18 de novembro de 2006


Manuel António Pina (1943)


(ESCRITO DE MEMÓRIA)


1. Um pequeno depósito de incredulidade
no fundo dos teus olhos.
2. Um breve estremecimento no movimento
do coração (do meu coração).
3. A impressão de alguém olhando-
-te atrás de ti.
4. Uma voz familiar
num sítio cheio de gente
(que só tu ouves dentro de ti).
5. Um súbito silêncio entre as
sílabas de certas palavras
que fica depois a pairar perto dos lábios.
6. A ignorância de alguma coisa
que ainda não sabes que não sabes.
7. Uma palavra só, aguardando,
uma palavra que basta dizer ou não dizer,
abrindo caminho entre ser e possibilidade.
8. O que não sou capaz de dizer dizendo-me.
9. Eu (um lugar vazio) para sempre; tu para sempre.
10. Outras duas pessoas
de que outras duas pessoas se lembram.
11. Esse país estrangeiro, o tempo.

Manuel António Pina, Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança

.

4 comentários:

[N] disse...

hoje é isto "o que não sou capaz de dizer, dizendo-me"; ou para sempre, "esse país estrangeiro, o tempo"

maat disse...

que belo blog!

Marta disse...

Margarida, nem por acaso, andava com vontade de conhecer este senhor! Para já fico com o 4., 5., 7. e o 9.
Gostei muito. Um beijo.

Graça disse...

De facto, Nuno, apetece legendar os dias com os versos deste poema. Provavelmente, haverá sempre um verso de um poema qualquer que cabe em cada dia...

Obrigada Maat, pela visita-regresso e pelas palavras. E retribuo-as no plural - "que belos blogs".!

Ainda bem que houve esta coincidência poética, Marta. E podes levar os versos de que gostares mais. Há outros poemas de Manuel António Pina por aqui, nos aniversários do autor e um outro em Fevereiro de 2005.

Beijinho da Margarida :)

9:08 PM