7 de fevereiro de 2005


Yvette K.Centeno (1940)
Fotografia de Graça Sarsfield


Morre-se sempre sozinho. Agarramo-nos e não fica­mos presos a ninguém e a nada. Partimos para longe do nosso próprio ser tão irreal tão pouco verdadeiro como se de facto não tivesse existido senão de brincadeira. Como se brinca em criança. E crescemos e continuamos a brincar e a ser brinca­dos mas não damos por isso porque a infância ficou mais para trás num canto perdido da memória. E no entanto é só como crianças que somos verdadeiros, brincadores brinquedos de momento mudando de momento real para real efémero concreto passageiro. Ser — é o mesmo problema todo o tempo. That is the question. To die, to sleep. No more. To sleep. Per-chance to dream. Os homens vão mudando mas os problemas continuam sempre sempre a ser os mesmos. És como um peixe, dizia ela a Jörg. E Jörg sorria. Tudo o que ela pudesse dizer não tinha significado, não tinha importância, porque não havia importância no mundo. Havia coisas. Havia pessoas. Campos. Cidades. Belas manhãs. Ventos de praia. Súbitas flores marinhas e súbitos animais. Pequenos e grandes amores necessários. Sonhos de paragens longínquas de descanso e de felicidade. Sonhos já quase realidade. Já se era praticamente feliz em todo o mundo, dizia ele.
— Feliz? Em todo o mundo? Estás a falar a sério? Que inge­nuidade. Gostava de ser igual a ti, disse-lhe Vera. Fazer parte de ti, do teu ser satisfeito, sem perguntas sem respostas sem problemas e sem inquietações. Principalmente sem inquieta­ções, sem atracção de abismos que me assustam. Tenho medo de mim porque sou eu o meu maior abismo e devo ter no fundo uma verdade. Uma pequena parcela de verdade. Um pequeno reflexo ou qualquer coisa no género que explique. Eis que Deus vos dará um sinal, disse Isaías. Mas se deu não o pude entender.
Jörg levou-a para junto da árvore, marco isolado verde-
-escuro, a única que havia em todo o campo. Ora, já se vivia antes disso e agora continua-se a viver na mesma. Para quê a confusão de esperas perguntas e sinais. Vera olhou-o. Lembras-
-me um jovem deus marítimo perdido por engano neste campo. Jörg riu mas não respondeu nada. Vera continuou: de que me serve tanta lucidez. A minha lógica não funciona nos outros. Acreditas no amor?
— Só acredito nas pessoas e nos momentos que as pessoas passam juntas. O resto não importa. Se se amam ou não, já não importa. Vera disse-lhe que ele era já uma espécie de homem do futuro, um cyborg gelado como um peixe, com a boca selada e todo o interior do corpo transformado, podendo mecanica­mente controlar-se, apto a grandes viagens interplanetárias. A monstruosidade a que a Ciência racional e progressivamente nos permite chegar é quase assustadora. Há um estranho frio no homem do futuro, uma falta de sensibilidade que talvez se chame perfeição mas que tem qualquer coisa de morte e de silêncio que eu não sei bem explicar.

Yvette K. Centeno, “As Palavras Que Pena”

4 comentários:

Pele disse...

Só morre-se sozinho quando não se ama!

Graça disse...

É uma frase poética, mas não é bem verdade...

zoto disse...

"Morre-se sempre sozinho" era uma citação em que filme?
...
"Every living thing dies alone."

Graça disse...

Donnie Darko. Gostava de ver.
O morrer sozinho lembra.me uma canção sombria de Jacques Brel,"Seul": http://www.paroles.net/chansons/21743.htm