
como com uma criança inoportuna; um desassossego
sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa
e nada me prende.»



Bernardo Soares

Graça disse...

"Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa".

Obrigada pelas palavras de Bernardo Soares.

Ainda bem que mais alguém gostou da foto. Há uma outra versão "limpinha" na net, mas nesta, Pessoa parece estar mais vivo, quase tanto como na carta (até apetece escrever para a Caixa Postal 147).

Roberto disse...

Fernando Pessoa - Caixa Postal — Lisboa. Mesmo sem número me chega às mãos. ...

Già chi non conosce Fernando Pessoa..
Ma solo oggi, purtroppo!

Graça disse...

Obrigada pelo comentário, Roberto, não sei se entendi, mas agradeço na mesma.