30 de agosto de 2011




O teu sorriso



Tira-me o pão, se quiseres,

tira-me o ar,

mas não me tires o teu sorriso.



Não me tires a rosa,

a lança que desfolhas,

a água que de súbito

brota da tua alegria,

a repentina onda

de prata que em ti nasce.



A minha luta é dura e regresso

com os olhos cansados,

às vezes por ver

que a terra não muda,

mas ao entrar, o teu sorriso

sobe ao céu a procurar-me

e abre-me

todas as portas da vida.


Meu amor, nos momentos

mais escuros solta

o teu sorriso e se de súbito

vires que o meu sangue mancha

as pedras da rua,

ri, porque o teu riso

será para as minhas mãos

como uma espada fresca.


À beira do mar, no outono,

o teu sorriso deve erguer

a sua cascata de espuma,

e na primavera, amor,

quero o teu sorriso como

a flor que esperava,

a flor azul, a rosa

da minha pátria sonora.


Ri-te da noite,

do dia, da lua,

ri-te das ruas

tortas da ilha,

ri-te deste grosseiro

rapaz que te ama,

mas quando abro

os olhos e os fecho,

quando meus passos vão,

quando voltam meus passos,

nega-me o pão, o ar,

a luz, a primavera,

mas nunca o teu sorriso,

porque então morreria.



Pablo Neruda, Os versos do capitão
 


4 comentários:

paula disse...

lindo, fez-me lembrar:

«Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia entrar nele,
tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso»

Eugénio de Andrade

Graça disse...

É verdade... E também gosto muito deste poema de Eugénio de Andrade, que não lia há algum tempo. Obrigada pela associação, Paula.

Anónimo disse...

Obrigada por ter escolhido este poema,aquele de que falei há uns dias atrás, lembra-se?

Obrigada,também, Paula por me dar a conhecer este poema de Eugénio de Andrade.

O sorriso é,sobretudo, isso : luz.

Graça disse...

Lembro-me, sim, e agradeço a sugestão.