7 de dezembro de 2004


José Carlos Ary dos Santos (1937-1984)



Os Sapatos
2
Lá vem o teddy-poeta
que não tem nada a dizer
filho-família do mar
que lhe morreu ao nascer
parasita das palavras
que tem no banco a render
e se gastam, como a voz
dum povo que vai morrer.

Lá vem o tédio-poeta
que não tem nada a perder.
Vem numa hora de bruma
depois do café com leite
depois do banho de espuma
que lava o sal e o cheiro
a fingir que se levanta
dum leito de nevoeiro.
Chega de Alcácer Quibir
com escorbuto na alma
e morre, mas devagar,
neste mar-asma de calma.
.
José Carlos Ary dos Santos
.

3 comentários:

Luis Duverge disse...

Será mesmo coincidência, ou és a Graça ?
A tua alma habita que cidade ?
O Ary um incondicional de quem tem alma.
Acho que perdi a minha ...a-alma-aqui-e-alem.blogspot.com
Um beijo e bom feríado ... também escreves, coincidência?

Graça disse...

Obrigada pelo comentário, Luís.
Nem sempre é fácil coincidir comigo, ou com os outros ou com a "Graça".Ou com as palavras onde gostava de me encontrar - por isso, não escrevo muito por aqui. Mas escrevo ocasionalamente.Quando tenho voz. E quando a alma regressa...

H-Raky disse...

Oh! Que engraçado! O mundo está cheio de coincidências: umas reais, outras as que queremos fazer coincidir...conforme nos faça melhor proveito. Somos todos diferentes mas nunca somos assim tanto, os impulsos que nos moldam o ego são basicamente os mesmos.
É uma sensação catita a de sabermos que nos deslumbramos com as mesmas paixões e nos deixamos corromper pelo mesmo tipo de pecados.