12 de novembro de 2006

Aprendi a viver com simplicidade, com juízo,
a olhar o céu, a fazer minhas orações,
a passear sozinha até à noite,
até ter esgotado esta angústia inútil.
Enquanto no penhasco murmuram as bardanas
e declina o alaranjado cacho da sorveira,
componho versos bem alegres
sobre a vida caduca, caduca e belíssima.

Volto para casa. Vem lamber a minha mão
o gato peludo, que ronrona docemente,
e um fogo resplandecente brilha
no topo da serraria, à beira do lago.

Só de vez em quando o silêncio é interrompido
pelo grito da cegonha pousando no telhado.
Se vieres bater à minha porta,
é bem possível que eu sequer te ouça.

Ana Akhmatova
Tradução de Lauro Machado Coelho

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2 comentários:

Vera Cymbron disse...

Juízo sim, simplicidade não vislumbro... a simplicidade é uma útopia. E vejo, vejo o mar feito de lago numa tentativa de tornar mais pequeno o tormento.
Gostei do que me fez pensar.

Graça disse...

Concordo, acho que se trata de alienação, ou de tentativa de. O juízo não andará talvez longe da simplicidade, mas é muito mais deprimente. Nunca percebi porque se usa a expressão "ganhar" juízo, quando isso implica tanta perda.

Beijinho.