8 de dezembro de 2004






























Florbela Espanca (1894-1930)



INCONSTÂNCIA

Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer...
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também... nem eu sei quando...

Florbela Espanca

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1 comentário:

H-Raky disse...

É Florbela, o amor é uma coisa tão instável e fugidia quanto sedutora e arrebatadora da sensatez, da razão. Da razão, que numa insuportável lucidez, insiste em nos tolher o instinto e poda a virtude de nos inventar-mos a nós próprios em seres de uma luminosidade épica!...
Maldito o amor que nos nega constantemente ser alcançado em sua plenitude e que nos reserva apenas a sua eterna, quiçá inalcansável, busca!
Sentimento selvagem, de cativeiro impossível e em cujo cárcere nos encerra e tortura sem direito a julgamentos prévios, sem perdão de pena e sem estar disposto a críticas!
Tão belo e terrível!
E egoísta...